A teoria de Piaget sobre desenvolvimento moral influenciou fortemente Lawrence Kohlberg (1927-1987) que, em 1958, em sua tese de doutorado, estudou e identificou estágios de desenvolvimento moral em entrevistas com o dilema de Heinz. Este dilema trazia a difícil decisão entre roubar ou não um remédio para salvar a vida da esposa doente. Assim como Piaget (1932/1994), kohlberg (1985/2002) trabalha com a ideia de que a criança constituirá seu desenvolvimento moral gradualmente, colocando o ser humano como agente da construção moral e enfatizando a capacidade do julgamento moral e de decidir entre o certo e o errado. Também defendeu, como o fez Piaget (1932/1994), que existe uma sequência de estágios de desenvolvimento pelo qual uma pessoa passa, sendo eles hierárquico, universal e invariante, apesar de nem todos desenvolverem integralmente ou alcançar níveis mais elaborados de moralidade. Em seus próprios termos:
Usando dilemas criados por filósofos ou escritores, fiquei surpreso com o fato de que os adolescentes tinham padrões de pensamento distintos, coerentes e que eram próprio deles, da mesma forma em que Piaget tinha encontrado padrões distintos no pensamento de crianças mais jovens. Na minha tese, tentei caracterizar esses padrões como estágios qualitativos e acrescentei três estágios aos formulados por Piaget (KOHLBERG, 1985/2002, p. 96).
Kohlberg (1985/2002) demonstra que os estágios progridem passo a passo, numa sequência, e que os estágios finais são raros, sendo que o último necessita de melhores detalhamentos. Ravella (2010), em seus estudos, mostra que a obra de Kohlberg se fundamenta em alguns pilares: a) defesa da dimensão cognitiva, mostrando a importância de
como a criança analisa o mundo e a si mesma; b) a espistemologia moral é construída pelo sujeito, ou seja, noção de ética, de justiça, de dever passa pelas vivências individuais; c) o desenvolvimento moral ocorre a partir de estruturas mais simples para mais complexas; d) defende uma moral pós-convencional, que possibilita a maturidade; e) a moralidade se fundamenta na noção de justiça, e não no respeito às normas e é ela a virtude a ser estudada; f) os estágios formam um todo estruturado, que oferecem uma estrutura de pensamento que se revela nas análises de julgamentos morais; g) há uma universalidade dos estágios e de suas sequências, independente dos padrões culturais vigentes; e h) os estágios novos compõem com os anteriores, formando uma integração hierárquica. Kohlberg (1992) define seis estágios de desenvolvimento, divididos em três níveis, cada um comportando dois estágios, sendo o segundo mais evoluído que o primeiro em termos morais e cognitivos. A metodologia do autor (COLBY & KOHLBERG, 1987) consistia em entrevista semiestruturada baseada na análise de dilemas morais, definidos por haver valores competitivos. Ravella (2010, p. 26) diz que Kohlberg sugeria que estes níveis permitem “que se interpretassem em termos de esquemas dos diferentes tipos de relação entre as pessoas e a sociedade (suas regras e expectativas)”.
A análise dos níveis nos oferece um padrão apropriado de como as pessoas se relacionam com a sociedade a partir de seus pontos de desenvolvimento. O primeiro nível, pré-convencional, característico das crianças pequenas, de alguns adolescentes e de criminosos, se subdivide em dois estágios: no primeiro, orientação para o castigo e para a obediência, é considerado errado aquilo que é punido, ou seja, a definição do certo e errado é concebido a partir das punições sofridas pelo ator do ato. No dilema de Heinz, foram identificadas respostas que consideravam certo roubar desde que ninguém visse o ato. Nesse primeiro nível, as regras são consideradas como exteriores ao sujeito, ou seja, é justo aquilo que a sociedade considera como tal, o que seria o equivalente ao estágio da heteronomia. Nesse momento, os comportamentos são marcados pela necessidade de evitar o sofrimento e a dor. Quanto maior as consequências causadas pela ação, mais grave é considerado o ato e mais merecedor de um castigo pesado. A potência da punição é dada pelos danos gerados. O raciocínio, então, é mais intuitivo que lógico, e há uma predominância do realismo moral e o ato bom ou mal é definido a partir da regra e não de sua intenção (LOURENÇO, 1998). Há, portanto, uma incapacidade de se perceber as múltiplas facetas da situação, captando somente aquilo que é objetivo e definido pela autoridade e pela necessidade de se evitar o castigo.
Já no segundo - estágio 2 -, considera-se correto o comportamento que gera prazer – hedonismo -. Há um avanço em relação ao primeiro estágio, porém voltado para os interesses
pessoais. No dilema, aparece a necessidade de salvar a esposa, pois ela precisa fazer o almoço, ou ajudar em alguma tarefa. Neste estágio, a analise é marcada pela satisfação das necessidades pessoais, configurando, pois o egoísmo.
Cada individuo tem os seus interesses a satisfazer, o sujeito julga uma determinada ação como justa e correta na medida em que esta permite satisfazer os interesses, as necessidades e os desejos do próprio e do outro, sempre numa perspectiva concreta e individual (LOURENÇO, 1998, p. 88).
Neste estágio, o foco não é mais as ações, como no primeiro, mas as consequências que elas provocam numa nítida proporção de se ter mais satisfação e poucas punições. Trata- se de uma moralidade hedonista. No nível convencional, típico da maioria dos adolescentes e adultos da sociedade americana e brasileira (BIAGGIO, 2002), marcado pelo compartilhamento das regras e normas morais, é considerado certo aquilo que é aceito pelos outros. No primeiro estágio deste nível aparece o estereótipo, a aprovação social. A perspectiva ainda é egocêntrica e há uma dificuldade de se colocar no lugar do outro , contudo já se percebe uma interiorização das normas e a conformidade ao instituído; é o lugar do bom garoto. O bom é definido a partir do enquadramento social (KOHLBERG, 1992), configurando-se como uma moralidade interpessoal, na qual “a tarefa principal consiste em ser uma pessoa bem comportada, agir em conformidade com as imagens estereotipadas do que é o comportamento mais apreciado” (RAVELLA, 2010, p. 37).
No segundo estágio, orientado para lei e a ordem, existe um respeito pela autoridade e pela manutenção do instituído socialmente. A justiça é marcada pela relação entre o individuo e o sistema. Esse estágio é o mais encontrado entre os adultos na população, e é caracterizado por haver uma necessidade de se sentir bem visto aos olhos dos outros e ser leal ao sistema para que ele se mantenha. A regra aqui é manter o sistema e a ordem, uma vez que a pessoa internalizou as regras sociais, porém não opera sobre elas. Como diz Ravella (2010, p.28):
O individuo sente-se membro da sociedade, partilha o ponto de vista daqueles que participam de seu mundo de relações, assume a lei como feita por e para toda a gente (Colby&Kohlberg, 1987). Por isso, o sujeito desse nível de moralidade procura viver com o que é socialmente aceito e partilhado, cumprir os seus deveres e respeitar a ordem estabelecida.
Já o nível pós-convencional, conhecido também como da autonomia ou dos princípios morais, somente um grupo pequeno de pessoas alcança este grau de desenvolvimento, cujo patamar normalmente só atinge após os 20 anos de idade ou mais. Neste período, predomina
uma visão ética que não pode estar subordinada às leis e aos padrões sociais convencionais, pois há um predomínio da visão de direitos universais, direito à vida, à liberdade, à justiça. Apesar da compreensão de que as leis podem representar a proteção ao Homem, elas não são seguidas pelo simples fato de serem leis. Ao passo que no primeiro estágio ocorre a predominância do contrato social, e o individuo procura as formas adequadas de modificar as regras por meio de contratos democráticos, no segundo estágio deste nível o sujeito atinge o mais alto grau de desenvolvimento, pois age conforme sua integridade seguindo princípios éticos e, mesmo que não tenha conseguido modificar as regras pelos canais democráticos, segue a sua consciência, desobedecendo a norma considerada injusta. “É a moral da desobediência civil, dos mártires e revolucionários pacificistas, e de todos aqueles que permanecem fieis a seus princípios [...]” (BIAGGIO, 2002, p.27).
Kohlberg (1991, p.100) escreve sobre algumas entrevistas que fez com adolescentes que se enquadravam no estágio 6 nos seguintes termos:
[...] decisões de consciência que pareciam englobar uma noção kantiana de dever categórico; a noção de universalidade de deveres básicos; a noção de valor moral intrínseco de certas normas, como a de salvar a vida humana e a de manter as promessas; e finalmente, uma noção da lei moral como sendo mais importante do que a lei legal, quando se percebe que as duas parecem em conflito.
Lourenço (2002) alerta que no último manual de Kohlberg (COLBY & KOHLBERG, 1987), o estágio 6 não aparece mais como estágio empírico, mas o autor o mantém como ideal moral. Este estágio prevê que cada qual tome o outro como livre, autônomo e igual, e o que rege os julgamentos morais são os princípios e a benevolência. Textualmente,
Em outras palavras, o objetivo do agente moral autônomo do estágio 6 é procurar resolver os problemas morais de tal modo que a promoção do bem de algumas pessoas não suprime o respeito pelo direito dos outros, e o respeito pelos direitos individuais não impede buscar a promoção do melhor para todos (KOHLBERG, 2002, p.106).
É interessante notarmos que os aspectos relacionados ao estágio 6, proposto por Kohlberg, são muito parecidos com aqueles defendidos pelos princípios da economia solidária - mais a frente nos deteremos um pouco mais neste ponto -. Seria interessante, porém, nesse momento questionarmos: será que os integrantes da economia solidária alcançaram o estágio 6 de desenvolvimento moral? Ou será que, assim como o estágio 6 - definido como um ideal moral –, não seria a economia solidária também um ideal ideológico? Estas perguntas
perpassam todo nosso trabalho, uma vez que o respeito ao outro, a capacidade de se colocar no lugar do outro e atribuir valor igual a todos os seres humanos, entre outros fatores, são essenciais para o funcionamento dos empreendimentos solidários.