No relatório do Ministério de Esporte e Lazer, por determinação do Conselho do Comitê Organizador Local da África do Sul, ficou a cargo da Comissão de Audito- ria e Risco recomendar a contratação de auditores externos, analisar e aprovar os honorários das auditorias anuais, avaliar as Demonstrações Financeiras Anuais e monitorar a eficácia dos controles internos operacionais, assegurando processos efi- cazes de gestão de risco.
Também o COL deveria passar por auditoria. Cabe lembrar que, segundo de- clarações do presidente do COL no Brasil, Ricardo Teixeira, o órgão era uma entida- de privada e não precisaria demonstrar publicamente a contabilidade. O Relatório Fi- nanceiro da Fifa de 2010 (31/05-01/06/2011) informou que o COL da Copa do Mundo de 2010 conseguira um ligeiro resultado positivo. Dados provisórios sobre a situação financeira do COL publicados no relatório demonstravam plena recupera- ção dos compromissos financeiros assumidos com terceiros; e as contas finais per- maneciam sujeitas a auditoria e não haviam ainda sido submetidos à Fifa na data da publicação.
Segundo o relatório, ao lançar o 2010 Fifa World Cup Legacy Trust – uma entidade criada pela Fifa e pela Associação de Futebol Sul-Africano (Safa) no final da Copa de 2010 para promover e estender o desenvolvimento e o alcance do fute- bol na África do Sul –, “(...) a Fifa manteve a promessa de que os sul-africanos con- tinuariam a beneficiar-se do torneio de 2010 muito depois do apito final (...) apoiando uma variedade de iniciativas de caridade, com foco no desenvolvimento do futebol, educação, saúde e atividades humanitárias na África do Sul” (REPUBLIC OF SOU- TH AFRICA, 2013, p. 86).
5.3.6.1 Relatório final de auditoria interna sobre a Copa de 2010
O ministério de Esporte e Lazer da África do Sul publicou em maio de 2011 o relatório final de auditoria interna sobre a Copa do Mundo de 2010 realizada naquele país. Segundo o Sumário Executivo, “Este relatório tem como objetivo criar um regis- tro histórico da Copa do Mundo Fifa 2010, para consolidar as lições para futuros megaeventos e para assegurar a responsabilização [accountability] pública”.
O documento discute o legado tangível e intangível, as obras realizadas em cada cidade-sede e os valores destinados a cada uma, com bastante detalhes quan- do descreve o legado em termos de estádios de futebol, aeroporto, estradas, ações de sustentabilidade, desenvolvimento do esporte nas escolas etc. Não acrescenta maiores informações ao texto do 2010 Fifa World Cup Country Report (REPUBLIC OF SOUTH AFRICA, 2013).
Não se trata de um documento como o Relatório de Levantamento de Auditoria (RLA) do Tribunal de Contas da União (TCU) brasileiro, que investigou de- núncias de irregularidades e exigia correções, chegando a cancelar contratos com empreiteiras. Também não foi possível obter no portal do Instituto Sul-Africano de Auditores do Governo (The Southern African Institute of Government Auditors – Sai- ga) dados sobre auditoria que tenha sido realizada nas contas e nas obras da Copa do Mundo de 2010.
5.3.6.2 Relatório do Ministério de Esportes e Lazer 2010/2011
O Relatório Anual do Ministério de Esportes e Lazer da África do Sul edição 2010/2011, que presta contas sobre a Copa do Mundo de 2010 no país, é com- posto pelas demonstrações financeiras que compreendem entre outras a posição fi- nanceira em 31 de março de 2011, a declaração do desempenho financeiro, de- monstração do patrimônio líquido e fluxos de caixa bem como o resumo das princi- pais práticas contábeis (REPUBLIC OF SOUTH AFRICA, 2011).
Também descreve a responsabilidade do tesoureiro, que deve cuidar da ela- boração das demonstrações financeiras de acordo com o Modelo do Relatório do Departamento Financeiro prescrito pelo Tesouro Nacional dentro dos requisitos da Lei de Gestão de Finanças Públicas da África do Sul (Lei n.º 1 de 1999), assim como pelo controle interno que a gestão determina ser necessário para permitir a elabo- ração de demonstrações financeiras que estejam isentas de distorção, independen- temente se causada por fraude ou erro (REPUBLIC OF SOUTH AFRICA, 2011). E refere o âmbito de atuação do auditor-geral, a quem se atribui – nos termos da Constituição da República da África do Sul de 1996 (Lei n.º 108 de 1996) e da Lei de Auditoria Pública da África do Sul de 2004 (Lei n.º 25 de 2004) – a responsabilidade de expressar opinião sobre tais demonstrações financeiras com base em auditoria própria (REPUBLIC OF SOUTH AFRICA, 2011).
Nas buscas no Google, encontrou-se uma menção de 30/08/2012 sobre “Cor- rie Pretorius, um dos responsáveis por auditar as obras de infraestrutura para o evento de 2010”, que seria convidado do Congresso Brasileiro de Auditoria Interna (Conbrai) e um dos destaques (INSTITUTO DOS AUDITORES INTERNOS DO BRA- SIL, 2012). Mas sobre o trabalho dele em auditorias da Copa de 2010 na África do Sul nada se encontra.
5.3.7 Auditoria externa
Não há menção na mídia nacional ou internacional sobre auditoria nas contas públicas, no COL nem em obras da Copa de 2010 na África do Sul. Fala-se em audi-
toria da Ernst & Young apenas com relação ao episódio da candidatura da África do Sul a país-sede, quando recentemente, em 2015, surgiu o escândalo de suborno en- volvendo dirigentes da Fifa, políticos e organizadores em vários países, inclusive no Brasil (JEFF RADEBE..., 2015).
6 ANÁLISE DE RESULTADOS
A partir da análise dos dados obtidos oficialmente – por meio dos órgãos go- vernamentais, prestação de contas dos stakeholders, entrevistas veiculadas na mídia de representantes do governo, relatórios de balanços publicados pela Fifa, ou informações divulgadas na internet, como o Portal da Transparência do governo brasileiro – e extraoficialmente – por meio do trabalho de prospecção da mídia baseado em avaliação de economistas e experts, órgãos de sindicatos, como o Dieese, institutos de pesquisa e avaliação de risco, entre outras fontes primárias e secundárias –, foi possível desenhar um panorama comparativo entre os investimentos e objetivos iniciais e finais da Copa do Mundo de Futebol de 2010, na África do Sul, e da Copa do Mundo de Futebol 2014, no Brasil, como foco no binômio controle interno e gestão de riscos.
O primeiro e mais importante aspecto a levar em consideração é a diferença em termos de gastos e obras, não só pelo fato de o Brasil ter uma economia mais desenvolvida e ser um país continental. Mas os últimos governos brasileiros descuidaram das obras de infraestrutura, o que demandou os altos investimentos necessários para permitir ao país sediar a Copa do Mundo, mostrando respeito aos estrangeiros, delegações de países participantes, mídia nacional e internacional, família Fifa e ao próprio povo brasileiro, entre outros stakeholders.
Na África do Sul com mais razão, por ser uma economia menos desenvolvida com muitos problemas sociais, como habitação e saúde, as obras de infraestrutura também deveriam receber altos investimentos. Além disso, principalmente porque o futebol não atrai maior interesse que o rúgbi ou mesmo críquete, esportes muito apreciados pelos sul-africanos, era de esperar que os estádios dificilmente se manteriam superavitários. Contudo, ambos os Mundiais foram bem avaliados pelos turistas e pela mídia em geral, como se verá no próximo tópico.