Mesmo com a evolução tecnológica brasileira na produção do petróleo que ocupa, segundo avaliação da Agência Internacional de Energia em 2013, o 13º lugar na produção mundial e projetado para ser o segundo maior crescimento em produção nas próximas duas décadas, ainda são encontrados no Brasil frentistas expostos diariamente aos efeitos nocivos dos derivados de petróleo durante 8 horas por dia, sem equipamentos de proteção. Muitos países, principalmente os da Europa e América do Norte, já aboliram essa atividade adotando o sistema self-service de comercialização.
No Brasil, segundo a Lei do Ministério do Trabalho nº 8.213 de 24 de julho de 1991, os frentistas não têm o direito à aposentadoria especial direta aos 25 anos. Eles devem comprovar a insalubridade por laudos emitidos pela empresa, por Engenheiros de Segurança do Trabalho e contratar ainda serviços advocatícios. Esses custos e dificuldades de entendimento devido ao baixo grau de escolaridade, levam muitos frentistas a se aposentarem aos 35 anos de contribuição.
Ainda são poucos os estudos envolvendo a atividade de frentista. No campo da avaliação neurocognitiva, por exemplo, podem ser encontradas pesquisas com trabalhadores expostos a solventes orgânicos em ambientes industriais (Dick et al., 2004; Meyer-Baron et al., 2008) mas não com frentistas. Na avaliação da percepção visual, a literatura apresenta grande parte dos estudos envolvendo funcionário de hospitais (Kim et al., 2011), pintores de estaleiros (Dick et al., 2004), trabalhadores de industrias de fibras de vidro (Gong et al., 2002), fábricas de móveis (Gong et al., 2003) e outros.
Apesar de poucos estudos, já existiram evidências de deficiências hepáticas e alteração no tempo de ruptura do filme lacrimal (Hinrichsen et al., 2004), alterações na
fertilidade masculina (Dib et al., 2007), perdas na visão de cores e sensibilidade ao contraste (Lacerda et al., 2012; Costa et al., 2012) em frentistas brasileiros. Entretanto muitas questões ainda precisam de aprofundamentos, como por exemmplo, as alterações hepáticas, que ainda não foram bem elucidadas e devem ser estudadas mais a fundo, pois há uma gama de outras causas a serem afastadas como a interação com álcool, tabagismo e outros (Hinrichsen et al., 2004).
Estudos mais recentes como o de Costa et al.(2012) relatam uma importante lacuna encontrada na literatura que é a necessidade de avaliações ambientais para determinar o nível de exposição aos vapores orgânicos dos frentistas. Essas avaliações são importantes para realizar explicações causais relacionadas aos limites de tolerância dos vapores orgânicos, permitindo comparações mais precisas entre as pesquisas e evitando generalizações na interpretação dos resultados (Meyer-Baron et al., 2008; Gobba & Cavalleri, 2003).
Não existem estudos suficientes para uma determinação precisa e controlada do nível de exposição aos vapores dos combustíveis na atividade de frentistas, assim como ainda não há um consenso sobre a ação da exposição crônica e diária que pudesse embasar uma reflexão mais aprofundada sobre os limites de tolerância para essa atividade. Esses limites são alvos de muitas críticas como, por exemplo, falta de consenso entre as diferentes agências que determinam os índices, ausência de estudos referentes à influência de cargas genéticas (Rebelo, 2007) e desatualizações e extrapolações indevidas (Peixe, Nascimento, & Pinheiro, 2009; Quelhas & Gomes, 2011).
Os limites de tolerância para os líquidos combustíveis brasileiros são réplicas daqueles preconizados pela ACGIH (300 ppm para gasolina e 1000 ppm para o etanol)
o que pode levar a sérias dúvidas de sua eficiência já que a composição, o microclima, os procedimentos e até mesmo a carga genética no Brasil são diferentes.
Tendo em vista essas considerações, é de suma importância científica e social, estudar, entender e pesquisar sobre os níveis de exposição ambiental e as consequências psicofísicas, fisiológicas e neurocognitivas na atividade de frentista. Este estudo pode trazer subsídeos essenciais para uma discussão aprofundada sobre os limites de tolerância, envolvendo aspectos da saúde dos trabalhadores que ainda são pouco utilizadas pelos profissionais dessa área e pelas Delegacias Regionais do Trabalho (DRTs) na avaliação de trabalhadores expostos a solventes orgânicos. Estudos deste tipo trazem benefícios para a pesquisa básica, para os trabalhadores, seus familiares e para toda a sociedade que arca com as despesas previdenciárias dos auxílios doenças e aposentadoria por invalidez que tanto oneram um país.
8.2 Objetivos
8.2.1 Objetivo Geral
Determinar o nível de exposição aos vapores da gasolina e do álcool etílico e avaliar as consequências psicofísicas, neurocognitigas e fisiológicas em uma amostra de frentistas brasileiros.
8.2.2 Objetivos Específicos
Determinar o nível de exposição diário ao etanol e a gasolina para a categoria dos frentistas;
Verificar se a exposição diária e a crônica, representada pelo tempo de serviço, podem influenciar no desempenho dos testes;
Verificar se existem comprometimentos hepatotóxicos nos frentistas;
Comparar o desempenho dos frentistas com o de um grupo controle nos testes psicofísicos e neurocognitivos;
Para alcançar estes objetivos levantamos as seguintes hipóteses:
8.3 Hipóteses
I. Diferentes estudos demonstraram que a exposição dos frentistas aos vapores dos líquidos combustíveis geram consequências na visão de cores e sensibilidade ao contraste (Costa et al., 2012; Lacerda et al., 2011) correlacionados com o tempo de serviço (Costa et al., 2012). Além disso, já foram encontradas consequências neurocognitivas em indivíduos expostos a solventes orgânicos em ambientes industriais (Dick et al., 2004; Meyer-Baron et al., 2008). Portanto espera-se que:
(a) Os frentistas tenham um desempenho significativamente mais baixo nos testes para a visão de cores (D15 Dessaturado de Lanthony e Cambridge Colour Teste - CCT), sensibilidade ao contraste (Metropsis - Cambridge Reseach Systems) e rastreamento ocular, quando comparados ao grupo de participantes não expostos aos vapores orgânicos;
(b) O desempenho dos frentistas nos testes neurocognitivos (Trail Making A e B e Figura Complexa de Rey) serão significativamente inferiores ao do grupo controle;
(c) Existe correlação estatisticamente significativa entre a exposição crônica e diária com o desempenho nos testes.
II. Hinrichsen et al. (2004) sugerem alterações do índice de Alanina Aminotransferase em frentistas devido à exposição aos vapores dos combustíveis. Portanto espera-se que:
a) Os frentistas tenham valores fora dos parâmetros normais dos marcadores biológicos: alanina aminotransferase (ALT), aspartato aminotransferase (AST), Gama-glutamiltransferase (GGT), Bilirrubina Direta (BD) e Bilirrubina Total (BT).
9.1 Tipo de estudo
Este estudo caracteriza-se por ser uma pesquisa transversal com delineamento quase experimental, do tipo ex - post facto, utilizando multimétodos.