Antes de qualquer consideração, vale lembrar que minha dissertação de mestrado teve como foco o gênero crônica, mais especificamente a crônica veiculada em revistas, em especial, a RVSP (Revista Veja São Paulo). O objetivo da dissertação foi averiguar os diferentes olhares do cronista Ivan Angelo em relação à cidade de São Paulo a partir de alguns textos publicados nesse periódico. Convém salientar, também, que o fato de ser conhecedora desse gênero e do periódico RVSP, em que textos desse gênero são publicados regularmente, facilitou a realização do projeto na fase do doutorado. Continuei, então, colecionando, organizando e catalogando as crônicas.
Em reunião com a orientadora e exposta a vontade de continuar trabalhando com o mesmo gênero, foi-me sugerido, como procedimento metodológico, coletar também revistas que apresentassem crônicas que tivessem algum tipo de relação com o “trabalho” em ambiente de ensino, já que, na ocasião, já fazíamos parte do grupo de pesquisa “Linguagem e Trabalho”. Foi nessa ocasião que tive a ideia de colecionar e investigar as crônicas veiculadas na RNE (Revista Nova Escola) que, até então, eram lidas por mim sem a devida atenção e sem tanto rigor de frequência, mas que são direcionadas aos trabalhadores da educação.
Na época, além da RVSP e da RNE, tentei inserir no corpus desta pesquisa um terceiro periódico que não apresentasse o gênero ficcional crônica, mas que remetesse ao cotidiano real do professor. Com isso, pretendia contrastar a representação sobre o trabalho do professor em tais periódicos. Tentei, então, trabalhar com o caderno “Sinapse” – hoje não mais publicado no Jornal Folha de S. Paulo – de 27 de setembro de 2005, cuja reportagem
central intitula-se “Professor em risco de extinção”, em que havia vários depoimentos de professores. Diante desses dados, em um primeiro momento, selecionei um depoimento batizado como “Aula bombom”.
Ao perceber que tal depoimento era editado, descartei-o, pois como depoimento editado, a meu ver, ele perde sua autenticidade, evidenciando a voz do jornalista e não mais a do professor. Uma outra tentativa de obter dados foi a gravação em áudio dos depoimentos veiculados no programa “Educação semente do amanhã” e “Alicerce da pátria”, da Rádio Jovem Pan, ambos ocorridos no período entre 2006 e 2007. Mais uma vez, encontrei empecilhos determinantes, uma vez que deveria lidar com mídia radiofônica, tornando-se, assim, inadequado aos propósitos desta pesquisa, já que pretendia fazer um confronto entre periódicos impressos.
Conforme foi mencionado anteriormente, após a orientação que me foi passada de buscar também crônicas que abordassem aspectos relacionados ao trabalho educacional, pesquisei a RNE, a partir das publicações de 1986, e deparei-me com várias seções, cujos títulos apontavam para esse tema, como por exemplo: “Falem, mestres!” e “Aula do pôster”. Apesar de ser uma revista direcionada ao professor, verifiquei também que a única seção que contemplava o gênero crônica era a seção “Era uma vez”, porém não de modo exclusivo, uma vez que nela se apresentavam gêneros variados, como poema, conto, diário, carta, entre outros.
Inicialmente, pretendia ater-me apenas ao gênero crônica, pelo fato de ele tratar de temas vinculados ao cotidiano. No entanto, em minha busca, deparei com edições da RNE que traziam outro gênero que acompanhavam as crônicas da referida revista, despertando-me para uma nova e mais ampla possibilidade de trabalho: a análise de textos que chamei de “roteiros de reflexão”. Trata-se de textos que acompanham a crônica na seção “Era uma vez”, trazendo questões, dirigidas ora aos professores – propondo atividades de sala de aula –, ora ao coordenador / diretor – pressupondo um trabalho de formação com os professores.
Como o intuito desta pesquisa é investigar as (re-)configurações sobre o trabalho do professor em textos sociais, busquei crônicas em que ele fosse o protagonista e considerei que os “roteiros de reflexão” também poderiam contribuir para a compreensão da imagem de professor em situação de trabalho, construída em periódicos.
Nesse período encontrei, também, várias pesquisas sobre as causas da insatisfação do professor com sua profissão. Por exemplo, uma pesquisa realizada pela Revista Educação, em
março de 2007, apontava que quase 50% dos professores brasileiros apresentavam sintomas de estresse ou depressão e que, dentre esses, muitos optavam por abandonar o ofício de educadores. Além disso, problemas constantes na sala de aula, como falta de interesse e indisciplina dos alunos, superlotação em sala de aula, falta de material didático, jornada excessiva de trabalho, violência nas escolas, dentre outros problemas, causavam e ainda causam certo estresse ou mal-estar no corpo docente, como já apontado na introdução.
O recorte de textos desse período – entre 2000 e 2006 – justifica-se, assim, por ter sido, esse, um período em que a crise profissional do docente passou a ser explicitada e, principalmente, um momento em que se apontava para uma mudança de paradigma no campo educacional, sobretudo, porque no final do século XX, foram elaborados e publicados os PCNs.
Dos 72 textos lidos na RNE, apenas três crônicas tomavam o trabalho do professor como tema, sendo elas pertencentes a diferentes autores e a épocas variadas, mas todas publicadas em outubro, mês em que se comemora o “dia do professor” no Brasil. Com relação à RVSP, dos 288 exemplares pesquisados , encontrei, com tal temática, apenas três crônicas de Walcyr Carrasco, autor que ocupa uma coluna quinzenal sempre na última página dessa revista: uma publicada também em um mês de outubro e duas em março, o que é também significativo pois se trata do início do ano letivo. Assim delimitei o corpus, selecionando publicações feitas no período de 2000 a 2006, divididas em três conjuntos: três crônicas da RVSP e seis textos da RNE, três crônicas e seus respectivos “roteiros de reflexão” para o professor, como mostram os quadros abaixo:
Quadro 4: Textos da RNE selecionados para a pesquisa TÍTULO DO
TEXTO AUTOR
DATA / MÊS DE
PUBLICAÇÂO GÊNERO
“Crônica para dona
Nicota” Tatiana Belinky Outubro/ 2000 Crônica
“O espelho de dona Nicota”
Autor não
identificado Outubro/ 2000 Roteiro
“Dona Licinha” Abramovich Fanny Outubro/ 2001 Carta-crônica “O ofício de
ensinar” identificado Autor não Outubro/ 2001 Roteiro “Qualidades do
professor” Cecília Meireles Outubro/ 2002 Crônica
“Cada um com seu estilo e um oficio
em comum”
Quadro 5: Textos da RVSP selecionados para a pesquisa TÍTULO DO
TEXTO AUTOR
DATA / MÊS DE
PUBLICAÇÂO GÊNERO
“Meus professores” Walcyr Carrasco 03/10/2001 Crônica
“A didática do
sexo” Walcyr Carrasco 02/03/2005 Crônica
“Maquiagem na
educação” Walcyr Carrasco 08/03/2006 Crônica