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– Finansal Araçlardan Kaynaklanan Risklerin Niteliği ve Düzeyi

A ONG CEARAH Periferia também exerceu um papel central durante a elaboração do Plano Diretor, dentre outras razões porque tinha atuação destacada no Núcleo de Habitação e Meio Ambiente, a rede NUHAB. O NUHAB consistia em uma espécie de Grupo de Trabalho que promovia a articulação de movimentos, entidades e pessoas que discutiam o direito à moradia e à cidade, bem como a difícil situação das periferias em Fortaleza. Machado (2011) assim o descreve:

Entre dezembro de 2002 e abril de 2003, o NUHAB emerge como agente social importante de contestação ao processo de revisão do Plano Diretor, efetivando ações de mobilização e esclarecimento da população, articulação na sociedade civil e negociação com os consultores da Associação Técnico-Científica Engenheiro Paulo de Frotin (ASTEF)21 e da Prefeitura. Além disso, apresentou metodologia participativa alternativa às ações desenvolvidas pela ASTEF/Prefeitura. (MACHADO, 2011, p.234)

Compunham o NUHAB diversas entidades, tais como: Comunidades Eclesiais de Base (CEBs); CEARAH Periferia; Federação de Bairros e Favelas de Fortaleza (FBFF); Oficina do Futuro; Cáritas Diocesana; Escritório de Direitos Humanos e Assessoria Jurídica Popular Frei Tito de Alencar (EFTA); Central de Movimentos Populares (CMP). Também participavam grupos de extensão ligados a cursos de Direito: Centro de Assessoria Jurídica Universitária (CAJU) e o Núcleo de Assessoria Jurídica Comunitária (NAJUC), da Universidade Federal do Ceará (UFC), e o Serviço de Assessoria Jurídica Universitária (SAJU), da Universidade de Fortaleza (Unifor). As reuniões ocorriam quinzenalmente, em uma das salas do

21 Entidade responsável pela primeira versão do Plano Diretor de Fortaleza, contestado pelo NUHAB

CEARAH Periferia. No início do meu curso de Direito, entre 2005 e 2006, cheguei a participar de várias dessas reuniões, cujo tema principal era o Plano Diretor.

Um momento de ascensão do NUHAB se deu quando da revisão do Plano Diretor executada na Gestão Juraci Magalhães, que era constantemente acusada de não promover a participação popular. Machado (2011) lembra que em setembro de 2003 houve uma Audiência Pública na Câmara Municipal discutindo justamente a participação popular durante a revisão do Plano, mas participantes do NUHAB afirmaram que pouco se conquistou. Devido à falta de avanços, em 2004 o NUHAB lançou a “Campanha por um Plano Diretor Participativo”, em clara oposição à metodologia utilizada pela gestão e pela ASTEF.

Nessa época ocorreram diversas oficinas no CEARAH Periferia e nas próprias comunidades, buscando a compreensão mais ampliada do que era o Plano Diretor e qual a sua real importância para as comunidades. O objetivo era envolver diversos movimentos e moradores na disputa pelo Plano, e pode-se afirmar que o NUHAB e o CEARAH Periferia desempenharam esse papel aglutinador e formador.

Paralelamente ao NUHAB, havia a mobilização em torno do Fórum Estadual de Reforma Urbana (FERU), que reproduzia em nível estadual e local as discussões do Fórum Nacional. Muitas das entidades e pessoas que participavam do NUHAB também estavam no FERU, havendo uma relativa convergência de interesses e discursos entre os participantes, tratando-se de espaços complementares.

Ocorre que a proposta de revisão do Plano Diretor na Gestão Juraci Magalhães sofreu severas críticas que acabaram dando vazão a uma Ação Civil Pública movida pelo Ministério Público Federal (MPF) em setembro de 2004. O MPF apontou diversas irregularidades na contratação de pessoal e no próprio processo de revisão do Plano Diretor, e ainda interpôs Ação de Improbidade Administrativa contra o prefeito Juraci Magalhães, o secretário Joaquim Neto Bezerra e o Professor Roberto Cláudio Frota Bezerra, à época reitor da Universidade Federal do Ceará, a qual a ASTEF era ligada.

O MPF argumentou na ação que não foi contemplado o acesso mínimo às informações produzidas, tampouco a participação popular que se fazia necessária ao processo. O papel do NUHAB nesse momento foi essencial, pois constituía um dos principais atores de crítica e resistência, que articulava diversos outros sujeitos e entidades na busca por um Plano Diretor Participativo. Essa pressão popular foi

importante para que minimamente houvesse diálogo entre moradores e poder público, conforme afirma Machado (2011):

A partir da pressão popular em relação à “ausência de participação”, a Câmara dos Vereadores teria realizado “reuniões em alguns bairros (5 reuniões), em que a Prefeitura de Fortaleza não compareceu para apresentar a proposta, nem qualquer membro da Câmara a apresentou”. Por fim, o MPF e a FBFF argumentaram que a “única tentativa de homologar o cumprimento da exigência de participação popular” através das reuniões em Câmaras Técnicas e das audiências públicas em âmbito interno não se sustentariam, pois estes órgãos não teriam um caráter de representação da população e não seriam paritários, detendo, ao invés disso, o caráter de assessoramento ao Chefe do Poder Executivo através de representações de categorias profissionais. Desta forma, para o MPF e a FBFF, “a partir de quando a equipe técnica contratada entregou o projeto de lei ao Prefeito, em abril de 2004, a única discussão de conteúdo do Plano Diretor se deu junto às comissões internas”, indicando que teria havido, no máximo, “discussão com associações representativas de segmentos profissionais, e não participação popular.” (MACHADO, 2011, p. 249)

Também foram questionadas, em pareceres de especialistas como Nelson Saule Júnior, Karina Uzzo e José Borzacchielo da Silva, a falta de dados técnicos, as análises pouco aprofundadas e a falta de diretrizes e estratégias claras. Esses questionamentos respaldaram a não-aceitação do plano diretor da Gestão Juraci Magalhães pelos movimentos articulados em torno do NUHAB e do Fórum.

No ano de 2005, assumiu como prefeita Luizianne Lins, do Partido dos Trabalhadores (PT) e o plano da gestão anterior foi abandonado. Iniciou-se a partir daí a elaboração do Plano Diretor Participativo de Fortaleza, o PDPFor. De acordo com Machado (2011), as primeiras etapas do processo de revisão do Plano consistiram em reuniões e capacitações internas na Prefeitura, no início de 2006. Entre fevereiro e abril de 2006 teriam ocorrido capacitações populares nos bairros e o I Fórum do PDPFor, todos esses promovidos pela PMF. De 2006 a 2008, ocorreram as audiências públicas de discussão do Plano na Câmara Municipal de Fortaleza. A gestão do PT intentava, portanto, imprimir uma marca de “participação popular” ao processo de elaboração do Plano Diretor, conforme entrevista realizada com um dos técnicos da Prefeitura à época:

Para a discussão do Plano Diretor foi criado um Núcleo Gestor ou um Comitê Gestor, não lembro como se chamava. Nesse grupo tinha muita gente da sociedade civil. Eu acho que na época era 60 – 40, sim, 60% poder público, e praticamente todas as secretarias participavam, a Câmara Municipal participava, acho que eles tinham três assentos e da Câmara não ia quase ninguém, era impressionante. Quem fazia a secretaria era a SEPLA, quem secretariava, anotava todas as atas, as decisões, etc. Aí do

empresariado tinha o SINDÔNIBUS, SINDOSCON e SECOV. Então, foi esse Conselho Gestor quem disse que tinham que ser três capacitações por Regional. Aí depois, a gente mesmo verificou que era pouco e na época o CEARAH Periferia dizia que só três era pouco. Na época também o Orçamento Participativo estava começando a empunhar todo o gás, que em 2005 estava iniciando e em 2006 já estava todo muito bem formatado. Então, a gente fez do Plano Diretor mais de 40 capacitações nas comunidades, fizemos uma capacitação geral no começo de abril de 2006, em que seis lugares da cidade ao mesmo tempo estava acontecendo reuniões com o Plano Diretor. Eu fiquei aqui no Paulo Sarasate na Regional II. Aí teve na Messejana na Regional... Todas as Regionais, foi muito bom o movimento. (Leandro, arquiteto da Habitafor, em entrevista realizada em novembro/2012)

Envolvidos nesses momentos também se encontravam as entidades e pessoas que faziam parte do NUHAB, em determinados momentos com importante assessoria de pessoas ligadas ao Instituto Pólis22, de São Paulo. Foi formado nesse período o Campo Popular, cuja composição era muito parecida com a do NUHAB, reunindo dentre outros atores políticos não-institucionais, o Movimento dos Conselhos Populares (MCP), o CEARAH Periferia, a Fundação Marcos de Brüin (FMB), o Escritório de Direitos Humanos e Assessoria Jurídica Popular Frei Tito de Alencar (EFTA), a Federação de Entidades de Bairros e Favelas de Fortaleza (FBFF), a Central dos Movimentos Populares (CMP) e a Rede Estadual de Assessoria Jurídica Universitária (REAJU). Muitas das questões polêmicas do Plano foram definidas depois de muitos embates entre o Campo Popular, o campo empresarial e os técnicos municipais, mas não adentrarei nessas questões, como foi feito por Machado (2011). As disputas envolvendo as ZEIS serão discutidas no capítulo 4, que focaliza o caso do Lagamar. Para melhor contextualização dessa discussão, será feita, no próximo capítulo, uma análise conceitual e histórica daquele instrumento urbanístico.

22 O Pólis - Instituto de Estudos, Formação e Assessoria em Políticas Sociais é uma Organização-

Não-Governamental (ONG) de atuação nacional, com participação em redes internacionais e locais, constituída como associação civil sem fins lucrativos, apartidária, pluralista e reconhecida como entidade de utilidade pública nos âmbitos municipal, estadual e federal.

Benzer Belgeler