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Como já afirmado, o estudo dos efeitos da sentença tem passado pelos mais diversos e acirrados debates jurídicos e sempre foi alvo de diversas teorias para justificar a sua existência e delimitar a sua configuração.

Basta mencionar, a título exemplificativo, o embate travado entre Chiovenda e Liebman para que se possa chegar a uma compreensão a respeito da eficácia dos efeitos ou da qualidade da sentença, a fim de situar o conceito de coisa julgada – como abordado no capítulo 3.

Liebman prenuncia vários efeitos da sentença e procura sempre explicá-los diante do instituto da coisa julgada, ao afirmar: quais são as relações entre a coisa julgada e esses efeitos

da sentença, vários e diversos, ora meramente declarativos, ora constitutivos.62.

Apesar da afirmativa de que os efeitos da sentença são vários ou diversos, a posição de Liebman representa um momento histórico que não tinha os efeitos da sentença como além do declaratório, constitutivo e condenatório.

Essa teoria que divide a classificação das sentenças ou ações em declaratórias, constitutivas ou condenatórias é denominada "Teoria Trinaria" (ou Clássica). Tal concepção remonta à Revolução Francesa, ocorrida em 1789, quando os inovadores, desconfiados da autoridade do juiz, trataram de manietá-lo e reduzir o alcance de suas decisões.

Para os adeptos dessa teoria, as sentenças podem ser declaratórias quando trazem declarações; podem ser constitutivas, quando criam, modificam ou extinguem relações jurídicas; ou mesmo condenatórias, quando comportam condenações.

Acerca da Teoria Trinária, Vicente Greco Filho63 entende que:

De acordo com o pedido formulado pelo autor, as sentenças podem ser meramente declaratórias, constitutivas e condenatórias. Pontes de Miranda                                                                                                                          

62

LIEBMAN, Enrico Túlio. Eficácia e autoridade da sentença e outros escritos sobre a coisa julgada. Notas de Ada Pellegrini Grinover. Forense, 3. ed. Rio de Janeiro: 1984, p. 17.

63

GRECO FILHO, Vicente. Direito processual civil brasileiro. 16. ed. atual. São Paulo: Editora Saraiva,v.2, 2003. p. 245-246.

viu, também, a possibilidade de existirem sentenças mandamentais e executivas, sendo que a doutrina tradicional as classifica entre as três categorias anteriores. [...] A declaração, a constituição ou a condenação são os efeitos primários da sentença, também chamados de efeitos principais.

Acrescenta Arruda Alvim:64

Por outro prisma, classificam-se as ações tendo em vista basicamente os efeitos processuais especialmente visados pelo autor, quando propôs a demanda. Está, nesta classificação, portanto, relevantemente considerado o critério da simetria ou congruência, a que já nos referimos, dado que, sendo a sentença de recebimento total da ação, produzir-se-ão, precisamente, aqueles efeitos colimados pelo autor. Segundo esse critério, são as sentenças declaratórias, constitutivas e condenatórias (precipuamente no processo de conhecimento), em função do tipo de ação proposta.

Cabe, por fim, citar lição de Humberto Theodoro Júnior a respeito do tema:65

Classificam-se, portanto, as sentenças em: a) sentenças condenatórias; b) sentenças constitutivas; c) sentenças declaratórias. [...] Assim, de par com a tradicional classificação das sentenças em condenatórias, declaratórias e constitutivas, existem também as sentenças homologatórias, que são aquelas de mera verificação de legitimidade de ato das partes para alcançar a auto composição do litígio.

Segundo Cássio Scarpinella Bueno,66 por "tutela declaratória" deve ser entendida

aquela em que o juiz, ao declarar o direito a uma das partes, protege-a suficientemente.67 Ele

elimina a crise de certeza existente no plano do direito material, declarando a existência ou a

inexistência de uma relação jurídica ou a autenticidade ou a falsidade de um documento.68

Sobre o tema, posiciona-se Flávio Yarshell no sentido de que69

[...] a tutela jurisdicional declaratória presta-se a sanar “crises de certeza”, prestando-se a eliminar dúvida objetiva acerca da existência, inexistência ou modo de ser de uma relação jurídica.

O direito a certificação - ou o direito a certeza jurídica -, embora possa ser divisado no plano substancial, reputa-se uma decorrência inafastável do próprio direito de ação e da garantia de acesso à tutela jurisdicional.

                                                                                                                         

64

ALVIM, Arruda. Manual de direito processual civil. 8. ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2003. v.2, p. 652. 65 THEODORO JÚNIOR, 2009, p. 590. 66 BUENO, 2010. v. 1. p. 339. 67

Importante referir que, conforme a natureza do pedido, “a ação declaratória pode assumir o caráter de uma ação declaratória positiva ou negativa, segundo se peça a declaração da existência ou da inexistência da relação jurídica” (SILVA, Ovídio A. Baptista da. Curso de processo civil, v. 1. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris, 1987, p. 121-122).

68

Segundo Cássio Scarpinella Bueno, não só as sentenças veiculam conteúdos declaratórios, constitutivos, condenatórios, executivos latu sensu ou mandamentais. As decisões interlocutórias que resolvem incidentes também são capazes de produzir os mesmos efeitos. (BUENO, 2010, p. 339).

69

Importante mencionar, por fim, o que afirma Cândido Rangel Dinamarco acerca da

tutela declaratória:70

A sentença meramente declaratória diz – se positiva quando afirma a existência de um direito e negativa, quando a nega. Toda sentença que julga improcedente a demanda do autor é declaratória negativa, menos a que julga improcedente a própria ação declaratória negativa, que é declaratória positiva.

A tutela declaratória visa, em última análise, a extirpar a incerteza, e está prevista no

Código de Processo Civil de 1973 em seu artigo 4º, inciso I – correspondente ao artigo 20 do

Novo Código de Processo Civil (Lei nº 13.105/2015). Essa modalidade de tutela jurisdicional não pretende agir ou interferir sobre o mundo externo em que se situam as partes, mas tão somente declarar algo que sempre ou que nunca existiu.

Não por acaso, a tutela declaratória era colocada em posição privilegiada na época do período liberal, uma vez que o Estado preocupava-se em circunscrever os poderes do juiz ao simples pronunciamento da “boca da lei” e defender as liberdades formais dos cidadãos.

Por meio de uma sentença declaratória, o juiz apenas declarava a existência de uma relação jurídica já formada pela autonomia privada de vontade, sem interferir sobre uma

situação jurídica ou condenar.71

As tutelas constitutivas, por outro lado, criam, modificam ou extinguem (total ou parcialmente) relações jurídicas. A intervenção do Estado-juiz justifica-se, nesses casos, para modificar o que existe fora dos limites do processo. Altera-se o estado jurídico de pessoas ou de coisas.

Segundo Fredie Didier Jr.,72 ação constitutiva é aquela que certifica e efetiva direito

potestativo. Direito potestativo é o poder jurídico conferido a alguém de submeter outrem à

alteração, criação ou extinção de situações jurídicas.73

Por fim, em relação à tutela condenatória, entende-se como aquela que é suficientemente capaz de estabelecer a certeza quanto a um direito, criando condições necessárias para que haja a reparação daquele direito reconhecido.

Cássio Scarpinella Bueno acrescenta ser correto afirmar que a tutela condenatória,74

tradicionalmente, era aquela que preparava um “processo de execução”, porque sua função                                                                                                                          

70

DINAMARCO, 2002, p. 220.

71

MARINONI, Luiz Guilherme. Teoria geral do processo. v. 1. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006, p. 237.

72

DIDIER JR., Fredie. Curso de direito processual civil. 13. ed. Salvador: Editora Jus Podivm, 2011, v. 2, p. 366.

73

Acrescenta Cássio Scarpilla Bueno que a tutela constitutiva acrescenta um novo status jurídico aos litigantes, diferente do anterior, que reinava antes do rompimento da inércia da jurisdição (BUENO, 2010, p. 341).

dentro do processo de conhecimento limitava-se a declarar a existência de violação a alguma obrigação ou dever jurídicos e a necessidade de aplicar uma sanção daí decorrentes.

Possível afirmar, nessa linha, que as tutelas condenatórias são aquelas em que o autor busca o Estado-juiz para a formação de um processo de conhecimento com dois objetivos: além da declaração, visa também a uma condenação do réu ao cumprimento de uma obrigação ativa ou omissiva.

Sob essa ótica, ensina Cândido Rangel Dinamarco:75

como toda sentença de mérito, a sentença condenatória, é portadora de uma declaração; o que distingue das demais é o segundo momento lógico, consistente na criação de condições para que a execução passe a ser admissível no caso, isto é, para que ela venha a ser a via adequada para o titular do direito buscar sua satisfação.

Na tutela condenatória, portanto, para que o credor possa obter uma tutela jurisdicional plena, é necessário que o devedor cumpra o que foi estabelecido na sentença voluntariamente, sem que haja a necessidade de o credor se utilizar dos meios executivos (cumprimento de sentença) para que o devedor seja forçado a cumpri-la.

Diante dessas considerações, tem-se claramente que a Teoria Trinária divide as espécies de tutela jurisdicional (sentenças ou ações) nessas 3 (três) modalidades de tutela.

Contudo, há quem defenda a existência de outra classificação para as espécies de tutela jurisdicional – corrente que não é a majoritariamente adotada na doutrina brasileira, mas que será mencionada, ainda que de forma breve. Trata-se da Teoria Quaternária.

Segundo a Teoria Quaternária, são 4 (quatro) as espécies de ação de conhecimento: ações executivas em sentido amplo, ações constitutivas, ações meramente declaratórias e as ações condenatórias. Segundo os defensores dessa corrente, a ação condenatória estaria excluída após o advento da Lei nº 11.232/2005, em decorrência do sincretismo.

Os que defendem essa corrente afirmam que a modificação do Código de Processo Civil, por consequência do advento da citada Lei,eliminou o conceito e a categoria das sentenças condenatórias puras em razão da outorga da eficácia executiva às sentenças meramente declaratórias e da generalização das sentenças dotadas de eficácia mandamental e

executiva latu sensu.76

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                            74 BUENO, 2010, p. 339. 75 DINAMARCO, 2002a, p. 229. 76

Benzer Belgeler