Esta força só pode ser compreendida corretamente se observarmos, antes de tudo, os exemplos que cercaram o jovem More. Temos de começar, é claro, com seu pai, John More, que ele amava profundamente. No epitáfio de Chelsea em 1532, Thomas descreve seu pai como “um civil agradável, gentil, inofensivo, piedoso,
justo e incorruptível”155, adjetivos nada comuns para aquela época e que, no futuro, poderiam ser aplicadas ao próprio filho. John More era um advogado que cresceu durante o fim do reinado de Henrique VI, viu a ascensão e a queda de Ricardo III e fez sua carreira nos governos de Eduardo IV e Henrique VII. Não tinha muito apreço por este último – inclusive envolveu-se numa disputa de seu filho Thomas quando este foi contra a política de impostos de Henrique VII e o pai foi para a prisão como uma espécie de represália – e, ao morrer em 1530, na idade avançada de 79 anos, desejou em seus últimos votos que rezassem sempre pela alma do rei Eduardo.
John More era um devoto que também olhava para o lado prático das coisas:
“Seu testamento mostra que sua piedade era convencional e sincera. Financiara o que se chamaria hoje de bolsas de estudo; a primeira para um estudante de teologia em Oxford e outra para um rapaz em Cambridge. Cada homem, ‘sendo um estudioso bom e virtuoso’ e também sendo um padre, receberia cinco libras por ano pelos próximos sete anos para rezar pela alma de John More e pelas almas de vários amigos e parentes – entre eles, como já foi dito, a de Eduardo IV. Ele desejava que seu funeral fosse realizado com um olho no custo e não ‘realizado com muita pompa’. O executor de seu testamento deveria dar quarenta libras em caridade aos pobres, às damas que não tinham dotes, aos prisioneiros e aos pobres compatriotas. Também deixou quarenta libras para o conserto de uma estrada que ficava perto da cidade de North Mimms, onde a família More tinha alguma propriedade”156.
O velho More podia distribuir essa quantia porque era um dos juízes mais populares de sua época em Londres. Construíra sua carreira com uma habilidade ímpar, partindo de uma família de comerciantes para uma próspera profissão pública. O mesmo fez com sua vida privada. Seu casamento com Agnes Granger lhe deu seis filhos e, apesar da morte de sua primeira esposa, John casou mais três vezes, sempre com viúvas que possuíam grandes somas de dinheiro. Era algo comum na época e não tinha nada a ver com dilemas morais ou amorosos; um
155 MORE, Thomas. “Epitaph in Chelsea Old Church”, in: Saint Thomas More – Selected Writings, Vintage
Books, 2004, pág.249.
156
homem público tinha de ter uma família e era sua função administrar a fortuna de suas esposas como se fosse um pequeno governo. Isso foi um ensinamento que foi transmitido rapidamente ao pequeno Thomas: a de que a família é um governo que deve ter sua ordem e que o homem é o estadista que a educa e a sustenta. O respeito que More tinha pelo pai era tão grande que, quando se tornou o segundo homem mais poderoso da Inglaterra, não hesitava em se ajoelhar perante o velho John e pedir sua benção sempre que fosse possível.
A profissão de John More determinou claramente o ensino de Thomas. Quando este tinha onze anos, encaminhou o filho para a escola de St. Anthony, onde teria um ensino baseado nas artes liberais, em especial o trivium e o quatrivium e onde também o rapaz aprendeu as regras básicas da retórica, na qual se tornaria um dos mestres no período humanista. Lá, o jovem aprendeu as distinções de Cícero a respeito da inventio, dispositio, elocutio, memoria e pronuntiatio, que jamais esqueceria até o resto de sua vida; além disso, treinou suas habilidades de disputa ao falar constantemente para os estudantes na tribuna ou no auditório da igreja, reproduzindo os elementos do exordium, narratio, divisio, confirmatio, refutatio e
peroratio.
“Isso não era nenhuma disciplina antiga, equivalente ao ensino dos ‘clássicos’ em nossas escolas contemporâneas; no século XV, o propósito desta educação era criar um grupo de administradores e advogados habilidosos. Era o treinamento perfeito para garotos ambiciosos, ou, pelo menos, para famílias que eram ambiciosas por eles”157.
Tudo leva a crer que Thomas More teve uma infância agradável e sempre com o ambiente de Londres arraigado em seus sentidos. Quando saía de Saint Anthony, no fim do dia, em direção à sua casa que ficava na Milk Street, era obrigatório passar pela Threadneedle Street, uma das ruas mais movimentadas da cidade. Esta o cercava por todos os lados e More percebia tudo:
“suas obras em prosa estão repletas de breves, mas vívidas descrições da vida de Londres, como o vislumbre de alguém urinando em um muro para ‘se aliviar em rua aberta’, os mendigos que mostravam em público o
157
estado de seus membros cancerosos nas ‘sextas-feiras do Salvador’, a ‘meretriz’ e seu ‘proxeneta’ e os lutadores em Clerkenwell que sofriam ‘tão grandes quedas’. Percorria seu caminho pelas vielas, calçadas e fontes d´água, através dos jardins, os mercados e as casas de cura, através de pequenas passarelas e passagens ainda mais minúsculas, entre os estábulos e os pátios de carpinteiros, os moinhos, os bordéis, as tavernas, os banhos públicos, sob arcos repletos de adornos com imagens de santos ou brasões de armas, dentro de galerias repletas de lojas, entre quartos cheios de artesãos, movimentando-se nas casas dos ricos e nos casebres cheios de lama habitados pelos pobres, escutando os gritos de ‘Que Deus esteja convosco!’ e ‘Bom dia!’, atravessando conventos, abadias e igrejas. A imagem de Deus brilhava por trás da ordem harmônica e sugeria autoridade às crianças da escola St. Anthony; esta mesma imagem, junto com a do Cristo crucificado sobre o mundo decaído, era constante nas ruas de Londres”158.
As andanças pelas ruas da cidade até casa terminariam logo. Um dia, por volta de 1490, em vez de levar o pequeno Thomas para a tradicional escola de Eton, como era o costume da época, John More decidiu que o filho seria escudeiro na casa de ninguém menos que seu amigo John Morton, conhecido também como o Arcebispo de Canterbury e o Lorde Chanceler da Inglaterra159. E é a partir deste momento que Thomas More entra no palco da política e começa a viver o seu papel no drama da vida.