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167 de instruir. A obra da educação pela propaganda social tinha na concepção de José Oiticica o sentido de formação do ser social. Ela deveria estar em consonância com a luta mais geral em prol de si mesmo e de todos. Ao passo que a instrução não vinculada aos compromissos da transformação social era um fim que se encerrava a si mesma e, portanto, não servia à formação de consciências autônomas. Educar não era a mesma coisa que instruir, e a educação não era sinônimo de instrução.

Essa distinção aparece em um artigo de José Oiticica, intitulado “Não há meio”, publicado, no final da segunda década do século XX, no jornal Spartacus, a propósito de uma conferência proferida pelo professor Manoel Bonfim, em sessão de propaganda comemorativa do assassinato de Francisco Ferrer:

Deseja o professor Bonfim que os trabalhadores conscientes incluam no seu programa de reivindicações a intrucção popular. Não basta exigir do Estado e dos patrões a diminuição das horas de trabalho, o aumento do salário, legislação sobre acidentes, pensões aos velhos etc. Cumpre exigir também, neste Brasil de analfabetos, a instrucção popular extensa e intensa. [...] Essa instrucção desenvolvida pondera o conferencista, é utilíssima ao trabalhador sob duplo aspecto: 1ª é vantajosa na luta de reclamações para orientar melhor as massas, congrega-las aos mesmos fins, dar-lhes um ideal humano sem o qual não pode haver Victória; 2ª é indispensável na organização de um regimen social novo em que o productor deve dirigir, ele próprio a produção, hoje dirigida injusta e desastrosamente pelo capitalista. [...] A conclusão portanto é que os trabalhadores militantes hoje devem reclamar antes de tudo instrucção. (Spartacus, ano I, nº 12, 18-10-1919, p.1).

Frente aos argumentos do conferencista, Oiticica conclui que não há o que opor ao conferencista, sobre a urgência em preparar tecnicamente os trabalhadores na constituição de uma sociedade nova e reitera seu argumento afirmando que em todos os meios anarquistas esse assunto é discutido e a sua importância reconhecida.

Nessa solenidade de comemoração à memória de Francisco Ferrer, o pedagogo responsável pelo modelo das escolas modernas de ensino racionalista, o conferencista defendeu a inserção na pauta de reivindicações dos trabalhadores, ao Estado e aos patrões, a organização de uma “instrução popular” destinada aos trabalhadores e aos seus filhos. Essa seria mais uma reivindicação a compor com outras trabalhistas que exigiam a diminuição de horas de trabalho, o aumento de salários, uma legislação sobre acidentes e pensão aos velhos. Oiticica primeiro mostra aos leitores de Spartacus os argumentos apresentados pelo conferencista em prol da luta pela “instrução popular”:

Oiticica, no auge da militância libertária, no ano 1919, concluía que de nada adiantaria, por exemplo, que os trabalhadores inserissem em seu programa de reivindicações a

168 trabalhador não estava na instrução a ser oferecida pelo Estado e pelos capitalistas, ao trabalhador deveria ser reservada uma outra educação em uma outra sociedade:

A instrução pública e profissional é monopólio do burguês. Ele arranca do trabalhador o dinheiro necessário a manutenção da escola, mas declara peremptoriamente: Quem te ensina sou eu. Terás a educação e a instrução que me convier. Preciso de oficiais, peritos, por isso tenho escolas profissionais. Preciso de engenheiros, médicos e professores e por isso tenho escolas superiores para os meus filhos ou para os teus filhos que se quiserem aburguesar, defender os nossos interesses, ser dos nossos. Esta última concessão eu faço porque me forças a isso com várias revoluções; entre elas a Revolução Francesa, mas estou disposto a não ceder mais nada. Aprenderás na minha escola a obedecer aos seus superiores, a respeitar como dogma, a propriedade particular, a reconhecer o meu capital como intangível, embora eu tenha obtido roubando, jogando. Para refrear os seus assomos de revolta e impedir que abras os olhos muito abertos mantenho o patrocínio da educação religiosa. Por ela aprenderás a reconhecer Deus e os mandamentos em que é pecado, punível com o inferno tocar de leve no meu capital e desobedecer as minhas ordens. Mantenho ainda, nas minhas escolas, a instrução moral e cívica para te fazer bom cidadão, cumpridor dos seus deveres, resignado e observador das leis que eu mesmo faço em meu proveito para te explorar a gosto. Si tugires e mugires, toco o telefone e logo movimento milhares de irmãos teus inconscientes como tu, armados de chanfalho e mosquetão e prontos a te assassinar em praça pública a te encarcerar na detenção e a te expulsar se fores estrangeiro. Serve-te assim? Si não serve é a mesma coisa. A canalha só tem uma função submeter-se. E o meio de sair disso?

Que valerá para o amanhã sonhado, essa educação capitalista que não passa de ofício, do catecismo e dos livrecos de moral burguesa?

Os trabalhadores querem a instrução técnica superior, porque a técnica inferior eles a tem. Mas a burguesia não permite ascensão do obreiro á técnica superior, sinão emburguesando-o, absorvendo-o, assimilando-o a sua casta.

O remédio é o que propomos ao inverso do professor Bonfim. Só teremos trabalhadores técnicos, engenheiros, médicos, professores, quando a direção geral da produção e da distribuição das riquezas estiver nas mãos do produtor, quando a sociedade em que vivemos deixar de ser capitalista para ser comunista. Não há outro meio. (Spartacus, Rio de Janeiro, ano I, nº 12, 18-10-1919, p.1, grifos nossos).

As objeções de Oiticica ao conferencista mostram algumas concepções de fundo. Em primeiro lugar, a distinção entre instrução e educação. A instrução, para Oiticica “de nada adiantaria ao trabalhador para a sua emancipação”, em contrapartida, a educação, como parte da propaganda social, deveria ser obra dos sujeitos que a empreendiam. Na perspectiva de Oiticica a educação deveria estar livre de vínculos com o Estado, com a Igreja e com os patrões capitalistas, e ser obra dos próprios trabalhadores.

As vantagens da instrução popular, segundo os argumentos do professor Bonfim, e que proporcionavam à massa “um ideal humano”, com a instrução as massas poderiam ser congregadas aos mesmos fins. Essa fala, embora não tenha sido diretamente retrucada, é combatida por José Oiticica que exibe uma perspectiva completamente oposta. Quando Oiticica concorda com o fato de os trabalhadores desejarem a educação superior, ele afirma

169 que isso corre porque os trabalhadores já são detentores da educação técnica interior.

Esses direcionamentos já haviam se expressado largamente nas campanhas movimentadas pelos discursos no jornal libertário em prol da organização das “nossas escolas”. Só essa educação talhada no terreno do próprio trabalhador teria condições de proporcionar uma educação para autonomia.

Essas convicções são reafirmadas, no relançamento do seu jornal Ação Direta em 1946, quando as atenções libertárias estão direcionadas para o cenário internacional, pois, no final da década de 1940, ações da propaganda social e as cenas da militância anarquista sobrevivem na celebração da memória libertária dos anos 1920.

Oiticica (1948, p.1) constata que a ação dos reformadores dâ instrução pública dos anos 1930 e 1940 produziu uma “catástrofe” em lugar de instaurar um ensino sistematizado, que proporcionasse aos alunos a aprender com método, pois para ele “aprender a estudar, é muito mais importante para a vida do que propriamente estudar”.

Feitas essas considerações, Oiticica comenta a contundência das reivindicações, mas esclarece que de nada adiantará ter uma escola sob a direção do governo capitalista, dos burgueses, que formará trabalhadores com uma instrução voltada para a sua perspectiva, e diz:

Não. A instrucção pública e profissional é monopólio do burguês. Ele arranca do trabalhador o dinheiro necessário á manutenção da escola, mas declara peremptoriamente: quem te ensina sou eu. Terás a educação e a instrucção que me convier. [...] Aprenderá na minha escola a obedecer aos seus superiores, a respeitar, como dogma à propriedade particular, a reconhecer o meu capital como intangível, embora eu tenha obtido roubando, jogando. Para refrear os seus assomos de revolta e impedir que abra os olhos muito abertos mantenho ou patrocino a educação religiosa.[...] Mantenho ainda nas minhas escolas a instrucção moral e cívica para te fazer bom cidadão, cumpridor dos teus deveres, resignado, observador das leis que eu mesmo faço em meu proveito para te explorar a gosto. [...](Spartacus, Rio de Janeiro, ano I, nº 12, 18-10-1919, p.1, grifos nossos).

Após argumentar que a educação burguesa não servirá para formar o livre pensador, mas nada mais será que uma escola para o adestramento do trabalhador que silencia a revolta. Oiticica afirma que a educação da perspectiva dos trabalhadores é a comunista:

Que valerá para o amanhã sonhado essa educação capitalista que não passa do ofício do catecismo, e dos livrecos de moral burguesa?

O remédio é o que propomos ao inverso do professor Bonfin. Só teremos trabalhadores técnicos, engenheiros, médicos, professores, quando a distribuição geral das riquezas estiver nas mãos do produtor, quando a sociedade em que vivemos deixar de ser capitalista para ser comunista. Não há meio! José Oiticica.

170 3.7 Princípios e fins: a carta abecê do catecismo anarquista de Oiticica

José Oiticica elaborou e apresentou no Congresso Comunista, realizado em junho de 1919, um documento intitulado Princípios e fins do comunismo, já que pois havia a necessidade de organizar diretrizes que serviriam como ponto de partida para um projeto de uma nova sociedade. Nesse período, circulava no movimento operário a idéia de fundar o Partido Comunista Libertário.

Nesse congresso ficou decidido que uma comissão estudaria a redação final do referido documento, introduzindo-lhe as alterações e inserções de propostas. No entanto, a repressão policial impediu a realização da segunda reunião que daria seqüência a esse trabalho. Uma nova reunião, em local diferente foi marcada sem que Oiticica pudesse participar, e o documento foi refeito integralmente pelo seu proponente. Segundo o seu relato no jornal Spartacus, na nova redação do referido documento procurou suprimir e acrescentar as observações que haviam sido formuladas pelos presentes na ocasião de apresentação do documento:

[...] eu refiz os cânones incriminados pondo-os de acordo com os pensamentos discrepantes, acho que estão virtualmente referendados pelo congresso essas declarações teóricas. Evidente me parece [necessária] a sua publicação [...] [pois]

muitas pessoas bem intensionadas lutam contra nós, conosco antipatizam por mal informados. Um resumo claro, metódico em formulas sucintas, facilmente mostrará o que pensamos e queremos e, estou certo, levará muitos a lerem os

nossos livros. Estes Princípios e fins serão a carta abecê introdutória do meu Catecismo anarquista que pretendo editar em livro. (Spartacus, Rio de Janeiro, ano I, nº 03, 16-08-1919, p.1).

Os acréscimos e as supressões acertadas no Congresso Operário, de junho de 1919, não foram realçados por Oiticica em sua redação final, porém o documento exibe as idéias que já eram apresentadas na revista A Vida, principalmente na coluna “Catecismo anarquista” que, embora sem assinatura, não oferece dúvidas de que o texto foi produzido por José Oiticica.

As idéias apresentadas em Princípios e fins do comunismo foram mantidas, possivelmente sem alterações significativas, em outro documento elaborado no cárcere entre 1924 e 1925, A doutrina anarquista ao alcance de todos, publicada pela primeira vez em 1926 como folheto, e posteriormente em forma de folhetins no jornal Ação Direta. A sua publicação se repete ao longo de seus 34 números entre 10 de abril de 1946 a 01 de maio de 1947, até ser lançado como livro em outubro do mesmo ano. Essas evidências indiciam, em certa medida, que as idéias de Oiticica formuladas, naquele congresso de 1919, se mantiveram sem revisões significativas por corresponderem às suas convicções durante três décadas.

171 primeira, com a denominação Princípios e fins, com 43 tópicos de teorias e concepções das bases da sociedade nova, e a segunda parte, Previsões práticas, com 33 ações que deveriam organizar e direcionar a luta revolucionária em prol da transformação social.

De seu conteúdo, alguns itens foram selecionados com o objetivo de delinear como deveria se organizar a sociedade nova almejada por Oiticica, após a consecução da revolução social. O documento, historicamente datado, traz as reverberações do período pós-Revolução Russa, das greves deflagradas no Rio de Janeiro nesse período. Além disso, nos anos da elaboração da carta magna do comunismo libertário, Oiticica ainda estava sob impacto moral, psicológico, político de sua primeira prisão, e tratava-se do mesmo período em que escreveu a sua peça Azalan!, já discutida no capítulo anterior.

Os conceitos direcionadores do documento Princípios e fins do comunismo são apropriações das idéias dos russos Mikhail Bakunin e Pietro Kropotkin e do comunismo libertário de Errico Malatesta. De seus 76 itens, destacaremos os subsídios da conformação da sociedade nova e algumas noções sobre a educação para com isso reunirmos evidências sobre como deveria se organizar a educação na sociedade da perspectiva de Oiticica:

Para Oiticica, a nova ordem social deveria suplantar a sociedade capitalista. Pelos argumentos apresentados nos três primeiros pontos do documento, o projeto dessa sociedade aparece intrinsecamente ligado ao ideal da felicidade de todos e por todos:

I - Os homens se associam para garantir a sua existência e reprodução, obter o máximo de felicidade, melhorar a espécie, física, mental e moralmente.

II - O máximo de felicidade de um depende do máximo de felicidade de todos.

III - Não correspondendo o regime social vigente a tais fins, achamos indispensável uma reorganização completa da sociedade. (Spartacus, Rio de Janeiro, ano I, nº 03, 16-08-1919, p.1).

Oiticica mostra os moldes da sociedade sob a ação de energias que ele classifica por meio da ciência, como base da construção do Comunismo Anárquico ou da Anarquia, sem a propriedade privada, livre para os pensamentos, as crenças, as ações, sem agiotagem e nem vícios:

IV - Só pela ciência se pode organizar a sociedade e manter-se com proveito.

V - Sociedade é a união instintiva dos homens para o aproveitamento máximo das energias cósmicas e desenvolvimento máximo das energias humanas, com o mínimo de desperdício total.

VI - As energias humanas são de cinco espécies: físicas (corpo são). Mental (inteligência), moral (vontade), prática (habilidade), social (solidariedade).

VII - É bem tudo quanto concorre para aumentar a energia útil ou evitar seu desperdício, e mal tudo quanto concorre para aumentar o seu desperdício de energias ou evitar o seu aproveitamento.

172 VIII - Um ato que acarrete desperdícios de energias cósmicas, será bom desde que aumente as energias humanas, principalmente a solidariedade.

IX - As energias cósmicas devem ser todas gratuitas como o sol e o ar. A terra, energia cósmica deve ser gratuita; condenamos, por isso sua repartição em lotes passíveis de compra e venda.

X - O aproveitamento da energias cósmicas se faz pelo trabalho.

XI - Todo indivíduo tem direito á porção de energia cósmica suficiente para manter- se com o maior conforto possível, enquanto viver, sem prejuízo do conforto alheio. Para isso deve concorrer com o máximo do trabalho útil exigido pela sociedade. [...] XIV - A propriedade particular nasceu do roubo e da mão armada e se mantém pela violência dos possuidores e pelo roubo dos possuidores sobre os pequenos. [...]

XVI - Sendo a concorrência econômica a luta entre o homem para a apropriação do gozo individual do máximo de energias úteis, produz extraordinários desperdícios de energias, criando serviços supérfluos ou prejudiciais (reclamos, agentes, processos, tribunais, polícia, exércitos, esquadras, funcionários, diplomatas e comerciantes). XVII - Para manter esse regimem os possuidores garantem a sua posse por meio do Estado.

(Spartacus, Rio de Janeiro, ano I, nº 03, 16-08-1919, p.1).

Os conceitos de “trabalho”, “energia” e de “desperdício de energia” foram antes tratados no artigo “O desperdício da energia feminina”, publicado entre 1914 e 1915 na revista A Vida, já mencionado neste capítulo. Tais considerações partiam da mistura dos conceitos de Adam Smith e as proposições dos teóricos do anarquismo. Além disso, combinavam as idéias de uma sociedade sem o poder do Estado, sem o dinheiro e com a propriedade coletiva da terra. Os juízos sobre bem e mal são balizados pelo fim da propriedade privada e o surgimento do coletivismo solidário:

XXIV - Comunismo anárquico ou Anarquia é o regimen social sem agiotagem, XXV - Sendo a moeda o instrumento da concorrência não pode subsistir numa sociedade comunista,

XXVI - Todos os vícios humanos (fumo, alcoolismo, morfinismo, jogo, prostituição, cafetinismo, etc.) origina-se da concorrência econômica e são por ela mantidos e garantidos pelo Estado.

XXVII - Todo indivíduo tem direito de expor seus pensamentos e crenças, associar-se para fins recreativos, científicos, artísticos ou religiosos, desde que evite a agiotagem. [...]

(Spartacus, Rio de Janeiro, ano I, nº 03, 16-08-1919, p.1).

A “associação para fins recreativos, científicos, artísticos ou religiosos” era a perspectiva com que os libertários pensavam a educação como obra permanente da propaganda social. O combate aos “vícios humanos” fazia parte do projeto anarquista defensor da transformação radical da sociedade, mas não foram os anarquistas os únicos a

173 defenderem a “regeneração social”, como já foi argumentado no primeiro capítulo. A expectativa de formar o homem novo para a sociedade nova também fazia parte de outros projetos que circularam no Brasil nas décadas iniciais do século XX. Pudemos observar, a partir do que foi caracterizado pelos personagens das peças produzidas por Oiticica, que os seus procedimentos também eram de reprovação e combate a todas as formas de vícios, ao dinheiro e a todas as formas de desigualdade.

Na sociedade nova projetada por José Oiticica, a julgar pelo seu documento prescritivo, a educação deveria estar organizada e orientada pelas ciências, e as faixas etárias deveriam obedecer à gradação semelhante ao que era aconselhado pela psicologia em consonância com o escolanovismo de todas as cores ideológicas que circulavam naquele período:

XXVIII - A educação deve obedecer a seguinte orientação psicológica: até os sete anos em geral a criança educa as percepções; dos sete aos quatorze aprende as noções; dos quatorze aos vinte e um desenvolve o raciocínio. Deve haver depois três graus: elementar, primário e secundário.

XXIV - A educação profissional (energia de habilidade) acompanhara gradativamente a educação mental.

XXX - O ensino deve ser integral até os vinte anos e garantido para todos. Os indivíduos que revelarem vocações especiais deveram se especializar em curso superior (medicina, engenharia, pedagogia e ciências puras , etc.

XXXI - A educação comunista visa desenvolver o mais possível a energia de todos. (Spartacus, Rio de Janeiro, ano I, nº 03, 16-08-1919, p.1).

José Oiticica, como um leitor de Errico Malatesta136, se opunha à moral da sociedade burguesa, no entanto, como seu inspirador, a negação da “cultura burguesa” não significava em hipótese alguma a ausência da moral ácrata. Ao contrário, na sociedade nova exigia-se um comportamento, cujos códigos de conduta são os seguintes:

XXXII - A sociedade comunista visa extinguir os prazeres prejudiciais, facultando a todos os prazeres físicos, espirituais e morais verdadeiramente proveitosos.

XXXIII - A sociedade comunista por meio de seus congressos científicos visa dar ordem as pesquisas científicas, feitas hoje sem orientação geral. [...]

XXXVII - Toda mulher deve ter o curso completo de pedagogia e definir-se ser ou não professora.

XXXVIII - O amor deve ser livre como o pensamento e o trabalho, de qualquer tirania ou preconceito. Amor livre não quer dizer licencioso, mas libertado, não é promiscuidade de sexo, mas liberdade de se unirem os sexos por afeição recíproca,

136 Errico Malatesta, em sua obra A solução anarquista para a questão social, assim se pronunciou sobre a moral burguesa: [...] nós achamos péssima a moral burguesa; mas não se pode conceber uma sociedade sem moral [...] ( A vida, Rio de Janeiro, ano I, nº4 , 28-02-1915).

174 sem medo de constituir família, pois a sociedade comunista garante a manutenção de todas as crianças.

XXXIX - Reconhecemos necessária e moral a prática da eugenia, para melhorar a espécie humana e evitar maior degenerescência.

XL - Proclamamos como ideal humano a monogamia e aceitamos como princípio moral a fidelidade dos esposos.[...]. Eis os princípios teóricos. No próximo número virão as previsões práticas. (Spartacus, Rio de Janeiro, ano I, nº 03, 16-08-1919, p.1).

Previsões práticas, constituiam a continuidade do documento Princípios e fins do

comunismo de Oiticica. Ao apresentar o documento aos leitores do jornal Spartacus, expunha- lhes a dificuldade de prever como se daria a organização comunista, mas para além dessas dificuldades ele considerava importante propor uma organização ideal e transformá-la em um objetivo a ser alcançado. Por essa razão, o documento se ocupava principalmente de projetar as formas de organização da nova sociedade.

No comunismo anárquico, idealizado por Oiticica cada país deveria ser dividido em zonas federadas, cada zona em município, e cada município em comunas. Cada classe comunal deveria escolher um conselho comunal; cada conselho comunal o municipal; cada conselho municipal, o federal; e cada conselho federal escolheria um delegado para o conselho internacional. Os sujeitos responsáveis para cada uma dessas instâncias não

Benzer Belgeler