Como vimos, o envolvimento de populações africanas ao longo do continente asiático se faz em função de um conjunto de deslocamentos humanos em que se torna difícil precisar a sua origem, e perpassam por diversos contextos históricos, até culminarem nos dias atuais. Igualmente antiga, o lado oposto desta relação – o envolvimento de populações asiáticas ao longo do continente africano – apresenta-se também como um amplo conjunto de fluxos migratórios que possibilitaram não somente o povoamento de determinadas regiões e ilhas do continente africano, mas também, estiveram flertando com a construção de impérios e a solidificação de práticas religiosas e culinárias de diversas populações africanas ao longo dos séculos.
Frutos de uma relação milenar e tão antiga quanto o desenvolvimento da humanidade, a abrangência e a intensidade com que ocorreram os envolvimentos de populações asiáticas no continente africano, se tornaram tema de inúmeros debates científicos na Europa. Para ser mais preciso, este foi um tema recorrente ao longo de todo o contexto de envolvimento europeu no continente africano, mas, sobretudo nos primeiros decênios do século XIX. Esta perspectiva – da qual a Alemanha se tornou o grande centro de investigação europeu sobre a África – se dava muito mais em função da crença na falta de autonomia africana na criação e produção de sua própria cultura do que propriamente na compreensão do papel que populações asiáticas desempenharam neste continente ao longo dos séculos.
Nessa época, segundo Dmitri Alexeyevich Olderogge (2010), a Alemanha desempenhava um papel de vanguarda nos estudos etnográficos e linguísticos sobre o continente africano, sendo um ponto fundamental para a formulação de teorias que surgiram posteriormente no continente europeu. Assim, por toda a Europa ocidental criou-se um enorme conjunto de etnólogos, que embasados em teorias alemãs sobre os povos africanos,
29 Também conhecido por Jorge Ben, é um artista brasileiro capaz de harmonizar diversos estilos e ritmos
musicais ao estilo da tradição da história oral, tão cara às populações africanas ao entoar o canto intitulado por
Taj Mahal: “Foi a mais linda história de amor, que me contaram e agora eu vou contar. Do amor do príncipe
48 defendiam que as características culturais presentes no continente africano ocorriam em função de vagas migrações vindas da Ásia. Já os linguistas europeus, elaboravam as bases da teoria Camítica, na qual populações provenientes do continente asiático proporcionaram as
grandes bases linguísticas das populações africanas.
Para Hegel, foi na Ásia que a luz do espírito despertou e que a história da humanidade teve seu início. Os estudiosos europeus tinham por indiscutível a ideia de que a Ásia, berço da humanidade, foi lugar de origem de todos os povos que invadiram a Europa e a África. Assim, parecia evidente para o etnógrafo inglês Stow que os mais antigos habitantes da África – os San – tivessem vindo da Ásia em duas vagas migratórias distintas, os San pintores e os San gravadores; esses dois grupos teriam seguido trajetórias diferentes, cruzando o mar Vermelho pelo estreito de Bab el-Mandeb. Após terem atravessado as florestas equatoriais, os dois grupos reencontraram-se no extremo sul do continente africano (OLDEROGGE, 2010. p. 296).
Ainda segundo esta perspectiva, sucessivas ondas migratórias de negros com cabelos crespos oriundos de regiões dispersas pelo sudeste asiático foram preenchendo regiões da savana sudanesa e introduzindo técnicas agrícolas que propiciaram o cultivo de bananas, sorgo e gramíneas, disseminando também a produção e manuseio de utensílios à base de madeira e flechas para abatimento de animais. Destes contatos no continente africano deram a origem a povos proto-camitas, populações que a partir de uma combinação de misturas e
migrações deram origem aos povos Bantu.
Por mais que atualmente, este tipo de teoria já não encontre mais fôlego dentro do debate científico30, ela nos possibilita apontar invariavelmente para uma posição: a complexidade que existe em determinar se um conjunto de técnicas e/ou práticas encontradas ao longo de diversas épocas no continente africano possuem uma origem africana, ou são resultado de uma influência asiática.
Além disso, a dificuldade em estabelecer a cronologia de períodos remotos da Antiguidade faz com que qualquer atribuição de “paternidade” seja aleatória. As datações pelo carbono 14 são demasiado vagas para que se possa determinar com uma aproximação de um ou dois séculos, num meio em que o conhecimento sempre se transmitiu rapidamente, se a origem de uma invenção é asiática ou africana (EL-NADOURY e VERCOUTTER, 2010, p. 120).
30 Em função de um conjunto de novas hipóteses, teorias e provas arqueológicas que reafirmam o papel de
populações africanas como vanguardistas na criação da cultura, da agricultura, na domesticação de animais e nas complexas formações linguísticas, religiosas, artísticas e medicinais (FONSECA, 2008a, 2015; GREENBERG, 2010; KI-ZERBO, 2010a; KOBISHANOV, 2010; MABOGUNJE, 2010; OLDEROGGE, 2010; PORTÈRES e BARRAU, 2010).
49 Para além das barreiras do tempo e da imprecisão das datações em carbono 14, estas questões nos possibilitam a indicação de que estes vínculos asiáticos no continente africano são também milenares, e perpassam longos períodos históricos. Nesse sentido, já se pode verificar alguns esforços que buscam dar conta de reconfigurar e ajustar as antigas teorias alemãs que atribuíram um peso exagerado no papel dos povos asiáticos no continente africano.
Sendo assim, pode-se verificar em trabalhos como o de Gordon Kerr (2012, p. 15) a existência de “um elevado nível de comunicação entre as diferentes regiões do continente (africano) e a Ásia”, que possibilitaram a difusão e intercâmbio de um conjunto de técnicas agrícolas africanas e asiáticas, “onde, em troca de uma série de espécies vegetais domesticadas, como o sorgo, África recebeu outros cereais – trigo e cevada, por exemplo. As bananas, o inhame roxo e o taro chegaram do sul da Arábia através da costa oriental de África”. Para além deste conjunto de vegetais, cereais e frutos, alguns autores atribuem a existência de um complexo botânico tipicamente malaio ao longo da costa oriental do continente africano, fruto de um processo milenar existente entre o sudeste asiático e o continente africano:
Hornell e os Culwick estudaram as ressonâncias culturais indonésias na costa oriental africana. Mais recentemente, G. P. Murdock referiu-se a um “complexo botânico malaio” onde se incluem as plantas introduzidas em épocas remotas, vindas do Sudeste Asiático. Entre elas o autor menciona o arroz (Oryza sativa), a araruta polinésia (Tacca pinnatifida), o taro
(Colocasia antiquorum), o inhame (Discorea alata, D. bulbiiera e D. esculenta), a banana (Musa paradisiaca e M. sapientium), a fruta-pão
(Artocarpus incisa), o coqueiro (Coco nufera), a cana-de-açúcar (Saccharum officinarum), etc. Acredita Murdock que as migrações indonésias
responsáveis pela introdução desse complexo botânico em Madagascar ocorreram no primeiro milênio antes da Era Crista, tendo percorrido as costas meridionais da Ásia antes de chegarem a África oriental (VÉRIN, 2010. p. 778).
Fica válido ressaltar, que este conjunto de plantas e técnicas agrícolas da qual se atribui a populações asiáticas a introdução no continente africano, deve tomar por base a dinâmica presente no próprio continente africano para a sua introdução, ou seja, é fato de que se faz necessário a busca em compreender as fronteiras africanas de modo a dialogar com contribuições oriundas de outros continentes, como no caso a Ásia. Porém, não se pode omitir o fato de que as novas intervenções técnicas no continente africano sempre estiveram orientadas em função de técnicas pré-existentes, o que faz com que toda intervenção externa esteja necessariamente orientada por forças internas já postas em ação, “é por esse motivo que
50 o arroz asiático foi cultivado onde já existia o oryza aborígene africano, e a mandioca, onde
existia o inhame” (KI-ZERBO, 2010a. p. 399), não havendo, portanto, uma intervenção imposta ao continente africano, aos moldes do que se pode verificar no contexto colonial europeu do século XV em diante, mas sim uma relação de troca mútua entre os continentes da África e da Ásia, corroborando a perspectiva de complementaridade histórica sugerida por Claude Lévi-Strauss (2000).
Outro ponto importante sobre estes contatos se faz a partir do domínio das águas oceânicas que os separam, este, aliás, vem sendo um ponto ao qual diversos autores têm se debruçado. Entre aqueles que possibilitam a reflexão dos contatos afroasiáticos por via marítima, Luís Goytisolo (1992) apresenta como de grande utilidade se pensar a influência do Oceano Índico para o desenvolvimento e florescimento das populações costeiras da África e da Ásia, pois para o autor é preciso desconstruir a imagem de exotismo, mística e a pré-noção de que o Oceano Índico é um imenso oceano sem atividade humana até a vinda dos exploradores hispânicos pela Ásia. Este, na verdade, constitui um olhar enraizado pela perspectiva ocidental:
Nos habituamos a considerar o Ocidente como o centro do mundo, o Oceano Índico não só sugere outra imagem que a de algo remoto, exótico e em grande medida primitivo [...] embora pouco conhecido pelo mundo clássico Greco-latino, a costa do Índico vem há milênios desenvolvendo uma vida própria, não menos rica e complexa do que a existente no Mediterrâneo (GOYTISOLO, 1992. p. 7, Tradução Nossa)31.
Nesse sentido, as habilidades e os domínios das técnicas de navegação, aliadas ao conhecimento climático das monções, possibilitariam a navegação, o florescimento do comércio, e o povoamento de algumas regiões, já que territórios como de Madagascar foram povoados por populações de origem malaia que chegaram “a estas terras desde as ilhas que formam o arquipélago indonésio ao longo do primeiro milênio de nossa era” (GOYTISOLO, 1992. p. 110, Tradução Nossa)32.
31 Do original “Habituados a considerar a Occidente como centro del mundo, el Índico no suele sugerir otra
imagen que la de algo remoto, exótico y, en gran medida, primitivo […] aunque poco conocida por el mundo clásico Greco-latino, la cuenca del Índico llevaba la milenios desarrollando una vida propia no menos rica y compleja quela del Mediterráneo”.
32 Do original “a estas tierras desde las islas que forman el archipiélago indonésico a largo del primer milenio de
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