1. BÖLÜM
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4.3.7. Fiil + -DAçI + ermiş
D. Afonso era neto dos primeiros condes de Vila Nova, D. Martinho de Castelo Branco e D. Mécia de Noronha, em resultado da união natural de D. António de Castelo Branco, deão da Sé de Lisboa, com Guiomar Dias. Nada se sabe dos primeiros anos de vida e da sua educação, até ingressar nos estudos da Universidade de Coimbra, onde se formou primeiro em Humanidades, tendo obtido depois os graus de Mestre em Artes (1557) e de Doutor em Teologia (1565).
As circunstâncias do seu nascimento não obstaram ao prosseguimento de uma carreira fulgurante, sendo distinguido sucessivamente com cargos eclesiásticos e oficiais do Reino: arcediago de Penela e do Bago da diocese de Coimbra; deputado da Mesa da Consciência e Ordens (1572); comissário-geral da Bula da Cruzada; esmoler e capelão de D. Sebastião
(1577); esmoler-mor, conselheiro e deão da capela de D. Henrique; bispo do Algarve (1581- 1585) e de Coimbra (1585-1615); e vice-rei de Portugal (1603-1604). De todos eles, o ofício que lhe deu maior notoriedade foi o de bispo-conde de Coimbra, pelo qual veio a ser recor- dado.
D. Afonso patrocinou, ao longo dos trinta anos da sua prelatura, um importante pro- grama de obras de arquitectura e de arte em Coimbra, que o distinguiram, à época, como prelado liberal e magnificente43. A sua memória foi aclamada e enaltecida em diversas pu-
blicações e crónicas da Época Moderna, e muito em particular no relato biográfico redigido por João de Almeida Soares e intitulado Vida, e morte, de Dom Afonso Castelbranco Bispo de Coimbra Conde de Arganil, Senhor de Coja, e Alcaide mor de Arouca, Vizo Rei deste Reino
Ilustrações 5 e 6
Armas de fé e assinatura do bispo-conde D. Afonso de Castelo Branco.
© Túmulo de D. Afonso de Castelo Branco, 1633, claustro da Sé de Coimbra. Fotografia da autora © Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Corpo Cronológico, Parte I, mç. 112, n.º 111
dito Portugal, que não chegou, contudo, a ser publicado, mas do qual se conhecem três có- pias manuscritas44.
A forte carga laudatória que sobressai da leitura da obra, eivada de comparações com a história da Antiguidade Clássica, se por um lado deriva do registo biográfico formal da época, não deixa por outro de revelar a impressão forte com que D. Afonso marcou Coimbra e a sua época. O seu biógrafo declara-o verdadeiro «Príncipe da Igreja» pela autoridade e liberalidade com que regeu o cargo de bispo-conde, começando, tal como fizera em Faro, por se preocupar com o paço episcopal, remodelando-o e ampliando-o para albergar a sua
casa com a dignidade requerida45.
Tomou mais criados, que ali se viram nunca a Bispo, mais Capelães, maior estado, mais cavalos, mais cães de caça de que era muito curioso, e em tudo mais avantajado, e como lhe enfadava di- nheiro encantado não se contentou com o Paço em que viviam seus antecessores, que realmente não estava já muito decente para tanta renda, e tanta autoridade, mas ele era Príncipe, o ânimo de Príncipe, as obras de Príncipe, e as esmolas de Santo.
Com toda a brevidade fez logo pôr em efeito o paço, que hoje em respeito do outro chamam novo, que lhe passou de oitenta mil cruzados, com suas galerias, chafarizes, pátios, e todos os mais requisitos para aposento de um grande senhor46.
O paço adquiriu uma feição clássica próxima à que hoje ainda podemos admirar, com as alas organizadas em torno de um pátio central, mais condigna com os preceitos da ar- quitectura residencial moderna. Mas, a respeito do provimento do interior das casas, só possível de avaliar a partir de descrições coevas, Almeida Soares pouco avança, além da referência aos «requisitos para aposento de um grande senhor» sem especificar quais seriam. A biografia não permite perceber o nível das escolhas realizadas pelo bispo-conde, mas, afortunadamente, conhece-se documentação que nos dá pistas a este respeito. Sabe-se, por exemplo, que algumas divisões terão, nesta altura, recebido pintura mural e que terão sido decoradas com as peças de D. Afonso de Castelo Branco. Ainda não é conhecido o seu inventário de bens, certamente a cargo do seu guarda-roupa Martim de Palma, mas é possí- vel listar alguns a partir da relação de objectos que deixou por doação entre vivos às sés do Algarve e de Coimbra (1598, 1599 e 1602) e ao colégio de Jesus (1600), após a sua morte47.
Os bens do bispo-conde incluíam, de acordo com os padrões da época para as casas da aristocracia, valiosos têxteis concebidos para efeitos de exposição no paço, e cedidos para ornato da Sé em dias de festa. O conjunto abrangia várias alcatifas e diversas cortinas com seus setiais; quatro panos, um guarda-pó de veludo e um dossel de tela de ouro, outro dossel de veludo roxo de fundo de ouro; e quinze tapeçarias. Estas últimas representavam os temas da Ressurreição de Cristo, a Sepultura de Cristo, Nossa Senhora, a Caridade, e os Meses do Ano (ciclo incompleto de onze panos de armar). Somavam-se, ainda, diversos paramentos ricos, dentre os quais se destacam os quatro pontificais completos das cores do calendário litúrgico (branco, roxo, carmesim e verde). De mobiliário, apenas se cita uma cadeira de pontifical de brocado, que se imagina ter decorado o salão principal do paço episcopal sob um dos dois dosséis «de brocado riquíssimos, bordados com suas insígnias»48.
tos musicais, composto por «charamelas, frautas, manicórdios, cravisinal e baixões, violas d’arco, e outras mais pequenas, e de todos os mais seus instrumentos músicos com suas cadeiras e caixões e livros de canto e música»49. Esta relação indica que a casa do bispo era,
tal como a de D. Teotónio de Bragança, servida de música, quanto mais não fosse, no ofí- cio da missa na sua capela ou oratório. Acerca deste, pode ter-se uma noção dos objectos aí dispostos em 1598: as duas tapeçarias de seda e ouro representando a Ressurreição e a Sepultura de Cristo; uma cruz dourada e outra de prata, um gomil e salva de prata dourada, entre outras alfaias.
Por seu turno, na livraria, actualizada com as mais recentes edições que se iam publi- cando e que lhe eram remetidas pelos seus agentes em Roma, expunha-se o ciclo de Tobias executado por Mateus Coronado50, pintor da sua casa. Trata-se de um conjunto de oito tá-
buas (hoje no Museu da Universidade de Coimbra) cobertas por cortinas de tafetá verde armadas em vergas de ferro como era costume à época. D. Afonso de Castelo Branco tinha ainda, entre as suas pinturas, um Apostolado, uma tábua representando Cristo e um retrato de D. João III – todas elas oferecidas ao Colégio de Jesus, juntamente com a sua livraria, as cortinas verdes e o conjunto de panos de armar dos meses do ano.
O rol de bens sumptuários, elencado nestes instrumentos de doação, permite determi- nar melhor a forma como o bispo-conde habitava a sua residência e se fazia representar pu- blicamente. E mesmo que parcelares, estas notícias sobre o provimento do interior do paço episcopal de Coimbra contrastam com as descrições das casas de D. Jorge de Ataíde ou de D. Teotónio de Bragança. Ambos descendentes da principal nobreza de corte, quer o bispo de Viseu quer o arcebispo de Évora partilharam com Castelo Branco a cultura erudita, espe- lhada nas grandes e actualizadas livrarias (respectivamente legadas às Cartuxas de Laveiras e de Évora). Todavia, no que respeita ao modo de vida, as fontes biográficas descrevem a moderação da decoração interior das suas casas.
Pelo contrário, D. Afonso parece não ter abdicado das práticas de consumo e códigos de conduta da aristocracia. Dispondo de uma rede de contactos assegurada pelos seus agen- tes em Lisboa, o bispo-conde mantinha-se informado acerca dos objectos que circulavam nos mercados da capital e de Goa. Provam-no as encomendas que realizou, mandando vir sedas e porcelanas de Lisboa ou, noutra ocasião, pedindo charamelas e alcatifas a Matias de Albuquerque, vice-rei da Índia (1591-97), aquando do seu regresso à metrópole51.
A dimensão principesca e áulica de D. Afonso de Castelo Branco é sugerida não só pelos bens de luxo que possuiu e pelo tamanho da sua casa (cerca de 60 oficiais, familiares e criados ao seu serviço52), como pela prática de actividades de recreio. No tempo livre dei-
guras da sua proximidade mais estreita, conversando e praticando jogos, aliás «jogos lícitos» como faz questão de salientar o seu biógrafo53. O repouso procurava-o nas propriedades
da Mitra. Nas breves temporadas passadas nas quintas e coutadas do bispado, D. Afonso praticava a caça e a pesca e contemplava a natureza, encontrando a reconciliação interior necessária ao prosseguimento do seu dever. Os muitos cavalos e cães que possuía sublinham o seu interesse pela actividade venatória, motivo pelo qual solicitou a Filipe II, logo após tomar posse, a renovação do privilégio da coutada de Coja54. Mas, foi sobretudo a quinta
de São Martinho55 e, mais tarde na vida, o Couto de Lavos que o bispo-conde elegeu como
lugares de descanso.
Os códigos políticos, culturais e sociais que praticou, além de poderem estar relacio- nados com a leitura da tratadística que os havia fixado, terão sobretudo procedido das suas origens familiares nobres e da sua educação na infância e juventude, dos seus estudos na Universidade de Coimbra e da experiência política na corte antes e após a crise dinástica. Uma vida onde se cruzaram múltiplas influências e valores característicos dos meios de elite por onde se moveu e que acabaram por participar de uma mentalidade comum.
D. Afonso de Castelo Branco combinou as duas realidades – religiosa e temporal – de forma paradigmática, sem colocar em causa o ideal tridentino. Soube, por isso, aliar às com- petências de um bispo atento às necessidades espirituais da sua diocese e cumpridor das suas obrigações, as qualidades de um regente secular, liberal e magnificente que encontrava nas realizações materiais o reflexo do seu bom governo.
OS PAÇOS E OS MODELOS DE REPRESENTAÇÃO EPISCOPAL.