Partimos do pressuposto de que o trabalho é uma atividade inalienável do homem, condição de sua perpetuação enquanto espécie humana ou ser genérico, social. “O trabalho, como criador de valores-de-uso, como trabalho útil, é indispensável à existência do homem, – quaisquer que sejam as formas de sociedade, – é necessidade natural e eterna de efetivar o intercâmbio material entre o homem e a natureza e, portanto, de manter a vida humana.”61 Esta proposição de Marx em O Capital nos dá a confirmação de que o trabalho é algo irrevogável hoje na sociedade complexa, com as suas múltiplas e infinitas necessidades, das quais algumas perecem, outras permanecem e novas aparecem, a partir do desenvolvimento das forças produtivas, juntamente com a evolução das relações sociais de produção. O próprio Engels – criticando Adam Smith que concebe o trabalho apenas como dispêndio de força de trabalho, isto é, como sacrifício do ócio, da liberdade e da felicidade – entende o trabalho como uma função normal da vida.62 Não é à toa que Marx, já na A Ideologia Alemã63, afirma que o trabalho é o único laço que une os indivíduos ainda às forças produtivas e à sua própria existência, mas o trabalho não é mais a manifestação dos próprios indivíduos na sociedade capitalista, sua exteriorização ou objetivação consciente e voluntária, e sim uma atividade que desrealiza o próprio indivíduo, à medida que só mantém sua vida degenerando-a, quer dizer, limitando a existência humana à sua pura sobrevivência física natural. Nos Manuscritos Econômico-Filosóficos64, o trabalho aparece (positivamente) como atividade vital, vida produtiva do homem, logo é uma atividade criativa e consciente, diferente da do animal que é a sua própria atividade vital.
Estes são, certamente, os pressupostos teóricos marxianos mais importantes que reafirmam o trabalho como condição sine qua non de efetivação da vida humana em
60
LUKÁCS, História e consciência de classe, p. 89.
61
MARX, O Capital, v. I, p. 50.
62
Cf. Ibid., v. I, p.54, nota 16.
63
Cf. MARX e ENGELS, A Ideologia Alemã, p. 82.
64
sociedade, ou seja, condição eterna de realização da troca metabólica entre o homem e a natureza e entre os próprios homens no seu processo (re)produtivo. Nesse sentido, tais pressuposições são elementos reflexivos inelimináveis para se contrapor aos modismos teóricos que tentam forjar “um Marx” que nega totalmente o trabalho, em seu sentido
universal, para fundamentar a ideologia da “sociedade sem trabalho” ou do “ócio absoluto”,
isto é, para se opor aos ideólogos que limitam a reprodução social a uma tarefa puramente tecnológica, baseada num total automatismo do trabalho. Dessa forma, o presente texto pretende explicitar a concepção marxiana de trabalho em suas obras clássicas, sobretudo, nos
Manuscritos Econômico-Filosóficos e em O Ca pital, para saber como Marx apresenta o caráter positivo e negativo do trabalho. Nesta obra juvenil de 1844, essas pistas positivas do trabalho podem ser obtidas a partir de uma releitura do Manuscrito – “Trabalho Alienado ou
Estranhado” –, fazendo, portanto, uma leitura inversa do “trabalho estranhado”, ou seja, como seria o “trabalho não-estranhado”; como também na sua obra maior, O Capital, em que ele apresenta tais caracteres – positivo e negativo – apontando a sua superação numa forma social superior onde o trabalho se resgata enquanto atividade vital prazerosa e criativa do ser humano na sociabilidade comunista.
Nos Manuscritos Econômico-Filosóficos, Marx nos fornece “nas entrelinhas” uma
concepção positiva do trabalho a partir da sua exposição negativa do trabalho, ou seja, o trabalho seria, nesse sentido, o oposto do trabalho estranhado, na forma de objetivação enquanto alienação
positiva humana. Fazendo a crítica do “trabalho alienado” ou “estranhado”, Marx nos dá os
elementos intrínsecos e fundamentais, presentes no seu discurso, contra a forma de alienação da atividade prática, para uma concepção superior de trabalho.
Todavia, toda a reflexão marxiana nos Manuscritos parte de um fato econômico contemporâneo, a saber, as condições do trabalho a partir da propriedade privada capitalista. Mas, de forma negativa, Marx descreve a condição laboral do trabalhador da seguinte maneira:
O trabalhador torna-se tanto mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão. O trabalhador torna-se uma mercadoria tanto mais barata, quanto o maior número de bens produz. Com a valorização do mundo das coisas aumenta em proporção directa a desvalorização do mundo dos homens. O trabalho não produz apenas mercadorias, produz-se também a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria, e justamente na mesma proporção com que produz bens.65
Se fôssemos inverter essas asserções, poderíamos dizer que o trabalhador torna-se tanto mais humanamente rico, quanto mais riqueza produz (racionalmente) para toda a sociedade, quanto mais a produção aumenta em poder e extensão, para haver uma equitativa
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distribuição com todos os trabalhadores sem haver a escassez, porque ninguém poderá mais se apropriar do trabalho alheio de forma extorquida. Com a não supervalorização do mundo das coisas, a valorização do mundo dos homens se efetivaria, pois o homem, deixando de ser mercadoria e/ou coisa, tornar-se-ia um ser genérico, senhor de si mesmo e daquilo que produz, e não servo da sua atividade vital, do seu trabalho. O trabalho livre das condições da
alienação capitalista, isto é, dessa forma perversa de “apropriação” enquanto alienação, mas
sob uma nova forma de associação produtiva, realizaria o homem como ser construtor- volitivo da sua vida social. Em outras palavras, o trabalho realizaria o trabalhador, a objetivação tornar-se-ia ganho e/ou assenhoreamento do objeto e a apropriação seria a própria recompensa do ato teleológico. McLellan cita um trecho dos Manuscritos Econômico- Filosóficos que representa para ele uma espécie de contrapartida positiva à descrição do trabalho alienado, senão vejamos na íntegra:
Suponhamos ter produzido enquanto homens: cada um de nós teria, em sua produção, afirmado duplamente a si mesmo e ao outro. Eu teria: 1) objetivado, em minha produção, a minha individualidade e a sua peculiaridade, e teria assim desfrutado, no curso da atividade, de uma manifestação individual da vida, assim como, ao contemplar o objeto, teria desfrutado da alegria individual de experimentar a minha personalidade como objetual, sensivelmente visível, e, portanto, como uma potência elevada acima de qualquer incerteza; 2) na tua fruição ou utilização do meu produto, eu teria imediatamente a fruição consistente na consciência de ter satisfeito com o meu trabalho um carecimento humano e, portanto, de ter objetualizado a essência humana, e de ter assim proporcionado um objeto adequado a satisfazer o carecimento de um outro ser humano; 3) de ter sido para ti intermediário entre tu e o gênero e, portanto, de ser entendido e sentido por ti mesmo como uma integração do teu próprio ser e, como tal uma parte indispensável de ti mesmo; de saber-me, portanto, confirmado tanto em teu pensamento quanto em teu amor; 4) de ter colocado imediatamente em minha manifestação individual de vida a tua manifestação de vida, e, portanto, de ter confirmado e realizado imediatamente na minha atividade a minha verdadeira essência, a minha essência comum e humana.66
Contudo, é o fato econômico contemporâneo o ponto de partida da reflexão marxiana. Marx assinala que o objeto produzido pelo trabalho se lhe opõe como ser estranho, como um poder independente do trabalhador. Ora, reverter essa situação de servidão ao trabalho capitalista suscita que a produção seja um ato em que o produtor se reconheça no ato laboral e no produto laborado, como algo realizado pela própria vontade criativa, consciente e livre. Assim, o trabalhador se realizaria no trabalho, porque sua atividade seria prazerosa, sobretudo, porque o objeto que produz lhe pertenceria, já que tudo produzido pela/para a sociedade é produzido para saciar o próprio indivíduo, logo uma pertença social garantida. O
66
MARX. Karl. Estratos de “Elementos de Economia Política” de James Mill. In: Opere apud MCLELLAN, David. A concepção materialista da história. In: HOBSBAWM, Eric J. História do Marxismo I. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983. p. 80.
indivíduo seria então um ser social integrado, incluído, associado laborialmente e, portanto,
“comunizado”.
Entretanto, os aspectos positivos do trabalho na reflexão de Marx, a partir dos
Manuscritos, se revelam quando ele coloca o trabalho como o demiurgo da evolução da história humana, quer dizer, quando o trabalho realiza a segunda natureza humana,
transformando a própria natureza, o homem e tudo que o rodeia. “Homem-Natureza- Trabalho” forma o tripé dessa ontologia social; sua inter-relação permite que o mundo natural
seja humanizado pela conjugação do cérebro, das mãos, dos nervos etc. (trabalho intelectual associado ao trabalho manual) na recriação do mundo, onde a tecnologia seria o quarto componente desta intrínseca relação: Natureza, Homem, Trabalho e Tecnologia (como anota Ricardo Antunes).67 A objetivação realizada pelo trabalho é vida humana cristalizada nos objetos produzidos. Neste sentido, o trabalhador poderia produzir sob o domínio da vontade, da liberdade e da subjetividade, a partir de um ato teleológico, consciente e livre, para satisfazer suas necessidades. No entanto, essa relação vertical ou hierárquica entre o homem e a natureza, enquanto aquele dominador e esta dominada, precisa transformar-se numa relação simétrica, horizontal, na qual a natureza deixe de ser coisa para ser outro ser, e o homem
como mediador ecossocialista desta nova relação. Ou, como mesmo diz Marx, “O trabalhador
nada pode criar sem a natureza, sem o mundo externo sensível. Este é o material onde se
realiza o trabalho, onde ele é activo, a partir do qual e por meio do qual produz as coisas.”68 Se há quatro aspectos negativos sobre as formas de estranhamento que Marx ressalta
no texto “Trabalho Alienado” – alienação do produto do trabalho, estranhamento no próprio
ato de trabalho, a autoalienação (alienação do homem de si mesmo) e a alienação do homem em relação aos outros homens –, então podemos extrair quatro aspectos positivos do trabalho nesse mesmo texto. Senão vejamos: numa relação social na qual o trabalho seja a efetividade de relações sociais produtivas justas, quer dizer, onde não exista a exploração do trabalho humano, 1) o produto do trabalho humano não pertencerá a uma única pessoa, mas a toda sociedade; 2) o trabalho não será trabalho forçado, mecânico, desprazeroso e estranhado, e sim, trabalho livre, criativo e associativo, em que o homem dominará o processo de produção e não a produção dominará o processo de trabalho humano; 3) o homem tornar-se-á ser genérico, não animalizado, ou seja, em que o trabalho “não-alienado” restituirá sua condição
de vida enquanto espécie da vida genérica, e não manter sua vida como espécie animal que
67
Cf. ANTUNES, Ricardo L. C. Adeus ao trabalho?: Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade no mundo do trabalho. São Paulo, SP: Cortez, 2010. 213p.
68
trabalha apenas para manter sua atividade vital, sua existência física. O homem tornar-se-á então um ser universal e genérico, quer dizer, livre e consciente de si e para si; e, por fim, 4) o homem não será apartado dos outros homens, no sentido de que o outro é um ser estranho e
hostil, mas um ser “igual”, a saber, suprime-se a oposição entre os homens enquanto homens
antagônicos ou competidores entre si, mas efetivam-se homens colaboradores, cooperativos. Desta feita, convertendo as palavras de Marx, a atividade prática do homem (o trabalho), numa sociedade de produtores associados, será fonte de gozo e de prazer; o objeto produzido será resultado da ação volitiva do seu processo criativo, útil, servil às suas
necessidades, isto é, o “homem criador” será o senhor de seu produto e o “objeto criado” será
servo de seu produtor, propriedade deste; o corpo humano, a natureza, a vida intelectual e a vida humana não serão mais alienadas pelo processo de trabalho estranhado, porque o homem restituirá a si sua vida genérica enquanto condição de recomposição de sua individualidade humana; e a relação entre os homens deixará de ser uma relação entre estranhos e/ou coisas, entre seus objetos de permuta, para ser uma relação de cooperação (troca de atividades), de
solidariedade, de convivência entre indivíduos socialmente “iguais” na diversidade de suas singularidades. Desta forma, a “hostilidade”, o “domínio fetichista” e a “estranheza” presentes
nestas formas de relações de produção desaparecerão, se abolirmos os fundamentos que impedem a emancipação da sociedade, isto é, a propriedade privada e o trabalho estranhado. Como bem disse Marx,
Da relação do trabalho alienado à propriedade privada deduz-se ainda que a emancipação da sociedade quanto à propriedade privada, à servidão, toma forma política da emancipação dos trabalhadores; não no sentido de que somente está implicada a emancipação dos últimos, mas porque tal emancipação inclui a emancipação da humanidade enquanto totalidade, uma vez que toda a servidão humana se encontra envolvida na relação do trabalhador à produção e todos os tipos de servidão se manifestam exclusivamente como modificações ou consequências da sobredita relação.69
Se para Marx a emancipação da humanidade tem como condição a emancipação dos trabalhadores da servidão do trabalho estranhado/abstrato, das formas de produção capitalista das quais este trabalho é o motor de seu desenvolvimento, então urge ao próprio trabalhador abolir a forma de trabalho assalariado que sustenta a forma de organização privada da
sociedade capitalista. A “positividade” do trabalho, agora, alienado, numa outra dimensão
reflexiva, está no fato de que o trabalhador enquanto escravo deste trabalho é o único sujeito histórico que poderá abolir essa condição servil, a partir do não reconhecimento do senhor capitalista como proprietário da sua força de trabalho, de parte do seu tempo de vida e da
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riqueza social produzida por ele. Só o “escravo assalariado” pode se rebelar contra o seu senhor (dono do dinheiro/capital), como diz Hegel, na “Dialética do Senhor e do Servo” na
Fenomenologia do Espírito.
A relação entre a propriedade privada burguesa e a propriedade genuinamente humana, como ilustra Marx, é uma relação antagônica de cooperação forçada que se desdobra em múltiplas outras relações, ou, melhor expressando, a relação do trabalhador com seu ato de trabalho e com o objeto produzido pelo seu trabalho como uma relação estranha, hostil e de fetiche do objeto; a relação do trabalhador com sua condição (des) humana na qual ele não se reconhece como um ser genérico, dono de seu trabalho e do produto do seu trabalho, dono de si mesmo, a saber, a sua autoalienação; a relação estranha e antagônica do trabalhador com o comprador da sua força de trabalho. Por outro lado, Marx apresenta a relação do “não
trabalhador” (do capitalista) em relação ao trabalhador, ao trabalho e ao produto do trabalho
como uma relação de propriedade absoluta sobre os mesmos.
O grau denunciativo da perversidade da propriedade privada burguesa exposta nesse
Manuscrito de 1844 revela como a aparência do sistema de reprodução capitalista escamoteia a falsa troca de equivalência entre o salário e a força de trabalho, cuja essência “não
manifesta” é a produção de mais-valia (trabalho não pago). A igualação dessa forma de troca
vela o grau de exploração capitalista efetivada nesta forma de trabalho alienado/explorado. Entretanto, Marx em O Capital, embora apresente o caráter positivo do trabalho ou a irremovibilidade dele em qualquer forma social, demonstra como o trabalho concreto/útil, sob a forma imperceptível de trabalho abstrato70, engendra mais-valia (absoluta e/ou relativa), lucro, e daí, valor.
N’O Capital, capítulo 1 “A Mercadoria”, Marx levanta a questão do duplo caráter da
mercadoria como “valor de uso” e “valor de troca” ou “valor”, e também o duplo caráter do trabalho, isto é, como “trabalho concreto ou útil” e “trabalho abstrato”. Porém, o trabalho,
nessa reflexão, tem a teleologia de ser a atividade social inextinguível que visa a satisfazer as necessidades humanas, e isso é algo inalienável na história da produção material do homem. Este, para sobreviver e/ou existir, consome, e só faz isso, porque alguma coisa lhe é útil ou
tem utilidade para si. Como Marx afirma, “O valor-de-uso só se realiza com a utilização ou o
70
Ruy Fausto aborda a questão do trabalho abstrato e do valor em Marx, a partir dos seus críticos como Lefort e, sobretudo, Castoriadis que entende que Marx oscila na questão da teoria valor-trabalho, ou seja, se o valor- trabalho já está pressuposto ou posto na fase pré-capitalista ou capitalista. Uma discussão que, no final, Ruy Fausto conclui como uma leitura débil de Castoriadis sobre o valor e trabalho abstrato em Marx, principalmente, do capítulo 5 do tomo I de O Capital. Ver a respeito Ruy Fausto, Marx: lógica e política. São Paulo: Brasiliense, 1987, tomo I, p. 89-138.
consumo. Os valôres-de-uso constituem o conteúdo material da riqueza, qualquer que seja a
forma social dela.”71
Em outras palavras, “valores de uso” pressupõem trabalho humano, troca dos objetos produzidos pelos diferentes trabalhos e, sobretudo, diversas necessidades humanas que buscam bens para saciação, pois, se não há carência humana por determinados produtos que satisfaçam as necessidades humanas, tais objetos não têm utilidade social, logo não serão produzidos.
Entretanto, quando Marx analisa a “mercadoria”, extraindo seu caráter de “valor de uso”, ele aponta uma outra propriedade que lhe é inerente, ou seja, a de ela ser produto do
trabalho. As mercadorias, ou os produtos do trabalho humano, têm uma substância comum que é o trabalho humano corporificado. E é aí que Marx vai distinguir o duplo caráter do
trabalho presente na mercadoria, a saber, “trabalho concreto” e “trabalho abstrato”. A
conceituação desses pares categóricos leva Marx a enfatizar como um bem produzido socialmente que, se antes visava a satisfazer a necessidade social da família, grupos sociais, estamentos etc., torna-se a posteriori, com o desenvolvimento social, um objeto de troca mercantil, cuja finalidade é o entesouramento de uma classe e o empobrecimento de outra, isto é, da burguesia e do proletariado. É essa trama da produção material humana, sob o domínio e o controle do modo de produção capitalista, que Marx vai desvendar e denunciar como uma forma de exploração de trabalho humano, escamoteada pela ideologia da naturalidade do sistema de produção de mercadorias, ou melhor, pelos economistas clássicos como Adam Smith, David Ricardo, dentre outros.
Se os diferentes trabalhos são trabalhos concretos particulares, porque visam produzir valores de uso, bens úteis, que satisfaçam as necessidades humanas, então, se abstrairmos o seu caráter útil, desaparecendo, portanto, as diferentes formas de trabalho concreto, sobra-lhe apenas ser trabalho humano abstrato que põe valor nas coisas produzidas. Para analisar a magnitude do valor de um objeto, Marx expõe os elementos constituidores desse valor, isto é, a quantidade de trabalho corporificado no objeto e o tempo de trabalho necessário para a sua produção. É preciso deixar claro que quase todo trabalho concreto, na sociedade capitalista, é trabalho abstrato e é este que confere a grandeza de seu valor.
Um valor de uso ou um bem só possui valor, segundo Marx, se está cristalizado nele trabalho humano abstrato. E, para medir essa grandeza de valor, é necessário perceber a quantidade de trabalho, ou o tempo de trabalho nele materializado, quer dizer, a quantidade de trabalho mede-se pelo tempo de sua duração, e o tempo de trabalho, por frações de tempo, como
71
hora, dia, mês etc. Por outro lado, conforme Marx, o trabalho, como a substância dos valores de uso, é trabalho humano homogêneo, dispêndio de idêntica força de trabalho. Mesmo que toda força de trabalho na sociedade seja força de trabalho única, ela se constitui de inúmeras forças de trabalho individuais. Daí Marx definir a força média de trabalho a partir de um tempo médio de trabalho socialmente necessário para produzir uma determinada mercadoria.
“Trabalho” e “Tempo” são assim duas categorias-chave inseparáveis na reflexão
marxiana em O Capital, para se compreender como se dá a magnitude do valor, isto é, a partir
da quantificação desse tempo e da qualificação desse trabalho. Diz Marx, “O que determina a
grandeza de valor, portanto, é a quantidade de trabalho socialmente necessário ou o tempo de trabalho socialmente necessário para a produção de um valor-de-uso.”72 Sabemos que a produtividade trabalho é determinada por vários fatores tais como a destreza média dos trabalhadores, o grau de desenvolvimento da ciência e sua aplicação tecnológica, a organização social do processo de produção, o volume e a eficácia dos meios de produção e, claro, as condições naturais. Tais condições podem determinar a maior ou menor produtividade num determinado tempo e o maior ou menor valor de um produto, seja direta ou inversamente.
Contudo, é fundamental discriminar melhor estas duas categorias – trabalho concreto e trabalho abstrato – de forma mais sistemática. Marx, na seção 2, “O Duplo Caráter do Trabalho Materializado na Mercadoria”, afirma que o trabalho concreto é aquele cujo produto é valor de uso e, nesse sentido, ele associa o trabalho concreto a seu efeito útil. O exemplo do