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FİNANSAL TABLOLARIN SUNUMUNA İLİŞKİN ESASLAR

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Os missionários criaram um novo espaço físico, que substituiu a estrutura da aldeia tradicional tupi, em que casas comunais, as ocas, eram edificadas em torno de um pátio central.

Na vila de Piratininga e, depois, nas missões que se criaram posteriormente, já não havia mais as casas comunais com as redes se entrelaçando no espaço específico de cada família, cedendo lugar às casas unifamiliares744.

Segundo um cronista da Companhia de Jesus, elas foram construídas seguindo um arruamento, “ao modo português”745. Por isso, a tradição afirma que Tibiriçá com sua

família instalou-se onde hoje se encontra o Mosteiro de São Bento, e que durante algum tempo foi chamada rua de Martim Afonso 746.

Cayobi, por sua vez, foi estabelecer-se no local chamado Tabatinguera segundo a tradição, como afirma Sampaio, tendo “sob sua guarda o caminho que do alto do espigão descia para a várzea e tomava para S. Vicente, por Santo André” 747.

Ao contrário da cultura ocidental, em que a casa é considerada apenas uma parte da vida, nas culturas indígenas ela é “a totalidade do quadro de vida”, no dizer de Rapaport748. Para estes povos, “a aglomeração, como um todo, foi [é] considerada como o quadro de vida, enquanto que a casa [na cultura ocidental] era simplesmente uma parte deste domínio, mais íntima, mais fechada e mais resguardada”.749 Poderíamos transpor para a aldeia o que Bachelard fala da casa: “La maison plus encore que le paysage, est um état d’âme” 750. Mudando a disposição das casas num povoado ou aldeia, está-se mudando o universo mental de cada pessoa751.

744 “(...) feitas as obras das famílias particulares e separadas as nações...” (VVJA, v. 1, p. 36). 745

VVJA, v. 1, p. 36.

746 MADRE DE DEUS, Memórias...., 1975, p. 124.

747 Teodoro Sampaio não cita a fonte para esta afirmação, que pode ter colhido de alguma documentação não citada (In: São Paulo do século XIX..., 1978, p. 157).

748 RAPAPORT, A . Pour une antropologie de la Maison. Ap.: NOVAES, Syvia C. Habitações indígenas, 1983, p. 4.

749 Id., ib.

750 La poétique de l’Espace, 1957, p. 77. Ap.: NOVAES, id., p. 3.

751 NOVAES, id., p. 3. Ver também as observações da autora sobre a interferência que a mudança de estilo das moradias e da aldeia, da Missão Salesiana de Meruri, exerceu nas crianças Bororo (p. 4-7).

A aldeia, até hoje, para muitos povos, é a representação de sua própria sociedade. Como escreveu Da Matta, “falar em sua sociedade, implica para os Apinayé tomar a aldeia como ponto de referência e, depois fazer oposições entre grupos sociais e categorias”752.

Ao impor um outro modelo de povoação, os missionários estavam alterando não apenas um sistema de moradia, mas as referências sociais e até religiosas dos indígenas.

E isso ocorreu com as habilidades manuais dos Irmãos jesuítas na construção das novas casas, no que tiveram a ajuda dos indígenas753.

“Pela seqüência dessas ‘casinhas’ – comenta Hoornaert –, se cria na América o espaço urbano típico da Europa, com a praça central e a igreja no meio”, espaço este que “impressiona o indígenas pelo seu caráter hierárquico”754. E certamente monumental,

acrescentaria, como foram as construções de certas igrejas nos aldeamentos da capitania do Espírito Santo, nas reduções do Paraguai, e, até mesmo, em Piratininga755.

No caso de São Paulo, o centro não foi apenas a igreja, mas também a escola dos meninos, como se verá mais à frente 756.

Da igreja e da escola sairão os novos padrões de comportamento e as novas autoridades indígenas, como o meirinho e o catequista. E a Igreja criará também novas classes e dignidades, representadas pelas confrarias, como se analisará em seguida.

Este novo espaço físico irá representar a sedentarização dos Tupi, habituados às mudanças de domicílio e às longas viagens, seja para fazer guerras intertribais757, seja para visitar parentes, seja para buscar sal no litoral758.

A missão tornava-se um lugar de confinamento, impedindo-os de serem “livres como o vento”759.

752 Um mundo dividido. A estrutura social dos índios Apinayé (1976, p. 68).

753 “Porém aqui foi logo a caridade de José e seus discípulos, feitos tracistas uns, outros pedreiros, outros

carpinteiros, ajudando a fábrica das casas necessárias para cada família, arruadas e feitas ao modo português. E como a vontade era igual em uns e outros, em breve tempo agasalharam todos, não reparando em suor e trabalho os nossos, trazendo junto com os índios a terra e água às costas, por fazer-se humanos com eles e senhorear-lhes as vontades” (VVJA, v. 1, p. 36).

754 As contradições de Antônio Vieira... (1993, p. 284).

755 Quando os Guarani tiveram que deixar os Sete Povos das Missões, numa das cartas distribuídas na língua guarani entre as lideranças, havia a queixa de que o rei “manda [os indígenas] que deixem as suas casas, suas igrejas” (As cartas encontradas com Sepé. In: GOLIN, Tau, Sepé Tiaraju, 1985, p. 88).

756 Carta aos padres e irmãos de Coimbra, 15.08.1554. CAP, p. 59. 757 ANCHIETA, Carta a Inácio de Loyola, 1.09.1554. CAP, p. 75. 758 GRÃ, Carta a Inácio de Loyola, 8.06.1556. CPJ, v. 2, p. 292.

3.6.3 Um outro ritmo de tempo

A segunda estratégia missionária foi interferir no tempo indígena.

A vida destes povos era tradicionalmente marcada pelo tempo cósmico, isto é, pelo ritmo solar, pelas estações, pelo tempo de coleta, de caça e pesca760. Como observava H. Clastres,

un tiempo indiferenciado, hecho de días y meses siempre iguales, no tiene obligaciones ni limitaciones, por cuanto los actos de los hombres no tienen más orden que el impuesto por las regularidades de la naturaleza (o sus caprichos): he aquí la razón de los ritos siempre esporádicos, guiados por la voluntad y la circunstancias761.

Esta liberdade, que os tornava senhores do tempo, não foi compreendida pelos missionários, que viam nisto um atraso cultural, como observou Léry, ao falar dos Tupinambá: “Não distinguem os dias por nomes específicos, nem contam semanas meses e anos, apenas calculando ou assinalando o tempo por lunações”762.

Por isso, uma das primeiras medidas adotadas pelos missionários foi a introdução do ritmo comandado pelas orações e pelo calendário litúrgico. Na missão e na vila portuguesa, o tempo passou a ser marcado pelo relógio763, pelo sino (orientado pela ampulheta764), pelo descanso dominical e pelas festas religiosas, como se vê neste relato:

Todos os dias, em amanhecendo, se tange as Ave-Marias de pela

manhã e daí a pouco à missa, que acabada se lhes ensina a doutrina 759 Expressão usada pelo líder Apache Jerônimo, dos USA: “Eu me rendo. Antigamente era livre como o vento” (JERÔNIMO. Jerônimo, uma autobiografia, 1986, p. 43).

760 Ver a descrição deste ritmo cósmico na sociedade nambikuara feita por LEVI STRAUSS em Tristes

Trópicos, [1955] 1998, p. 259-261.

761 La religión sin los dioses. Anuario Antopologico, p. 91

762 Viagem à terra do Brasil [1578], 1972, p. 157-158. Thévet completa esta informação, ao escrever: “(...) eles contam os meses por luas, dizendo ‘eu nasci há tantas luas’ etc. Assim pelo tanto de luas atribuem à ocorrência do dilúvio” (As singularidades da França Antártica, [1558] 1978, p. 172).

763 Nóbrega fala de um relógio que deveria ser enviado a São Vicente (Carta ao Pe. Miguel Torres, 8.05.1558).

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