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4.2.2.1 Os sujeitos

Na busca por discursos que nos trouxessem elementos relevantes e suficientes para o movimento de desconstrução proposto, a escolha dos entrevistados se deu a partir de uma estratégia gradual desenvolvida por Glasser e Strauss (FLICK, 2009), a amostragem teórica. Nesta, “[...] selecionam-se indivíduos, grupos, etc., de acordo com seu nível (esperado) de novos insights para a teoria em desenvolvimento [...] As decisões sobre a amostragem visam [então] àquele material que prometa os maiores insights [...]” (FLICK, 2009, p. 120).

Para esta pesquisa, interessavam-nos profissionais de psicologia que tivessem experiência em atendimentos clínicos embasados pela Abordagem Centrada na Pessoa. Um dos critérios, portanto, era que o psicoterapeuta se considerasse orientado por essa Abordagem em sua prática clínica. Aparentemente simples, este critério trouxe surpresa e reflexão para nós na medida em que um dos entrevistados mostrou-se indeciso quanto a se considerar da Abordagem ou não. Por fim, todos os entrevistados afirmaram que tinham embasamento na teoria rogeriana, identificando-se como Psicoterapeuta Centrado na Pessoa, mesmo quando consideravam a nomenclatura centrada na pessoa ultrapassada, como foi o caso desse participante em específico38.

38 Não nos debruçaremos sobre essa questão de forma aprofundada por fugir aos limites dessa pesquisa, embora reconheçamos que tal fato trouxe à tona uma questão relevante para futuros estudos, a identidade centrada na

No que se refere ao tempo e à qualidade da experiência como psicoterapeuta, importante por considerarmos que profissionais com experiência tenderiam a trazer uma maior riqueza de materiais para o que nos propomos na pesquisa, delineamos que o entrevistado estivesse: 1. Atualmente atendendo na clínica com esta Abordagem, tendo no mínimo dois anos de experiência, pois, embora consideremos que a experiência dos terapeutas seja de difícil precisão com relação ao tempo, utilizamos como critério de exclusão o fato de os entrevistados não se tratarem de terapeutas iniciantes (ERTHAL, 1995), o qual pudesse nos assegurar minimamente um manejo mais adequado da prática clínica e alguma familiaridade com esta modalidade profissional; 2. Exercendo ou que já tivesse excercido supervisão na prática clínica de outros psicoterapeutas, fosse particular ou vinculada a alguma instituição de ensino. Isto porque, por mais que o terapeuta falasse na entrevista apenas da sua experiência, não se reportando à experiência de supervisionandos, o fato de ele já ter exercido essa função pode ser tomado como um indicativo de reconhecimento de sua experiência como psicoterapeuta por seus pares. Também foi critério a acessibilidade e a disponibilidade para adesão voluntária, com a leitura e assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido39 (APÊNDICE A).

4.2.2.2 O instrumento

O instrumento utilizado nesta pesquisa foi a entrevista individual semiestruturada (FRASER; GONDIM, 2004) registrada em áudio pelos pesquisadores. A escolha pelo formato semiestruturado se deu por partirmos de pressupostos teóricos e considerarmos relevantes alguns tópicos a serem discutidos na análise, sem, no entanto, nos fecharmos apenas às perguntas pré-estabelecidas. A entrevista aberta foi descartada por não nos assegurar necessariamente a presença ou a abordagem destes aspectos, como o espaço para a alteridade na relação, por exemplo, nos discursos produzidos.

O formato semiestruturado caracteriza-se pelo embasamento da entrevista num roteiro que deve ser:

[...] apresentado sob a forma de tópicos (tópico-guia) que oriente a condução da entrevista, mas que de modo algum impeça o aprofundamento de aspectos que possam ser relevantes ao entendimento do objeto ou do tema em estudo. [...] Além de ser um instrumento orientador para a entrevista, o tópico guia pode ser útil para a

multiplicidade. Contudo, nessa pesquisa, não adentraremos essas diferenciações, embora tomemos a teoria rogeriana como um discursos de múltiplos sentidos.

39 A realização desta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Ceará - COMEPE (ANEXO A).

elaboração e antecipação de categorias de análise dos resultados (FRASER e GONDIM, 2004, p. 145).

O roteiro da entrevista semiestruturada contou com dois tópicos guias que tiveram como intuito que os entrevistados discorressem sobre experiências com o inusitado na relação terapêutica (APÊNDICE B). No primeiro, focamos a descrição de momentos de emergência da alteridade na relação terapêutica, e no segundo os entrevistados são questionados quanto ao lugar desse tipo de experiência para eles. Além desses tópicos, pedimos, inicialmente, que os entrevistados falassem um pouco sobre sua história com a abordagem e com a psicoterapia. Isso não estava previsto, porém surgiu na primeira entrevista diante da necessidade de uma pergunta inicial de aquecimento para que ambos ficassem mais à vontade. Desde então, foi incorporada.

A quantidade de entrevistados e a duração das entrevistas foram delineadas seguindo o critério de saturação teórica (FLICK, 2009). A saturação implica em, não sendo encontrados mais dados adicionais, interromper a coleta de novos dados, ou seja, “[...] quando os dados obtidos passam a apresentar, na avaliação do pesquisador, uma certa redundância ou repetição, não sendo relevante persistir na coleta de dados” (FONTANELLA; RICAS; TURATO, 2008, p. 17). Para tanto,

O ponto de saturação da amostra depende indiretamente do referencial teórico usado pelo pesquisador e do recorte do objeto e diretamente dos objetivos definidos para a pesquisa, do nível de profundidade a ser explorado (dependente do referencial teórico) e da homogeneidade da população estudada [...]. (FONTANELLA; RICAS; TURATO, 2008, p. 25-26).

Nessa pesquisa, o que nos balizou quanto à saturação dos discursos, na duração da entrevista ou na quantidade de entrevistados, foram elementos que pudessem gerar um movimento de desconstrução desses discursos à luz da alteridade radical. A escolha do critério de saturação se deu mediante a necessidade de estratégias que gerassem a produção de discursos relevantes para nossos objetivos com a flexibilidade das entrevistas focadas nesse alcance. Nesta medida, a duração das entrevistas, que variaram de uma para outra, e do número de entrevistados, foram delineados durante o período de realização das entrevistas. 4.2.2.3 O IX Fórum Brasileiro da Abordagem Centrada na Pessoa

As entrevistas foram realizadas durante o IX Fórum Brasileiro da Abordagem Centrada na Pessoa, que aconteceu de 04 a 10 de setembro de 2011, na Ilha do Marajó, no

Pará, que contou com 123 participantes40, incluindo a comissão organizadora. Os Fóruns Brasileiros são eventos teórico-vivenciais que contam com a imersão de participantes de diferentes localidades em um mesmo espaço físico de convivência durante todo o seu período. Pareceu-nos, desta forma, propício para a realização das entrevistas estabelecidas por critério de saturação teórica, além de facilitar a acessibilidade e disponibilidade dos psicoterapeutas que atendam aos critérios já expostos dessa pesquisa. Por esse motivo, a participação do evento acabou compondo um critério para a participação na pesquisa.

A aproximação e o convite para participar se deram de maneira direcionada na medida em que os primeiros dias do evento foram reservados apenas para observação e ambientação. Conhecemos, assim, um pouco mais das pessoas que estavam no evento a partir de conversas informais em que elencamos alguns possíveis participantes. Sabendo quem se aproximaria do perfil, buscamos realizar o convite de forma gradual e aleatória (dentro das possibilidades já delimitadas), explicando a pesquisa, apresentado o termo de consentimento e acordando o momento e o local da entrevista durante o evento.

Foram realizadas cinco entrevistas com a duração média de uma hora. Elas aconteceram em locais escolhidos pelos entrevistados, a saber: uma das salas de apresentação de trabalhos em momento de intervalo, quarto do entrevistado, restaurante da pousada e duas na varanda do quarto dos participantes. Dos cinco psicoterapeutas, foram quatro mulheres e um homem. Todos excercem supervisão em clínica na abordagem e têm tempo variável de experiência na clínica, contando, no mínimo, com cerca de 6 anos e no máximo 40 anos como psicoterapeutas. A maioria conheceu a ACP durante a graduação, enveredando seus estudos posteriores nessa área. Apenas um não era professor universitário, tendo formação na abordagem; os outros quatro possuíam doutorado, três dos quais na área. Apesar de não nos propormos inicialmente a traçar um perfil dos entrevistados, optamos por expô-lo mediante as informações que nos foram apresentadas nas entrevistas.

Queremos, também, ressaltar que tivemos algumas dificuldades na realização das entrevistas. Inicialmente, como comentado, pensamos que a imersão no evento e a flexibilidade dos horários das atividades facilitariam a disponibilidade de tempo dos entrevistados. No entanto, percebemos que não era bem assim, haja vista o caráter de reencontro e confraternização do grupo que, em sua grande maioria, já se conhecia e tinha os Fóruns como um espaço de fuga da rotina diária para encontrar amigos antigos, conhecer pessoas etc. Então, todos os momentos eram muito visados e, no fim das contas, foram dias

em que os participantes estiveram bastante ocupados, longe da ideia de tempo livre e disponível que tínhamos. Tudo o que acontecia naquele espaço (passeios turísticos, confraternizações informais, refeições, conversas informais) fazia efetivamente parte das atividades do evento, e as pessoas contavam com isso na sua programação pessoal. Além disso, as atividades definidas no inicio do Fórum passavam por redefinições constantes, seja com o prolongamento do tempo previsto anteriormente ou com a criação de uma outra atividade.

Em meio a esta configuração, sentimos dificuldade no acesso aos entrevistados devido à postergação das entrevistas, que eram constantemente deixadas para depois. Isso nos fez rever nossa estratégia, buscando um agendamento mais formal, ainda que já próximo ao final do evento. Vale ressaltar, também, algumas dificuldades referentes tanto a interrupções nas entrevistas, por diferentes motivos, como, por exemplo, o garçon querendo arrumar o restaurante para o almoço, quanto o barulho em alguns locais, como o vento forte, pessoas conversando alto, que repercutiram nas transcrições. Consideramos que tais dificuldades exigiram uma maior abertura e flexibilidade dos pesquisadores, relevantes nesse tipo de pesquisa.

4.2.3 Desconstrução dos discursos

Já apresentamos o quase método utilizado para a análise dos discursos produzidos, a saber, a desconstrução derridiana. No entanto, como vimos, a forma como a desconstrução opera é singular diante dos elementos que aparecem, das contradições que emergem e do enfoque assumido. Neste tópico, descreveremos como se deu o movimento de desconstrução nessa pesquisa.

Podemos entender que a análise foi realizada desde a produção dos discursos, pois foi diante de uma análise geral do que aparecia nas entrevistas que pudemos fazer valer o critério de saturação teórica, mas a sistematização da análise como desconstrução aconteceu de fato após as entrevistas e as transcrições. Realizamos a desconstrução dos discursos em três momentos.

No primeiro momento, lemos exaustivamente os textos-discursos, deixando-nos afetar pelos rastros (elementos) que apontassem a emergência da alteridade. Devido à grande quantidade de informações obtidas, para além de nossos objetivos nesse trabalho, sentimos a necessidade de construir um quadro que auxiliasse a percepção das informações e elementos relevantes de cada discurso (APÊNDICE C). Os quadros elaborados, contudo, não se

Benzer Belgeler