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Vimos páginas atrás que o direito romano-germânico ou romanista tem suas origens no sistema jurídico que comandava o Império Romano e que, com o fim da Idade Média, o Direito romano passou a ser largamente difundido da Europa continental em função do fortalecimento do Estado e das pretensões centralizadoras dos monarcas da época.

Entretanto, na Inglaterra o nascimento e a evolução do Direito deram-se de forma completamente distinta.

Após a queda do Império Romano e a invasão dos primeiros bárbaros, por muito tempo vigoraram na Ilha as rudimentares leis bárbaras, irregularmente organizadas e extremamente atreladas aos costumes locais.

Tal situação perdurou até a conquista da Inglaterra pelos Normandos, comandados por Guilherme, o Conquistador, em 1066, fato histórico considerado como marco inicial de um sistema jurídico organizado no país. Deixam de vigorar as desorganizadas leis bárbaras, que são suplantadas pelo Direito emanado pelo Rei.

Assim, embora a Inglaterra tenha permanecido por quatro séculos sob o domínio romano, o fim desse Império e a conquista da Ilha por Guilherme I trataram de apagar todo e qualquer resquício dessa ocupação em termos jurídicos.14 Eis a primeira razão pela qual a família romano-germânica se distingue da common law.

A organização do reino e a consolidação do poder na Inglaterra deram-se de forma completamente distinta da que ocorreu no Continente, o que trouxe reflexos também no Direito. Após a conquista da Ilha, Guilherme reuniu em torno de si um exército que se uniu e se impôs com rigidez para assegurar a supremacia normanda sobre os costumes locais. O rei quis manter sua supremacia evitando que a nobreza tivesse poderes em demasia. Assim, na Inglaterra não foram criados feudos e as terras, de uma forma geral, ficaram sob a propriedade do Rei, que distribuía títulos sobre elas somente para garantir a lealdade dos cavaleiros, os quais não tinham, nem de longe, o mesmo poderio dos senhores feudais do Continente.

Assim, enquanto na Europa Continental o poder do Estado encontrava-se descentralizado, espalhado entre os inúmeros senhores feudais, na Inglaterra ele se encontrava concentrado nas mãos do Rei, que exercia, por intermédio de suas cortes de justiça, o controle jurisdicional do país.

Esse paralelo histórico contextualiza as diferenças que permearam o surgimento da common law e do direito romano-germânico.

Percebe-se que, enquanto na Ilha o Rei normando procurava impor-se aos habitantes locais, no Continente o controle das terras, e por conseqüência o Direito, encontrava-se difuso. Não havia uma figura unificadora do Direito e dos Estados desde a queda do Império Romano do Ocidente, haja vista que as invasões bárbaras levaram à desintegração das cidades e ao refúgio da população nos feudos.

Assim, da busca de Guilherme I pela superação dos costumes locais por meio da imposição de um sistema jurídico uniforme e rígido, surge a common law, um

14 Como nos explica Aracy Augusta Leme Klabin, “na Inglaterra, por outro lado, embora conhecido e ensinado, o direito romano jamais deitou raízes na prática da justiça, em razão da precoce instauração do poder central do rei, substituindo as leis costumeiras locais pelo costume comum das cortes reais, ao qual chamou de common law” (História geral do direito. 2 ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005, p 238).

direito comum a todos os habitantes da Inglaterra, organizado e aplicado pelos Tribunais Reais de Justiça (Cortes de Westminster), que durante 5 séculos ditaram as leis na Inglaterra e País de Gales15.

A aplicação da common law apagou todo e qualquer resquício do Direito romano que uma vez vigorou na Inglaterra. Temos uma nova forma de direito fortemente apoiada nas decisões das Cortes Reais e que foi, sem dúvida, um dos instrumentos de fortalecimento dos monarcas britânicos, haja vista que o Direito em vigor era aquele aplicado pelos enviados do Rei.

As Cortes Reais atuavam de forma itinerante e aplicavam o Direito de maneira uniforme e rígida em todo o território, baseando-se na jurisprudência que se consolidou com o tempo (cases), sem levar em consideração os costumes locais.

Entretanto, essa rigidez, com o passar do tempo, passou a ser questionada por aqueles que entendiam que o Direito deveria ser aplicado com maior flexibilidade, tendo em vista particularidades de cada caso. Surge então, ao final do século XV, o sistema do equity, menos rígido e mais ágil no atendimento das demandas dos cidadãos comuns.

O equity formava-se por um conjunto de decisões eqüitativas proferidas pelos tribunais de chancelaria após processos formais, de natureza inquisitória.

Assim, até o século XIX o Direito Inglês caminhou com duas ramificações totalmente opostas, até sua fusão pelos Judicature Acts de 1873 e 1875.

Como se percebe o direito Anglo-Saxão não sofreu influência do Direito romano e foi moldando-se inicialmente pelas decisões das Cortes Reais. Contudo, diante da rigidez extrema das Cortes, surgiu o movimento da equity.

A equity formou-se quando os cidadãos, insatisfeitos com as decisões dos tribunais reais, passaram a recorrer ao chanceler do Rei, que recebeu por delegação real o poder de julgar os recursos movidos contra as decisões emanadas no âmbito

15 Como assinala Roland Sèroussi, “a common law, em conflito aberto com os costumes locais difundidos é obra exclusiva dos tribunais reais de justiça, dos tribunais de Westminster. Tais tribunais se oporão durante cinco séculos às inúmeras jurisdições senhoriais – que tiram seus princípios do direito feudal e eclesiásticas, o direito canônico” (Introdução ao direito inglês e norte-americano. Paris: Dunod, 1999, p. 19)

da common law; é então que surgem as cortes de chancelaria. Os julgamentos realizados no âmbito dessas novas cortes eram mais céleres, individualizados e se baseavam na eqüidade.

Desta feita, durante muito tempo na Inglaterra dois sistemas jurídicos, a

common law e a equity, eram passíveis de aplicação, sendo que primeiro o cidadão

deveria apresentar seu pleito a um tribunal real da common law para, então, poder recorrer à equity, por meio das cortes de chancelaria, para obter uma decisão eqüitativa.

Esses dois sistemas jurídicos, ao longo do tempo, foram sendo aproximados, até ocorrer sua fusão por meio dos Judicature Acts de 1873 e 1875, que instituíram a Suprema Corte de Justiça como única jurisdição.

Portanto, como se percebe, enquanto o direito romano-germânico decorreu do trabalho dos estudiosos do Direito que se debruçaram sobre as instituições de direito romano, o direito anglo-saxão é um produto jurisprudencial, ou seja, é uma obra das decisões dos tribunais reais.

Vimos também que a equity representa um movimento contrário ao formalismo extremo do Direito, consagrando a eqüidade como meio de solução de conflitos no âmbito da common law.

Conclui-se, portanto, que o abismo que separa o direito romano-germânico da

common law se deve, antes de tudo, ao contexto histórico em que cada família

jurídica surgiu e, secundariamente, à conjuntura geográfica, haja vista o isolamento da Inglaterra com relação ao resto do continente europeu.

A common law, entretanto, não se restringiu aos limites da ilha da Inglaterra e expandiu-se para outros países, como os Estados Unidos, cujo ordenamento jurídico foi fortemente influenciado pelo direito inglês.

Benzer Belgeler