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FİNANSAL TABLOLARIN SUNUMUNA İLİŞKİN ESASLAR.................................... 8-16

De acordo com certas correntes do iluminismo, assim como a natureza, o homem deveria ser pensado em consonância com leis uniformes, sendo identificado por algum elemento invariante, simples e irredutível.

Clifford Geertz, entretanto, observou que essa perspectiva não se mostrou satisfatória para os antropólogos que observavam constantemente a complexidade cultural dos diversos grupos humanos151. A divergência entre os filósofos iluministas e os antropólogos, porém, decorria do modo distinto com o

qual enfocavam o mesmo objeto, pois enquanto o filósofo procurava desvendar a essência humana (unidade) pelo caminho da introspecção racional, o cientista social se ocupava de considerar o homem no plano da existência (diversidade) através da observação empírica.

É oportuno salientar que o próprio conceito de “cultura” com o qual os antropólogos salientam a variedade humana foi objeto de acirradas controvérsias. Até o século XIII, o termo significava uma parcela de terra cultivada. No início do século XVI, deixou de significar um estado da terra para significar uma ação sobre ela. No meio do século, passou a ser usado metaforicamente para representar o desenvolvimento de alguma faculdade ou habilidade. Esse sentido figurado, entretanto, só vai se impor no século XVIII. Há, portanto, um avanço inicialmente para a metonímia (da cultura como estado à cultura como ação) e, depois, para a metáfora (da cultura da terra à cultura do espírito)152.

Sob o impulso da Revolução Francesa, o termo cultura passou a ser interpretado como “educação do espírito” ou “formação”, adquirindo proximidade de sentido com uma palavra que teve grande sucesso no vocabulário francês do século XVIII: “civilização”. Essa última expressão, por sua vez, estava comprometida com a ideologia do progresso histórico, o que justificava a diferença entre o civilizado e o selvagem153.

Entre os alemães, contrariamente aos franceses, se fez uma distinção qualitativa entre cultura e civilização, dando-se uma valoração mais positiva para a primeira que para a segunda. Cultura significaria o patrimônio intelectual e espiritual de um povo, enquanto a expressão civilização estaria associada ao mero progresso técnico. Cultura e civilização eram comparadas e contrastadas como a profundidade o é com a superficialidade154.

Cultura, considerada como civilização ou como algo diferente dela, era, de todo modo, uma categoria para a afirmação da superioridade de um

152 CUCHE, Denys. A Noção de Cultura nas Ciências Sociais. 2a ed. Trad. Viviane Ribeiro. Bauru:

EDUSC, 2002, p. 19

153 CUCHE, Denys, Op. Cit., p. 22-23 154 CUCHE, Denys, Op. Cit., p. 25

povo sobre outro, o que se refletiu no evolucionismo cultural de E. B. Tylor155 (1832-1917). Foi preciso Franz Boas trazer à luz uma concepção particularista de cultura para que se pudesse adotar um relativismo cultural como postura metodológica156. A partir desse momento se poderia reconhecer em cada cultura uma tendência para a coerência e uma autonomia simbólica157.

De um modo geral, os antropólogos concebem cultura hoje como uma ordem simbólica dotada de sentido que traduz um modo de vida e de pensar de um grupo. A defesa da autonomia cultural, por outro lado, liga-se à preservação da própria identidade coletiva158.

Geertz afirma que “sem os homens certamente não haveria cultura, mas, de forma semelhante e muito significativamente, sem cultura não haveria homens159”. Sustenta que o homem tanto faz cultura como se constitui pela cultura, sendo a humanidade variada em sua essência como em sua expressão160. Preferimos, entretanto, afirmar que o homem é um ser cultural,

sendo a culturalidade integrante de sua natureza imutável, ou seja, a fertilidade criadora – causa das mudanças – é o elemento permanente no homem. Dentro dessa perspectiva, é que Denys Cuche afirma que o homem é essencialmente um ser de cultura, pois tanto se adapta ao seu meio como adapta o seu meio aos seus projetos e necessidades161. Para o homem ser variável em sua expressão, ele tem que possuir a condição de variabilidade como um elemento permanente em sua essência. O próprio Geertz procura identificar algo fixo para além da cultura: um conjunto de exigências humanas subjacentes que modelam aspectos culturais universais162.

155 Acerca do evolucionismo cultural, há textos de Morgan, Tylor e Frazer em CASTRO, Celso (org.). Evolucionismo Cultural/ Textos de Morgan, Tylor e Frazer. Trad. Maria Lúcia de Oliveira. Rio de

Janeiro: Zahar, 2005.

156 “Vimos assim que o método comparativo somente pode ter a esperança de atingir os efeitos pelos quais tem se empenhado quando basear suas investigações nos resultados históricos de pesquisas dedicadas a esclarecer as complexas relações de cada cultura individual... O método histórico atingiu uma base mais sólida ao abandonar o princípio enganoso de supor conexões onde quer que se encontrem similaridades culturais.O método comparativo... não produzirá frutos enquanto não renunciarmos ao vão propósito de construir uma história sistemática uniforme da evolução cultural...” (BOAS, Franz. Antropologia Cultural. Trad. Celso Castro. 2a ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2005, p. 38- 39)

157 CUCHE, Denys, Op. Cit., p. 35-46 158 CUCHE, Denys, Op. Cit., p. 14

159 GEERTZ, Clifford. A interpretação das Culturas. [s.t.]. Rio de janeiro: LTC, 1989, p. 61 160 Op. Cit., p. 49

161 CUCHE, Denys, Op. Cit., p. 9-10. 162 Op. Cit., p. 54

Geertz afirma que somos “animais incompletos e inacabados que nos completamos e acabamos através da cultura”. Consideramos, porém, mais elucidativa a constatação de que o homem é um “ser inquieto”, sendo sua inquietude permanente o que fertiliza suas construções culturais contínuas (nunca acabadas)163.

Geertz define cultura como mecanismo de controle164 através do qual o comportamento humano é governado. O homem teria um equipamento natural amplo cujas realizações são especificadas e estreitadas pelos mecanismos culturais. Poderíamos complementar essa definição de cultura como controle com uma compreensão de cultura como expressão da liberdade criativa do homem histórico. Geertz parece reconhecer também esse aspecto quando diz:

Tornar-se humano é tornar-se individual, e nós nos tornamos individuais sob a direção dos padrões culturais, sistemas de significados criados historicamente em termos dos quais damos forma, ordem, objetivo e direção às nossas vidas.165

Desse modo, o conceito de cultura é dialético, pois ele consiste numa síntese entre norma e liberdade, padrão e construção. Geertz faz uma definição mais completa de cultura quando a compreende como um sistema

ordenado de significados e símbolos “nos termos dos quais os indivíduos definem seu mundo, expressam seus sentimentos e fazem seus julgamentos.”166

163 Essa “inquietude” do homem decorre de sua vocação para a transcendência (Heidegger, Simmel).

Teólogos como Agostinho a interpretariam como uma busca consciente ou inconsciente da felicidade pertencente ao estado original. Cornelius Castoriadis dá a seguinte interpretação: “O único desejo

irrealizável (e por isso mesmo indestrutível) para a psique é o que visa, não aquilo que jamais poderia apresentar-se no real, mas aquilo que não poderia jamais ser dado como tal, ‘na representação’- isso é, na realidade psíquica. O que falta, e faltará para sempre, é a irrepresentabilidade de um ‘estado’ primário, o antes da separação e da diferenciação, uma proto-representação que a psique já não é capaz de produzir, que magnetizou para sempre o campo da psiquê como presentificação de uma unidade indissociável da figura, do sentido e do prazer.” (A Instituição Imaginária da Sociedade. 5ª ed. Trad.

Guy Reynaud. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982, p. 339)

164 Op. Cit., p. 57 165 Op. Cit., p. 64 166 Op. Cit., p. 81

Simmel explica que a vida humana é uma relação de tensão e complementação: riqueza e determinação167. Isso justifica tanto a cultura estabelecida (determinação) como seu potencial de renovação (riqueza). Para o “sociólogo das formas”, o homem supera a si mesmo no sentido de ir além dos limites que fixa. Tem que existir algo para superar, mas só existe para ser superado. O homem, como ser moral, é o ser limitado que não tem limites168. Para Simmel, a vida humana é sempre mais-vida e mais-que-vida, ou seja, transcendência169.

Simmel explica que a vida se cristaliza em formas (padrões culturais) como a arte, a ciência, a religião e o direito, mas, sendo um fluxo contínuo, está sempre rompendo a rigidez dessas mesmas formas. Algumas vezes, isso ocorre imperceptivelmente na arena dos princípios, em outras ocasiões, entretanto, se dá mediante uma erupção revolucionária170.

Sobre a relação entre o homem e a cultura, podemos então concluir: 1) O homem é um ser cultural, pois o poder de criar e inovar as

objetivações do espírito é integrante de sua natureza;

2) O homem faz cultura por essência e a cultura altera sua existência; 3) A cultura altera historicamente o homem

4) Há cultura, conforme Georg Simmel, quando o movimento criador da vida “produz certas formações nas quais encontra sua exteriorização, as formas nas quais se realiza, formas que, por sua parte, aceitam em si as ondas da vida.”171

5) A renovação da cultura é ocasionada pelo ritmo inquieto da vida, com sua subida e descida, suas oposições e concordâncias172.

Benzer Belgeler