Sapere Aude. Atreve-te a saber. Tal alocução fora exalada pelo “grande demolidor de Koenigsberg”27 para designar o tema do iluminismo. Immanuel Kant representa o ponto
culminante do pensamento iluminista, e, no interior de sua filosofia, o primado da razão encontra a sua defesa mais entusiástica. Foi ele inclusive partidário da Revolução Francesa, ao menos quando esta ainda não se encontrava em sua fase final e mais sanguinária.
Apesar da relativa parcimônia, Kant foi considerado por seus contemporâneos, tanto a leste quanto a oeste do Reno, um ardente defensor e partidário da Revolução. Chegou a ter reputação de um jacobino, e Charles Thereminm, então chefe de gabinete do Comitê de Saúde Pública e homem de confiança de Sieyès, tentou, a pedido deste último, estabelecer um contato direto, que Kant, já muito idoso e cauteloso para não intervir nos assuntos de um país estrangeiro, aparentemente teria recusado.28
26 ROUSSEAU, J. J. Do Contrato Social. São Paulo: Cultix, 1995, p. 161. 27 BONAVIDES, Paulo. Do Estado liberal ao Estado social, 2009, p. 89.
28 FERRY, Luk. Kant: uma leitura das três críticas. Tradução de Karina Jannini. Rio de Janeiro: Dielf, 2009, p. 288.
Sua filosofia afigura-se como das mais grandiosas construções que o gênio político do século XVIII pode herdar à posteridade. Sua obra fixa nitidamente a fronteira que separa a Filosofia moderna dos velhos sistemas que ele superou.2930
Em seu debruço Crítica da Razão Pura, seu objetivo primordial era o de saber como seria possível conhecer, saber as possibilidades da razão. E em tal reflexão, perguntava- se por qual motivo a metafísica não apresentaria o mesmo grau de razão que as matemáticas, a lógica ou a física.
A significação de tal pergunta é o mesmo que especular sobre a plausibilidade de a metafísica comportar formulação de juízos sintéticos a priori, uma vez que só estes são concomitantemente universais e necessários, acrescentando novos conhecimentos.
[Kant] distingue as formas do conhecimento em a priori, ou puro e a posteriori, ou empírico. Aqueles independem da experiência, sendo, pois, universais e necessários, enquanto estes se limitam aos dados oferecidos pela experiência e, por isso, contingentes. Porém, há, ainda, os juízos sintéticos e os analíticos, que se diferenciam por adicionar ou não elementos novos à assertiva.31
Faz Kant, após tais ilações, uma proposta de mudança de método na análise do ato cognitivo, por ele denominada de Revolução Copernicana (Kopernikanische Wende). Desse modo, o sujeito não gira em torno dos objetos; mas, ao reverso, os objetos devem-se amoldar ao conhecimento.
A filosofia kantiana, portanto, não tem cunho ontológico, uma vez que não concerne à coisa em si, a saber, o ser, quer no que toca à sua existência, quer à sua essência; mas, ao contrário, refere-se ao conhecimento humano das coisas, sendo desse modo uma filosofia gnosiológica, pois, como retro aludido, não se ocupa dos objetos em si, mas da forma que podemos conhecê-los a priori.
[Para Kant,] todo objeto de conhecimento é determinado a priori pela própria maneira de nossa faculdade de conhecer [...] sem a ação da subjetividade, o conhecimento e a ação são impensáveis e por isso querer tematizá-los sem levantar a pergunta transcendental é cair no mais profundo dogmatismo.32
Kant faz, por conseguinte, do homem o “eixo de toda sua indagação crítica”33.
29 BONAVIDES, Paulo, Do Estado liberal ao Estado social, 2009, p. 90-91.
30 Conferir: PEREIRA, Dersú Georg Menescal. A teoria do contrato e o pensamento político-jurídico da filosofia kantiana. Paraná: Revista da UFPA, edição no 3, mar. 2002. ARANALDE, Michel Maya, Reflexões sobre os sistemas categoriais de Aristóteles, Kant e Ranganthan. Revista Ciência da Informação, vol. 38, n. 1, Brasília, Jan 2009.
31 SANTOS, Fernando Ferreira dos. Princípio constitucional da dignidade da pessoa humana. São Paulo: Celso Bastos Editor, 1999, p. 21.
32Ibid., p. 21.
Já em seu ensaio Fundamentação da Metafísica dos Costumes, Kant constrói uma inteligência segundo a qual o princípio da moralidade será buscado, a priori, exclusivamente nos conceitos da razão pura e não na natureza do homem, nem nas circunstancias do mundo em que está inserido. O princípio da moralidade kantiano é pertinente a todos os que gozam de razão, que enquanto estrutura imanente a priori, permitiria a articulação do agir de cada um com vistas à garantia da liberdade de todos. É dizer, para Kant, a ideia de liberdade nasce da capacidade individual (enquanto ser racional) para formalizar os conteúdos necessários para o estabelecimento do seu agir no mundo, sendo então fixada a partir daquilo que ele denominou por imperativo categórico.
Para Kant, toda a moral está formada por imperativos, é dizer, por ordens: “Faça isso”, “não faça aquilo”, “evite isso”. Esses imperativos estão presentes em toda nossa vida: constantemente estamos dando ordens a nós mesmos de acordo com o que queremos fazer. Há objetivos condicionais, que são aqueles que estão de acordo com algum objetivo que almejamos: se quero pegar um avião que sai cedo, devo levantar-me cedo. Mas verdadeiramente moral seriam os objetivos que não têm objetivo algum, e que são oriundos de nossa condição humana, e que são impostos simplesmente por nossa razão. A esse conjunto de objetivos Kant chamou de imperativo categórico, por meio do qual formulou a máxima “conduze-te de tal modo que o teu agir possa converter-se em lei universal”.
Nesse sentido, a universalidade necessária atribuída ao imperativo categórico, fundamento de todas as escolhas racionalmente decididas pelo individuo, parâmetro para o exercício consciente de sua liberdade, deve encontrar, no outro extremo, um indivíduo também racional. Este, igualmente, pauta as suas escolhas no imperativo categórico amparado no reino dos fins (em que nenhum indivíduo é considerado como “meio”, mas fim em si mesmo em razão de sua especial dignidade), o que permite aos dois, atingir um plano de igualdade superior àquele inicialmente estabelecido pela ideia puramente formal de igualdade definida pelos primeiros contratualistas. Nesse ponto da filosofia de Kant, as noções de igualdade e liberdade parecem convergir de tal forma que uma se coloca como condição para a outra.
Com isso se infere que para Kant, a liberdade e a igualdade são fatos pré-jurídicos e pré-políticos, situados inicialmente no âmbito do juízo moral.
Contudo Kant reconhece que a fundamentação moral da liberdade, lastreada no imperativo categórico, não é suficiente per si para garantir a sociabilidade humana, sujeita às inflexões desestabilizadoras das paixões e aos mecanismos produtores de desigualdades. Por
isso, a sociabilidade requer a instituição de limites externos. Todavia, para que estes limites não entrem em contradição com a liberdade moral, devem ser eles estabelecidos a partir de leis auto-impostas, em virtude da capacidade dos seres racionais de legislarem para si próprios.
Desse ponto em diante, Kant inicia a construção de sua doutrina do direito, não do direito positivo, mas de um conceito universal (a priori) de direito, que tenha por objeto as relações interpessoais que constituem a sociabilidade humana. Nesses termos, a moral abrangeria o direito e o fundamento de ambos estaria na autonomia da vontade.
Kant retoma o tema do estado de natureza. Não o percebe todavia como oposto ao estado de sociedade, pois acredita que no estado de natureza possa existir uma sociedade, mas não uma sociedade civil, compreendida esta como Estado de Direito. Ou seja, a transição do estado de natureza para a sociedade civil se dá a partir do momento em que os homens decidem regular o âmbito externo de sua liberdade com base em leis que sejam a expressão universal de sua vontade, pautada na defesa de suas respectivas autonomias privadas. A função primordial do direito público seria, portanto, garantir a efetividade do direito privado.
O estado natural não é um estado fora do Direito, na concepção contratualista de Kant. Ao contrário do que postulava a antiga doutrina jusnatualista, desde Hobbes, esse Estado, que antecede a organização política, já conhecia e praticava o Direito. Faltava, porém, um princípio de segurança para a liberdade, para as relações entre os indivíduos, todos mutuamente dotados da mesma igualdade e que representavam um vasto conglomerado de vontades particulares sobre as quais nenhuma vontade superior se elevava. [...] Quando ocorre a passagem do status naturalis ao status
civilis, o Estado então se constitui, aparece o público como Direito estatuído,
provido de aparelhagem técnica, de órgãos que permitem ao princípio da autoridade positivar-se socialmente. O status civilis não é um estado justo, senão um estado jurídico. [...] o homem – asseverava Kant – não sacrificou parte de sua liberdade externa e inata a um fim determinado, quando entrou na comunidade estatal, senão que abandonou a liberdade feroz e anárquica, para reavê-la depois, intacta, na dependência da lei, ou seja, num estado jurídico, visto que esta dependência deriva de sua própria vontade legislativa.34
Ao estruturar sua compreensão acerca do fenômeno jurídico em geral e da distinção entre público e privado, em particular, Kant se coloca dentro da mesma tradição trilhada anteriormente por Hobbes, Locke e Rousseau, ou seja, no campo da filosofia contratualista – e mais especificamente, alinha-se com Locke no âmbito do liberal- individualismo.
Adere ao princípio de Rousseau acerca das origens do poder político, que é a teoria do pacto social. Mas em Kant, o pacto deixa de ser um Faktum, realidade histórica, como na antiga doutrina contratual do jusnaturalismo [...] para se converter, por último, numa ideia de todo racional. Kant procede com o pacto da mesma maneira como procedera com o Direito e procederia depois com o Estado: racionaliza-o.
Transfere-o da esfera sociológica para a esfera normativa. O pacto é uma ideia regulativa e não constitutiva, um sollen e não um sein.35
A investigação kantiana acerca do formalismo moral acabou por se colocar como fundamento para investigações posteriores acerca da plausibilidade de mútuo entendimento humano. Entendimento em torno das condições necessárias para um processo político igualitário e em torno de conceitos universais de justiça, continuando sua obra a falar através dos séculos.36
Quando a Liberdade estiver em perigo e o Direito abalado em seus últimos alicerces, haverá sempre, na historia das ideias, a imperiosa necessidade de um retorno a Kant. Não para extrair de suas páginas cópias servis e imprestáveis, ou justificações pueris da exploração burguesa, senão para nutrir o espirito na riquíssima e fecunda seiva de seu pensamento profundamente humano. Outra, por conseguinte, não poderá ser a glória e a imortalidade desse grande filósofo.37