A preocupação do presente trabalho centrou-se no esforço de compreender se, e como, a influência do UNICEF incide sobre a política de educação infantil brasileira na perspectiva da agenda globalmente estruturada. De outro lado, procuramos evidenciar em que medida a elaboração e implementação do programa Família Brasileira Fortalecida do UNICEF podem ser interpretadas como constituindo uma tradução para o contexto brasileiro de dinâmicas e processos transnacionais.
Para proceder a essa análise, identificamos que muitos aspectos das atividades das organizações internacionais e/ou regionais no setor da educação fortalecem e reforçam a agenda global, como também, muitas vezes, possibilitam sua implementação. Assim, confirmamos o incremento da agenda globalmente estruturada para educação, no campo da educação infantil brasileira, no sentido assinalado por Roger Dale.
A agenda globalmente estruturada promove a migração de políticas; todavia, essa migração não é mera transposição e transferência, pois as políticas são recontextualizadas nos âmbitos nacionais específicos. Logo, há uma relação dialética entre o global e o local. Ao longo da tese, enfatizamos que a agenda é globalmente estruturada no Brasil, como em outros países, mas diferentemente estruturada não só porque se trata de contextos distintos, mas porque a posição de cada país no sistema internacional é diferenciada.
Nesse contexto distinto e específico, mostramos, que no caso da educação infantil brasileira, a reforma educacional ampliou direitos na medida em que estabeleceu este nível de ensino como a primeira etapa da educação básica. No entanto, identificamos que persiste a influência dos organismos internacionais, mais especificamente do UNICEF, na área da educação infantil, muitas vezes com orientações conflitantes em relação à legislação educacional vigente no Brasil.
Procuramos mostrar que o UNICEF tem se constituído no principal protagonista da produção da agenda global para a infância, buscando exercer influência no processo de produção e formulação da política de educação infantil, seja através dos conceitos, conteúdos e discursos mobilizados no contexto da produção de texto, seja através da disputa estratégica pelo
o que preconiza a legislação brasileira. Por essa via, verificamos que a influência da agência sobre a educação infantil brasileira atua por meio do fluxo de idéias que circula principalmente através de redes políticas e sociais, documentos, relatórios, informes, entre outros.
Desvelamos também que ao disputar o contexto de influência, o UNICEF mobiliza diversas estratégias para influenciar e orientar a atuação do Estado, ou seja, busca se constituir como instância de mediação entre organizações governamentais e não-governamentais. Nesse sentido, comissões, grupos representativos, seminários, entre outros, tornam-se estratégias formais de articulação de influência.
Na nossa análise, observamos que o protagonismo do UNICEF influencia a educação infantil, ao mesmo tempo em que enfraquece o que preconiza a legislação brasileira. Essa indicação ganhou destaque, pois verificamos que a agência tem desenvolvido uma relação simultânea de legitimação e mandato com o Estado brasileiro. De outra parte as análises também evidenciaram que a relação entre o governo brasileiro e as organizações internacionais não acontece de forma unilateral, uma vez que essas influências estão sujeitas a recontextualizações e reinterpretações.
Para o UNICEF as creches são justificadas, na maior parte das vezes, como meio de intervenção social para ajudar aqueles que necessitam e evitar eventuais conseqüências anti-sociais. Portanto, identificamos uma ruptura entre as orientações do UNICEF e a legislação em vigor no país, especialmente a LDBN e o Plano Nacional de Educação. O UNICEF parece, assim, reforçar o direito das crianças pequenas à educação somente a partir dos quatro anos de idade, na pré-escola, manifestando muitas reservas quanto ao direito à creche, ao reconhecer sua necessidade apenas para alguns segmentos sociais e algumas situações familiares.
Ou seja, para as crianças menores de três anos, a agência procura trazer a concepção de atendimento para seu campo específico, ligado à proteção da infância em situação de risco, afastando-a da definição da lei brasileira que a inseriu no campo do direito à educação básica.
Nessa linha, o UNICEF enfatiza o papel do cuidador e da família e reitera inúmeras vezes que o melhor lugar para a criança pequena ficar é em
casa. De igual modo, é na faixa etária das crianças menores de três anos que o conflito ideológico e de concepção de programas se acirra mais. Na realidade, a despeito do que se inscreveu no texto legal, não existe consenso na sociedade brasileira sobre a função social da creche, uma vez que as análises empreendidas nesta tese revelaram conflitos e disparidades, tanto no discurso do UNICEF, como em outras esferas envolvidas na formulação das políticas.
Assim, a concepção de desenvolvimento infantil mobilizada no discurso do UNICEF tira, principalmente da creche, o seu caráter educacional institucional e o substitui por apoio às famílias, e, mais ainda, às famílias pobres. Observamos, portanto, elementos discursivos no protagonismo do UNICEF que se distanciam do que preconiza a LDBN. Isso é reflexo da influência, das pressões e lobbies nacionais e locais exercidos pelo UNICEF na realidade brasileira.
No primeiro período do governo Lula, identificamos um processo de continuidades e descontinuidades na elaboração e implementação das políticas de educação infantil, ou seja, as políticas e práticas desenvolvidas nesse período são marcadas por alguns avanços, mas também por tensões e contradições. Na análise da relação do UNICEF com a educação infantil consideramos que os diversos programas e iniciativas analisados podem ser tomados como exemplo de uma agenda comum.
De um lado, as análises também revelaram que persiste na realidade brasileira uma pluralidade de atendimento e uma sobreposição de ações, que caracterizam de forma “híbrida” a área da Educação Infantil, principalmente no atendimento às crianças de zero a três anos. De outro lado, revelaram que as posições que não aceitam que a creche se coloque em plano de igualdade com o estatuto da pré-escola fazem parte de um movimento mais amplo. Isso se viu, por parte do governo federal, no projeto inicial do FUNDEB, nas resistências que se encontram nos governos locais, como também nas metas de setores da chamada sociedade civil. Esse movimento mais amplo revela a natureza complexa e controversa da política educacional, assim como o campo repleto de pressões que é a produção da política social.
Sobre esse movimento mais amplo, nossa tese identificou a combinação de uma “pauta global do UNICEF” recriada numa “política
Educação Infantil, do MEC. Esse Programa faz parte de uma pauta
internacional do UNICEF, ou seja, faz parte de uma agenda global.
Logo, a inserção dele na educação infantil brasileira parece manter estreita vinculação com programas de outros países, sendo a expressão local da agenda globalmente estruturada. No nosso entendimento, ao recriar o programa Família Brasileira Fortalecida, o MEC procedeu a uma acomodação até certo ponto contraditória, inserindo esse “material educativo” em um programa de formação que deriva diretamente da própria legislação, o PROINFANTIL.
Concluímos, com base em nossa investigação, que a inserção desse material no PROINFANTIL revela um dos núcleos da disputa: o UNICEF procura privilegiar a família, e o MEC reforça o papel do professor e, portanto do atendimento institucional. O programa Família Brasileira Fortalecida do UNICEF no interior do MEC mostrou que as políticas nacionais muitas vezes são o produto de um nexo de influências e interdependências que resulta numa interconexão, multiplexidade e hibridização, ou seja, a combinação de lógicas globais, distantes e locais, a acomodação do programa FBF.
Programas desse tipo demonstram continuidades com as políticas do tipo emergencial e compensatório. Assim, aparece novamente a educação das famílias como estratégia privilegiada e exclusiva de educação para a pequena infância pobre, para o combate a pobreza, como se esse investimento fosse capaz, por si só, de romper com o círculo vicioso da exclusão social. Ignoram-se as diferenças estruturais que configuram as famílias, as diferenças regionais e incorre-se num risco bastante real, de se investir em programas alternativos utilizando-se de verbas que deveriam ser destinadas aos sistemas públicos de educação (Campos, M. M.,1993).
Por fim, identificamos também que a posição defendida pelo UNICEF nesse debate ainda aberto é mais conservadora do que aquilo que preconiza a legislação brasileira atual. Mesmo levando-se em conta que essa legislação adota posições ainda pouco disseminadas em outros países, sobre o atendimento a crianças com idade mais próxima do nascimento, no contexto brasileiro a posição da agência reforça resistências que permanecem na sociedade a respeito da creche como direito à educação.
Por tudo isso, podemos dizer que nossa tese revelou processos de resistências, acomodações, subterfúgios ou conformismos presentes nas esferas envolvidas na produção e elaboração das políticas nacionais, nesse caso a inserção do programa Família Brasileira Fortalecida, do Ministério da Educação. Verificamos a divergência de concepções que orientaram a elaboração do programa, confirmando que muitas vezes a criação das políticas nacionais são inevitavelmente um processo de “bricolagem”, um constante empréstimo e cópia de fragmentos e partes de idéias de outros contextos, de uso e melhoria das abordagens locais.
Enfim, revelamos que as representações políticas são resultados de disputas e acordos, pois diversos grupos competem para controlá-los e o UNICE está entre eles. De igual modo, revelamos que as políticas são retrabalhadas e aperfeiçoadas e, portanto são um nexo de influências e interdependências, como quer Stephen Ball.
Apontamos ainda que, a partir de discordâncias e contrapontos, houve uma acomodação do programa Família Brasileira Fortalecida, no MEC. De igual modo, presenciamos um conjunto de orientações, iniciativas e programas de “apoio às famílias”, ou melhor, “às famílias pobres”, que buscam orientar as políticas de atendimento e cuidado às crianças. Esses programas se constituem “numa forma de institucionalizar uma determinada ordem de organização familiar”. Em última análise e por todas essas questões, indicamos que o programa Família Brasileira Fortalecida representa descontinuidade e ruptura da política nacional.
Além disso, registramos que o período analisado é marcado pela elaboração de documentos globais que apontam metas, diretrizes e objetivos para implementação de políticas e práticas a serem desenvolvidas no atendimento às crianças de zero a seis anos. Essas metas estão presentes tanto em documentos elaborados pela ONU como em documentos e relatórios reiterados e publicados pelo UNICEF e pela UNESCO. Muitas vezes, ou melhor, na maioria das vezes, essas metas são reiteradas nas Conferências, Cumbres, Reuniões, nas quais países através das representações oficiais se tornam signatários desses compromissos e, conseqüentemente, se comprometem a cumprir metas, confirmando a
Adolescente, patrocinado pela Fundação ABRINQ.
Enfim, podemos dizer que há uma consertação de ações e que essas ações não são iguais e não são homogêneas. No caso da educação infantil, as ações/reações são diversas, tendo em vista a multiplicidade histórica da área e do próprio atendimento à criança pequena, que nunca foi homogêneo em nenhum lugar do mundo. Essas ações podem ser coordenadas e programadas globalmente, mas nos países em desenvolvimento e ou periféricos parecem assumir um caráter diferenciado.
Em última análise, este trabalho, longe de esgotar o tema, evidenciou os confrontos presentes nos processos de escolhas e decisões na implementação de políticas, seja por parte do Estado brasileiro, seja por parte de outros órgãos envolvidos na produção dessa agenda. Desvelamos também que a educação infantil brasileira presencia esse entrejogo de conflitos, tensões, coalizões e negociações, e tal situação tem conseqüências para as políticas e práticas educativas.