Desde a metade do século I d.C. teve lugar a difusão de seitas gnósticas, a partir
da Síria e da Palestina, em direção ao Ocidente, mais especificamente, à região costeira
da Ásia Menor e da Grécia, alcançando o Egito (Alexandria) e ao final, a capital do
Império, Roma. A maior parte da literatura gnóstica conhecida, inclusive os Tratados de
Nag Hammadi, data do século II, quando, ademais, floresceram as seitas gnósticas
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Inobstante alguns como Ulmann (2002, p. 101), asseverem que os gnósticos conhecidos por Plotino e cujas idéias foram contrastadas por ele, teriam sido, além dos sethianos, os valentinianos, certo é que, dos cinco “apocalipses” nomeados na Vita Plotini, 16, os dois efetivamente presentes na Biblioteca de Nag Hammadi – Zostrianos e Alógeno – são de criação sethiana. As idéias valentinianas, por certo, foram conhecidas por Plotino, seja por conta da estatura intelectual de Valentino, seja porque este último ensinou, em Roma, em princípios do século III, gozando de grande prestígio até que o seu sistema foi condenado pela Igreja. Destarte, sem negar o conhecimento, por parte de Plotino, das concepções valentinianas, esta pesquisa optou por privilegiar, no curso do trabalho, as idéias oriundas da escola sethiana, sem, entretanto, na medida do necessário, recorrer a outros sistemas para explicitar conceitos importantes à compreensão da temática da salvação entre os gnósticos.
mencionadas pelos heresiologistas, tais como a dos ofitas, dos cainitas, dos naassenos,
dos sethianos, dos valentinianos, dentre outras. Emergem, como grandes nomes do
gnosticismo de então, Basilides, Isidoro, Marcion, Cerdón, Apelles e Valentino, autores
e propagadores de sistemas que se aproximaram do Cristianismo nascente e foram
combatidos, pelos heresiologistas, como um grande perigo para a nova fé. Não há
espaço, aqui, para aprofundar os elementos centrais destas escolas e nem, tampouco,
isto parece necessário, porquanto tenha, Plotino, segundo Porfírio, se insurgido contra
os “apocalipses” de Zostrianos, e de Alógenes, presentes nos escritos de Nag
Hammadi, e de apontada autoria sethiana.
A escola dos sethianos ou arcônticos merece, destarte, especial relevo, já que,
provavelmente, foram de sua construção os referidos tratados, com os quais o
licopolitano polemizou32. Segundo H. Ch. Puech (1986, p. 123), os gnósticos
pertencentes a este sistema atribuíam um grande papel aos “arcontes” – planetários e
outros – e faziam de Seth o personagem principal de seu mito. Para eles, Seth era um
Alógeno, um estrangeiro com relação ao mundo, sendo que seus sete filhos também se chamavam allogéneis, mesma designação abraçada pelos pneumatikoi, ou espirituais,
membros da seita, que, de igual modo, se julgavam descendentes de Seth.
Característica desta escola gnóstica é a multiplicação dos níveis ou extratos, no
âmbito do processo de “descida”, o descensus ad inferiora, da divindade. Não há, aqui,
uma distinção substancial ou hipostática entre os sucessivos “níveis” da divindade. Há,
com efeito, um primeiro extrato ocupado pelo sujeito divino - que recebe o nome de
Deus ou o Espírito - em sua absoluta transcendência. Segue-lhe um segundo extrato,
formado pelos éons superiores femininos; o sujeito deste nível recebe, em quase todos
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os escritos sethianos, um nome feminino, qual seja, Barbeló33. Tal personagem
feminino, Barbeló, é dotado das condições necessárias para desempenhar o seu papel de
princípio dos extratos inferiores, bem como de princípio ou causa remota do Universo.
Barbeló é portadora de disposições abstratas ou éons, que variam de número: nos tratados Zostrianos e Alógenes (que serão analisados no correr deste trabalho), o
número de éons é três, a saber, Existência, Beatitude e Vida. Estes éons, em conjunto
com aqueles outros do extrato seguinte (os éons masculinos) constituem o Pleroma
superior. O terceiro extrato, como já se adiantou, é constituído pelos éons superiores
masculinos, que se estabelecem em estreita correlação com os éons femininos, do
extrato anterior. No Zostrianos e no Alógenes, as três disposições femininas do segundo
extrato constituem o substrato metafísico sobre o qual os éons masculinos do terceiro
extrato recebem as suas formas, configurando, assim, os três éons individuais: o Oculto
(Kalyptós), o Primeiro Manifestado (Protophanés) e o Autoengendrado (Autogenés).
Este último foi investido, pelo virginal Espírito invisível, de preponderância sobre as
demais potestades, razão pela qual é chamado, pelos sethianos, de arconte principal dos
seus éons e anjos (Zostrianos, 19, 6-26). O Autogenés atua por meio de quatro éons,
denominados “os quatro luminares”. Os éons do segundo e do terceiro extrato,
configuram, em conjunto, o Pleroma superior, que, em alguns textos, é objeto de uma
queda, por conta de uma deficiência (Zostrianos, 81,6; 9, 16-17; 27, 9-12; 10, 7-9), sem
que isso, todavia, configurasse um “pecado dos éons”, tal qual o concebia uma outra
escola gnóstica, a dos valentinianos. O quarto extrato é formado pelos éons do Pleroma
inferior – os já referidos luminares - que, em número de quatro, recebem os nomes de
Armozel, Oriel, Daveitai e Elelet, sendo neste nível, também, que se dá a aparição do
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De acordo com o magistério de Piñero, Torrents e Bazán (2000, p. 238), barbeló é um nome semítico, de etimologia não clara. Talvez derive do hebraico arbáh (quatro), de modo a designar a tétrada divina (Harvey), ou advir do aramaico balbal (coração), com o sentido de “espírito que o coração resplandece” (Tardieu), ou, ainda, do aramaico bar Baal, isto é, “o filho do Senhor” (Quipel).
paradigma inteligível do ser humano, o Homem Primordial. O quinto e último extrato é
ocupado pelo éon Sophia ou Pistis (a Sabedoria), identificado, por vezes, com o último
éon de Elelet, que protagoniza um momento de ruptura com a divindade e que tem a função de criar o Universo (em verdade, Sophia é a mãe do Universo). De acordo com o
tratado Zostrianos, Sophia é aquela que “olhou para baixo”, sendo que sua queda é
explicada por estar ausente, no seu agir, a vontade do Pai, bem como por ter, ela, atuado
sem unir-se ao seu consorte, cujo nome sequer é mencionado. O produto desta ação é,
por conseguinte, uma obra imperfeita, qual seja o arconte demiúrgico ou uma sombra
que, por mediação da matéria, produz o arconte demiúrgico; isto fará com que Sophia
seja denominada “a material” (do grego hylikós). Uma vez produzido o arconte, a
Sabedoria se recolhe a um estado de esquecimento e ignorância, qualificado como
“estado de deficiência”. Em uma etapa posterior, Sophia, que, por seus atos é, em
alguns tratados, qualificada de prostituta, experimenta uma metanóia – um estado de
mudança da mente acompanhado pelo arrependimento – sendo, então, ajudada pelos
éons superiores, no sentido de obter a conjunção com seu consorte, que, por sua vez, acaba por sanar a deficiência por ela apresentada. Sophia – a mãe dos homens
espirituais - então redimida, não regressa, de pronto, ao Pleroma, permanecendo em
uma instância intermediária entre os mundos divino e corporal (PIÑERO; TORRENTS;
BAZÁN, 2000, p. 51-55).
O qualificativo “sethiano” denota, além do referido sistema, um corpus de textos
e mitos que enfatizam a figura de Seth, o terceiro filho de Adão e Eva. Os gnósticos que
pertenciam a esta escola foram também chamados, pelos heresiologistas, de
barbelognósticos, porque a divindade feminina Barbeló se faz presente nos escritos produzidos pela seita, dentre os quais o Zostrianos e o Alógenes, conhecidos e refutados
referem aos sethianos, isto é, a si mesmos e aos demais membros de seu grupo, como a
inabalável raça do gênero humano, ou a linhagem (semente) de Seth, posto que se
consideravam, através de Seth, como filhos de Adão e Eva, que lhes disponibilizavam a
iluminação (BARNSTONE; MEYER, 2006, p. 109-110). De acordo com o Gênesis,
com Seth tem lugar um novo princípio para a humanidade, após a violência que
permeou o relacionamento entre Caim e Abel. Por esta razão, é chamado de sperma
heteron, ou “outra semente”, no lugar do assassinado Abel. Os gnósticos sethianos, neste diapasão, descrevem, a si mesmos, como uma outra raça, a linhagem ou a semente
de Seth. Os escritos sethianos trazem, em seu bojo, uma reinterpretação de capítulos do
Gênesis, de origem judaica, à luz da mitologia e da filosofia gregas, notadamente a
tradição platônica.
Cumpre ressaltar que, para os sethianos, a divindade primordial é o infinito Um,
o Espírito Invisível, do qual emanou a Divina Previdência, Barbeló. O casal, então,
produz um filho divino, dando origem a uma trindade. No Pleroma, ou plenitude da
divindade, há quatro luminares, Armozel, Oriel, Daveitai e Elelet, em companhia de
Garadamas ou Adão, o Estrangeiro (Alógeno) e seu filho Seth. A mãe Sophia, ela própria uma instância divina conectada a Elelet, comete – por razões que se mostram
diversas nos textos da escola – um erro de avaliação, sendo que, por conta desde
equívoco, tem um filho prepotente e malicioso, o demiurgo criador do mundo, que se
chama Ialdabaoth (Yaldabaoth), Sakla, ou Samael.
Plotino polemizará com os sethianos, quanto à cosmologia pessimista por eles
desenvolvida, assim como à profusão de hipóstases – éons – integrantes do mundo
espiritual, esposada pelos mesmos, por sua postura ética, e, ainda, pelo caminho
salvífico preconizado pela escola, o qual, normalmente, se funda em revelações
Este sistema gnóstico parece ter merecido singular atenção de Plotino por aliar, a
uma mitologia própria, elementos da metafísica platônica, conjunção, esta, que
reverberou, fortemente, no seio da escola neoplatônica. Diante de tal quadro, Plotino
sentiu-se compelido a alinhar algumas das diferenças entre o seu pensamento e aquele
outro, de matriz gnóstica sethiana.
Portanto, embora alguns advoguem que os gnósticos conhecidos por Plotino e
cujas idéias foram contrastadas por ele, seriam, além dos sethianos, os valentinianos,
certo é que, dos cinco “apocalipses” nomeados na Vita Plotini, 16, os dois efetivamente
presentes na Biblioteca de Nag Hammadi – Zostrianos e Alógenos – são de criação
sethiana.