Os imperadores Antoninos deram ao Império quase um século de governo eficiente e tranquilo, que mais tarde pareceria uma época áurea. Três eram de origem espanhola, portanto o Império não pertencia mais aos Italianos (ROBERTS, 2001, p. 231). Gibbon51, autor de uma obra clássica sobre o assunto, cantaria a excelência da era dos Antoninos como o período mais feliz da história da humanidade:
Se fosse mister determinar o período da história do mundo durante o qual a condição da raça humana foi mais ditosa e mais próspera, ter- se-ia sem hesitação de apontar a que se estende da morte de Domiciano até a elevação de Cômodo. A vasta extensão do Império romano era governada pelo poder absoluto sob a inspiração da virtude e da sabedoria. Os exércitos foram contidos pela mão branda mas
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Edward Gibbon (1737-1794): historiador e membro do parlamento inglês, do espírito do iluminismo autor de A História do Declínio e Queda do Império Romano (The History of the Decline and Fall of the Roman Empire) (GIBBON, 1978, p. V).
firme de quatro imperadores sucessivos cujo caráter e autoridade suscitaram respeito involuntário. As formas da administração civil, cuidadosamente preservadas por Nerva, Trajano, Adriano e os Antoninos, justificavam a imagem de liberdade em que eles se compraziam, considerando-se ministros responsáveis perante as leis. Tais príncipes mereceriam a honra de restaurar a república, tivessem os romanos de sua época sido capazes de desfrutar uma liberdade racional (GIBBON, 1989, p. 87)52
Estudando a Dinastia dos Antoninos, o historiador Homo53 anota: “Um prólogo, Nerva; quatro atos Trajano, Adriano, Antonino e M. Aurélio; um epílogo, Cômodo, assim aparece aos olhos da história o Século de Ouro do Império Romano” (GIORDANI, 2002, p. 67).
Os imperadores Antoninos que, com exceção dos dois últimos, não estavam ligados entre si por laços de filiação natural procuraram garantir sua sucessão por meio da adoção e da associação ao governo do futuro imperador. Tal sistema, que impediu a ingerência indevida da guarda pretoriana na escolha do soberano, foi facilitada pelo fato de que três grandes imperadores (Trajano, Adriano e Antonino Pio) não possuíam filhos (GIORDANI, 2002, p. 67).
A intriga palaciana que eliminara o último dos Flávios abriria um vácuo no poder, pois, em mais de um século de Principado, Roma já se acostumara com uma sucessão hereditária. No entanto, há de se imaginar que os conjurados tinham um plano sucessório para completar com sucesso o golpe de Estado, pois a transição, ao contrário do que se poderia supor, foi pacífica. Essa transição de concórdia provavelmente contava com concordância do escolhido para o cargo.
Esses conspiradores tinham conseguido a pronta aprovação do Senado ao sucessor, Nerva, um velho senador, rico e respeitado, que restaurou a linha flaviana de bom governo (JAGUARIBE, 2001, p. 396). Parte do atrativo de Nerva como candidato consistia em não ter filhos, o que parecia
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No original: If a man were called to fix the period in the history of the world, during which the condition of the human race was most happy and prosperous, he would, without hesitation, name that which elapsed from the death of Domitian to the accession of Commodus. The vast extent of the Roman empire was governed by absolute power, under the guidance of virtue and wisdom. The armies were restrained by the firm but gentle hand of four successive emperors, whose characters and authority commanded involuntary respect. The forms of the civil administration were carefully preserved by Nerva, Trajan, Hadrian, and the Antonines, who delighted in the image of liberty, and were pleased with considering themselves as the accountable ministers of the laws. Such princes deserved the honor of restoring the republic, had the Romans of their days been capable of enjoying a rational freedom (GIBBON, 1978, p. 32).
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Léon Pol Homo (1872-1957): historiador francês, do espírito do iluminismo autor de O Século de Ouro do Império Romano (Le siècle d'or de l'empire romain. Les Antonins (96-192 ap. J.C) (GIORDANI, 2002, p. 386).
deixar aberta uma possibilidade de manobrar politicamente (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 102).
Nerva (96-98) era um senador venerável, que, por sua idade, não
conseguiu governar muito tempo (FRÓES, 2004, p. 86). Escolhido pelo Senado com idade já avançada, imadiatamente adotou e incorporou ao governo Trajano (LIBERATI, 2005, p. 39).
Nerva inaugurou a prática de selecionar um bom sucessor mediante sua adoção. A adoção do general Trajano em 97 garantiu a tranquilidade de seu curto reinado, que representou uma ponte entre os flavianos e os antoninos (JAGUARIBE, 2001, p. 395).
Trajano (98-117), chamado oficialmente pelo Senado em 114 “o
melhor dos príncipes” (optimus princeps), uniu às notáveis qualidades de militar uma grande capacidade de administrador (GIORDANI, 2002, p. 68).
Trajano tinha nascido em Itálica, na Espanha, e sua origem provinciana correspondia à equiparação entre as províncias e a Itália, algo que já era um feito e foi uma das razões da prosperidade e da forte união do Império (LIBERATI, 2005, p. 3).
Com Trajano, começou, latu senso, a linha dinástica dos Antoninos, mantendo, por adoção, uma série de imperadores competentes, que garantiram o mais longo período de bom governo da história de Roma (JAGUARIBE, 2001, p. 395).
Trajano destacou-se como militar nas campanhas contra os dácios e os partos. Decidiu pela reconstrução do Império em todos os seus aspectos: agricultura, artes, letras, filosofia (FRÓES, 2004, p. 86). Trajano foi o último grande conquistador romano, seu gênio militar é só comparável, na antiguidade, a César e a Alexandre Magno.
A política exterior de Trajano se distingue por uma forte tendência expansionista, devido, sobretudo, à necessidade de fundos. As campanhas militares levam o Império Romano à sua máxima extensão, com a conquista da Dácia (atual Romênia), a Arábia Pétrea, Assíria e Mesopotâmia (que passam a ser províncias), e a ocupação de Ctesifonte, a capital dos partos (BOVO, 2006c, p. 12).
Preocupado com a defesa das fronteiras, construiu fortificações em lugares estratégicos. Infelizmente, para Roma, morreu antes de consolidar suas conquistas - o que poderia ter feito em apenas alguns anos mais (JAGUARIBE, 2001, p. 397).
Trajano faleceu em 117, na Cilícia. Segundo Plotina, sua viúva, este havia manifestado o desejo de que Adriano, seu parente e companheiro constante, fosse também seu sucessor (GIORDANI, 2002, p. 68). Adotado por Trajano no seu leito de morte, Adriano tinha prestado importantes serviços militares ao imperador. Como Trajano pertencia a uma família de Roma que havia emigrado para a Espanha (JAGUARIBE, 2001, p. 397), afastados os possíveis adversários, Adriano foi reconhecido pelo Senado e teve um reinado tranquilo de mais de vinte anos (GIORDANI, 2002, p. 68).
Adriano (117-138) foi um grande consolidador. Tinha um
conhecimento amplo e preciso das condições de cada província e do governo central, dos seus recursos humanos e financeiros (JAGUARIBE, 2001, p. 397). A grande preocupação do novo imperador foi a manutenção da paz. Renunciou às guerras de conquista do antecessor e procurou manter a paz, fortificando as fronteiras do império (GIORDANI, 2002, p. 68), com um poderoso sistema de fortificações defensivas, entre as quais a famosa muralha britânica (LIBERATI, 2005, p. 39).
A obra de Adriano constituiu essencialmente na consolidação institucional e operacional do Império. Com a ajuda do jurista Sálvio Juliano, ele produziu a codificação definitiva dos decretos do Prætor, conferindo segurança e objetividade ao sistema judicial. A única fonte legal passou a ser os decretos do imperador (JAGUARIBE, 2001, p. 397).
No principado, o pretor, embora não tenha perdido, até o tempo do imperador Adriano, o poder de, indiretamente, criar direitos por meio de elaboração de seu edito (ius edicendi), na prática se limita, geralmente, a copiar os editos de seus antecessores, e isso, por certo, pela posição subalterna a que ficou reduzida, nesse período a pretura. Assim, o edito já se consolidara, de fato, pela ausência de modificações introduzidas pelos pretores que se sucediam. E essa situação de fato se converteu em situação de direito na época de Adriano, imperador que ordenou ao jurisconsulto Sálvio Juliano a fixação definitiva do texto dos editos. A esse trabalho foi dada a denominação de Edictum Perpetuum (Edito Perpétuo) pela imutabilidade do texto. A partir de então o pretor somente pode criar novos meios processuais por solicitação do Príncipe ou do Senado (ALVES, 2007, p.32).
Em 137, ao completar vinte anos de reinado, Adriano recebeu do Senado elogios e honrarias sem precedentes, mas já estava doente e se tornara uma figura tristonha e solitária, sujeito a crises de ausência (JAGUARIBE, 2001, p. 398).
Adriano adotara e escolhera como sucessor Antonino Pio, que unia à capacidade de administração, já provada no exercício de elevados cargos públicos, um profundo espírito de honestidade e ponderação (GIORDANI, 2002, p. 69). Em 138, Adriano morreu e Antonino não teve dificuldade em obter o reconhecimento do Senado como sucessor (JAGUARIBE, 2001, p. 398).
Antonino Pio (138 - 161) recebeu do Senado o título de Pius, por
sua fidelidade à memória de Adriano. O reinado de Antonino Pio é uma época de paz e tranquilidade irradiadas pela personalidade bondosa do soberano (GIORDANI, 2002, p. 69).
Na política externa, reprimiu, sem abandonar a Itália, algumas rebeliões na Bretanha, Germânia, Dácia, Acaia e Egito (GIORDANI, 2002, p. 70). Antonino Pio manteve, em sua política, a linha de seu antecessor e construiu, na Bretanha, uma nova muralha ao norte daquela de Adriano (LIBERATI, 2005, p. 39). Teve um reinado pacífico, gozando as vantagens da boa administração e da cuidadosa proteção de fronteiras praticadas pelo seu predecessor (JAGUARIBE, 2001, p. 398).
Nomeou sempre como auxiliares pessoas experientes e justas. Criou importantes instituições. Socorreu cidades assoladas por calamidades públicas (FRÓES, 2004, p. 87).
O reinado de Antonino Pio marca, na realidade, uma das épocas mais felizes do gênero humano. O imperador mereceu o epíteto que lhe deu Pausânias54: “pai dos homens” (GIORDANI, 2002, p. 70).
Ao sentir a morte, Antonino Pio mandou que se levasse a estátua de ouro da Vitória para a casa do filho adotivo, Marco Aurélio, chamado “o filósofo”, que deu continuidade às suas obras (FRÓES, 2004, p. 87).
Marco Aurélio (161-180) foi o derradeiro grande imperador da
dinastia dos Antoninos e, também, uma figura trágica em todos os sentidos (JAGUARIBE, 2001, p. 399). Filho adotivo de Antonino, esposo da filha deste, Faustina, e associado, desde cedo, ao governo, era dotado das mais elevadas qualidades morais (GIORDANI, 2002, p. 70).
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Pausânias, geógrafo e historiador grego do século II, autor de Itinerário da Grécia (Periegesis Hellados), obra composta por dez livros, é a melhor fonte em que os arqueólogos podem procurar os locais de monumentos da antiguidade clássica.
Quando Antonino adotara Marco Aurélio, fizera-o por determinação de Adriano, que ainda vivia. Adriano, na ocasião, ordenara que Antonino adotasse também o jovem Lúcio Vero. No testamento de Adriano, ficou, portanto, estipulado que os herdeiros de Antonino seriam os dois irmãos adotivos, na qualidade de coimperadores.
Marco Aurélio cumpriu escrupulosamente o testamento de Adriano, formando um colegiado com seu incompetente coimperador, o “irmão” Lúcio Vero. E até a morte deste, em 169, precisou constantemente consertar suas falhas (JAGUARIBE, 2001, p. 399).
Conhecido pelas suas notórias virtudes, pela sua vida trágica e pela sua filosofia estóica, Marco Aurélio é objeto de um estudo mais aprofundado no capítulo seguinte da presente obra. Por ora, para que se prossiga com a evolução factual e cronológica da história do principado, interessa salientar que, apesar de tão preparado e virtuoso, Marco Aurélio foi incapaz de, como seus antecessores, preparar uma sucessão tranquila e vantajosa para o Império.
Marco Aurélio decidiu interromper a seqüência das adoções imperiais que vinham prevalecendo desde Trajano (no caso dos imperadores sem herdeiros do sexo masculino), em favor de seu filho Cômodo, entre outras razões porque não encontrou um candidato para a sucessão que tivesse aceitação geral. Conhecia as limitações de Cômodo, mas esperava, generosamente, que um dia pudesse ser um bom imperador, caso se cercasse de bons conselheiros (JAGUARIBE, 2001, p. 400).
Essa decisão se mostraria um grave erro, pois seu filho Cômodo, que ascendeu ao trono muito jovem, interrompeu uma série de bons governos dos imperadores anteriores, destacando-se por sua ambição e crueldade (LIBERATI, 2005, p. 39).
Cômodo (180-192), filho de Marco Aurélio, paradoxalmente
revelou-se um imperador sanguinário e cruel, dominado por baixas paixões (FRÓES, 2004, p. 88).
A política interna de Cômodo foi desastrosa: a má administração provocou a alta de preços e o tesouro foi arruinado com o aumento do soldo das tropas (GIORDANI, 2002, p. 71). Manteve um grupo que fazia um policiamento secreto e, graças às informações de delatores, lançou muitas sentenças de morte contra pessoas importantes, contra parentes e até mesmo contra o grande jurista Sálvio Juliano (FRÓES, 2004, p. 88).
O imperador comportava-se como um louco: julgava-se deus; descia à arena para lutar com gladiadores, forçando os senadores a assistirem às suas façanhas. Acabou assassinado em 192 (GIORDANI, 2002, p. 71). Seu corpo foi jogado no Tibre e declarada desonrosa sua memória (FRÓES, 2004, p. 88).
Pertinax, eleito imperador no seu lugar, é assassinado apenas três meses mais tarde em 193 pelos pretorianos, que nomeiam, em troca de um forte donativo, Dídio Juliano, enquanto as legiões estabelecidas nas várias províncias proclamam imperadores os seus chefes. Na Bretanha é aclamado Décimo Albino, na Síria, Caio Níger, e na Panônia Sétimo Severo (BOVO, 2006c, p. 13).
Por estar mais próximo de Roma, Severo alcançou primeiro a capital, depôs Juliano - que foi morto -, foi reconhecido pelo Senado (GIORDANI, 2002, p. 71). Por fim, termina vencedor de uma terrível guerra civil e, em 197, fica sozinho no poder (BOVO, 2006c, p. 13).