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Na obra de Montesquieu Considerações sobre as causas da

grandeza dos Romanos e de sua decadência, quando o autor compara

Pompeu e César, afirma que ambos são igualmente ambiciosos e acrescenta que: “[...] exceto pelo fato de que um não sabia chegar a seus objetivos tão diretamente quanto o outro, ofuscaram, por seu mérito, suas façanhas e suas virtudes, todos os outros cidadãos” (MONTESQUIEU, 2002, p.81). Definitivamente, é impossível discordar do autor, pois Júlio César, jovem e sem recursos financeiros, em pouco tempo irá dividir o poder com Pompeu e Crasso, pois soube aproveitar a ausência do primeiro para influenciar o segundo.

O apogeu da carreira de Pompeu coincide com o aparecimento de César no primeiro plano do cenário político (GIORDANI, 2002, p. 56). Ele viria a se tornar um dos mais ilustres homens de guerra da antiguidade, sempre confiante na sua própria fortuna, pois pretendia ser descendente da deusa Vênus19, por Enéas o herói troiano, e, do deus Marte20, por Rômulo co- fundador e primeiro rei de Roma, (LELLO, p. 525).

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Júlio César pretendia ser descendente do herói troiano Enéias filho da deusa Vênus. Enéias, sobrevivente da guerra de Tróia, teria aportado na Itália e seus descendentes fundariam Roma. Tanto Virgílio na Eneida (Æneis), quanto Tito Lívio na História de Roma (Ab Urbe Condita Libri) atestam a origem divina de Enéias. Em Virgílio: “Entretanto o piedoso Enéias [...] avança brandindo na mão duas lanças de largo ferro. Vênus, sua mãe, a ele se apresentou saindo do bosque, [...] (VIRGÍLIO MARÃO, 1994, P. 25); e em Lívio: [...] seu chefe era Enéias, filho de Anquises e de Vênus, que fugiram de sua pátria incendiada e procuravam um local para se estabelecerem e fundar uma cidade [...] (LÍVIO, 1989, v. 1, p. 22).

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Júlio César igualmente pretendia ser descendente dos primeiros reis de Roma. Rômulo, co- fundador da cidade e seu primeiro rei, era da linhagem de Enéias por sua mãe, uma virgem sacerdotisa vestal, que teria engravidado do deus Marte. Tanto Virgílio na Eneida (Æneis),

A atmosfera política de Roma durante esses anos foi dominada pela lembrança do ausente Pompeu, pelo temor do que pudesse fazer em seu regresso e pela memória de Sila (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 68).

Naqueles anos, a carência financeira aumentara e, com ela, o descontentamento, gerando uma teia de intrigas na qual os concorrentes do afastado Pompeu ganhavam espaço. Entre os rivais de Pompeu, o mais importante era evidentemente Crasso, que, secundado por Júlio César, propunha leis que favoreciam a plebe.

César, que já se caracterizava por seu senso político, autodomínio, audácia, ambição e inteligência, fizera, até então, uma carreira política de segundo plano (GIORDANI, 2002, p. 56). Em contrapartida, gozava de grande prestígio junto às classes militares, por suas notáveis campanhas na Espanha, onde vencera Viriato, célebre líder dos habitantes de Portucale (DE CICCO, 2012, p. 59), quando fora questor21 na comitiva do pretor22 Caio Antístio Véter, em 69 a.C. (CANFORA, 2002, p. 456).

Crasso, apoiado e induzido pelo jovem Júlio César, propôs a criação de um tribunato que adquirisse terras na Itália e nas províncias para o assentamento de pobres e de veteranos das campanhas de Pompeu (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 68). Mesmo tal lei não tendo sido aprovada, cada vez mais César se torna popular e influente, inquietando o Senado.

As atividades de Crasso e César despertavam profundas suspeitas nos círculos conservadores; por isso, eram frequentes os rumores de quanto Tito Lívio na História de Roma (Ab Urbe Condita Libri) atestam a filiação de Rômulo; Em Virgílio: “Lá, durante três vezes cem anos, reinará a raça de Heitor, até que Ília, rainha e sacerdotisa, fecundada por Marte, der à luz os gêmeos. Depois Rômulo, orgulhoso com a fulva pele da loba, sua ama, receberá a nação e construirá os muros de Marte, e dará seu nome aos romanos (VIRGÍLIO MARÃO, 1994, P. 25); e em Lívio: “Vítima de violação a vestal deu à luz dois gêmeos e, fosse por boa-fé, fosse para enobrecer sua falta atribuindo-a a um deus, responsabilizou Marte como autor daquela paternidade suspeita” (LÍVIO, 1989, v. 1, p. 25).

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QUÆSTOR - durante o período real, os quæstores eram encarregados de algumas causas criminais. Em 509 a.C, os quæstores tornaram-se magistrados públicos e foram ainda encarregdos da administração do tesouro (CANFORA, 2002, p. 491).

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PRÆSTOR - nos primeiros tempos da república, o pretor era o cônsul em armas. A partir de 367, ele passou a ser um magistrado encarregado de exercer em Roma exclusivamente a jurisdição civil (prætor urbanus); a esse pretor veio juntar-se, em 241 a.C., o prætor peregrinus, encarregado dos litígios junto aos estrangeiros ou entre estrangeiros e cidadãos (CANFORA, 2002, p. 490).

conspirações e ameaças à ordem pública (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 68).

César tinha o apoio financeiro de Crasso, que o custeava saldando suas dívidas na esperança de encontrar nele um aliado forte que seria agradecido o suficiente para devolver tais favores quando Pompeu regressasse.

César também não perdia tempo. A essa altura, ainda com dinheiro de Crasso, já se fizera eleger edil curul23, uma espécie de “decorador- mor” da Prefeitura. Essa função incluía também a organização de jogos públicos: corridas de cavalos, brigas de gladiadores, lutas com feras. A plebe romana comparecia em peso, entusiasmava-se com os espetáculos. E César dava-lhes circo à vontade, sempre tomando o cuidado de esclarecer que era ele o financiador. Tamanha foi sua generosidade, que em pouco tempo era devedor de uma cifra astronômica. Mas os jogos não absorviam todo o tempo de César. Enquanto Pompeu esteve fora, o “favorito da plebe” e seu financiador Crasso tramaram vários golpes de Estado em diversas alianças com setores radicais (MONDADORI, 1970, p.98).

Em 63 a.C, César é eleito pontífice máximo24 (CANFORA, 2002, p.456). O cargo não oferecia poder algum, apenas prestígio (MONDADORI, 1970, p.98).

Finalmente, Pompeu volta para Roma. Ao regressar e celebrar seus triunfos, acreditava ter alcançado uma situação de conforto no jogo político, tornando-se fácil controlar o Senado, mas se desiludiu, pois, mesmo tendo trazido enormes riquezas para Roma, uma facção de senadores conservadores, liderados por Lúculo e Catão, foram reticentes em atender seus pedidos e de prover terras aos seus soldados veteranos das recentes campanhas militares.

Esses homens e seus aliados decidiram frustrar os desejos de Pompeu por longo tempo; ao fazê-lo, provocaram inconscientemente sua própria ruína e a destruição da República (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 69).

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Os ÆDILES CURALES eram membros do patriciado cujas funções eram exercidas na vigilância dos mercados, em atividades de política urbana, na cura annonæ (abastecimento da cidade de Roma), na preparação dos jogos, no cuidado dos arquivos (CANFORA, 2002, p.484).

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Pontífice Maximo (PONTIFEX MAXIMVS) - é o mais alto grau sacerdotal. Representava todas as divindades reconhecidas pelo Estado, era superior a todos os outros sacerdotes (CANFORA, 2002, p.489).

Pompeu, dito Magno, que era comparado a Alexandre Magno, não se conformou com tamanha afronta e tratou de providenciar apoio para a sua causa. Deste modo, os senadores inadvertidamente acabaram por empurrar Pompeu em direção à mais improvável das alianças, ou seja, para César e Crasso.

César, que também tinha problemas com o Senado, tornara-se uma figura eminente e popular nos anos em que Pompeu estava na Ásia, e por ser aliado de Crasso, e patrocinado por este, incluiu-o no pacto que celebrou com aquele.

A aliança de Pompeu com César é consolidada com o casamento do primeiro com Julia, filha do segundo, e, mais tarde, reforçada pela inclusão de Crasso, para formar informalmente o primeiro triunvirato (JAGUARIBE, 2001, p. 382).

A combinação de recursos e da influência dos três homens foi muito efetiva. César conseguiu a desejada nomeação para cônsul em 59 a.C, assim como, pela Lei Agrária, a distribuição de terras aos veteranos de Pompeu (JAGUARIBE, 2001, p. 382).

Ao findar seu consulado, César obtém o governo da Gália Cisalpina e da Ilíria por cinco anos. (GIORDANI, 2002, p.57). Em 56 a.C., César convidou Crasso e Pompeu a se encontrarem em Luca (Gália Cisalpina) para renovar sua aliança (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 69).

Pompeu e Crasso são eleitos cônsules (55 a.C) e os poderes de César, na Gália, são prolongados (GIORDANI, 2002, p.57). Depois da morte súbita de Metelo Celer, que recebera o governo da Gália Transalpina, deu a César a oportunidade de acrescentar aquela província à sua jurisdição, graças ao patrocínio de Pompeu no Senado (JAGUARIBE, 2001, p. 382).

Ao deixarem seus cargos, os dois primeiros triúnviros recebem os governos provinciais da Espanha e da Síria. Crasso parte, então, para o Oriente; César permanece na Gália e Pompeu faz-se representar na Espanha (GIORDANI, 2002, p.57).

César era, de longe, o mais hábil dos três. Decidiu que precisava de um pouco mais de glória militar para se tornar um herói popular (VAN LOON, 2004, p. 113). “Nesse momento, chegaram notícias alarmantes das Gálias, onde o líder dos gauleses, Vercingetorix, proclamara-se em rebeldia.

Nomeado governador das Gálias pelos senadores, César partiu a fim de pacificar a região” (DE CICCO, 2012, p. 59). César dedicava seus talentos a uma série de brilhantes incursões contra os gauleses, adicionando ao Estado romano os territórios que hoje pertencem à Bélgica e à França (BURNS, 1959, p. 224).

Plantou, então, uma sólida ponte de madeira sobre o Reno e invadiu as terras dos selvagens Teutões. Por fim, construiu uma frota e chegou à hoje denominada Grã-Bretanha (VAN LOON, 2004, p. 113).

Após uma árdua campanha, em que mostrou seu admirável senso militar, César subjugou os revoltosos e escreveu De Bello Gallico, comentário das guerras que manteve contra os gauleses (DE CICCO, 2012, p. 59). César era tão competente no manejo das palavras quanto no comando das legiões, transformou em uma arte a composição de seus despachos militares (REID, 2004, p. 28).

Entretanto, alguns acontecimentos vêm pôr fim ao triunvirato (GIORDANI, 2002, p.57). A renovada aliança logo começa a dar sinais de fraqueza (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 69). A morte de Júlia, filha de César e esposa de Pompeu, contribui para o arrefecimento das relações entre os dois políticos (GIORDANI, 2002, p.57).

Um ano depois, o triunvirato deixou de existir pela derrota e morte de Crasso na batalha de Carras, que pôs um ponto final à sua temerária tentativa de invadir o império parto (CORNELL; MATTHEWS, 2005, p. 69). A morte de Crasso em mãos dos partos, na batalha de Carras, agudizou a rivalidade entre César e Pompeu (BOVO, 2006b, p. 14).

Graças ao erro de Crasso, que, mal calculando, esperava a glória suprema na tentativa de subjugar uma potência rival, o triunvirato desapareceu, deixando o caminho livre para Pompeu e César, que aspiravam à ditadura, ou, como se percebeu mais tarde, à realeza.

Benzer Belgeler