• Sonuç bulunamadı

Um signo substitui algo de outro lugar, mas se refere a essa ausência com sua presença significante. Assim, a jangada aponta e comparece como lugar que aponta para um território em disputa. E isso se diz nos signos que, contudo, possuem sua história. Torná-la-ia memorável, a lembrança?

Os pescadores possuem um vasto conhecimento sobre o mar e sobre como conseguir vencer os obstáculos apresentados pelo mesmo. Esses saberes estão sempre vinculados à experiência deles. Compreendem formas de navegação sem o uso de GPS, apenas “através dos astros”, assim como eles dizem, conseguem perceber as diferenças nas formas do vento, como por exemplo, quando o vento se organiza para que venha chuva, percebe os tipos de vento pelo movimento das nuvens, conhecem as estrelas, e o tempo certo para cada atividade. Conhecem uma vasta espécie de peixes, seus hábitos alimentares e os lugares no mar em que é possível encontrar tais espécies.

Aquela nuvem está indo devagar, é sinal que o vento vai “geralar” vento geral. Isso é chamando chuva. Engraçado que a gente percebe tudo isso, e aprendeu isso pela experiência, não foi nenhum cientista que veio aqui e disse que se a nuvem está assim, é porque o tempo está se preparando para mais tarde chover, a gente aprendeu isso na vivência com o pai, e uns com os outros. (Pescador, 29 anos de idade).

É importante perceber na fala que não há um desmerecimento do conhecimento científico em detrimento do conhecimento tradicional, mas estas duas vertentes sistematizam o saberes de modo diferentes. É aquilo que nos diz Freire (1987: p.68): ''Não há saber mais, nem saber menos, há saberes diferentes''

Os saberes desses pescadores são aqueles conhecimentos que já foram criados, transmitidos e preservados pelas comunidades tradicionais. Esses conhecimentos são adquiridos através de uma observação mais minuciosa e um contato mais efetivo com a natureza.

A inteligência da gente é assim, por exemplo, você, começou a estudar uma faculdade, então se você perguntar pra mim o que é faculdade eu não sei de nada, não sei, não estudei pra faculdade, agora se eu perguntar pra você a pescaria é que o

serrote, o que é o Morro Branco, o que as contidibas, qual é os cardirins, você não vai me entender, essa é a realidade da sabedoria. Agora você pode dizer que a diferença entre nós dois é grande, mas não é não, é a mesma coisa é com o que você convive. Se todo dia você vai pra praia, tem um bote que rola só naquele canto, seu for amanhã e ele tiver rolado em outro canto, eu vou pensar o que aconteceu que esse bote não foi rolado hoje no mesmo canto? Alguma coisa aconteceu lá, ou o morro cavou, ou o mar lavou, alguma coisa aconteceu. Então como eu tô lá todo dia, eu sei que tem alguma coisa diferente (Chico Rosa, pescador).

Não é difícil está em meio a tanto pescadores e ouvir estes falarem em vento geral, vento terral, vento sul, vento norte, tipos de água, melhor horários, tempo para a pesca, para a captura de pescados. Eles, na maioria das vezes criam nomes próprios para estes fenômenos. Em roda de conversa com os pescadores absorvo as seguintes informações, que me trazem uma gramática que tangencia, refere e evidencia o signo em pauta: a jangada. Vejamos a narratividade enquanto ato da memória:

Se você vai pra escola, você vai estudar com quem? Com um professor e quando você terminar seu estudo que você faz a faculdade para ser mestre, aí vem o quê? Aí você vai ensinar o que o seu professor ensinou, que é o que você sabe. Do mesmo jeito é nós, e não tem um tempo, vai acontecendo todo dia, todo dia você tá ali naquele movimento. Se eu levar um pescador como você, que você não sabe aí eu peço pra você arrochar a mura, você não vai saber o que é, aí é obrigado eu como mestre lhe ensinar, olha é para fazer desse jeito. Então, é pra ser assim. Se eu disser, mete uma volta de corda, você não vai saber como faz, aí é obrigado eu meter a volta de corda para você ver como é uma volta de corda. Se disser, baixa a bolina, você não vai saber nem o que é bolina, nunca vai saber, então eu tenho que ensinar, olha isso aqui é uma bolina, a gente faz assim, aí vai ter que dizer várias vezes porque a gente não grava tudo duma vez. Então é igual o professor, ele fala uma palavra várias vezes para pode gravar, então tudo é o jeito que a gente vive (Chico Rosa, pescador).

Vemos acima os conceitos: vento terral de baixo – que é o vento noroeste – leva à terra. Na verdade, vento terral: é um vento que segundo os pescadores torna possível navegar e chegar até 100 graus em sua direção, ou seja, é um vento que sai da terra em direção ao mar e ajuda a jangada a chegar direto em seu destino. Já o vento desbarrado nem é sul, nem é leste, é um vento mais forte. Segundo os pescadores não é um vento propício para ir ao mar, geralmente quando esse vento está posto ninguém costuma ir pescar, pois se torna perigoso devido a sua tempestuosidade.

Esses saberes são transmitidos oralmente entre as gerações e possibilitam uma continuação das formas de viver dessa comunidade, construídas ao longo do tempo. No caso dos pescadores, esses saberes tradicionais são importantíssimos para que continuem suas atividades sem depender tanto das tecnologias, já que nem todos podem utilizar esse mecanismo, sendo também que alguns ainda preferem mesmo o modo tradicional, visto que a forma tecnológica pode falar, mas o conhecimento que se adquiriu ao longo do tempo não.

Olha, as vezes eu estava com o compadre Pilé no mar, era umas dez horas da noite, e eu dizia assim “Pilé, vamo embora!” e nesse tempo nós pescava no escuro, não tinha lâmpada nem nada. Ele respondia: “bora!”. Não tinha luz, as vezes a gente acendia uma busca quando via um navio, ela faiscava aí eles viam que ali tinha alguma embarcação então eles desviavam. Então, a gente vinha embora. Nós estava no mar da Sucatinga, nós já traçava pelo cruzeiro do sul, tem o cruzeiro do sul grande, tem a macha do sul grande e tem a pequena. Aí traçava e pensava, aqui dar pra gente sair em tal canto, aí nós traçava. Ela navegava, porque a estrela navega, ela sai do canto, ela não fica lá parada, a estrela navega, todo planeta navega. Então se você for navegando quando ela tiver num lugar parado, se você for navegar reto, você não pode acompanhar ela, porque ela vai descendo, vai se pôr, então você não pode acompanhar ela. Você tem que aguentar reto, segurar... (Chico Rosa, pescador).

E, então, Chico Rosa tenta a via do exemplo, figuração da realidade do que vinha de anunciar:

Por exemplo, ela vai indo pro mastro, depois já fica detrás da vela, vai mudado, mudando, você nunca que pode ir andando junto com o planeta. Só tem um planeta que não gira, ele navega só de dia, ninguém sabe como é. Ele vem até uma certa parte e volta, eu não sei porque esse planeta é assim, agora todos os planetas que eu já vi navega, agora ele não. É a estrela Davi. Ela vem até aqui, aí depois ela volta pra traz na mesma linha. Agora eu não estou lembrado direito se é trinta dias que ela passa pra cá ou se é noventa dias, ou se é trinta dias cá pra lá, ela tem uma diferença. Durante o ano a estrela Davi se muda. O cruzeiro navega direto, todo dia a gente ver ele, toda noite, ele sai do canto também, vai navegando toda noite. Quando o dia anoitece eles está em um canto, você pode olhar, quando anoitecer que sai da luz, você ver direitinho a cruz. Sendo noite de escuro você ver até a mancha onde foi enterrado Nosso Senhor Jesus Cristo, debaixo do cruzeiro, diz os antigos. (Chico Rosa, pescador).

Chico Rosa, atento, ao falar de seu conhecimento, mostra a oralidade e a ancestralidade como duas componentes que eu diria essenciais do saber de experiência. Um, a oralidade, impele a memorizações a partir de citações figurais, ao modo de histórias, encenações ou figuras. Já a ancestralidade resulta por guardar apontamentos que ficariam perdido, sem sua mão; e mais: leva a diálogo intergeracionais, dessa maneira pondo em cena aquilo que parecia estar sob o velador.

A gente não navega pela estrela Davi, porque ela só sai de recanto, ela só sai de um lado ou de outro. Ela não navega de um lado para o outro...[...] Eu conheço o cruzeiro, a estrela Davi, saturno, o mercúrio- que é um planeta vermelho, quando ele sai a luz dele é bem vermelha, ele gosta de navegar mais a noite. Tem os três reis magos, as três Maria, tudo tem no céu, quando anoitece a gente ver. Eu aprendi tudo isso com os antigos, eles ensinavam pra gente. Dizem os pessoal mais velhos que tem uns planetas que se chama carnaúba sabe, porque ele se abre como uma carnaúba de coqueiro. Tem a Barca de Noé, ela fica pro lado do mar, toda madrugada ela está que ela nunca mudou de lado. A gente ver ela bem direitinho, quando a gente acorda para ir pro mar de madrugada a gente ver ela bem direitinho, ela tem até o leme, acredita? Se tiver alguém para ensinar você, você aprende bem direitinho. Tem o sete estrela, se você contar, não tem mais que sete. Tudo isso serve como guia pra nós, é o nosso GPS, a gente navegava naquele tempo pelos planetas, a gente não errava. O planeta mercúrio e vermelho, tem época que ele fica bem vermelho. Aí toda noite ele vem nascendo até chegar o momento dele se por aqui... Aí ele vai navegando. (Chico Rosa, pescador).

Antônio Firmino de Lima, mais conhecido como Chico Rosa, 65 anos de idade, é um dos pescadores mais antigos da comunidade a ainda na ativa. Segundo ele a pesca entrou na sua vida desde criança, pois aos 9 anos de idade seu pai já o levava na jangada para ensiná- lo como pescar, já que também nessa época não havia escola na comunidade, assim as crianças por não terem outra atividade de ocupação iam cedo para a pesca. No relato, ele cita que na época não existia a venda do pescado na comunidade, raramente conseguiam algum “marchante” para que o peixe fosse vendido. O peixe era comprado, às vezes, por alguns homens chamados “dono de casas”. Porém, o que acontecia sempre eram as trocas, geralmente quem morava na praia trocava o peixe por farinha, goma, batata, jerimum, castanha e outros alimentos mais típicos das comunidades que trabalhavam na agricultura.

Os primeiros apetrechos de pesca dos pescadores da Prainha do Canto Verde, segundo relatam os pescadores mais velhos, era a jangada de piúba, construída artesanalmente pelo pescador da comunidade, Antônio Correia, mas conhecido como Mulungú. A madeira desse tipo de embarcação era vinda do Pará como já foi relatado nas páginas 180-109 do capítulo II.

No início existia a pesca de jereré, que era uma das armadilhas dos pecadores para capturar a lagosta. O jereré era produzido também artesanalmente por eles mesmos. Segundo pescadores mais velhos a pesca da lagosta era muito farta, existia de grande quantidade, por isso que era possível capturar um número significativo de lagostas só com essa armadilha. O jereré é feito com cipó e malhas formando um pano como se fosse uma rede de pesca.

A partir da década de 60, começou a surgir outro tipo de jangada, a jangada de tábua, que é produzida de madeira de louro e pítia do Pará. Essa embarcação por ser mais pesada, oferece mais segurança e conforto para os pescadores, bem como se torna melhor para a navegação em alto mar, sendo que se torna também mais rápida, encurtando as viagens.

Depois do mestre Zé Amâncio, o senhor Antônio Corrêa começou a construir jangadas. Hoje quem detém esse saber é um pescador da comunidade mais jovem e já fez muitas jangadas. A partir dessas embarcações artesanais é que vem o sustento das famílias de Canto Verde.

Antigamente as jangadas, como já dissemos, eram produzidas de piúba e as linhas usadas para a pesca eram feitas de fio de algodão torcido, encerado e pintado com tinta de casca de cajueiro; da mesma forma eram confeccionas as redes.

Enquanto eu entrevistava o pescador, um jovem não nativo que lá estava, se demonstrava tão empolgado com todo aquele conhecimento saindo da cabeça de um senhor que nunca “estudou”, de um pescador que jamais ouviu a palavra astronomia

ou o enco em t mov O a apar local sobr com sobr para espe emp Logo depois de os mesmos ficaram curioso do aplicativo alguns dos as do se fazer pesquisa com a

Fonte: Márcia Lim

12 Aplicativo SkyMaps baixado e

Figura 30 - Pág aplicativo Sky

o real significado de espaço sideral. No dia seguin contro com um aplicativo12 no celular, que mostrava

tempo real ou mesmo em algum dia que quisesse pes vimentam, ou melhor, navegam como dizia o senhor C aplicativo também permitia pesquisar onde estava a arecendo um círculo e uma seta mostrando onde devem

alizar. Ao chegar em minha casa para fazer minhas a bre essas mudanças nas gerações. De um lado, o mes m seus 50 anos de mar e experiência. Do outro, um jov bre o volume de conhecimentos daquele senhor, buscou ra acessar pelo menos um pedacinho daquele saber que, pecializações e grandes pesquisas fragmentadas e

piricamente. (Diário da pesquisa).

desse acontecimento conversei com pescadore sos, e junto ao jovem fomos à alguns deles pa astros que eles apelidavam. Nesse momento p a comunidade.

ima

em Android pelo Playstore.

ágina inicial, página de busca e visualização do y Map.

inte o jovem veio ao meu a a localização dos planetas esquisar, já que os astros se Chico Rosa.

algum planeta ou estrela, emos apontar o celular para anotações, fiquei pensando estre de pesca, Chico Rosa, vem estudante que, inquieto ou na tecnologia um auxílio e, na academia precisa-se de e aquele senhor adquiriu

res sobre o aplicativo e ara mostrarmos através percebemos a interação

O aplicativo talvez tenha causado a mesma admiração que o jovem tivera dos conhecimentos do pescador, mas agora era o aplicativo causando maravilhamento nos pescadores. A troca de saberes acontece mais uma vez entre esse e aquele, entre um e o outro, entre o jovem acadêmico e o mestre de pesca, entre o não nativo e um prainheiro. Essas trocas anunciam as mudanças as quais regem o universo, mudanças nos aprendizados, nos métodos de vivenciar o que lhes são importante e caro, assim como se relacionar e acompanhar as mudanças na própria atividade cotidiana.

Os pescadores saíam para o mar e passavam de quatro a cinco dias para voltar. Apesar do número de dias que permaneciam no mar, não era necessária a exploração de regiões mais afastadas da costa, pois havia grande quantidade de pescado disponível nas partes mais próxima da praia. O pescado era salgado “ao claro da lua” e quando as jangadas chegavam à beira da praia, os peixes, as vezes, eram vendidos ali mesmo.

A pesca também mudou muito, os pescadores vêm e vão no mesmo dia, pescam de linha, rede, manzuá e rengalho e levam gelo para resfriar e assim conservar o pescado.

Os pescadores também conquistaram um entreposto de pescado para conseguirem comercializar, principalmente o peixe sem passar pelos atravessadores, que com o tempo passaram a controlar os preços e estavam constantemente a embair os pescadores. À aproximadamente uns dez anos atrás este espaço foi levado pelos avanços da água do mar, mas o que se aprendera através da experiência com ele é mantido pelos pescadores, assim o peixe e a lagosta são vendidos diretamente para os consumidores e os exportadores, o que permitiu estabelecer um preço justo e com isso melhorar a renda das famílias.

Figura 31 - Entreposto de Pescado

Fonte: Arquivo Associação de Moradores da Prainha do Canto Verde

A comunidade inovou a realização da pesca artesanal com a introdução de uma nova embarcação – O catamarã, que apesar de ser mais conhecido como barco de passeio, lazer ou de regatas olímpicas, após vários testes e adaptações tem colaborado muito com a melhoria da pesca. Essa experiência teve início em 1999, quando alguns moradores conheceram uma praia no estado do Maranhão, onde um português chamado Manellis, construía e pescava numa embarcação do tipo catamarã. Encomendou-se então, o primeiro catamarã da comunidade, construído no Maranhão e batizado de “esperança”. Os resultados do teste com o esperança foram tão bons, que em 2006 foi feito um estaleiro para construir barcos na Prainha. O estaleiro se constituiu de um importante projeto que permitiu a aprendizagem da construção desse tipo de embarcação, adaptada as condições do estado do Ceará. Participaram desse projeto pescadores e carpinteiros vindos de várias comunidades do Ceará.

O primeiro catamarã construído em Canto Verde recebeu o nome de Gênesis (figura 32) foi seguido por mais quatro barcos. Para os pescadores, o Catamarã oferece: conforto, segurança, espaço para trabalhar, alta velocidade e energia solar para poder usar os instrumentos eletrônicos de última geração, como o GPS. Os pescadores de outras praias chamam o catamarã de “iate da Prainha”.

Figura 32 - Catamarã

Fonte: Márcia Lima

Benzer Belgeler