O artigo científico (ou acadêmico) é um dos gêneros mais recorrentes na comunidade acadêmica para a produção e divulgação do conhecimento. Esse gênero é produzido por cientistas especialistas para a divulgação de conhecimentos gerados em pesquisas e destinado a um público especializado. Segundo Motta-Roth (2001, p. 39), o objetivo básico de um artigo acadêmico é reportar um estudo. No entanto, a autora esclarece que, para a informação circular no meio acadêmico, é preciso que o leitor esteja convencido da validade e relevância da pesquisa apresentada. Isso deixa claro que um texto científico tem caráter argumentativo e estabelece um espaço de negociação entre pares e de construção de posicionamentos. Hyland (2005) assume essa posição ao afirmar que os acadêmicos não são meros produtores de textos que representam uma realidade externa, mas são sujeitos que usam a linguagem para reconhecer, construir e negociar relações sociais, culturais e institucionais.
O artigo científico, por ser destinado a um público especializado, conhecedor das metodologias e práticas compartilhadas pelos membros da comunidade, apresenta uma linguagem mais técnica e específica, por isso, ele se diferencia dos artigos de divulgação científica. Estes são destinados a um público leigo e apresentam uma linguagem mais simples na tentativa de popularizar o conhecimento científico. De acordo com Zamboni (2001), o artigo científico e o artigo de divulgação científica são entidades diferentes porque se desenrolam em cenários enunciativos específicos, cujos lugares de “emissão” e “recepção” não são ocupados pelos mesmos participantes. Dessa forma, se o mesmo sujeito faz um artigo para publicar em periódico da área e um para divulgação em revista não-especializada, naquele ele exerce o papel de cientista e escreve para um público especializado (detentor de conhecimentos específicos), enquanto nesse ele assume a função de divulgador da ciência, tendo agora um público leigo em matéria de ciência, ou, pelo menos, leigo naquela área específica.
Para que o autor de artigo científico alcance seu objetivo de convencer o público especializado da validade e do rigor da pesquisa relatada, é importante que ele construa seu texto em interação com os leitores. Isso significa que, ao produzir um texto científico, o falante/autor deve considerar o conhecimento pragmático do ouvinte/leitor e este, por sua vez, deve reconstruir as intenções comunicativas do falante, expressas através de elementos linguísticos, e decidir quanto a aceitar ou não as informações transmitidas.
Desse modo, fica evidente que o artigo científico é perpassado por uma heterogeneidade e que a sua constituição é realizada levando-se em consideração as
estratégias utilizadas pelo escritor para convencer seus possíveis leitores. Podemos afirmar, então, que um texto científico tem caráter dialógico. Para Bakhtin (2004), o “diálogo” não deve ser entendido, no sentido estrito do termo (como uma interação face a face), mas como toda e qualquer interação verbal, caracterizada como um terreno comum do falante/escritor e do ouvinte/leitor. Logo, o falante enuncia algo pressupondo a existência de um ouvinte capaz de estabelecer uma atitude responsiva22.
Podemos entender a heterogeneidade como um recurso argumentativo do texto científico (CORACINI, 1991). Vale ressaltar que, segundo Authier-Revuz (1982), a heterogeneidade pode ser entendida em dois sentidos: em sentido amplo e em sentido estrito. O primeiro sentido revela ser a heterogeneidade uma característica constitutiva de todo e qualquer discurso, ou seja, em todo discurso, há sempre a presença do Outro. Essa primeira concepção do termo está relacionada ao dialogismo de Bakhtin e não tem manifestação linguística, estando implicitamente no discurso.
A heterogeneidade em sentido estrito (ou marcada) pode ocorrer de forma explícita ou implícita, sendo mais comum sua marcação explícita através de discurso relatado, aspas, referência entre parênteses, etc. Em artigos científicos, o uso das aspas, a referência entre parênteses, a indicação de fonte definida de terceira pessoa como sujeito da oração, bem como o uso de referências genéricas mostram a presença do outro no discurso do sujeito. Mas é importante esclarecer que essas manifestações linguísticas citativas constituem uma estratégia a favor da credibilidade e da própria cientificidade. Conforme salienta Coracini (1991, p. 170):
Embora tais citações e referências explícitas constituam, na forma, verdadeiros discursos relatados, parece-me que a presença do componente intencional, subjacente e orientador do discurso, leva a extrapolar o simples relato: seja para confirmar e reforçar as próprias opiniões ou resultados obtidos, seja para confrontar, se opor, mostrar as desvantagens do outro a favor do seu próprio ponto de vista, a intenção parece ser a mesma: mostrar a importância e a pertinência da própria experiência, situá-la no conjunto de pesquisas da mesma área, enfim, conseguir a adesão do outro (leitor-cientista) à própria tese.
Esse ponto de vista defendido por Coracini é de importância fundamental para entendermos a natureza argumentativa do discurso científico e os efeitos de sentido decorrentes do uso das expressões evidencias em artigos científicos, pois, em nossa análise (cf. seção 7.3 da dissertação), percebemos que, ao citar uma fonte externa definida, o autor do artigo não imprime um baixo comprometimento com a informação veiculada, antes, atenua
22
A responsividade deve ser entendida como uma resposta ao discurso. Na interação verbal, o ouvinte/leitor não assume uma atitude passiva, antes, “se torna falante”. (BAKHTIN, 1997).
sua responsabilidade sobre o dito, mas nem sempre se afasta completamente do conteúdo asseverado.
Embora não constitua uma característica específica do texto científico, a intertextualidade e a interdiscursividade também permeiam o fazer acadêmico. No entanto, estabelecer a distinção entre uma e outra não é tarefa fácil. De maneira geral, podemos caracterizar a intertextualidade como a relação estabelecida entre texto e enunciado, assim um texto é um espaço de combinação de vários fragmentos de textos. O interdiscurso, por sua vez, pode ser definido como uma rede de trocas na qual diferentes discursos se constituem (MUSSALIM, 2001).
Podemos entender que, seja através da intertextualidade, da interdiscursividade, do dialogismo ou de qualquer outro recurso linguístico, todo texto, seja ele oral ou escrito, tem como característica a interatividade. Conforme Maingueneau (2001, p. 54):
“(...) Toda enunciação, mesmo produzida sem a presença de um destinatário, é, de
fato, marcada por uma interatividade constitutiva (fala-se também de dialogismo), é uma troca, explícita ou implícita, com outros enunciadores, virtuais ou reais, e supõe sempre a presença de uma outra instância de enunciação à qual se dirige o enunciado
e com relação à qual constrói seu próprio discurso.”
A comunicação científica que se estabelece na produção e disseminação do conhecimento é uma prática discursiva convencionalizada pela comunidade científica. A academia é a entidade que detém o poder e dita as regras, determinando os critérios que devem ser seguidos pelos cientistas, tais como coerência, consistência, impessoalidade, objetividade.
Considerando que, dentre essas convenções, está a busca pelo efeito de objetividade, parâmetro disseminado pelos livros de metodologia científica, analisaremos as marcas evidenciais e modais epistêmicas que possibilitam ao autor desse gênero se distanciar e atenuar sua responsabilidade sobre o dito.
5.2 Síntese
Ao longo deste capítulo, caracterizamos o discurso científico apresentando suas principais características para, a partir delas, interpretar a manifestação da evidencialidade e da modalidade epistêmica em artigos científicos. Iniciamos a discussão em torno da noção de
ciência por acreditarmos que, para compreensão dos processos de produção de um gênero da comunidade acadêmica, é imprescindível reconhecer as crenças dessa comunidade sobre a construção da cientificidade. Dessa forma, discutimos conceitos como os de objetividade e neutralidade, tão comumente divulgados pelos livros de metodologia científica como características essenciais dos textos científicos. Também salientamos que o dogma não deve constituir a ciência, pois o discurso científico é sempre discutível no sentido de que toda pesquisa científica sempre pode ser questionada, pois os resultados não são definitivos. Mas, diferente do que possa pensar um leigo, esse caráter não definitivo é que possibilita a discussão que se estabelece na comunidade científica.
Admitindo que o discurso científico se institui como um espaço de interação e negociação entre os pares, mostramos que, embora os manuais de metodologia procurem caracterizar o discurso científico como objetivo, imparcial e neutro, a natureza argumentativa é elemento constitutivo desse discurso. O cientista, ao produzir seu texto, seleciona a teoria que regerá sua análise e escolhe as expressões que utilizará tendo em vista persuadir a comunidade discursiva acerca da veracidade de sua pesquisa. Vimos que essas atitudes tomadas pelo pesquisador revelam a subjetividade do cientista, que “esconde” ou “mascara” seu posicionamento, muitas vezes, se distanciando do conteúdo transmitido na busca da tão almejada “objetividade”.
Feitas essas considerações a respeito do discurso científico, passamos a apresentação da constituição e delimitação do corpus, bem como dos processos metodológicos seguidos e das categorias de análise postuladas.
6 METODOLOGIA: CONSTITUIÇÃO DO CORPUS E PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS