• Sonuç bulunamadı

– FİNANSAL ARAÇLARDAN KAYNAKLANAN RİSKLERİN NİTELİĞİ VE DÜZEYİ Finansal Risk Yönetimi Amaçları ve Politikaları

No que toca a estética dos jovens, pode-se observar que muitos dos participantes da festa se identificam como praticantes, em diferentes graus, é claro, daquilo que pode ser chamado de body modification47. A maioria tem seus corpos modificados pela pintura definitiva (tatuagens) ou pela inserção de peças metálicas na pele (piercings). Os motivos das tatuagens e o design dos piercings são bastante variados, alguns aderem aos desenhos ditos “tribais”, já outros preferem inscrições que contém frases em japonês, por exemplo. Contudo, tal prática não é limitada apenas aos jovens que participam das raves, mas pode ser percebida também ao se freqüentar outros ambientes de lazer noturno existentes em Fortaleza.

47 A prática da body modification compreende técnicas que vão desde a tatuagem, passando pelos piercings, podendo chegar a outras, consideradas como mais extremas, tais como as marcas a ferro quente (brandings), talhos de navalhas e gravações com bisturi incandescente dentre outras.

O cuidado com a indumentária é fundamental para a maioria dos jovens que freqüentam os eventos de música eletrônica. Porém, poucos podem se dar ao luxo de possuir um “guarda-roupas” exclusivo para isso. Alguns jovens são extremamente preocupados com a maneira como estão vestidos para a rave. Cada detalhe assume uma importância ímpar nesse contexto e a roupa não deve ser repetida com freqüência em mais de um evento consecutivo, principalmente entre as mulheres. Esse cuidado com a aparência está relacionado à preparação para a festa e envolve uma espécie de elaboração e montagem do próprio corpo.

Pra mim, depende da festa. Quando eu sei que a festa vai ser muito grande ou uma festa que rola uma vez perdida eu realmente escolho a roupa porque é a mesma coisa de você ir pra uma festa maior, uma festa mais importante... tipo casamento, assim, porque você sabe que aquela roupa vai chamar mais atenção. Outras vezes, eu escolho mais pelo conforto, já que eu vou passar muito tempo lá. (Fabrício, jovem entrevistado em 12 de fevereiro de 2009).

Quando eu vou pra rave eu gosto muito de comprar roupa nova, eu gosto de comprar uma roupa bem diferente. Eu só sossego, assim, quando eu vou bem diferente, com uns acessórios bem legais. Isso tudo pra mim faz parte da preparação para a festa. [...] Roupas diferentes, roupas que tem uma modelagem diferente, roupas que, digamos, com uma estampa colorida demais, psicodélicas. [...] Roupas frouxas, confortáveis, eu também olho muito isso. Isso é a preparação para a festa, eu só coloco roupa que eu acho que tá encaixando no tema da festa. Sem regras, às vezes é combinar cores que normalmente você não combinaria [...]. Eu acho que isso é também porque [...] eles sempre tentam resgatar a idéia de retornar as raízes, uma coisa mais voltada pra paz, pra espiritualização, pra mente [...]. (Ilana, jovem entrevistada em 28 de março de 2009).

Conforme se pode perceber no discurso de Ilana e outros jovens que serão, aos poucos, apresentados ao longo deste capítulo, a estética predominante na festa se caracteriza como “psicodélica”, algo que, segundo a jovem, tenta “resgatar a idéia de retornar as raízes, uma coisa mais voltada pra paz, pra espiritualização, pra mente [...]”. Tal estética se aproxima do movimento hippie dos anos 1960, porém, ao incorporar elementos presentes no universo místico-esotérico oriental, atualiza-o, dotando-o de um novo sentido associado à cultura da música eletrônica. Contudo, vale destacar que é possível encontrar no ambiente da festa, jovens que não se identificam com tal estética “psicodélica” e se vestem da forma como preferem, alguns até usam camisetas de bandas de rock.

Ao afirmar “eu só coloco roupa que eu acho que tá encaixando no tema da festa”, Ilana assinala uma espécie de “montagem do corpo” para o evento, na qual se pode “combinar cores que normalmente não se combinam”. A montagem inicia já na escolha da roupa, quando a jovem decide ir ao evento “bem diferente, com uns acessórios bem legais”. Essas expressões carregam a idéia de criação de uma personagem para atuar na rave, alguém que poderá se “encaixar no tema da festa”. Assim como um bricoleur (LEVI-STRAUSS, 1996), a jovem tenta recriar a si mesma, “sem regras”, rompendo com

todos os imperativos existentes sobre os modos de vestir, extraindo de tudo isso uma experiência estética à qual é conduzida pelo acaso de combinações inusitadas.

Um novo código indumentário é criado. Tal código deve estar, preferencialmente, de acordo com os símbolos da festa: livre, “sem regras”. A estética indumentária é, em grande parte, inspirada na própria experiência sensorial vivenciada durante a rave. A montagem deve favorecer os movimentos corporais produzidos no ato da dança, sendo, sobretudo, confortável e “leve”. A forma como alguns jovens chegam vestidos, causa surpresa e suscita comentários discretos tanto entre os próprios freqüentadores que aguardam ansiosos o momento oportuno para entrar na rave, como entre aquelas pessoas que estão envolvidas de alguma forma com o evento, tais como taxistas, seguranças e técnicos de som e luz. A maioria destes sujeitos não compartilha os símbolos e discursos adotados pelos jovens no microcosmo da rave, eles compõem uma fatia de indivíduos outsiders48. Quando os jovens transitam

por eles, instantaneamente são trocados cochichos, olhares de estranheza e franzimentos de testa que expressam os modos como tais sujeitos percebem os participantes da rave.

Os jovens chegam ao local da festa de diferentes maneiras. Alguns deles desembarcam de carros particulares, outros são trazidos por parentes mais velhos. Existem aqueles que optam por táxis. E há ainda quem recorra ao transporte coletivo ou prefira se juntar a outros freqüentadores e alugar uma topic para ir à festa. Os jovens que utilizam de ônibus ou alugam alguma topic para ir à rave, na maioria das vezes se reúnem em terminais rodoviários ou shopping centers espalhados pela cidade e chegam ao local da festa em grupos. Em alguns casos, por conta da limitação das rotas de ônibus, os jovens são obrigados a desembarcar em paradas distantes do local da festa, tendo que seguir a pé o restante do percurso. No caso daqueles que despendem determinada quantia de dinheiro no aluguel de uma topic, o desembarque pode ser realizado em frente ao local do evento e, logo após descerem do veículo, os jovens se reúnem e acordam entre si o horário ideal para o motorista contratado levá-los de volta ao lugar de onde partiram. Geralmente, estes sujeitos que optam por ir de ônibus ou de topic para a rave, são os primeiros a chegar na festa e os últimos a irem embora49. Eles são obrigados a sair de casa no começo da noite e a aportar na rave mais cedo, antes da maioria dos demais freqüentadores, chegando ainda nas primeiras horas da festa, quando o evento conta com um público reduzido.

48 O termo não é empregado aqui no sentido de “desviante” conforme foi atribuído por Howard Becker (1991), mas sim para designar um grupo de indivíduos que não participam do universo das raves da mesma forma que os jovens entrevistados durante a pesquisa.

49 Quando o número de jovens que se juntam e optam pelo aluguel de uma topic para ir à festa excede a capacidade máxima permitida de passageiros, o motorista do veículo é obrigado a empreender mais de uma viagem para poder desembarcar os jovens na festa. A seleção daqueles jovens que irão na primeira ou na segunda viagem é aleatória. Eles acordam amigavelmente a prioridade em ir e vir da rave. Há casos em que a topic volta da festa com um número inicial de jovens modificado, às vezes para mais outras para menos. Quando isto ocorre, são acertados preços diferenciados entre aqueles que utilizaram o transporte para ir e vir, os que apanharam apenas para ir e os que optaram apenas pela volta no veículo.

Quando eu vou com uma galera que não tem carro, eu costumo chegar bem cedo na festa, tipo umas 10 ou 11 horas da noite, porque num tem condições de você pagar um táxi pra chegar na hora que você quer, né? Daí, quando acontece isso, geralmente ou eu vou de topic ou de busão mesmo com o pessoal. A galera, geralmente, se junta no terminal ou em alguma parada que seja próxima da casa de todo mundo e sai. Ou então, a gente se junta, todo mundo que vai pra festa, e decide alugar uma topic, que é muito mais limpeza. O único problema é que você fica dependendo dos horários de cada um, tanto pra chegar na festa, como pra voltar. Mas se eu for com uma galera de carro, eu chego lá por volta das 3 ou 4 horas da manhã, porque, mesmo que você chegue cedo, você só entra na festa tarde, porque geralmente atrasa, daí só começa meia-noite ou então você fica lá fora mesmo conversando com a galera e só entra, tipo 1:30/2 horas da manhã. [...] Antes da rave a gente vai pro Órbita, ou pro Mucuripe ou mesmo pro Fa Fi, se liga onde é? E de lá agente ainda vai pra outro canto às vezes e só chega na rave nos horários, de madrugada já [...]. Ou então, a gente vai passando de casa em casa pra pegar todo mundo, e sempre dá uma parada num bar perto também pra ir fazendo logo as bases pra chegar na festa já animado. Daí, quando agente chega lá, é obrigatório fazer uma média lá fora com a galera, dar um rolé e encontrar os amigos, conversar. Tu chega numa galera aqui, dá um tempo, e daqui a pouco já encontra outra ali, é assim. (Rodrigo, jovem entrevistado em 22 de janeiro de 2009).

Antes de chegar ao local que servirá de sede para a festa, os itinerários percorridos já foram vários. Estes deslocamentos produzem uma espécie de mapa ambulante da cidade-lazer. “Não há nesse nomadismo das galeras uma idéia de fixidez, de um espaço para cada coisa, tudo se move e se mistura” (DIÓGENES, 2003, p. 25). Para ir de um lugar ao outro, basta haver curtição. Do lado de fora da rave acontecem os encontros, as trocas de afeto, sorrisos e conversas informais. À medida que os jovens vão chegando ao local da festa, os grupos vão se formando e se fragmentando. Os grupos de jovens se criam com a mesma intensidade com que se desfiam. Entre os grupos, os assuntos giram em torno de um set ou música em particular executada por algum dos DJs que se apresentarão no evento; ou ainda, consistem numa espécie de avaliação acerca da estimativa de público ou análise da infra-estrutura e decoração utilizada na festa, comparando-a às raves passadas realizadas pela mesma produtora ou que contaram com a participação dos mesmos DJs. Ao falar sobre os movimentos empreendidos por ela e por seus amigos durante a noite, antes do início de uma rave, uma jovem denominada aqui como Janaína comenta:

Nunca tem destino marcado, não. Tipo, não rola de dizer assim: vamo pra tal lugar e a gente ir, porque sempre muda. Em Fortaleza é assim, tipo, quando dá de noite, os bares e as boates da cidade já começam a lotar. A gente sai com um lugar na cabeça e quando chega lá encontra uma galera e já aparece outro canto pra ir e a gente vai. A gente vai prum canto e se num tiver legal: a gente sai e já entra em outro, é assim. Eu num curto sair de casa e ir direto pra rave não, sempre rola de antes ir pro “Dragão” com a galera, dar um tempinho numa boate daquelas e só depois que a gente vai pra

rave. Por isso que é difícil dizer quais são os lugares que a gente sempre passa antes de ir pra rave porque sempre muda, cada galera que vai pra rave tem um lugar diferente de preferência, mas é certeza todo mundo se encontrar lá. Por exemplo, tem uma galera que curte ir mais pro Órbita, Music Box, outros preferem mais Mucuripe, Clubbers e

por ai vai. A gente se encontra no lado de fora mesmo e depois todo mundo entra junto. (Janaína, jovem entrevistada em 14 de janeiro de 2009).

Volatilidade e, principalmente, heterogeneidade são algumas das palavras possíveis para expressar esses contatos que acontecem antes dos jovens cruzarem o portão de entrada da rave. Não se pode precisar de onde eles vêm, nem por quais espaços da cidade transitaram antes de chegar ao local da festa, mas se pode notar que a maioria deles tem o mesmo objetivo: divertir-se. Diversão é a palavra de (des)ordem aqui. Não é uma mera diversão, não é um simples tempo de ócio, de não-trabalho, mas um momento de lazer marcado por discursos, símbolos e práticas que constituem a “cosmologia” de um tipo de festa, em particular. O nomadismo empreendido por estes jovens pela urbe nos momentos que antecedem suas entradas na rave faz com que espaços sejam ressignificados conforme suas funcionalidades na cidade-território (DIÓGENES, 2003).

Nesse sentido, seja nos calçadões da Praia do Futuro, nas margens das estradas de areia ou nos acostamentos das vias que passam em frente a algum casarão ou sítio que dará lugar à rave, produz-se um verdadeiro espaço de fluxos. Alguns dos personagens que compõem o cenário da festa têm suas posições previamente demarcadas, como é o caso, por exemplo, dos flanelinhas que se propõem a “guardar” os automóveis dos jovens que vão aproveitar a festa, dos taxistas que ficam estacionados próximos à festa a espera de clientes, e, ainda, dos trabalhadores autônomos que se dedicam à venda de sanduíches e bebidas em barracas ou em carros especialmente adaptados para tal finalidade, com espécies de balcões improvisados no porta-malas onde ficam expostos seus produtos.

Tais barracas e carros são instáveis, liminares até, pois fazem parte da festa interagindo com ela, constituem parada quase obrigatória para os jovens antes de adentrar o espaço da rave, mas não “sobrevivem” a ela. Quando se chega ao local do evento pode-se facilmente encontrá-los instalados por lá, mas quando se sai não, eles já têm desaparecido. Estas barracas e carros são “viscosos”50, localizam-

se sempre nas margens, entre a rua e a calçada, e empreendem uma temporária transformação do espaço ao distribuir pelas vias da cidade destinadas ao tráfego de automóveis, bancos e mesas de plástico para acolherem os fregueses. Ao invés do tráfego contínuo, uma (breve) permanência. Assim, é sem dificuldades que se percebe a forma como a experiência do lugar vivenciada pelos jovens a partir dos usos que fazem destes espaços lhe confere certa qualidade de fluidez.

50 Segundo Mary Douglas (1976), “o viscoso fica no meio do caminho entre o sólido e o líquido. É um corte transversal num processo de mudança. É instável, mas não flui. É macio, é mole, cede ao toque. Não se pode deslizar na sua superfície. Cola, é uma armadilha, agarra-se como uma sanguessuga; ataca a fronteira entre mim e ele. Os longos fios que escorrem dos meus dedos sugerem a minha própria substância escorrendo para dentro de uma poça viscosa” (DOUGLAS, 1976, p. 53). O “viscoso” habita as lacunas existentes entre os dualismos, dificultando a sua definição e categorização: é liminar, localiza-se nas margens, nos interstícios.

Benzer Belgeler