A presença de José Oiticica foi marcante, dada à intensidade e à freqüência com que
83 Essas conferências eram semanais com o dia e o horário definidos de modo a disseminar entre os participantes a incorporação do hábito e de vínculos com essa atividade.
94 os seus artigos foram publicados, nos periódicos de São Paulo, como A Lanterna e A Plebe84 e
A Voz do Trabalhador – órgão da Confederação Operária Brasileira85, do jornal Liberdade, sob a direção de Pedro Matera, fundado em 1909 ambos do Rio de Janeiro e de A Lanterna em São Paulo, que a partir de 1909 esteve sob a direção de Edgard Leuenrouth. Além desses periódicos, outros jornais da imprensa operária informavam sobre as atividades de Oiticica.
O jornal foi um dos espaços privilegiados de atuação de José Oiticica e era também o principal lugar da educação libertária, pois servia como material de formação do leitor podia acompanhar a publicação integral de obras em folhetins. Os seus articulistas preocupados com a formação de uma comunidade de leitores apresentavam em coluna, geralmente intitulada “O que todos devem ler”, listas de livros, outros jornais, revistas, folhetos que serviam para prescrições de leitura e, também, eram uma forma de distribuir o material que era vendido por meio do jornal. De acordo com Giglio (1995):
[...] o jornal operário era um produto cultural particular capaz de formar uma comunidade de leitores ouvintes que se alimentavam das idéias e debates surgidos naqueles círculos, provavelmente alterando as formas de relacionamento que provocavam a distribuição de pensamentos novos. Mais que uma comunidade de leitores, os impressos operários, por suas características doutrinárias, possibilitaram a formação de uma rede de distribuidores daqueles discursos, tornaram-se detentores de um poder combatido explicitamente por uma malha de instituições (a polícia, a escola, a Igreja), especialmente a polícia, nos episódio de fechamento dos jornais e na destruição de bibliotecas de sindicatos. (GIGLIO, 1995, p.52, grifos nossos).
Além disso, todos os jornais operários faziam campanhas de apoio a outros jornais e que circulavam concomitantemente, portanto, em lugar da concorrência, havia apoio mútuo baseado na diversidade de ações para arregimentar leitores.
Os jornais da imprensa operária apresentavam diferentes vozes dos grupos do movimento operário. Havia várias correntes militantes, dentre as quais os grupos anarquistas.
84 Em sua primeira fase, A Lanterna- Anticlerical e de Combate começou a ser publicada em 1901, parou em 1902, sendo sua publicação retomada entre 1903 e 1904, sob a direção do advogado maçom Benjamim da Mota. Sua distribuição era gratuita e o número 1, de 07 de março de 1901, anunciava 10.000 exemplares de tiragem, atingindo no número 8 do mesmo ano 26.000 exemplares. Entre 1904 e 1909, a sua publicação foi interrompida e até 1916, a sua segunda fase, a folha circulou com certa regularidade, mantendo expressiva tiragem. Sua circulação foi interrompida em 1917, quando Edgar Leuenrouth lançou o periódico A Plebe, sob o argumento de ser o jornal uma continuação de A Lanterna, provavelmente uma estratégia para cooptar o seu publico leitor. A sua terceira fase deu-se em 1933-1935. Os primeiros artigos de José Oiticica nesse periódico datam de 1912. Esse periódico e o Livre Pensador também foram investigados por Silva (1995), com o objetivo de apreender as manifestações das tendências do anticlericalismo, do livre pensamento e da maçonaria brasileira.
85 O jornal A Voz do Trabalhador se definiu como porta voz dos trabalhadores, um desdobramento do primeiro Congresso Operário Brasileiro acorrido no Rio de Janeiro. O periódico foi criado em 1908 e na sua primeira fase, que durou até 1909, foram publicados 21 números. Em 1913, em sua segunda fase, com a impressão de três mil cópias de seu número 22, a folha operária passou a ser publicada quinzenalmente com uma tiragem de quatro mil exemplares, e circulou até 1915, com a publicação do número 71. A consulta desse jornal foi possível graça a edição da coleção fac-similar do jornal da Confederação Operária Brasileira 1908-1915.
95 Nas duas décadas iniciais do século XX, os anarquistas, mais precisamente a tendência anarcosindicalista, despontaram com expressividade no movimento operário brasileiro (HARDMAN & LEONARDI,1991, p. 330).
Esses grupos foram identificados pela historiografia do movimento operário com diferentes denominações: os anarquistas, os anarcosindicalistas ou sindicalistas
revolucionários, os anarcocomunistas ou adeptos do comunismo libertário86. Havia aqueles que se tinham apenas como anticlericais e livres pensadores. Em face dos estudos que se ocuparam com o movimento operário brasileiro, como a historiografia militante de Edgar Rodrigues, cuja voz vem de dentro da imprensa anarquista, adotamos a classificação atribuída por José Oiticica a ele mesmo, ao se denominar como anarquista.
Os jornais constituíam-se em um elo entre as várias práticas da propaganda social. No espaço do jornal, os militantes do movimento apoiavam as greves, alavancavam as iniciativas dos grupos operários e também impulsionavam os outros dispositivos como o teatro, o cinema, as festas, as conferências anticlericais e de livre pensamento.
Havia também o esforço em noticiar as atividades dos grupos libertários de outros estados brasileiros e de outros países. Tal estratégia explica-se pelo fato de ser o jornal o meio mais eficaz para a construção das redes de solidariedade em apoio a outras práticas da propaganda social, e por fidelidade ao princípio libertário do internacionalismo.
O compromisso de cada indivíduo para organizar a educação do povo era a condição imprescindível para a formação do homem novo87 e o jornal era um dos principais veículos
onde os seus articulistas apresentavam as suas críticas e os ditames de práticas para a educação nova.
86Cristina H. Campos (1998, p.15) classificou os libertários em duas correntes que nem sempre são fáceis de distinguir: “[Entre os] libertários englobo: os anarquistas, que viam a transformação da sociedade capitalista para a Anarquia através da ação direta dos despossuídos derrubando o Estado e erigindo a nova sociedade, formada por produtores independentes ou por cooperativas; e o sindicalismo revolucionário que tinha no sindicato a sua arma de luta para a também almejada Anarquia. Os primeiros organizavam-se em ligas, comitês, alianças, grupos teatrais, grupos editoriais, escolas, jornais, etc., tendo a propaganda, a palavra, como instrumentos. Os segundos tinham na estrutura federativa a base da organização sindical.[...] Na prática há grupos que adotam elementos das duas tradições segundo suas necessidades e com uma certa indiferença às distinções que prevaleciam em vários países da Europa”.
87 Ody Furtado Gonçalves (2002) percorreu os discursos dos intelectuais articulistas de A Plebe, um periódico anarquista de São Paulo, sob a direção de Edgard Leuenrouth, provavelmente o jornal com maior tiragem e circulação a partir de 1917. Em sua pesquisa, intitulada A constituição do homem novo anarquista no ideário
dos intelectuais do jornal A Plebe, analisou as representações do conceito de “povo”, de “homem velho” e de “homem novo”, por meio das práticas educacionais que esses intelectuais julgavam fundamentais para a formação dos anarquistas. A sua hipótese inicial era que os projetos da educação anarquista representavam uma oposição aos projetos das elites brasileiras e que havia um território de disputas para a formação do homem novo. A sua pesquisa, além das reconstituições das práticas da educação libertária como singularidades, evidenciou pontos de contato com outros projetos educacionais escolanovistas em circulação no período, demonstrando que em algumas idéias coincidiam e outras idéias eram próprias da educação libertária.
96 Eram muitos os meios usados para tornar os jornais acessíveis a todos. A leitura em voz alta para os analfabetos e a solicitação para obter novas assinaturas eram algumas das táticas da militância libertária. Essas normas de conduta voltadas para o jornal eram direcionadas a “todos” (leitores dos jornais), para a consecução da “nossa obra” (dos libertários), afirmando que o jornal e os objetivos que o impulsionavam pertenciam a um coletivo. Isso pode ser observado no artigo de um dos jornais de maior circulação do qual José Oiticica era colaborador, desde os princípios da segunda década do século XX:
SEMEAR PARA COLHER
A todos os amigos de “A LANTERNA” lembramos que, depois de a lerem é da máxima utilidade não a DESTRUIREM. Os que não a GUARDAREM, para colecionar, devem dá-la a outra pessoa. Lê-la aos que não sabem ler, DEIXÁ-LA nas fabricas, nas obras, nas oficinas, nos barbeiros, nos cafés, nos restaurantes, nos jardins, nos carros, nos trens enfim, onde possa ser lida por outros. Espalhar é semear, é torná- la conhecida, é fazer dela a propaganda, é conquistar novos adeptos para a nossa obra. Também todos devem arranjar NOVOS ASSINANTES E DEVOLVER a venda avulsa, afim de que possa propagar mais largamente a obra em que todos andamos empenhados. (A Lanterna, São Paulo, ano, XIII, nº 183, 22-03-1913, p.2).
Dessa forma, o jornal era uma prática social movimentando-se ao receber e fornecer um fluxo de atividades realizadas pelas diversas associações e agremiações mantidas pelas correntes libertárias. O jornal impulsionava o conjunto de práticas características da
propaganda social. A sua elaboração se dava por militantes brasileiros e estrangeiros pertencentes às classes operárias, das levas de imigrantes europeus, entre eles italianos, espanhóis, alemães e portugueses e ao restrito segmento dos homens letrados e intelectuais.
A imprensa operária era portadora de interesses e projetos das classes trabalhadoras. Como prática social, o jornal era um instrumento importante para o enfrentamento do conflito capital x trabalho, na organização das greves, denúncias, debates de temas ligados a vida cotidiana dos trabalhadores e sindicatos, era também portador das práticas culturais da classe operária brasileira em formação.88
88 O processo de constituição da classe operária brasileira é aqui compreendido na perspectiva da experiência vivida no cotidiano das relações de produção e das relações sociais, na elaboração de uma cultura própria, sob inspiração de E. P. Thompson (1978, p. 37), ao operar com a noção ampliada do conceito de classe e enfatizar o caráter histórico da constituição das classes sociais, ou seja, o seu fazer-se. A noção de classe está vinculada diretamente à experiência concreta de seus membros, ao modo de vida de suas relações sociais, econômicas, culturais e políticas, pois: “As classes não existem como entidades separadas que olham ao redor, encontram uma classe inimiga e começam logo a luta. Pelo contrário, as pessoas se encontram em uma sociedade estruturada em modos determinados [...] experimentam a exploração (ou a necessidade de manter o poder sobre os explorados) identificam pontos de interesses antagônicos, começam a lutar por estas questões e no processo de luta se descobrem como classe. A classe e a consciência de classe são sempre as últimas, não as primeiras fases do processo real histórico”. A classe operária brasileira tem a sua égide nas transformações sociais, econômicas, políticas e culturais decorrentes da expansão cafeeira, da transição da mão-de-obra escrava para o trabalho livre, configurando-se com a inserção massiva dos imigrantes europeus.
97 Oiticica publicou algumas de suas obras nos periódicos em formato de folhetins. Essa foi uma maneira que os participantes da propaganda social usavam para disponibilizar material de estudo no uso do jornal como um espaço educativo, uma prática, realizada também em toda a imprensa ilustrada, principalmente nas décadas iniciais do século XX.
Oiticica persistiu com esse costume, no jornal Ação Direta. A partir de 1946, ele publicou em vários números desse jornal o seu manual anarquista, intitulado A doutrina
anarquista ao alcance de todos.89 Dando seqüência a esse trabalho, publicou em folhetins as suas lições de literatura. Tratava-se das mesmas lições que ele utilizava em suas aulas no Colégio Pedro II90. Iniciativas como essas exemplificam a maneira particular como as práticas pedagógicas de José Oiticica em seus diferentes espaços de circulação estavam em interseção.