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FİNANSAL ARAÇLARDAN KAYNAKLANAN RİSKLERİN NİTELİĞİ VE DÜZEYİ

Ah, se eu pudesse voltar à minha infância! Minha velha Aia! Conta-me esta história que principiava, tenho-a na

memória, Era Uma Vez... (Nobre, 1983).

O Era Uma Vez... é assunto e matéria do conto de tradição oral, tão importante que voltamos a ele. Esse é um começo clássico, como uma fórmula mágica dos contos de fadas; que sem parcimônia empresta aos contos contemporâneos seu início, para que ganhem graça e “veracidade”. Era Uma Vez, palavras que, em ritmo e rima, fecundam e transformam os dados em realidade de acesso ao mundo criativo, pela imaginação de quem conta e de quem ouve. Mas, o que há com esse Era Uma Vez...?

Vamos considerar os pressupostos da arte narrativa com a professora Regina Machado, cientista social e contadora de histórias, da Escola de Comunicação e Arte – ECA – USP, cuja pesquisa versa sobre a utilização dos contos tradicionais na formação de professores de artes no Brasil. A professora, nos leva a crer que: o Era Uma Vez quer dizer que a singularidade do momento da narração unifica o passado mítico – fora do tempo – com o presente único – no tempo – de quem ouve a história e a presentifica. Para Machado, o “Era Uma Vez” localiza-se num:

(...) tempo que não cabe na história temporal, datada cronologicamente, como o do ontem ou o da amanhã. Faz sentido..., no domínio do imaginário. Era uma vez, na versão inglesa (Once upon a time), que se poderia traduzir imprecisamente em português como “uma vez acima ou além do tempo” (2004, p. 22).

Temos, portanto, uma experiência além do tempo – mas situada no aqui e agora.

uma época, num passado, impreciso, distante (p. 32)”. Mas que remonta a fonte das origens, para dizer: muito, muito longe e ao mesmo tempo, aqui bem perto –, já que a história está sendo narrada aqui e agora. São três palavras, que no dizer de Rousseau (1988), Era Uma Vez é: “como num rito mágico, tem o poder de nos transportar para fora do espaço, no atemporal dos contos, este mundo sacralizado onde tudo é possível (p. 20)”. Trata-se, pois, de uma categoria à parte do mundo do dia-a-dia; trata-se da terra imemorial, o lugar nenhum, trata-se, para muitos, do mundo das fadas56 - aquele que existe entre as fronteiras do real e do imaginário – Talvez não consigamos precisar o que venha a ser esse mundo das fadas (só as crianças sabem fazê-lo) – porém o entendemos como Held (1996) pode ser compreendido como um dado cultural que se encontrou, para exprimir uma forma altamente artística que desenvolve a imaginação poética e a criatividade (1996). Esse mundo é o mundo dos contos; uma alegoria que apresenta palavras recobertas por trajes fabulosos e simbólicos, que no dizer de Voz Franz (1993), mostra as linhas básicas do destino humano. Daí a seriedade do assunto: acervo que acessa a história do homem pelo mundo da imaginação. Com isso recordo-me do conto: A Fábula da Fábula57 de Malba Than.

Era uma vez, então, o verbo errante que andou solto pelos desertos, pelos mercados da antiguidade, pelas cavernas, nas rodas de fogo, nas encruzilhadas dos viajantes, feiticeiros, bandidos e mocinhos, aventureiros, comerciantes. Era o verbo que dito no passado presentificava o momento contado e compartilhado pelas performances dos seus contadores, no presente. Essa fórmula mágica que leva irresistivelmente à candura da infância, com a crença inabalável do “tudo pode ser”, tal é para nós como Rousseau apresenta: “(...) a imagem do gozo e da felicidade

56 Existem pesquisas de historiadores, arqueólogos, filólogos, etnólogos, cronistas e compiladores

que através dos tempos se debruçaram sobre a literatura primitiva dos mundos oriental e ocidental e descobriram que foi no seio do povo celta onde nasceram as fadas. Foi na criação poética céltico- bretã que surgiram as primeiras mulheres sobrenaturais a darem origem a linhagem das fadas. Mas quem são essas fascinantes figuras? Etimologicamente a palavra vem do latim fatum, que significa destino, fatalidades, oráculo. Ainda segundo Coelho, provando essa origem comum, as fadas de todas as nações europeias são nomeadas com “termos que provêm na mesma área semântica latina: fada (Portugal); fée (França); fairy (Inglaterra); fata (Itália); feen (Alemanha); hada (Espanha). Fazem parte do folclore europeu ocidental e dele emigraram para as Américas, tornando-se conhecidas como seres fantásticos imaginários de grande beleza, que se apresentavam sob a forma de mulher. (1987, p. 31). Existe um livro publicado por um grupo editorial teosófico que se chama O Mundo Real

das Fadas da autora Dora Van Gelder (1986), cuja seriedade não se pode duvidar e é referência para

os estudiosos.

que só é comparável ao esquecimento do nosso estado físico, das misérias e dos sofrimentos que ele engendra (1988, p. 28)”.

O mundo para o qual as palavras: Era Uma Vez nos remete, dizem não só os antigos e os novos contadores de histórias, como estudiosos da literatura, para um mundo fantástico que abre maravilhas imprevisíveis. Maravilhas que sutilmente promovem o encontro dos pensamentos com os sentimentos que residem na memória de cada um de nós. Este é o mundo da “contação”58 de histórias. É um

mundo de experiências particulares, individuais.

Para explicar sobre isso recorro a Pompéia59, psicólogo e psicoterapeuta, ao mencionar que o recordado traz a sensação de uma coisa, que ao mostrar-se, parece estar presente de alguma maneira já há muito tempo. Ao ouvi-lo, parece que ouvia também as palavras de minha avó quando me dizia que tudo o que está no conto já sabíamos, nada é novo e nada é assim tão distante. É como acordar uma lembrança. Quando estamos na escuta de um conto, tudo se passa como se já conhecêssemos o que agora está sendo narrado. É como se (re) descobríssemos a mesma coisa outra vez. Sabemos exatamente do que se trata. O assunto do conto nos é muito familiar – porque tem por tema uma questão existencial ou ética. O recordado se aproxima de uma sensação de intimidade.

Nas histórias descobrimos a nós mesmos, reunidos com a obra e com as coisas de modo harmônico, num contexto de intimidade. Esse é um tipo de experiência muito prazerosa, muito especial que se dá no contato com qualquer arte. É por isso que concebemos o conto como uma experiência, como nos ensinou Dewey, já que cada conto carrega uma história:

Experiência é feita de histórias, cada qual com seu enredo, seu início e movimento para seu fim, cada qual com seu movimento rítmico particular, cada qual com sua qualidade que a perpassa por inteiro (...) aquelas coisas que dizemos ao recordá-las: “isso é que foi numa experiência”. Em uma experiência o fluxo vai de algo para algo. E dá-se à medida que uma parte

58

“Contação” não é um termo que se encontre nos dicionário, mas um neologismo utilizado pelos contadores de histórias da atualidade e que está amplamente difundido.

59 Palestra proferida na Programação Paralela promovida por Artéria Junqueira, quando o psicólogo

leva a outra e que uma parte dá continuidade a que veio antes... Uma experiência de pensar tem sua própria qualidade estética... e o faz somente em seu material. (1958, p. 112-113).

Portanto, há uma qualidade de encantamento real e, de prazer constituído que, por isso, apresenta-se com vigor. Mas, frequentemente negligenciamos essas qualidades de encantamento, até mesmo subestimamos o que é oniricamente possível sem ser realmente possível. Isso muito provavelmente porque consideramos, sobretudo as experiências do dia, esquecendo-nos das experiências da noite (HELD,1980).

Então, uma das nossas tarefas é justamente a de procurar o que nos foi transmitido pelas gerações que vieram antes das nossas; como foi guardada e transmitida essa experiência de vida, exatamente porque o Era Uma Vez... é um mundo de possibilidade para um mundo melhor. Oxalá quisesse que todas as professoras contassem histórias para as suas crianças, do mundo do Era Uma Vez..

Benzer Belgeler