Este subcapítulo adentra, mesmo que brevemente, no estudo do ícone “Estátua de Padre Cícero”. A Estátua é um objeto material como qualquer outro. No entanto, ela foi construída para fazer parte das representações políticas e, posteriormente, tornou-se componente de uma cultura social religiosa específica e essas condições a personificaram em um símbolo. Veremos como este símbolo é transformado em ícone já que a estátua em si possui sua autonomia material. Isto é importante na medida em que posteriormente verificaremos sua retomada como patrimônio cultural material.
Um primeiro sentido de ícone o apresenta coligado ao de símbolo no contexto da leitura dos significados proporcionados pelo urbano. Ou seja, ícones e símbolos em inteira conexão são apreendidos com o objetivo de se compreender como os sentidos elaborados pelas sociedades na cidade em um determinado período e com seus lugares precisos são comunicados tanto no espaço quanto no tempo (MONNET, 2006; 2007).
173 A ideia de ícone urbano mostra-o sendo resultado da produção dos lugares pela construção de simbolismos, isto é, o sistema de produção dos significados dos lugares por intermédio dos objetos concretos neles construídos e esse simbolismo ganha eficácia através da iconização destes objetos. A iconização, neste caso, é o sistema de comunicação das imagens concretas destes objetos nos diferentes meios de comunicação visual impressos ou eletrônicos. Neste contexto, os ícones são explicitamente referenciados pela imagem fixa. O ícone é concebido elemento de evidenciação de ligação entre o ordenamento do espaço e as estruturas paisagísticas e icônicas.
O objetivo de trabalhar os ícones urbanos na geografia, dessa forma, é o de compreender como os habitantes ou visitante se orientam na cidade, quais meios eles utilizam para se orientar, identificar lugares, estabelecer limites e colocar os objetos em seu devido lugar (MONNET, 1999c; 2006). Símbolos e ícones são elementos essenciais na territorialização, ou seja, na produção social do espaço. Os ícones urbanos não correspondem às imagens mentais por estarem relacionados diretamente ao papel determinante da visão nos processos cognitivos humanos. É a relação direta do sujeito com o mundo ambiente concreto. Uma ilustração desse entendimento de ícone na paisagem da cidade de Juazeiro do Norte justifica esta construção conceitual. Tomemos a estátua de padre Cícero como exemplo clássico: ela é um objeto concreto com seu lugar preciso e específico, a cidade de Juazeiro, só que representa ao mesmo tempo uma realidade concreta e abstrata, ela simboliza Juazeiro e também a personificação de um homem, Padre Cícero. Neste caso, a estátua é um símbolo por criar laços entre realidades de naturezas diferentes, de articular ordens entre o material e o ideal, o concreto e o imaginário.
Mas para que este símbolo concreto específico se transformasse em ícone, foi preciso um longo processo de transmissão de sua imagem nos mais diversos meios de comunicação como xilogravuras, postais, revistas, livros, selos, pinturas, medalhas, esculturas etc.. Este processo é denominado de iconização do símbolo. Foi com a iconização que o símbolo “Estátua de Padre Cícero” projetou-se para além do lugar, ampliando consideravelmente seu alcance representacional. A estátua como ícone é hoje utilizada para os mais diversos meios e fins, e sua projeção simbólica ultrapassa as fronteiras do país.
Os ícones tratam-se também de programas dinâmicos vivenciados no seio da cidade o que implica que esta concepção ou dimensão icônica seja administrada, ou melhor, definida, reinterpretada, carregada de sentidos e inserida em condições históricas por leituras diversas (SANCHIS, 2007, p. 19).
174 As festas comemorativas cívicas, como no caso do Centenário de Juazeiro do Norte, são manifestações essencialmente pontuais e efêmeras e de um tempo extraordinário, bem demarcado. São comemoradas como ícones de momento a serem vivenciados em uma única oportunidade. Tais festividades são constituídas para se tornarem ícones marcas de uma determinada cidade por sua representatividade histórica e social. Sua construção no imaginário contemporâneo demanda o desenho de uma paisagem visual específica, por intermédio de uma cadeia de promoção intensiva.
Os eventos comemorativos estão enquadrados nos três principais tipos ou grupos de festas tradicionais elencadas por Di Méo152 (2001a; 2001b). Diferem-se dos demais por desempenharem outros registros, usualmente os não religiosos. Para ele, os eventos comemorativos muitas vezes servem de sinédoque, ou seja, exercem efeitos simbólicos atuando em escalas geográficas diferentes. Os eventos comemorativos não fogem à regra quanto à diversidade e quantidade em relação aos outros tipos de eventos. Pode-se partir de uma comemoração restrita a um lugar, cidade ou país como a festa cívica patriótica, a um contexto bem localizado ou aquela comemoração dedicada a uma personalidade cujo objetivo é o de fortalecer os laços comunitários ou ainda a conjunturas mais universais.
Os eventos urbanos festivos quaisquer que sejam suas classificações ou intenções possuem dimensões temporal e espacial já que são necessários um “quando” e um “onde” precisos para serem realizados. Neste sentido, se transformam em vetores estratégicos porquanto dependentes da apropriação do espaço. Em torno destes eventos gravitam diferentes atores. No trato dos eventos cívicos estão a eles atrelados, diretamente, os atores institucionais.
Muitos eventos comemorativos, por sua condição efêmera, são apropriados, retrabalhados, modificados ou recriados com o objetivo de os tornarem perenes no sentido de assegurarem realização estável no espaço urbano. Quando levados a se inscreverem
152 No primeiro grupo estão as festas calendário vividas através dos ritmos das estações, ligadas ao ritmo da
natureza. Entre as diversidades de exemplos têm-se as festas em homenagem à boa colheita e funcionam como lacunas entre o espaço e o tempo. É neste entremeio (vazio do universo) que o homem é exorcizado, liberto das forças naturais, forças estas sobre as quais exercia pouco controle. As festas calendário estabelecem controle sob os opostos afeiçoando, por exemplo, os contrastes sombra/luz, branco/preto, civilizado/selvagem etc. Elas encorajam a inversão de papéis, simbolizam o triunfo da claridade sobre a treva e assim por diante. No segundo grupo estão as festas padroeiras. Diferenciam-se das festas calendário apesar de estarem nela inscritas, porém não têm o mesmo significado sócio geográfico. São festas localizadas, privilegiando uma determinada comunidade sob a proteção do principal santo de devoção. São festas ocorrentes em países tanto cristãos quanto em outras culturas as quais cultuam suas divindades. São características destas festas as procissões e os cortejos, rituais capazes de sacralizar os territórios, de promover-lhes certa inviolabilidade. São praticadas coletivamente, dissimulam tensões internas, reforçam a unidade social, instituem identidade territorial criando laços familiares e definem uma identidade geográfica em relação a outras festas patronais (DI MÉO, 2001a; 2001b).
175 perenemente na cidade, os atores que as controlam trabalham para que elas sejam visíveis em tempos prolongados. A perenização de um evento representa questões relativas à apropriação do espaço (GRAVARI-BARBAS; VESCHAMBRE, 2005) e no imaginário por meio da utilização cada vez mais crescente da midiatização. Daí, “perenizar” significar também a criação de condições propícias, promovendo o clima de aceitação, de aprovação, de orgulho, de se fazer pertencer à cidade.
Afirmar que os eventos festivos do Centenário de Juazeiro do Norte foram dirigidos nestes termos já é interessante, porém requer que se vá mais além. É importante, todavia, se perguntar sobre a natureza desse evento, ou melhor, como e para quem ele foi produzido. Em que medida e como se processaram as relações políticas, econômicas e religiosas nesta festa cívica. Que estratégias foram utilizadas? Certamente que, no espírito da Comissão, o Centenário não poderia ser concebido sem sua perenização no imaginário e no espaço concreto, deslocado da reprodução em ritmos regulares. A perenização temporal inscrita no imaginário e a perenização espacial pretendida no material são dimensões conjuntas idealizadas para a projeção da cidade a ser remetida a um futuro promissor. A instrumentalização destas duas dimensões incitou assegurar os investimentos necessários. Partiremos para a fase de como este ícone foi posto a ser perenizado no imaginário citadino observando como a perenização de um Evento-Mãe foi dependente de eventos a ele filiados condicionando uma força regional do simbolismo latente entre Juazeiro do Norte e o símbolo- ícone Padre Cícero.