Em 11 de janeiro de 2013 foi realizada mais uma grande alteração no setor elétrico. As modificações dizem respeito, basicamente, ao prazo das concessões de geração, transmissão e distribuição de energia e à remuneração dessas concessionárias.
Com o objetivo de evitar o aumento da inflação e estimular os investimentos privados, as alterações tiveram o efeito inverso. Concessionárias cujos contratos de concessão de geração de energia se venceram após a edição da medida provisória que resultou na referida lei optaram por não prorrogá-los.
A prorrogação condicionava-se à aceitação das novas regras impostas pelo Ministério das Minas e Energia (MME) e pela Aneel, inclusive no que diz respeito à imposição da redução das tarifas de remuneração do concessionário.
Esse motivo, que demonstra interferência política (controle da inflação), aliado à ausência de chuvas devido à seca prolongada no último período úmido134, é traduzido pelos investidores como indícios de insegurança jurídica e de instabilidade regulatória, afastando, em vez de atrair, os investimentos.
O cenário impõe o acionamento, pelo Operador Nacional do Sistema (ONS), das usinas termoelétricas como meio de compensar a diminuição da capacidade das usinas hidrelétricas e, por consequência, combater a insegurança no abastecimento e evitar um novo “apagão”. Entretanto, o incremento do uso das térmicas aumenta o Encargo do Serviço do Sistema (ESS), encarecendo, por conseguinte, a tarifa do serviço de distribuição de energia elétrica, paga pelo consumidor final. Além disso, a energia adquirida no mercado spot, à vista, possui preço mais alto do que aquele estabelecido em leilão.
Percebe-se que se está diante de uma repetição dos fatores que levaram à crise do abastecimento experimentada em 2001. Marcos Juruena Villela Souto135 teceu comentários sobre o passado que levou ao “apagão” que podem ser reproduzidos no presente sem reparos. Segundo o autor, o papel do Estado acabou
134 O período úmido é o intervalo entre dezembro e abril. Nesse período ocorrem as chuvas
responsáveis por abastecer os reservatórios das usinas hidrelétricas, o que acarreta maior oferta de energia e, portanto, possibilita redução tarifária, em contraposição ao período seco, que acontece no restante do ano.
se tornando muito mais político do que técnico, impactando diretamente nos critérios de definição das tarifas públicas, afastando-as de sua finalidade de manutenção, expansão e aprimoramento do setor elétrico. Passaram a ser utilizadas, segundo ele, como instrumento de controle da inflação e do populismo, visando a fins eleitorais, gerando consequências nefastas:
Isso contribuiu, em muito, para se criar um cenário de dificuldade de manutenção das próprias empresas estatais criadas para a exploração das atividades do setor elétrico. Nesse modelo, de forte dependência dos capitais públicos, e por conta dessa política tarifária demagógica, a tônica era a dificuldade de o Estado continuar a abastecer a população com o aumento de energia. Era uma política tarifária equivocada, porque voltada para a remuneração artificial do custo dessas usinas hidrelétricas e porque se preocupava, apenas, com os custos históricos e não necessariamente refletia os custos de ampliação e manutenção do parque industrial brasileiro. Pois bem, esse não era um cenário que atraía o capital privado para investir na geração de eletricidade. [Grifo do autor].
Atualizando-se o cenário, houve o ingresso das usinas termoelétricas para aumentar a oferta de energia e diminuir o risco hidrológico. Entretanto, a manipulação política das tarifas é preocupante, diante da demanda sempre crescente por energia, que requer o ingresso de novos atores para satisfazê-la.
Dada a relevância da utilização da energia para a atividade humana, a questão que se impõe diz respeito à discussão sobre o desenvolvimento fundamentado em um novo padrão de sustentabilidade social, econômica e ambiental.
5 A ENERGIA EÓLICA COMO ALTERNATIVA SUSTENTÁVEL PARA A
DIMINUIÇÃO DAS DESIGUALDADES REGIONAIS ATRAVÉS DO
DESENVOLVIMENTO
Conforme desenvolvido nos capítulos anteriores, observa-se que a superação das desigualdades regionais, necessária ao aumento da qualidade de vida da população nordestina e, em especial, do Ceará, é dependente do desenvolvimento.
Atualmente, não mais se concebe que o desenvolvimento econômico aconteça apoiado em forte degradação ambiental, mesmo nos locais em que esse desenvolvimento se mostra mais necessário, como nas áreas empobrecidas dos países subdesenvolvidos, de que é exemplo o Ceará.
Nesse aspecto, considerando a vinculação estreita entre energia, processos produtivos e desenvolvimento, mostra-se necessário discutir os acertos e desacertos da política energética nacional, a fim de verificar o atendimento aos objetivos da República definidos no artigo 3º da Constituição Federal, especialmente a redução das desigualdades sociais e regionais e o desenvolvimento nacional, sem prescindir da preservação ao meio ambiente ecologicamente equilibrado a que todos fazem jus.
A observância dessas diretrizes passa pelo incremento do uso das energias renováveis na elaboração das políticas públicas relacionadas à diversificação da matriz energética. Por determinação constitucional, a preocupação não pode se restringir à eficiência, traduzida por uma mera relação de custo-benefício.
O interesse público deve ser a baliza para se estabelecer o uso dos recursos disponíveis, impondo-se adicionalmente a verificação das questões sociais e ambientais.
Apesar das divergências referentes ao conceito de interesse público, as normas que tratam de políticas públicas acabam por desempenhar a função de fixá- lo. De maneira circular, as políticas públicas devem ser elaboradas levando-se em conta o interesse público. É importante observar que a racionalidade e a eficiência econômico-administrativa são importantes, porém insuficientes como instrumentos de legitimação da eleição de políticas públicas.
A preocupação em promover o desenvolvimento sustentável através do crescimento econômico, em princípio pode aparentar certa contradição, uma vez que importa em pressão sobre os bens ambientais. Habitualmente, o crescimento ocorre a partir da utilização de commodities, e no Brasil não é diferente. Dessa forma, é imperativo constitucional que a sustentabilidade integre a equação.
Nesse aspecto, depreende-se não ser condizente com a Constituição Federal uma política pública que se preocupe apenas com o crescimento econômico, que não promova o desenvolvimento econômico e a diminuição das desigualdades regionais através de valores como a sustentabilidade.
Independente da composição percentual de cada fonte na matriz energética deve-se ter em conta o aumento da eficiência na produção e no seu uso e o desenvolvimento de novas tecnologias tanto para geração, armazenamento e transmissão, como também para a resolução de problemas, tais como o que há com a disposição final dos resíduos radioativos concernentes à energia nuclear, uma fonte tida como não poluente, desde que controlados os vazamentos de material radioativo que eventualmente possam ocorrer, de relativa abundância, embora dependente de insumos finitos, mas de periculosidade considerável.
A compatibilização da proteção ambiental com os princípios da ordem econômica é uma realidade que se impõe, tomando-se como ponto de partida o abandono necessário das teses que sustentam o caráter programático da Constituição Federal, enfrentando-se, nesse percurso, o reconhecimento das limitações orçamentárias na concretização dos direitos. Conforme Hesse,
Embora a Constituição não possa, por si só, realizar nada, ela pode impor tarefas. A Constituição transforma-se em força ativa se essas tarefas forem efetivamente realizadas, se existir a disposição de orientar a própria conduta segundo a ordem nela estabelecida, se, a despeito de todos os questionamentos e reservas provenientes dos juízos de conveniência, se puder identificar a vontade de concretizar essa ordem136.
O princípio do desenvolvimento sustentável deve ser observado sob duas perspectivas: sob a ótica do Estado, promotor da diminuição das desigualdades regionais, bem como sob a ótica do indivíduo, no que diz respeito à concretização
136 HESSE, Konrad. Op. cit., p. 19.
dos direitos fundamentais, especialmente a liberdade, apoiada no princípio da igualdade.