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De acordo com Sposito (1999, p. 25), “o público, compreendido como o que pode ser de todos, é muitas vezes visto como o que pode ser privatizado, porque está liberto da condição de ser propriedade de alguém”. Assinala, ainda, que:

[...] nos espaços públicos, mais do que nos privados, poderíamos encontrar a síntese entre os tempos longos, aqueles das transformações processuais e das rupturas históricas, e os tempos curtos, esses das práticas cotidianas e que podem ser medidos no calendário da vida humana, pois nesses

espaços estão contidas múltiplas possibilidades de usos e apropriações (Ibid., p. 27).

De acordo com o Art. 10 da Lei 7661 de 1988 (Anexo A), que institui o Plano de Gerenciamento Costeiro, “as praias são bens públicos de uso comum do povo, sendo assegurado, sempre, livre e franco acesso a elas e ao mar, em qualquer direção e sentido, ressalvados os trechos considerados de interesse de segurança nacional ou incluídos em áreas protegidas por legislação específica”. Esta lei estabelece, ainda, em seu Art. 10, parágrafo 1º, que “não será permitida a urbanização ou qualquer forma de utilização do solo na Zona Costeira que impeça ou dificulte o acesso assegurado no caput deste artigo”. (Ibid.).

No parágrafo 3º deste mesmo Art., é esclarecido o que se entende por praia nesta Lei: “entende-se por praia a área coberta e descoberta periodicamente pelas águas, acrescida da faixa subseqüente de material detrítico, tal como areias, cascalhos, seixos e pedregulhos, até o limite onde se inicie a vegetação natural, ou, em sua ausência, onde comece um outro ecossistema”. (LEI 7661 de 1988 – Anexo A).

Segundo a matéria publicada no jornal Diário do Nordeste em 10 de fevereiro de 2003:

[...] O desordenamento na construção dos estabelecimentos fere normas do Patrimônio da União, responsável pela área, prejudica os próprios barraqueiros e só beneficia quem freqüenta a parte urbanizada da área. Segundo a União, até 25% das barracas estão avançando sem controle sobre a praia. O permitido é que a área de ocupação na faixa de praia seja o dobro da área construída da barraca. De acordo com o gerente geral do Patrimônio da União no Ceará, João Afonso de Almeida Vale Júnior, nessa área concedida, o dono da barraca pode restringir a entrada de usuários com cobrança de ingresso ou demarcação do espaço, com exceção da parte de uso comum. “Na área construída ele pode colocar faixas de limitação, só não pode é cercar a praia”, diferencia. (ESPAÇO..., 2003).

Dessa forma, as barracas podem ser cercadas provisoriamente por algumas horas e somente com a autorização da Delegacia de Patrimônio da União (DPU) para a realização de eventos: assim eles podem acontecer de forma ordenada e também legal.

3.2.2 A incorporação de novas práticas de lazer – será o fim dos banhos de mar?

Os encantos da Praia do Futuro, aliados à beleza do ambiente litorâneo, chamam a atenção dos que se encontram nesta praia. Sua paisagem serviu, inclusive, como fonte inspiradora para a composição de uma música, intitulada Maria

do Futuro, do compositor Taiguara, que incluiu no álbum Viagem esta composição

que fala da paisagem desta praia, marcando, assim, o momento em que ele esteve em Fortaleza no início da década de 1970:

uhhhh... uhhhh...

duna branca, lua imensa, Maria deita nua e branda como as nuvens que a lua enleita

duas tranças, uma flor e Maria enfeita suas mansas curvas cheias que a areia aceita

era noite de verão vi o amor nasceu num sorriso seu

o luar me convidou

mar nos temperou e ela me envolveu nessa rede ela prendeu minha dor se viu, minha solidão nessa rede eu vi nascer minha liberdade

tua rede, minha sede e o amor te trouxe

quero ver o mar salgando teu seio doce e em cadeias de amor puro

viver guardado

joga areias do futuro no meu passado “Maria do Futuro”

Composição de Taiguara

Em 1972, o compositor Ednardo escreve a música Terral, quando exprime o prazer de estar em Fortaleza: eu venho das dunas brancas, onde eu queria ficar,

deitando os olhos cansados, por onde a vida alcançar [...] A Praia do Futuro, o farol velho e o novo são os olhos do mar; são os olhos do mar; são os olhos do mar.

Além das belezas naturais, as pessoas que se dirigem à Praia do Futuro são motivadas por uma série de fatores, destacando-se, também, e as diversas atrações incorporadas à área. As opções de lazer na Praia do Futuro foram se

diversificando, ao passo que também ocorriam mudanças sociais, econômicas, urbanas e culturais no contexto da cidade de Fortaleza.

Observa-se que diferentes motivações levam os freqüentadores à Praia do Futuro. Seria comum o mar ser o grande astro de um “domingo na praia”, quando os banhos de mar seriam a motivação principal que levaria tantas pessoas a procurar este espaço de lazer. A realidade observada, entretanto, apresenta-se de forma diferenciada em virtude das novas práticas de lazer e serviços incorporadas na área. A exemplo, pode-se mencionar os banhos de sol, a prática de esportes ao ar livre e o uso dos equipamentos e serviços oferecidos pelas barracas de praia – piscinas, toboáguas e chuveirões.

Estes novos serviços relacionam-se também às novidades oferecidas pelas barracas com a finalidade de atrair mais freqüentadores. Dentre eles, podem ser mencionados: sala virtual, salão de beleza, sorveteria, agência de viagens, música ao vivo, aluguel de toalhas, cama elástica, parquinho para crianças, piscina de bolinhas, lojas de conveniência, guarda-vidas da própria barraca, seguranças particulares etc. Em algumas barracas, os recursos da Internet são utilizados inclusive para disponibilizar em tempo real as imagens da barraca. Assim, quem está em casa ou no trabalho pode acompanhar como está a movimentação das pessoas.

Quanto às práticas de lazer, a motivação inicial que conduziu os freqüentadores até a Praia do Futuro foi a busca pelos banhos de mar, pois esta área não apresentava sinais de poluição e para ela deslocavam-se os investimentos do setor imobiliário de Fortaleza depois da metade do século XX.

Com o passar dos anos e a introdução de novas “modas” e costumes, outras práticas foram incorporadas na praia a fim de complementar os banhos de mar. Sendo palco de inúmeras festas, shows e eventos públicos, o local foi fortalecido e cristalizou-se como ideal para as atividades de lazer da população de Fortaleza e dos turistas que tencionavam tomar banhos de mar.

Com as mudanças de comportamento ocorridas na sociedade de consumo, esta prática marítima moderna na Praia do Futuro vai sendo complementada e agora ir à praia também significa bronzear-se, comer caranguejo,

fazer massagem etc. Com isso, ir à praia deixou de ser um lazer apenas para tomar banho de mar.

Além das opções de serviços oferecidos pelas barracas, ainda existem aqueles que estão instalados diretamente na areia da praia e que podem ser utilizados por qualquer freqüentador. A exemplo, destaque-se o bronzeamento artificial, massagem relaxante, aluguel de pranchas de surf, dentre outros serviços.

Benzer Belgeler