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chamam-me de santo, quando pergunto pelas causas da pobreza, me chamam de comunista [...] (Dom Hélder Câmara - "O DOM da Paz" Recife, 22 de julho de 2004)

A afirmação de Dom Helder Câmara, Arcebispo de Recife e Olinda, no período de 12 de março de 1964 a 2 de abril de 1985, resume o sentimento desenvolvido no período em que a Comissão Pastoral da Terra surge no Brasil em 1975. Clérigos, bispos e padres mais radicais em sua atuação, críticos da situação exploratória e desumanizante posta aos trabalhadores do campo e aos povos da floresta eram definidos como comunistas e, como tal, deveriam ser combatidos. No entanto, esse cenário desfavorável em curso desde os idos de 1950 fez emergir um segmento progressista e libertador que protestava contra os desmandos sociais resultantes do avanço do capitalismo no campo, alimentados de meados da década de 1960 até meados da década de 1980 pela ditadura do governo militar e civil- empresarial que aprofundou as injustiças sociais e revelou uma paisagem marcada pela violência.

Um sentido negativo era difundido a respeito de quantos questionavam a situação vigente, pois, uma vez pautados nos ideais marxistas, de acordo com o comunismo, a Revolução se faria pelos operários e, dessa forma, poderia transformar radicalmente o sistema. Já a CPT, cujo cerne reside nas ideias liberais e progressistas, na Igreja Popular Libertadora, na Igreja dos Pobres nascida no Concílio do Vaticano II e na Teologia da Libertação emergente do contexto sul-americano, se diferencia desses princípios porquanto, apesar do diálogo com os marxistas,

[...] opõe-se a pressupostos da esquerda quando propõe o potencial revolucionário dos camponeses, contra a ideia de que a transformação social deveria vir dos proletários das cidades, divergindo da concepção de que a religião simplesmente colabora com a manutenção do status quo, revertendo

a análise marxista ortodoxa da religião como “ópio do povo”. (FERREIRA, 2004, p.145).

De forma contraditória, a repressão dentro da Igreja mediante perseguição pelo Estado e pelo exército, e o processo de repressão, associados ainda às contradições ocorridas dentro da Igreja, na sua relação com as classes dominantes e com os que exercem o poder na sociedade, foram propulsoras da organização do trabalho pastoral.

[...] em vez de provocar um pavor, um fechamento e uma busca de defesa apenas dos atingidos, provocou maior criatividade, busca de novos caminhos para avançar. Perceberam, naquela época, os que estavam envolvidos, que se os trabalhos, as pessoas e Igrejas ficassem como estavam, isolados, não haveria condições de levá-los adiante (POLETTO, 1985a, p.132).

Foi isso que motivou um grupo de pessoas a percorrerem o país procurando alguns bispos sensíveis, com práticas mais coerentes com o nível popular. Como os bispos eram praticamente os únicos imunes à prisão e à violência direta, podiam, portanto, se posicionar criticamente em relação à forma como o poder estava sendo exercido no país e assumir claramente o apoio e comprometimento com os oprimidos.

Desses desafios, frutos de várias tentativas, aconteceu em Goiânia, em junho de 1975, um encontro de pastoral da Amazônia Legal, onde surgiu a ideia de se ter uma comissão, um pequeno organismo que promovesse, em caráter permanente, um serviço de articulação e de assessoria. Nascia então a CPT. Esse encontro foi permeado de grande repressão, antes durante e depois da sua realização.

Como evidenciado, a linha geral de atuação da CPT destacada pela maioria dos participantes desse encontro pastoral foi a ideia de serviço e não de coordenação. Já nos documentos iniciais, a CPT coloca-se “a serviço de uma causa que não é dos participantes, nem exclusiva dos camponeses cristãos, mas uma causa dos trabalhadores rurais. A CPT surge como um organismo pastoral a serviço da causa dos camponeses”. (POLETTO, 1985a, p. 133).

A CPT não tem um objetivo em si, é antes um serviço, alcança seu alvo, na medida em que o campesinato assume, em plenitude, sua história, sua organização, seu projeto social. Fomos criados para “cuidar” e “guardar” (Gen 2,15) esta terra. A Pastoral da Terra é um serviço eclesial para que a luta pela justiça agrária se torne cada vez mais leiga (CPT, 1985, p. 15).

Antes da fundação da CPT, em 1975, determinadas vozes, dentro da Igreja Católica no Brasil, já se colocavam contra o latifúndio e acreditavam que a reforma

agrária resolveria os conflitos no campo. É o caso de Dom Pedro Casaldáliga que, em 1971, escreveu uma carta pastoral na qual mostrava como a Igreja (no caso a Prelazia de São Félix do Araguaia, MT), ao se deparar com a realidade dos camponeses, passou a assumir uma atitude contrária ao latifúndio (CORSO, 2012). Essa carta pastoral, intitulada “Uma Igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social”, foi o primeiro grito de socorro dos clérigos libertadores para a salvação e libertação do homem do campo e da floresta, ou seja, os indígenas (MITIDIERO JUNIOR, 2010).

José de Souza Martins (1997) citado por Mitidiero Junior (2010) reconhece o papel da carta pastoral vinda da Prelazia de São Félix do Araguaia ao dizer o seguinte:

Pela primeira vez na história do Brasil, em um documento público se afirmar, se dá visão de conjunto, de totalidade, do lado perverso do funcionamento do capital. Este documento é um marco não só na história da Igreja, mas é um marco na história social e política do país. Não por acaso, ele atraiu sobre a Igreja de São Félix do Araguaia todas as iras possíveis dos representantes dessa extrema e tremenda devastação (MARTINS, 1997 apud MITIDIERO JUNIOR, 2010, p.126).

Esse documento obteve profunda repercussão na Igreja e em outras instituições sociais e sindicais e impulsionou muitos clérigos a abandonarem definitivamente a ideia de que o modo capitalista de produção e o desenvolvimento das forças produtivas levariam à melhoria das condições de vida da classe trabalhadora (MITIDIERO JUNIOR, 2008).

Na afirmação de Balduino (2001), a CPT nasceu, portanto, no momento do avanço do grande capital em direção à Amazônia à custa do genocídio dos povos indígenas e do massacre dos camponeses, com total impunidade para militares e pistoleiros. Antes da CPT, existiram no Brasil várias iniciativas com o objetivo de conseguir a articulação da Pastoral em meio popular. Segundo Poletto (1985a), com a repressão, vários documentos referentes a esses trabalhos populares realizados por um longo período desapareceram.

Conforme evidenciado, o surgimento dessa Pastoral tem como cenário a crescente mecanização do campo, a expulsão de centenas de trabalhadores para as cidades, o aumento do número de latifúndios e as mortes no meio rural nesse período.

Como um organismo autônomo em sua organização e administração, a CPT é vinculada à Igreja Católica, relacionada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Logo, pode se vincular também a outras igrejas em seus diversos níveis e tem, por natureza, ser uma presença solidária, profética, ecumênica, fraterna e afetiva que presta um serviço educativo e transformador junto aos povos da terra para estimular e reforçar seu protagonismo em nível nacional, regional e local (CPT, 2011). Na sua base, estão as CEBs, formadas por pequenos grupos de trabalhadores organizados em torno de uma capela.

Esses grupos eram animados por “agentes pastorais”, leigos ou religiosos,

que conduziam as reflexões sobre as condições de vida, organização de mutirões, de manifestações, etc. Tentando ligá-las às mensagens bíblicas, elas se constituíram no eixo de organização dos trabalhadores e expandiram- se rapidamente na zona rural (MEDEIROS, 1989, p.112).

São atributos fundamentais para sua compreensão a mística dominante sobre as ações, feitos e agentes da CPT e o ecumenismo. O que caracteriza a mística da CPT é a “terra”. (CPT, 1995, p.32). Todas as ações implementadas, os debates travados, as denúncias efetivadas, as formações realizadas, em última (ou primeira) instância, têm a “terra” como elemento fundante. Isso fica claro quando das suas primeiras ações, ainda na década de 1970, mas, também, configuram as ações atualmente quando se verifica, por exemplo, que a diversificação das suas abordagens ainda carrega o elemento “terra” em suas linhas de ação, definidas no conjunto da Assembleia Nacional, como aponta o trecho do documento a seguir:

Nas linhas, encontramos a mística popular do sertanejo, do ribeirinho, do catingueiro, do migrante, do sem-terra, do negro remanescente de quilombola, dos povos da floresta, que não só vivem “na” terra ou “da” terra, mas sobretudo vivem “a” terra (CPT, 1995, p.32).

A mística da CPT é também a reafirmação do compromisso histórico e solidário e de uma paixão comum que anima todos os seus participantes. Essa mística se concretiza na busca de alternativas para diminuir as crises, conflitos e injustiças sofridas pelo homem do campo. Assim reafirma o documento:

Mística, é também, a busca de práticas realmente alternativas, populares, democráticas, ecumênicas e ecológicas, capazes de superar toda forma de exclusão, inclusive dentro da própria CPT. Mística é o rumo e a meta da Pastoral da Terra: o Reino de Deus. Mística é a ânsia e a pressa de vê-lo realizado na Terra (CPT, 1995, p.32).

Outra característica importante na sua compreensão é seu ecumenismo, pois, consoante entende, “as bandeiras de luta são comuns a todas as pessoas que

tem a mesmas necessidades, os mesmos interesses, sejam elas cristãs ou não”. (POLETTO, 1985a, p.135).

Essa postura de abertura às outras religiões é uma marca da CPT em suas atividades, sejam elas reuniões, encontros, cursos, celebrações, romarias, assessorias, etc. É o que retrata Ivo Polleto (1985a):

Conscientes de que se prestava um serviço pastoral buscamos as assessorias de que a luta dos trabalhadores necessitava, fossem de características pastoral, ou assessoria jurídica, sociológica, econômica ou política. As assessorias podem ser dadas, com toda competência, por

pessoas especializadas nesse campos de conhecimento,

independentemente de sua fé (POLETTO, 1985a, p.135).

Dentre os temas mais relevantes em que centrou esforços, a reforma agrária tem acompanhado sua trajetória, porquanto sua efetivação no país poderia resultar na resolução do problema secular de distribuição da terra e, como consequência, aniquilar as práticas de exploração que são marcas do campo brasileiro. Configurou-se em uma organização que incentiva a luta pela reforma agrária, justiça social no campo apoiando e, muitas vezes, sustentando os movimentos sociais e sindicatos rurais. Persegue a concepção segundo a qual “[...] a reforma agrária é para os trabalhadores rurais uma estratégia para romper o monopólio da terra e permitir que possam se apropriar um dia dos frutos do seu próprio trabalho”. (SILVA, 2001, p.95).

Como mencionado, a CPT foi instituída após a criação do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), e seus fundadores, praticamente, são as mesmas pessoas que participaram da sua criação. Destas, Dom Pedro Casaldáliga é um grande expoente. Embora o objetivo do CIMI fosse tratar as questões indígenas, conforme se percebeu, havia a realidade dos camponeses, e esta não seria idêntica à questão indígena. Por isso, tornou-se necessária uma Pastoral da Terra para tratar exclusivamente da realidade do camponês (ADRIANCE, 1996).

Segundo Martins (2011), o envolvimento dos bispos, sacerdotes, religiosas e dos agentes de pastoral nas difíceis situações dos camponeses e dos índios da Amazônia não pode ser explicado unicamente por sua conversão. Para essa lógica, a explicação reside na mudança de um bispo conservador para um bispo progressista, que põe em prática uma pastoral social e popular. No entanto, mesmo bispos conservadores podem atuar, em algumas circunstâncias, de maneira progressista, e

vice-versa. É o que se observa quando na votação do documento “Igreja e problemas de terra”, redigido pela CNBB em 1980, 96% dos bispos votam em favor do documento que buscava denunciar a concentração do capital e do poder em torno da posse da terra.

No contexto do governo militar, um trabalho de promoção da justiça entre índios e camponeses “implica, necessariamente, opor-se aos interesses dos que os expulsam de suas terras ou que tentam, sempre por meios violentos, confiná-los em espaços insuficientes a sua sobrevivência cultural e identitária”. (MARTINS, 2011, p.140). Com essas condições históricas, a CPT carrega até hoje, como uma das suas marcas, ser uma Pastoral profética e missionária que luta pelos pobres, com os pobres e para os pobres do campo.

Frequentemente, os idealizadores da CPT discutiam o projeto agrário do governo militar e articulavam proposta alternativa. Segundo afirmavam, o projeto privilegiava as grandes propriedades e os grandes investidores, sobretudo ao integrar agricultura, pecuária, mineração, exploração de florestas, reflorestamento e construção de hidroelétricas. Conforme previam, se o plano dos militares fosse aplicado, os assalariados rurais, os boias-frias, os posseiros e os pequenos agricultores migrariam para as cidades ou permaneceriam no campo, tornando-se assalariados das empresas rurais. Em ambos os casos, a pequena propriedade estaria fadada ao desaparecimento.

Apoiada nos preceitos de Medellín (1968) a respeito da pobreza da América Latina, e tendo como premissa básica a reforma agrária, a CPT torna-se a voz do trabalhador rural espoliado pelo sistema capitalista, justamente quando a Igreja passa a vivenciar uma nova fase, com uma visão política de transformação e busca pela justiça social (TONETTO, 2007).

De acordo com Poletto (1985a), o primeiro documento é em si contraditório, porquanto se definiu a luta pela reforma agrária e consequentemente a aplicação do Estatuto da Terra como orientação. “É interessante observar que se luta pela reforma agrária no sentido de aplicar a letra e o espírito do Estatuto da Terra”. Ao se comparar com as posições mais recentes e com a prática da CPT, constata-se uma contradição (POLETTO, 1985ª, p.134).

Muitos dos participantes sabiam ser contraditório assumir isso em um documento, porém o fizeram por uma questão de método. Como acreditavam, com a prática desenvolvida na Pastoral, se perceberia “melhor a contradição entre as aspirações e a luta dos sem-terra e o projeto agrário de Estado, do qual faz parte o instrumento legal do Estatuto da Terra”. (POLETTO, 1985a, p.134).

Também conforme esta fonte, a Comissão Pastoral da Terra nasceu, cresceu e continua vivendo sob o signo da contradição. “Contradição em relação à sociedade como um todo, ao poder exercido nela. Contradição que se dá também internamente, dentro das Igrejas, a Católica e as outras que participam da CPT.” (p.129).

Essa dupla dimensão da contradição da CPT é que explica sua atuação, pois de um lado seus avanços se dão pelo enfrentamento dentro da própria Igreja no esforço de desenvolver a prática pastoral, e, de outro, no enfrentamento do poder dominante, uma vez que a CPT se identifica com as aspirações das classes oprimidas. Assim, quando surge uma efetiva ligação da Igreja, no Brasil, com a causa do trabalhador rural, por meio da Comissão Pastoral da Terra (CPT), criada em 1975, enxergamos claramente essa nova visão da Igreja quanto ao seu papel e verificamos nesse elo as premissas da Teologia da Libertação (TONETTO, 2007, p.14).

Ao iniciar suas atividades, a CPT tinha suas ações centradas na figura do posseiro e do índio, devido à proximidade geográfica dos bispos envolvidos com a causa e aos reflexos do processo de modernização em curso no país. No entanto, com o fim da ditadura militar e civil-empresarial e a ascensão do Movimento dos Trabalhadores sem-Terra ocorreu uma inversão de prioridades na fala e na ação dessa Pastoral (MARTINS, 1992).

Ainda segundo o autor, a luta dos posseiros guardava um forte apelo moral; assim, o governo e a imprensa tinham interesse na mudança de centralidade da Pastoral, com vistas a fragilizar a luta encampada por eles.

A luta do MST faz emergir outra figura social na luta pela terra até então inexistente - os pequenos agricultores. Para Martins e Perani (1992), essas mudanças eram de interesse dos membros do próprio governo e da imprensa que objetivava deslocar o centro da questão fundiária do posseiro para o sem-terra, porquanto a luta dos primeiros estava respaldada por forte apelo moral.

Tais mudanças dão indícios de que a CPT tem continuamente se adaptado, buscando ser presença profética e solidária junto aos povos do campo. O fato de ser uma pastoral social e, portanto, não ser parte dos conflitos, faz da CPT um dos principais instrumentos de mediação entre os trabalhadores e o Estado (MELO, 2006). Consoante Mitidiero Junior (2008), “a luta é presença constante na atuação da CPT. É ela que define sua atuação, ou melhor, atuar em termos de CPT é estar em meio a lutas de diferentes grupos sociais que compõe o campo brasileiro”. (p.158). Nas palavras de Medeiros (2002), a CPT constituiu-se como entidade de apoio às lutas do campo, em especial as lutas por terras, definidas como serviço, articulação e assessoria.

Os organismos da Igreja que atuam na esfera dos trabalhadores rurais se autodefinem como serviço, um serviço à conscientização e organização dos trabalhadores (GRZYBOWSKI, 1987).

Para Mitidiero Junior (2010), a CPT tem quatro características importantes, quais sejam: 1) Pastoral de Conflito; 2) Pastoral de Fronteira; 3) Pastoral Eclesial; e 4) Pastoral Itinerante.

Como uma Pastoral de Conflito caracteriza-se por deter a luta como uma presença constante na sua atuação. É ela que define sua atuação, ou seja, que é estar em meio à luta de diferentes grupos sociais componentes do campo brasileiro. De acordo com o autor, a CPT se coloca como uma Pastoral de Conflito porque desde sua gênese esteve relacionada aos homens e mulheres sofridos do campo nas suas mais variadas formas, atingidos por um processo de expropriação, pauperização e violência.

Como uma Pastoral de Fronteira, se coloca à margem não só por sua opção pelos pobres do campo, mas também das Igrejas, pela dedicação àqueles que não são necessariamente católicos, luteranos, mas de qualquer outra denominação cristã ou não cristã. Sua característica de Pastoral de Fronteira é ressaltada quando se observa que suas ações estão vinculadas à opção preferencial pelos pobres marginalizados, esquecidos da sociedade.

Como uma Pastoral Eclesial, a CPT é ecumênica. Seu ecumenismo é evidenciado à medida que transpõe os limites da religião, ao congregar pessoas de

outras crenças, permitindo e conclamando para se agregarem à causa do trabalhador, tendo em vista que entende Deus como o Deus da justiça.

Como uma Pastoral Itinerante tem na mobilidade constante o objetivo de estar presente onde os conflitos estão acontecendo. Sua itinerância possibilita estar mais próxima dos conflitos onde eles ocorrem. A itinerância da CPT, associada à estrutura e organização da Igreja, contribuirá no processo de espacialização desta, mas como bem lembra Mitidiero Junior (2010), esses elementos não são suficientes, pois nem todas as Igrejas assumiram a CPT como serviço e missão profética. Há ainda uma estrutura de Igreja marcada pelo tradicionalismo, e a existência de padres e bispos mais conservadores não permitiu (nem permite) que a CPT se estabeleça. Ademais, a direção da CNBB, instituição à qual está vinculada, nem sempre se coadunou com a perspectiva libertadora da CPT. Por isso, existem nuanças em relação ao apoio recebido ao longo da sua atuação histórica no território nacional.

De 1971 a 1995 os bispos identificados com a Teologia da Libertação presidiram a CNBB. Foram eles: Dom Aloísio Cardeal Lorscheider (1971-1979), Dom José Ivo Lorscheider (1979-1987) e Dom Luciano Mendes de Almeida (1987-1995). Entretanto, a partir de 1995 isso se rompeu com a eleição de uma figura conservadora, Dom Lucas Moreira Neves - Arcebispo de Salvador no cargo até 1998. “Fortemente contrário à teologia da libertação, Dom Lucas trabalhou durante treze anos na Cúria Romana, e suas prioridades não são a pobreza e a exclusão social e sim a moral sexual: a luta contra preservativos, o aborto e o divórcio.” (LOWY, 2000, p.154).

Em seu lugar assume Dom Jayme Henrique Chemello (1998 - 2003). Embora colocado como progressista, prefere se intitular como um bispo moderado. Assim como ele, também tiveram perfil mais conciliador Dom Geraldo Mayella Cardeal Agnelo (2003 - 2007), Dom Geraldo Lyrio Rocha (2007 - 2011), Dom Raymundo Cardeal Damasceno (2011 - 2015), esse mais conservador que moderador, e Dom Sérgio Rocha, que assumiu a presidência da CNBB em abril de 2015.

Em face da diversidade dos conflitos dominantes no campo, os diversos sujeitos que o compõem e os limites de atuação da CPT, seu raio de ação restringe- se a alguns aspectos do campo, pois não seria possível abarcar a complexidade das relações e produção socioespacial do campo no Brasil. Nesse prisma, vê-se uma atuação articulada nacionalmente, mas restrita a algumas áreas, dividindo essa

missão com outros agentes mediadores do campo. Destes, citam-se o MST, o MAB, o Estado, entre outros. Grzybowski (1987) ajuda nessa compreensão ao afirmar:

[...] É possível relativizar o papel da Igreja como instancia mediadora entre movimentos sociais no campo, o Estado e o conjunto da sociedade civil. Apesar do peso político da CNBB e seus bispos, apesar do esforço heroico de seus padres, freiras e agentes leigos evangelizados (ou não), a Igreja é uma representação parcial e filtrada da diversidade de movimentos e

Benzer Belgeler