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– FİNANSAL ARAÇLARDAN KAYNAKLANAN RİSKLERİN NİTELİĞİ VE DÜZEYİ (Devamı) b) Finansal Risk Faktörleri (Devamı)

Já vimos anteriormente o processo de despertar para atividades associadas ao lazer, ocorridas no litoral brasileiro em fins do século XIX. Assim como A Eneida foi a propulsora da busca pela paisagem litorânea na Europa, as artes em Fortaleza desempenharam papel semelhante, divulgando tanto a paisagem costeira quanto a cultura à beira-mar.

No início do século XX o ambiente litorâneo tornou-se freqüente no cenário da literatura regional cearense. Se outrora o mar consistia basicamente na visão alencarina de Iracema, a partir de 1900 surgiram diversos autores que vêm versar sobre o ambiente costeiro. Dentre esses, Gustavo Barroso ganha destaque como o maior escritor litoranista de Fortaleza.

Professor, advogado, folclorista e cronista, Gustavo Dodt Barroso dedicou boa parte de seus 128 livros a ressaltar o litoral e sertão cearense, sendo convidado a fazer parte da Academia Brasileira de Letras em 1923 (CYTRYNOWICZ, 1992, p. 13). Sem negar as obras sertanistas do autor, como Alma Sertaneja (1923) e O

Sertão e o Mundo (1924), é ampla obras que versassem sobre a vivência do cotidiano costeiro.

Nos seus enredos, Barroso buscou descrever a paisagem litorânea de Fortaleza, como as ondas, a praia, os coqueirais e as dunas. Essas paisagens narradas com proeminência foram freqüentemente utilizadas pelo autor como palco para a movimentação de seus personagens.

O romance Mississipi, ambientado na Fortaleza da década de 1910, apresenta um relato detalhado sobre o modo de como eram realizados os primeiros banhos de mar como forma de lazer na cidade:

E as famílias aproveitavam a pouca claridade das ruas e a muita claridade das praias para tomarem banho de mar... Meninas, moças e senhores, acompanhadas de mucamas e moleques, guardadas pelos homens da casa, de cabelos caídos aos ombros, saia e blusa, arrastando chinelos, desciam pelas ladeiras do Gasômetro, da rua de Baixo, do Boris e da Conceição para as praias da Alfândega e do Pocinho (BARROSO, 1961, p. 159).

Fig. 89: Vista do Poço das Dragas a partir do Forte de Nossa Senhora da Assunção no final da década de 1920.

Fonte: Arquivo Nirez. Fig. 88: Moças após o banho de mar

caminhando pela praia no início da década de 1930.. Fonte: Arquivo Nirez.

Enquanto Barroso narrava as venturas do cotidiano da cidade, o autor também trazia ao longo das páginas do Mississipi um panorama da eclosão dos banhos de mar. Homens, mulheres e crianças tinham na praia do Gasômetro seus momentos de lazer e descanso, transformando aquelas águas num ponto de encontro da cidade. O próximo trecho retrata como as famílias aproveitavam as noites de lua cheia para aventurarem-se nos banhos de mar:

Na primeira, sobre o costão arenoso, alinhava-se uma dezena de barraquinhas de madeira, construídas por gente de recursos, nas quais se operava a mudança de roupas. Quem não possuía um desses refúgios, despia-se e vestia-se na própria praia, por trás duma empanada de lençóis estendida pelas criadas. (BARROSO, 1961, p. 158).

No mesmo livro Gustavo Barroso narra outro uso que a praia possuía no contexto de higienização empreendida na cidade. O governo local associando à busca de mais um local para o depósito de lixo, que aumentava de volume proporcionalmente à sua população, com a necessidade de um melhor acesso à praia, cria uma rampa feita com os detritos:

A rampa foi um tesouro que sua inventiva descobriu. Chama-se assim o largo declive da colina sobre o qual se edificava a cidade, compreendido entre a muralha negra do lado oeste do gasômetro e as primeiras casinholas do Arraial Moura Brasil, nas faldas do Morro do Croata, tomando toda a frente da Cadeia Pública. Determinara a Intendência aterrá-lo com o lixo urbano. Todas as manhãs, de nove às onze, as carroças vinham despejá-lo (BARROSO, 1961, p. 108)

Mississipi também trata do porto, aqui chamado de Guardamoria:

Além da Alfândega nova, montado sobre estacas, ficava o trapiche da Guradamoria. Nas grandes marés de agosto, as ondas venciam o costão arenoso e se espraiavam debaixo daquela comprida construção de madeira pintada de azul. Corria paralela, vencendo um maceió do poço da Draga, último vestígio do projetado porto, uma grande ponte de ferro, que unia a Alfândega ao quebra-mar atolado no areal. Em

Fig. 90: “Jangadas para o Mar”, de Raimundo Cela. Fonte: Museu de Arte da Universidade

frente ao café, uma grande área plana atapetada de capim de burro e salsas floridas de roxo se atulhada com o material rodante, caldeiras e guindastes das obras portuárias interrompidas, paraíso da meninada vadia (BARROSO, 1961, p. 161)

Outro significante livro deste autor é Praias e Várzeas, de 1915, constituído por uma série de histórias tendo o ambiente litorâneo como pano de fundo. Num dos contos deste livro, intitulado Velas Brancas, o protagonista é Matias Jurema, um velho pescador do Meireles, área ainda distante das veias urbanas de Fortaleza. Nessa história, Barroso narra de forma romanceada a relação una do jangadeiro com seus equipamentos de pesca, detalhando-os de modo minucioso: os samburás, a tarrafa, as poitas, os tauaçus, as quimongas e principalmente a jangada.

Percebemos o destaque dado pelo autor à vivência dos pescadores no litoral fortalezense, retratando o conflito silencioso destes com a solidão, o trabalho e o mar. Partindo do cotidiano do jangadeiro, Velas Brancas constrói uma imagem de valentia que muito se assemelha com outra figura cearense, o vaqueiro.

A descrição da paisagem costeira em Finados, outro conto do livro Praias e Várzeas, é destacada: os coqueirais frondosos, a praia de areias brancas e as coloridas velas abertas das jangadas na água verde do mar serviam como um convite à descoberta desse pitoresco ambiente.

Em Finados, Barroso narra também um mito característico do folclore cearense ligado a antiga simbologia repulsiva do mar, tratando da lenda de que quem fosse pescar no dia de finados estava fadado a não voltar a terra firme, morrendo em meio as “assombrações dos defuntos no mar” (BARROSO, 2000, p. 35). Representado na figura de um pescador chamado Lucas, este no ímpeto de afrontar a morte, aventura-se nas águas do mar fortalezense num dois de Novembro. Ainda resguardando ecos de um passado não tão distante, associando o mar ao medo, a morte e ao desconhecido, Barroso conclui seu conto firmando o teor arcano do

Fig. 91: “Jangadeiro olhando para o mar”, também de Raimundo Cela. Fonte: Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará

Fig. 92: “Rolando para a terra”, de Raimundo Cela. Fonte: Museu de Arte da Universidade

ambiente litorâneo, pois, no dia seguinte ao dia de finados, jangadeiros encontram restos de uma jangada e no meio deles, espetado em pontas finas de rochas lodentas, o cadáver de Lucas (BARROSO, 2000, p. 35).

É interessante observar que ao descrever a vivência litorânea, Barroso intercala em suas histórias a repulsão e a atração que aquele ambiente exercia nos seus freqüentadores, representando bem o momento pelo qual passava o mar no imaginário dos citadinos. Outro exemplo que retrata bem esse caso é o conto Naufrágio. Nele o mar inicialmente visto com uma aparente tranqüilidade vai adquirindo ares de tragédia:

Primeiro algumas rajadas d’água imprevistas, depois outra rajada, a neblina, a chuva [...] e o iate virava de bordo no espumejar da vaga. Os ventos se tornam fortes, terríveis, a crescer numa gigantesca velocidade. Finalmente houve uma grande pancada. Dois homens, cuspidos n’água, debatiam-se em desespero [...]. O barco foi-se afundando, afundando. De manhã boiavam cadáveres e fragmentos de tábuas ao sabor das ondulações (BARROSO, 2000, p. 42-44).

Outro autor que traz um fragmento interessante sobre o cotidiano litorâneo do litoral da cidade é Rodolfo Teófilo. O escritor traz no seu livro, intitulado O Paroara, as retratações da vivência dos que desembarcavam na costa fortalezense:

O embarque foi uma luta com aquele mar indomável de costa nua e brava. Empolado, erguia. Vagalhões que rolavam de praia afora, levando de rojo tudo o que encontravam em seu caminho. Os remadores, quase no seco, agüentavam os botes que a maré forcejava para atirar sobre a praia.

Enquanto uns guardavam os batéis, outros embarcavam os passageiros, que levavam montados nos ombros.

Os botes carregados acima da lotação largaram. Foi labuta sem tréguas de um instante a passagem da rebentação.

As embarcações andaram bem uns quinze minutos aos trambolhões trepadas (sic) na crista dos vagalhões, até que se safaram, menos a em que ia João das Neves. Esta recebeu um ralo de mar que se lhe acaçapou na proa, inundando-a e pondo-a no fundo. Os passageiros, todos sertanejos e bons nadadores, meteram o braço n´água e chegaram em terra, primeiro do que os remadores. Salvaram-se, porém, com a roupa do corpo. Nenhuma maca veio à tona d´água!

João Bazófia, que dirigia o embarque, muito acostumado a ver estes desastres, tão comuns no porto do Ceará, limitou-se a dizer ao Pedro Embarcadiço:

- Por uma nau se perder, as outras não deixam de navegar; leve a gente pra bordo na sua lancha que o vapor não tarda a pedir, malas (TEÓFILO, 1993, p. 34).

Fig. 93: “Pescadores empurrando jangada”, de Raimundo Cela. Fonte: Museu de Arte da Universidade

Desse período também é destaque Raimundo Brandão Cela. Pintor, professor de desenho no Colégio Militar de Fortaleza e de Geometria descritiva na Escola de Agronomia do Ceará, este possui um dos mais amplos estudos e pinturas sobre as paisagens, expressões e vivências do litoral da cidade.

Dedicando-se boa parte de sua obra à gravura, Cela possuía particular interesse pelo jangadeiro e o retirante, além da natureza que os circundam, por isso o abundante acervo retratando seus cotidianos. Cela só obtém significativo destaque no universo das artes local após expor suas obras nos principais salões do mundo, como o Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro e o Salon des Artistes Français em Paris, levando a retratação da paisagem litorânea de Fortaleza para o público europeu.

Os periódicos também passam a destacar considerável espaço para o espaço litorâneo. Temos o Verdes

Mares... organizado pelo Grêmio Literário José de Alencar, do Collegio Marista Cearense, e as tradicionais

páginas de poesia do Jandaia, de onde foi retirado o fragmento que inicia este capítulo, além do Ba-ta-clan, que pode ser observado ao lado.

O destaque dado a temas ligados ao mar e ao marítimo ocorrido na cidade nos diversos campos da arte resulta duma nova percepção da sociedade fortalezense sobre a zona de praia. Pontualmente, o mar é inserido nos discursos dos citadinos, gerando novas percepções sobre esse ambiente até então pouco conhecido.

Há um notável interesse pela praia do Peixe devido à proximidade desta com a área central da cidade, passando de moradia e local de trabalho de pescadores para reduto de contemplação marítima e principalmente daqueles que buscavam os banhos de mar e as caminhadas na praia como uma nova forma de lazer. Esse movimento passa a definir novas caracterizações social, demográfica e urbanística dessa zona de praia, à semelhança do que já vinha ocorrendo no restante da cidade, com o deslocamento da população e a mudança de usos, resultante da presença de veranistas (DANTAS, 1998).

Fig. 95: “Beira-mar... Que boa vida, junto à graça maior deusa-pagã!... mal vestida, talvez, ou talvez, mal despida, mas TOUT- Á-FAIT BA-TA-CLAN.. ». .

Fonte: Quadros..., 1926. Fig. 94: Capa da Revista Verdes

Mares... Fonte: Verdes..., 1924.