105“O Parlamento Inglês aprovou um ato que no Brasil ficou conhecido como ‘Bill Aberdeen’, em uma referência a Lorde Aberdeen, então ministro das Relações Exteriores do governo britânico. O ato autorizou a marinha inglesa a tratar os navios negreiros como navios piratas, com direito à sua apreensão e julgamento dos envolvidos pelos tribunais ingleses. No Brasil, o Bill Arbedeen foi alvo de ataques com um recheio nacionalista. Mesmo na Inglaterra, muitas vozes se levantaram contra o papel que o país se atribuía de ‘guardião moral do mundo’” FAUSTO, Boris, 2006, p. 197.
106 Art. 3: São autores do crime de importação de escravos, ou de tentativa dessa importação, o dono, o capitão ou mestre, o piloto e o contramestre da embarcação e o sobrecarga. São cúmplices a equipagem e os que coadunarem o desembarque de escravos no território brasileiro ou que concorrerem para os ocultar ao conhecimento da autoridade, ou para subtrair à apreensão no mar, ou em ato de desembarque, sendo perseguidos. Art. 4: A importação de escravo no território do Império fica nele considerada como pirataria, e será punida pelos seus tribunais com as penas declaradas no artigo segundo da lei de 7 de novembro de 1831. A tentativa e a cumplicidade serão punidas segundo as regras dos artigos 34 e 35 do Código Criminal.
107 Art. 6: Todos os escravos que forem apreendidos serão reexportados por conta do Estado para os portos donde tiverem vindo, ou para qualquer outro ponto fora do Império, que mais conveniente parecer ao governo, e enquanto essa reexportação se não verificar, serão empregados em trabalho debaixo da tutela do governo, não sendo em caso algum concedidos os seus serviços a particulares.
108 FURTADO, Celso, 2007, p. 176. 109 FURTADO, Celso, op. cit., p. 177.
A 13 de maio de 1888, foi dado o passo final para o fim do sistema escravista no Brasil com a Lei Áurea, Lei 3.353/1888,110 sancionada pela princesa Isabel. Contudo, tal norma não possibilitou a inclusão, mas somente colocou os negros frente a outra batalha, a busca por cidadania, dignidade, igualdade e inclusão.
Cabe tão-somente lembrar que o reduzido desenvolvimento mental da população submetida à escravidão provocará a segregação parcial desta após a abolição, retardando sua assimilação e entorpecendo o desenvolvimento econômico do país. Por toda a primeira metade do século XX, a grande massa dos descendentes da antiga população escrava continuará vivendo dentro de seu limitado sistema de necessidades, cabendo-lhe um papel puramente passivo nas transformações econômicas do país.111
Os negros foram arremessados das senzalas para as periferias das cidades, vivendo na pobreza e na marginalização. Ao ex-escravo, após tantos anos de exploração e luta pela sobrevivência, não era presente a ideia de acumulação de capital.
A falta de perspectiva e a busca por cidadania se deram de maneiras diferentes em cada região do país. No sudeste, os negros se viram excluídos diante da concorrência com os muitos imigrantes europeus112 e as políticas de branqueamento da população nacional.
No sudeste, estabeleceu-se uma clara relação entre abolicionismo e imigracionismo, como resultado do clima de pessimismo racial do fim do século XIX. Nesse contexto, o progresso era entendido como exigindo o branqueamento do país. [...] viam o escravo como um obstáculo à modernização econômica.113
No nordeste, os negros foram integrados às fazendas onde viviam. Houve, com o fim da relação escravista, o florescimento e a intensificação de relações sociais marcadas pela dependência nos moldes dos regimes servis, o que trouxe graves consequências ao longo de toda a historia brasileira, como a formação do coronelismo e a opressão social, bem como as disparidades sociais.114
110 A Princesa Imperial Regente, em nome de Sua Majestade o Imperador, o Senhor D. Pedro II, faz saber a todos os súditos do Império que a Assembleia Geral decretou e ela sancionou a lei seguinte:
Art. 1.º: É declarada extinta desde a data desta lei a escravidão no Brasil. Art. 2.º: Revogam-se as disposições em contrário.
Manda, portanto, a todas as autoridades, a quem o conhecimento e execução da referida Lei pertencer, que a cumpram, e façam cumprir e guardar tão inteiramente como nela se contém.
O secretário de Estado dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas e interino dos Negócios Estrangeiros, Bacharel Rodrigo Augusto da Silva, do Conselho de Sua Majestade o Imperador, o faça imprimir, publicar e correr.
Dada no Palácio do Rio de Janeiro, em 13 de maio de 1888, 67.º da Independência e do Império. Princesa Imperial Regente.
111 FURTADO, Celso, 2007, p. 137.
112 “O número de imigrantes europeus que entram nesse estado [São Paulo] sobe de 13, no ano de 1870, para 184 mil no decênio seguinte e 609 mil no último decênio do século. O total para o último quartel do século XIX foi 803 mil, sendo 577 mil provenientes da Itália.” FURTADO, Celso, 2007, p. 188.
113HASENBALG, Carlos A. Discriminação e desigualdades raciais no Brasil. Tradução de Patrick Burling. Belo Horizonte: UFMG, 2005, p. 164.
Na região nordestina as terras de utilização agrícola mais fácil já estavam ocupadas praticamente em sua totalidade à época da abolição. Os escravos liberados que abandonaram os engenhos encontraram grandes dificuldades para sobreviver, nas regiões urbanas pesava já um excedente de população que desde o começo do século constituía um problema social. Os deslocamentos [dos ex-escravos] se faziam de engenho para engenho. Não foi difícil em tais condições atrair e fixar uma parte substancial da antiga força de trabalho escravo, mediante um salário relativamente baixo. [...] seria difícil admitir que as condições de vida dos antigos escravos se hajam modificado sensivelmente após a abolição, sendo pouco provável que esta última haja provocado redistribuição de renda de real significação. 115
O racismo fez-se presente e encontrou apoio nas teorias racistas que proclamavam a inferioridade do negro em relação ao branco. A miscigenação era vista como um mal profundo da sociedade brasileira e que impediria qualquer possibilidade de um desenvolvimento econômico, político e social pleno.116 O europeu era visto como mais qualificado e o negro como inútil, não servindo nem mais para o trabalho.
O imigrante europeu era um concorrente direto pelas posições de trabalho com os negros, inclusive naquelas formas mais simples e humildes. A consequência destas práticas excludentes foi a marginalização social do negro que em tudo era perseguido e visto como ser diferente e inferior ao branco. De maneira sutil e com base em políticas universalistas, o Estado brasileiro criou formas excludentes para os negros. Um racismo quase imperceptível privilegiou sobremaneira os imigrantes europeus através de um sistema social hierarquizante e condizente com a supremacia branca.117
As teorias racistas europeias influenciaram os intelectuais brasileiros daquela época. Sílvio Romero, representante da Faculdade de Direito do Recife, defendia o branqueamento como única solução alternativa para nação em face da inferioridade do negro e do índio;118 já Nina Rodrigues, médico maranhense, professor da Faculdade de Medicina da Bahia, acreditava que a mestiçagem no Brasil explicava a criminalidade, a loucura e a degeneração da população.119
Assim, surgiu a ideia de “branqueamento” da população brasileira como tentativa patrocinada pelo Estado de “refinar” a composição da população do Brasil, fazendo com que
115FURTADO, Celso, 2007, p. 201.
116 O final do século XVIII foi marcado pelo progresso das ciências naturais. Chegou-se à classificação das raças com base no estudo do crânio ou do rosto. Os principais elementos que fundamentaram as teorias racistas eram “a existência de raças como grupamentos humanos que possuem características físicas comuns; a continuidade entre o físico e o cultural, em que a capacidade intelectual de uma raça é, por determinismo biológico, transmitida hereditariamente; a ação do grupo dobre o indivíduo, em que o pertença;; a hierarquia universal dos valores, em que os grupamentos raciais étnicos são submetidos a uma hierarquização, cujo ápice é ocupado pelo padrão eurocêntrico a partir do qual são universalizados os padrões estéticos, intelectuais e morais; e a política assentada no saber, em que as raças inferiores devem ser subjugadas, assimiladas ou eliminadas pelas superiores.” ABREU, Sérgio. Os caminhos da tolerância: o afro-brasileiro e o princípio da igualdade e da isonomia no direito constitucional. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 1999, p 7.
117 RODRIGUES, Eder Bomfim. As ações afirmativas e o princípio da igualdade no Estado Democrático de
Direito. Paraná: Juruá, 2011, p. 150.
118
ABREU, Sérgio, op. cit., 19-20; 35-36. 119 Id., Ibid.
os negros e mestiços fossem paulatinamente desaparecendo do horizonte demográfico brasileiro mediante sucessivos cruzamentos interétnicos de um lado, e, de outro, pelo estímulo oficial120 a uma massiva imigração de colonos europeus. “O núcleo desse racialismo era a ideia de que o sangue do branco purificava, diluía e exterminava o do negro, abrindo, assim, a possibilidade para que os mestiço se elevassem ao estágio civilizado.”121
Na verdade, quando se estuda o branqueamento, constata-se que foi um processo inventado e mantido pela elite branca brasileira, embora apontado por essa mesma elite como um problema do negro brasileiro. Considerando (ou quiçá inventando) seu grupo como padrão de referência de toda uma espécie, a elite fez uma apropriação simbólica crucial que vem fortalecendo a autoestima e o autoconceito do grupo branco em detrimento dos demais, e essa apropriação acaba legitimando sua supremacia econômica, política e social. O outro lado dessa moeda é o investimento na construção de um imaginário extremamente negativo sobre o negro, que solapa sua identidade racial, danifica sua autoestima, culpa-o pela discriminação que sofre e, por fim, justifica as desigualdades raciais.122
Dessa arte, os horizontes culturais diferentes colocaram os negros e mulatos em desvantagens em face dos imigrantes. Em consequência, a estrutura do operariado incipiente123 constituiu-se permeada pelo preconceito de cor e pelo etnocentrismo.
Os negros e os mulatos ficaram à margem ou se viram excluídos da prosperidade geral, bem como de seus proventos políticos porque não tinham condições para entrar nesse jogo e sustentar as regras. Em consequência, viveram dentro da cidade, mas não progrediram com ela e através dela. Constituíam uma congérie social, dispersa pelos bairros, e só partilhavam em comum uma existência árdua, obscura e muitas vezes deletéria. Nessa situação, agravou-se, em lugar de corrigir-se, o estado de anomia social transplantado do cativeiro.124
3.3 A difusão por Gilberto Freyre da “democracia racial” e a ocultação da realidade