“Vou contá uma estória Na verdade e imaginação Abra bem os seus olhos Pra escutar com atenção É coisa de Deus e Diabo Lá nos confins dos sertão”.
(ROCHA, 1965:33, voz de um cego).
A noite estava calma na cidade de Ererê (313 km de Fortaleza). Não havia movimento, nem de carros nem de pessoas nas ruas. Faltavam 15 minutos para as 23 horas. Meu informante avisara que o entrevistado (um suposto pistoleiro) chegaria pontualmente às 23 horas: “ele é um homem de palavra, não se preocupe, ele já deve estar chegando” (anotação de campo).
Meu informante era cabo da Polícia Militar, cabo Holanda51
Eu o havia conhecido naquele mesmo dia em que chegara à cidade de Ererê, vindo já de outra cidade do vale do Jaguaribe. O cabo Holanda havia sido indicação do major Oliveira, que trabalhava e morava em uma cidade jaguaribana onde eu pernoitara uma noite , que parecia se divertir com minha ansiedade em olhar para o relógio a todo instante, apreensivo com aquela provável entrevista.
51
Os nomes de pessoas e cidades utilizados no tópico 2.1, não correspondem aos nomes das pessoas e nem das localidades onde foram realizadas as entrevistas. No entanto, conservei a profissão verdadeira dos entrevistados.
antes de chegar a Ererê; já o major Oliveira, por sua vez, fora indicação de um juiz de Direito de outra cidade, que, também me fora apresentado por outra pessoa.
E assim, para que eu estivesse em Ererê aguardando o possível pistoleiro chegar, havia se constituído anteriormente toda uma rede de relações sociais, todos baseados (como eu viria a constatar) na confiança mútua e no segredo de que cada um era portador.
O segredo guardado e, ao mesmo tempo, desvelado parcialmente, na medida certa, representava uma forma competente de comunicação de um capital simbólico (BOURDIEU, 1980/2001) que cada integrante da rede de relações sociais possuía e transmitia (frisando que essa transmissão era parcial e de forma comedida de dados); também, nesse mesmo sentido, o segredo era uma forma instauradora de relações duráveis de reciprocidade, como também de dominação.
Em outras palavras, o segredo (ou patrimônio de valor simbólico) velado e, somente, parcialmente revelado, amalgamava essa relação de indicadores; ele era fortemente associado à conservação dos interesses do grupo. Manter o grupo coeso a partir do segredo era, disso eu ciente, uma obrigação moral das partes envolvidas.
Conforme discorre Simmel (1977:369) sobre o segredo “... as relações entre os homens se distinguem quanto ao saber recíproco que cada um possua uns dos outros, onde o que não se oculta pode-se saber e o que não se revela não se deve saber” (Tradução livre52); no entanto (Opus cit.: p. 371), “cada qual sabe do outro algo mais do que revela voluntariamente” (tradução livre53
Continuando com Simmel (Opus cit.: p. 378), “o segredo é de um é de certo modo acatado pelo outro, e o que é ocultado involuntária ou voluntariamente, é respeitado involuntária ou voluntariamente”. (Tradução livre
).
54
52
Texto no original: “se distinguen las relaciones de los hombres, en cuanto al saber recíproco que posean unos de otros; lo que no se oculta, puede saberse, y lo que no se revela, no debe saberse”.
53
Texto no original: “… cada cual sabe del otro algo más de lo que éste le revela voluntariamente… ”.
54
Texto no original: “… el secreto del uno es en cierto modo acatado por el otro, y lo ocultado involuntaria o voluntariamente, es respetado involuntaria o voluntariamente”.
).
Todos ali, dessa maneira, sabiam do grau de envolvimento do magistrado com o pistoleiro e, também do juiz com as pessoas envoltas com o criminoso, bem como o Cabo sabia do envolvimento do Major e este, por sua vez, daquele. E cada um revelava um pouco, ao passo que cada qual resguardava, com certeza, bem mais do que revelava.
Continuei intranqüilo em relação àquela entrevista. A mais de 300 km de Fortaleza, eu estava ali em um local que não conhecia, com um policial que não me inspirava confiança e querendo entrevistar uma pessoa acerca da qual toda essa teia relacional de indicadores havia me informado que seria um pistoleiro.
Todos os componentes dessa rede de relações me garantiram unissonamente que seria uma entrevista tranqüila e que eu não correria risco algum. Quando perguntei ao juiz, o primeiro dessa teia relacional com quem contatei, qual seria minha segurança, ele me respondeu prontamente: “Eu lhe dou minha palavra” (anotação de campo).
Meu informante acendeu um cigarro e ficou olhando para o final de uma rua, imerso no mais profundo silêncio. Tomei meu bloco de anotações e passei a escrever o que se passava comigo, ao meu redor e com quem eu estava. Também rememorei o trajeto que eu havia feito antes de chegar a Ererê.
Logo no início do curso de Doutorado, eu fora apresentado por acaso a um juiz de Direito por um colega advogado, parente e amigo do magistrado. Ao ser apresentado ao juiz, que chamarei de Dr. Magalhães, fui logo identificado pelo colega advogado como aluno do Doutorado em Sociologia da UFC e que estava pesquisando sobre crime de pistolagem no Ceará. Dr. Magalhães logo se interessou sobre meu objeto de pesquisa, e, naque le momento, recordou diversos casos de crimes de pistolagem ocorridos no Ceará e a respeito dos processos que ele havia julgado.
O que mais me chamou a atenção, no entanto, foi ele haver ressaltado que existiam no Ceará pistoleiros gozando de liberdade e que jamais haviam sido importunados pela polícia nem pela justiça. E ele foi além: disse que conhecia um pistoleiro naquela situação, ou seja, livre e impune. Após ouvir aquilo, indaguei se ele me concederia uma entrevista. Ele concordou e marcamos para nos reencontrar na semana seguinte em seu local de trabalho.
Em seu gabinete, o juiz mostrou-me alguns processos (fotocopiei-os), inquéritos policiais e recordou fatos ocorridos em alguns julgamentos sob sua presidência. Perguntei-lhe se me autorizava gravar a nossa conversa. Ele me disse que não haveria problema.
O juiz me detalhou alguns julgamentos que ele havia presidido e sua experiência profissional. Após 60 minutos de gravação, em que narrativas longas e cheias de detalhes me foram feitas, coloquei a segunda fita de áudio e fiz-lhe a pergunta que eu mais ansiava fazer,
sobre o conhecimento que ele tinha de pistoleiros que nunca haviam sido importunados pela polícia e nem pela justiça.
Em síntese, ele me explicou que há o interesse de algumas autoridades, comerciantes, proprietários de terras e políticos, entre outros, de que certos matadores permaneçam impunes. E que ele, particularmente, conhecia um pistoleiro que estava solto, já havia matado gente, porém jamais fora preso.
Tentei saber do magistrado mais sobre o pistoleiro a que ele se referira e se seria possível uma entrevista com ele, ressaltando que a entrevista não seria publicada em nenhum jornal, mas seria objeto de análise para minha tese. Ele riu e me disse que, para se chegar a um pistoleiro, estando ele encarcerado, já era uma tarefa normalmente bastante burocrática, mas, para se chegar a um nas condições citadas, seria uma tarefa dificílima; porque eles são pessoas “cismadas”, “ariscas”, “não confiam em ninguém”, enfim, ele me elencou uma série de justificativas, porém, ao final disse-me: “Mas se você falar com as pessoas certas, a coisa anda”.
Essa frase, para mim, foi uma esperança de que o próprio magistrado fosse a tal “pessoa certa” e que por seu intermédio eu conseguisse essa entrevista. Nesse momento, eu não pensava nas conseqüências de uma viagem daquele tipo, entrevistar um pistoleiro, uma pessoa perigosa, no interior do Estado... em síntese, eu só pensava em conseguir.
Extraí daquela entrevista com o juiz a noção de que, para alguém totalmente estranho ao sistema de relações que envolvem aquele pistoleiro, seria pouco provável conseguir entrevistá-lo, mas, se eu tivesse acesso às “pessoas certas” referidas pelo juiz, então, minhas chances aumentariam.
Seguem algumas das perguntas e respostas da entrevista (J = Juiz e P = Pesquisador):
J - Esse pistoleiro que estou lhe falando ele não é conhecido pela imprensa. Mas é um profissional.
P – E como ele consegue viver até hoje na impunidade?
J - Ninguém mexeu ou mexe com ele, não existe interesse em mexer, pelo contrário, o interesse é de deixar o homem quieto. E é como todos têm se portado em relação a ele até hoje e não acredito que isso vá mudar.
P – Esse é um tipo de caso comum? Ou seja, existem muitos outros pistoleiros nessa mesma condição?
J – Sim, igual a este que estou lhe falando existem alguns outros casos... quer dizer, do meu conhecimento extra-oficial, eu sei que existem. Do meu conhecimento oficial, enquanto juiz de direito, não. Porque você sabe do velho aforismo jurídico: “O que está nos autos, está no mundo, o que está fora dos autos, está fora do
mundo”. Ou seja, esse pistoleiro de quem falo, ele nunca respondeu a um inquérito, nunca respondeu a um processo, nunca nem sequer ele foi preso, então eu não posso saber de nada enquanto magistrado. Como cidadão, tenho conhecimento. (Entrevista realizada em 10/03/2003).
O interessante na fala estabelecida pelo magistrado é que ele distingue claramente entre ele, a pessoa que sabe da existência do pistoleiro e ele, na qualidade de magistrado, que não tem conhecimento formal da existência do pistoleiro. Tive que durante essa entrevista tratar o juiz de duas formas: uma como “cidadão” e a outra na posição de “magistrado”, pois percebi que dessa maneira ele respondia às minhas indagações sem tantos receios (J = Juiz e P = Pesquisador).
P – Ele matou somente no Ceará, pelo seu conhecimento extra-oficial?
J – Pois é, o que se sabe extra-oficialmente é que ele já matou muita gente, tanto aqui no Ceará quanto em outros estados da Federação.
Pesquisador – O senhor como cidadão, já teve contato com esse pistoleiro?
J – Há muitos anos ele chegou a trabalhar numa fazenda de propriedade da minha família. Mas faz tempo que não trabalha mais. Cuidava de umas cabeças de boi. Ele é vaqueiro. Corria vaquejada de pé de mourão e depois até de faixa. É um ótimo vaqueiro. É também honesto, respeitador, não mexe com ninguém e calado. Tranqüilo mesmo. Não se envolve em confusão, não bebe e nem fuma, é um pai de família e lá na minha fazenda ele vivia para trabalhar. Eu o conheci assim, trabalhando, montando a cavalo, derrubando boi, levando gado para as mangas55
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“Manga” é um pasto para gado, resguardado por uma cerca.
... fazendo esse tipo de trabalho de peão.
P – Hoje em dia ele ainda é vaqueiro e também pistoleiro?
J – Olha, hoje em dia eu sei que ele trabalha em uma fazenda. Veja só, esse povo, a maioria deles, vive em fazendas. Esse que eu falo vive também, é vaqueiro, é puxador de boi como eu falei.
P – O senhor falou que esse pistoleiro mata gente já a muito tempo, mas que ele não foi preso porque o senhor acha que há o interesse que ele permaneça impune, é isso? J – Digamos que exista interesse de deixá-lo quieto, na dele. Até porque muitos crimes que ele cometeu hoje em dia já prescreveram, aí não vale a pena mexer nessas coisas. Pode ser que ele fique assim por muito tempo.
P – A vida toda?
J – Mas o que é a vida toda? Ninguém sabe. Ele continua do jeito que está até ser um dia capturado ou morto, quem é que sabe? (Entrevista realizada em 06/01/2003).
Desligado o gravador, e depois de inúmeras recomendações que nem o nome dele e nem de sua comarca fossem citados, bem como de várias promessas de minha parte que não seriam mencionados, então o magistrado disse-me que conversaria comigo a respeito do pistoleiro, mas sem gravar e em atenção ao seu parente, que era meu amigo.
O magistrado, depois que desliguei o gravador, me revelou muitas coisas a respeito do meu possível primeiro pistoleiro e ainda me deu indicações. Ele confessou-me que o pistoleiro trabalhava de vaqueiro em uma fazenda e também era uma espécie de segurança dessa propriedade. Ele disse que o tal pistoleiro não fazia mais “serviços”, era “uma “máquina desativada56
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Termo utilizado na pistolagem para designar um pistoleiro que não mais realiza “serviços”.
”.
Notei que a conversa foi bem mais à vontade sem o gravador. Com o gravador desligado, o juiz se tornou menos formal e não mediu palavras. Criei coragem e perguntei como eu poderia entrevistar o pistoleiro. Quando eu pensei que ele fosse me responder, então ele passou a me perguntar se as entrevistas não iriam parar em matéria de jornal. Tornei a assegurar-lhe que era uma pesquisa com total sigilo. Quando eu já estava achando que ele não iria me ajudar, finalmente ele cedeu. Perguntou se eu tinha disposição para viajar. Respondi, por impulso, que sim. Então ele me indicou um major que trabalha na cidade de Iracema (283 km de Fortaleza), o major Oliveira. Disse-me que o procurasse, deu-me o número do seu telefone celular e até ligou na hora para o Major e pôs-me a falar com ele.
O nome do pistoleiro eu acordei com o juiz de chamá-lo de Pedro, Pedro do Guzerá. Pedro foi nome criado na hora, e Guzerá é uma raça de zebu de que, segundo o juiz, Pedro gosta e até ganhou um animal desses. Então juntei os nomes e ficou Pedro do Guzerá. Perguntei ao juiz se seria segura minha entrevista a Pedro. Ele me assegurou, dizendo que dava a palavra dele de que não haveria risco algum e me deu, inclusive, seu número de telefone celular, caso eu quisesse me comunicar com ele.
Alguns dias após, eu já tinha feito contato telefônico com o Major, já havia avisado a algumas pessoas sobre meu trajeto e estava de mochila nas costas, contendo gravador, fitas de áudio, máquina fotográfica, filmadora e um livro do Edgar Morin, O homem e a morte, indo de ônibus ao encontro do major Oliveira.
Chegando à cidade de Iracema, liguei para o telefone celular do Major, encontramo-nos e ele foi logo me desapontando: “O homem não está por aqui pela região”. Antes, porém, que eu me desanimasse totalmente, ele tranqüilizou-me, dizendo que eu o encontraria na cidade de Ererê e justificou que alguém da família de Pedro havia falecido. Por esse motivo ele não teria podido comparecer a Iracema como havíamos combinado.
Confesso que não acreditei na versão apresentada pelo Major. Imediatamente liguei para o juiz e seu telefone não atendeu; liguei para meu colega advogado e caiu na caixa postal. Naque le momento, pensei em desistir de ir em frente e não arriscar em outra viagem.
O Major ofereceu sua casa para que eu pernoitasse. Resolvi aceitar, mas a cada hora eu voltava a ligar para o juiz e para meu colega advogado e nada. O Major e eu conversamos durante boa parte da noite, mas, em princípio, ele resistiu à idéia de gravarmos uma entrevista falando sobre Pedro. Disse-me que eu perguntasse qualquer coisa que ele responderia, mas com o gravador ligado ele não poderia falar sobre “esse assunto”.
Convenci-lhe, argumentando que eu não o identificaria, nem muito menos a cidade onde ele trabalhava e, por fim, argumentei que o juiz havia me prometido que ele, o Major, me ajudaria naquilo que fosse necessário. Diante do segundo argumento ele aceitou: “Não posso negar nada ao doutor” (anotação de campo).
Antes, disse-me que em Ererê, fronteira do Ceará com o Rio Grande do Norte, eu iria me apresentar a um cabo da PM, cabo Holanda, que este já havia contatado Pedro e me levaria até ele. Mais uma vez senti insegurança.
Antes mesmo que eu formulasse as questões, o Major falou em tom autoritário que iria me falar o que ele poderia dizer e por deferência ao “doutor”. Liguei o gravador para exatos 15 minutos de gravação:
Pedro trabalha numa fazenda. É um sujeito do coração grande, um pai de família, onde mora todo mundo gosta dele e também ele respeita todo mundo. São essas coisas que eu sei dele. Eu o conheci logo que entrei na polícia. Nessa época eu fiquei sabendo que ele era pistoleiro Ele já era nesse tempo amigo duma gente graúda. Ele andava nessa época com boas armas que a polícia nem sonha hoje em ter ainda. [...] A gente chegou a dar uns tiros juntos e ele acertava uma moeda numa distância de 30 metros. Era bom de pontaria. [...] É, ele fazia as coisas dele por aí, a gente sabia, mas para mim entrava por um ouvido e saia por outro. Mas isso faz tempo, hoje em dia é como estou lhe falando, o homem vive de casa para o trabalho, ele está desativado. Ele anda armado, porque quem tem inimigos como ele tem não pode vacilar. É tudo. (Entrevista realizada em 12/03/2003).
No dia seguinte, fui para Ererê a fim de me encontrar com o cabo Holanda. Durante o deslocamento até ali, tentei novamente ligar para o juiz e o colega advogado. Não obtive êxito mais uma vez.
Chegando a Ererê, procurei o cabo Holanda, que ou não me pareceu alguém confiável, ou naquela situação eu não confiava mais em ninguém. Fiquei sabendo que meu encontro com Pedro se daria naquela cidade, naquele mesmo dia às 23 horas. Estranhei o horário, mas, naquela etapa, era impossível recuar.
Foi inútil tentar entrevistar o Cabo. Muito desconfiado do provável conteúdo de minha mochila (pelo que pude observar), ele se esquivou de todas as investidas, dizendo que “não tinha nada o que dizer”, até em um tom meio áspero que, para aquela situação, não me fazia sentir “confortável”. Tentando ser mais convincente, utilizei-me do argumento imperativo de que o juiz havia me falado que ele me daria todo apoio necessário, contudo, desta vez, não houve resultado. Ele não tinha a menor boa vontade em falar.
O Cabo ainda comentou que conhecia Pedro aproximadamente há dez anos e que ele era vaqueiro de uma fazenda nas mediações de Doutor Severiano, no Rio Grande do Norte.
Passava um pouco das 23 horas quando um carro escuro, um Pálio, veio em nossa direção. O cabo Holanda olhou para mim e disse sorrindo: “Num falei que o homem vinha!”
O carro parou em nossa frente e dele saltou um homem de estatura mediana, moreno, de cavanhaque, aparentando ter mais de cinqüenta anos; usava boné de couro, camisa escura, bermudas escuras e chinelas. Veio em nossa direção e nos cumprimentou. Era Pedro.
Pedro me olhou como se estivesse me analisando. Notei que ele ficou particularmente incomodado (também) com minha mochila. O Cabo me apresentou a Pedro, dizendo “Esse daqui é o peixe do doutor”. Cumprimentei Pedro e ele, apenas acenando com a cabeça, me pediu para entrar no carro, a fim de nos dirigirmos ao local onde seria realizada a entrevista.
Fomos a uma propriedade nos arredores da cidade, creio que uns 30 minutos do pequeno centro. Era um sítio pequeno, com uma casa muito simples, sem energia elétrica. O chão era de cimento, as paredes eram mal-conservadas. Existiam poucos móveis, uma imagem de São Jorge sobre uma mesa e um quadro na parede. O fogão era a lenha e ficava em um pequeno alpendre nos fundos da casa. A casa era composta de três compartimentos. No cômodo principal, uma sala, uma mesa de plástico ao centro com duas cadeiras de plástico. Os outros compartimentos, um era a sala de jantar, com uma mesa de madeira e o outro um quarto com três redes armadas. O banheiro era fora da casa, perto da cacimba. Na casa estava uma família constituída de marido, mulher e dois rapazes. Eles me foram apresentados por Pedro.
Ao chegarmos à propriedade, fiz questão de retirar todos os objetos de dentro da mochila e colocá-los sobre a mesa da sala, a fim de tranqüilizar a inquietude de Pedro. Pedro acompanhou atentamente aquele pequeno ritual de esvaziamento da mochila com interesse em
cada objeto. Apanhou a câmera e a filmadora e me disse que não permitia imagens. Concordei. Quando coloquei o livro de Morin sobre a mesa ele leu a capa (certamente só a palavra morte) e me perguntou se eu gostava de ler sobre a morte. Expliquei-lhe (não sei se o convenci), de que se tratava de uma leitura para “passar o tempo”.
Ele perguntou em que eu trabalhava e eu tentei lhe explicar que estava realizando um estudo sobre crimes de homicídios no Ceará, para a Universidade Federal do Ceará, daí vinha meu interesse em entrevistá-lo. Frisei também que o Dr. Magalhães havia me dito que