O Código Penal da República dos Estados Unidos do Brasil, de 1890, trouxe pela primeira vez a criminalização do tráfico de pessoas no ordenamento jurídico brasileiro, voltado especificadamente para a proteção das mulheres sujeitas à exploração sexual, no artigo 27893, Título VIII, “Dos crimes contra a segurança da honra e honestidade das famílias e do ultraje público ao pudor”, do Capítulo III, sob a rubrica “Do lenocínio.”
O Código de 1890, apontado como possuidor de graves defeitos, suportou inúmeras alterações legislativas, dentre elas a Lei nº 2.992, de 25 de setembro de 1915, que alterou o artigo27894. Isto porque o Brasil, com a assinatura em Paris da Convenção Internacional de 1915, assumira o compromisso de intensificar a repressão ao tráfico das brancas.
Devido a essa modificação, o tráfico de mulheres passou a ter redação semelhante à dos artigos 1º e 2º da Convenção para Supressão de Escravas Brancas, de 1910, sendo previsto no § 1º do artigo 278, cuja redação era mais
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“Art. 278. Induzir mulheres, quer abusando de sua fraqueza ou miseria, quer constragendo-as por
intimidações ou ameaças, a empregarem-se no tratico da prostituição; prestar-lhes, por conta propria ou de outrem, sob sua ou alheia responsabilidade, assistencia, habitação e auxilios para auferir, directa ou indirectamente, lucros desta especulação:
Penas – de prisão cellular por um a dous annos e multa de 500$ a 1:000$000.”
94“Art. 278. Manter ou explorar casas de tolerancia, admitir na casa em que residir, pessoas de sexos
differentes, ou de mesmo sexo, que ahi se reúnam para fins libidinosos; induzir mulheres, quer abusando de sua fraqueza ou miseria, quer constrangendo-as por intimidação ou ameaças a entregarem-se á prostituição; prestar, por conta propria ou de outrem, sob sua ou alheia responsabilidade, qualquer assistencia ou auxilio ao commercio da prostituição:
Pena - de prisão cellular por um a tres annos e multa de 1:000$ a 2:000$000.
§1º. Alliciar, attrahir ou desencaminhar, para satisfazer as paixões lascivas de outrem, qualquer mulher menor, virgem ou não, mesmo com o seu consentimento; alliciar, atrahir ou desencaminhar, para satisfazer ás paixões lascivas de outrem, qualquer mulher maior, virgem ou não, empregando para esse fim ameaça, fraude, engano, abuso de poder ou qualquer outro meio de coação; reter por qualquer dos meios acima referidos, ainda mesmo por causa de dividas contrahidas, qualquer mulher maior ou menor, virgem ou não em casa de latrocinio, obriga-la a entregar-se á prostituição:
Pena - as do dispositivo anterior.
§2º. Os crimes de que trata o art.278 e o §1º do mencionado artigo serão no Brazil ainda que um ou mais actos constitutivos das infracções nelles previstas tenham sido praticados em paiz estrangeiro. §3º. Nas infracções de que trata este artigo haverá logar a acção penal: a) por denuncia do Ministerio Publico; b) mediante queixa da victima ou de seu representante legal; c) mediante denuncia de qualquer pessoa”.
explícita que a anterior,95 cuja segunda parte foi denominada por Antonio José da Costa e Silva de caftismo, caracterizado em razão da habitualidade e do lucro.96
Nova alteração legislativa adveio em 17 de janeiro de 1921, por meio do Decreto nº 4.269, artigo 10 que tornou inafiançável o delito, nos seguintes termos: “os crimes de lenocínio capitulados na Lei nº 2.992, de 25 de setembro de 1915, são inafiançáveis."
Diante da multiplicidade de leis promulgadas, na tentativa de corrigir as deficiências do Código Penal da República, as quais dificultavam o conhecimento da lei penal, por meio do Decreto nº 22.213, de 14 de dezembro de 1932, promulgou-se a Consolidação das Leis Penais de autoria do Desembargador Vicente Piragibe. Tal diploma legal manteve o tratamento dispensado ao tema no artigo 278 97, incluído no mesmo Título e Capítulo do Código de 1890, com a alteração dada pela Lei nº 2.992, de 25 de setembro de 1915, artigo 1º.
Em 1937, com a ordem da política do Estado Novo instituída por Getúlio Vargas, foi incumbida a Alcântara Machado a redação do projeto de um novo Código Criminal, este submetido à Comissão de juristas constituída por Nelson Hungria, Roberto Lira, entre outros. Após a conclusão do projeto definitivo foi sancionado como Código Penal por meio do Decreto-Lei nº 2.848 de 1940, mantendo a criminalização do tráfico de mulheres. Posteriormente, suportou a reforma de sua
95Nesse sentido: ALENCAR, Emanuela Cardoso Onofre de. Tráfico de seres humanos no Brasil:
aspectos sociojurídicos – o caso do Ceará. Dissertação de mestrado apresentada na Universidade
de Fortaleza – Unifor, 2007, p. 111.
96COSTA e SILVA, Antonio José da. Código Penal dos Estados Unidos do Brasil Commentado.
São Paulo: Companhia Editorial Nacional, 1930, p.383.
97Art. 278. “Manter ou explorar casas de tolerancia, admittir na casa em que residir pessoas de sexos
differentes ou do mesmo sexo, que ahi se reunam para fins libidinosos; induzir mulheres, quer abusando de sua fraqueza ou miséria, quer constrangendo-as por intimidação ou ameaças a entregarem-se á prostituição; prestar por conta propria ou de outrem, sob sua ou alheia responsabilidade, qualquer assistência ou auxilio ao commercio da prostituição:
Penas: de prisão cellular por um a três annos e multa de 1:000$ a 2:000$000.
§1º- Aliciar, attrahir ou desencaminhar, para satisfazer as paixões lascivas de outrem, qualquer menor, virgem ou não, mesmo com o seu consentimento; alliciar, attrahir ou desencaminhar, para satisfazer as paixões lascivas de outrem, qualquer mulher maior, virgem ou não, empregando para esse fim, ameaça, violencia, fraude, engano, abuso de poder, ou qualquer outro meio de coacção; reter qualquer dos meios acima referidos, ainda mesmo por causa de dividas contrahidas, qualquer mulher maior ou menor, virgem ou não, em casa de lenocinio, obriga-la a entregar-se á prostituição: Penas- as do dispositivo anterior.
§2º- Os crimes que tratam este artigo e o seu § 1º. serão puníveis no Brasil, ainda que um ou mais actos constitutivos das infracções nelles previstas tenham sido praticados em paiz estrangeiro. §3º- Nas infracções de que trata este artigo haverá lograr á acção penal: a) por denúncia do Ministerio Publico; b) mediante queixa da victima ou de seu representante legal; c) mediante denúncia de qualquer pessoa.”
Parte Geral em 1984, por meio da Lei nº 7.209 e permanece vigente até os dias de hoje.
É relevante mencionar que com a queda de Getúlio Vargas, iniciou-se o Estado Democrático com o Governo de Jânio Quadros, sendo incumbido, ao então Ministro Nelson Hungria, o projeto de novo Código Penal. Todavia, houve a renúncia do Presidente, a sucessão de João Goulart, em seguida a Revolução de 1964. Nesse contexto, foi promulgado o Código Penal de 1969, que em seu artigo 25498 continha a previsão do delito de tráfico de mulheres, cuja entrada em vigor foi marcada por vários adiamentos, tornando-se um natimorto, finalmente revogado em 11 de outubro de 1978, pela Lei nº 6.578.
2.4.2. O Código Penal Brasileiro de 1940 e suas recentes alterações legislativas
O Código Penal Brasileiro de 1940 tipificou o delito “tráfico de mulheres”, no artigo 23199, em seu Título VI “Do crime contra os costumes”, capítulo V “Do Lenocínio e do Tráfico de Mulheres”, cuja conduta incriminada consistia no fato de o agente promover ou facilitar o ingresso no território brasileiro de mulher que viria a
98Tráfico de mulheres. Art. 254 - “Promover ou facilitar a entrada, no território nacional, de mulher
que nele venha exercer a prostituição, ou a saída de mulher que vá exercê-la no estrangeiro: Pena: reclusão, de três a oito anos, e pagamento de cinco a quarenta dias-multa.
Formas qualificadas
§1º Se ocorre qualquer das hipóteses do §1º do art.250: Pena- reclusão, de quatro a dez anos, além da multa. §2º Se há emprego de violência, grave ameaça ou fraude:
Pena- reclusão, de cinco a doze anos, sem prejuízo da pena correspondente à violência.”
O art. 250, § 1º dispõe que: “se a vítima é maior de quatorze e menor de dezoito anos ou se o agente é seu ascendente, descendente, marido, irmão, tutor, curador ou pessoa a que esteja confiada para fins de educação, de tratamento ou de guarda.”
99Tráfico de mulheres
“Art.231. Promover ou facilitar a entrada, no território nacional, de mulher que nele venha exercer a prostituição, ou a saída de mulher que vá exercê-la no estrangeiro:
Pena: reclusão, de três a oito anos.
§1º Se ocorre qualquer das hipóteses do §1º do art.227: Pena- reclusão, de quatro a dez anos.
§2º Se há emprego de violência, grave ameaça ou fraude, a pena é de reclusão, de cinco a doze anos, além da pena correspondente à violência.
§3º Se o crime é cometido com o fim de lucro, aplica-se também multa de cinco contos a dez contos de réis”. In: PIERANGELI, José Henrique. Códigos Penais do Brasil Evolução Histórica. 2ª ed. São Paulo: RT, 2004, p. 478.
praticar a prostituição, ou a de proporcionar a saída do território de mulher que iria exercê-la no estrangeiro.100
Insta mencionar que o tipo penal em tela continha a previsão do tráfico internacional de mulheres, e não o tráfico interno, interestadual, tendo sido introduzido no país apenas com o advento da Lei nº 11.106, de 28 de março de 2005.
A mencionada lei, fruto da necessidade de o Brasil adequar-se às exigências dispostas no Protocolo Adicional Relativo ao Tráfico de Pessoas, proporcionou nova rubrica ao artigo 231101 do Código Penal Brasileiro. Este ampliou a proteção penal, na medida em que procurou afastar a condição de gênero e, estabeleceu normas de criminalização do tráfico internacional de pessoas, para o exercício da prostituição. Ainda acrescentou o artigo 231-A102, passando a criminalizar o "tráfico interno de pessoas". Ambas as categorias de crimes referiam-se à modalidade de tráfico de pessoas para fins de prostituição.
Noutro norte, não obstante o reconhecimento de avanços da ciência penal em nosso país, a realidade quanto aos crimes sexuais perdurou por vários anos balizada na moralidade, nos costumes da sociedade brasileira, na religião, no tratamento distinto entre os sexos, entre outras formas de controle. Apenas recentemente, o Direito Penal sexual sofreu vários impactos, como as novas considerações quanto ao bem jurídico, noções de consentimento, risco permitido e imputação objetiva, de modo que sua reforma fazia-se imperiosa.103
Desse modo, outra mudança ocorrida na legislação penal, por meio da Lei nº 12. 015, de 7 de agosto de 2009, trouxe alteração das categorias dispostas no Título
100PRADO, Luiz Regis. Comentários ao Código Penal: doutrina: jurisprudência selecionada: leitura indicada. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2002, p. 784.
101Tráfico internacional de pessoas
“Art.231. Promover, intermediar ou facilitar a entrada, no território nacional, de pessoa que venha exercer a prostituição ou a saída de pessoa para exercê-la no estrangeiro:
Pena: reclusão, de 3 (três) a 8 (oito) anos, e multa. §1º Se ocorrer qualquer das hipóteses do §1º do art.227: Pena- reclusão, de 4 (quatro) a 10 (dez) anos e multa.
§ 2o Se há emprego de violência, grave ameaça ou fraude, a pena é de reclusão, de 5 (cinco) a 12 (doze) anos e multa, além da pena correspondente à violência.”
102 Tráfico interno de pessoas
“Art. 231-A. Promover, intermediar ou facilitar, no território nacional, o recrutamento, o transporte, a transferência, o alojamento ou o acolhimento da pessoa que venha exercer a prostituição:
Pena – reclusão, de 3 (três) a 8 (oito) anos e multa.
Parágrafo único. Aplica-se ao crime de que trata este artigo o disposto nos §§ 1o e 2o do art. 231 deste Decreto-Lei."
103Nesse sentido: SILVEIRA, Renato de Mello Jorge. Crimes Sexuais: bases críticas para a reforma do direito penal sexual. São Paulo: Quartier Latin, 2008, p.19.
VI, com redação dada anteriormente pela Lei nº 11.106/2005, intitulando-o “Dos crimes contra a dignidade sexual.”
Nesse sentido, Paulo César Corrêa Borges destaca que a modificação do Título VI, trazida pela Lei nº 12.015/09, aproxima-se da objetividade jurídica tutelada pela referida lei, qual seja, a liberdade sexual, dando “ênfase à própria dignidade humana, como princípio do Estado Democrático de Direito, sendo uma das suas manifestações a dignidade sexual”.104
A referida alteração legislativa buscou construir um conceito de crime sexual fundado na dignidade da pessoa humana, englobou tanto a dignidade sexual da mulher quanto a do homem, abandonou o conceito de violência presumida, passou a proteger o vulnerável.
Por certo que toda reforma possui acertos e incorreções. Todavia, é uníssono o entendimento de que o novo nome dado ao título que trata da disciplina sexual penal foi positivo, no sentido de que se objetivou proteger a respeitabilidade do ser humano em matéria sexual, garantindo-lhe a liberdade de escolha, sem qualquer forma de exploração, especialmente quando envolver tipos de violência. Igualmente, voltou-se particular atenção ao desenvolvimento sexual do menor de 18 anos e, com cuidado maior, em relação ao menor de 14 anos.105
Tal mudança foi estrutural, atrelada à dignidade da pessoa humana, representou um avanço muito importante no enfrentamento ao tema. Procedeu o legislador com alterações de relevo, pois tratou de vários temas relacionados aos crimes sexuais. Quanto ao tema em estudo, sob o nomen juris tráfico interno de pessoa para fins de exploração sexual e tráfico internacional de pessoa para fins de exploração sexual, passou a tratar de forma mais contundente as condutas subsumidas nos artigos 231 e 231-A do Código Penal.
No entanto, o tráfico de seres humanos não versa exclusivamente sobre a finalidade de exploração sexual, possui outras formas de exploração, como a extração de órgãos, tecidos e células humanas; exploração do trabalho forçado ou escravo; quaisquer outras modalidade degradantes (casamentos forçados, adoções ilegais, exploração da mendicância).
104BORGES, Paulo César Corrêa. Tutela penal dos Direitos Humanos: crimes sexuais.
Marcadores sociais da diferença e repressão penal. São Paulo: Cultura Acadêmica, p. 31-54, 2011, p.41. Disponível em: <http://201.23.85.222/biblioteca/index.asp?codigo_sophia=89602>.
105NUCCI, Guilherme de Souza. Crimes contra a dignidade sexual: de acordo com a Lei 12.015/2009. 2ª ed. rev., atual e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2010, p. 27.
E, portanto, tal aporte legislativo não se coaduna com a magnitude de proteção que o fenômeno em foco clama, estando em xeque diversos bens jurídicos que necessitam de proteção penal mais adequada, conforme, será explicitado a seguir.
CAPÍTULO III
3. O DIREITO PENAL E O TRÁFICO DE SERES HUMANOS