No início de 1906, Padre Cícero caiu doente e icou aca- mado por mais de três meses. Até que dona Hermínia Gou- veia fez uma promessa a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro: ‘‘se a saúde voltasse, seria erguida uma capela no novo cemi- tério da cidade’’. Com pouco tempo, a doença se foi (OLI- VEIRA, 1982, p. 139). Como era de se esperar, Padre Cícero providenciou o início da obra. E, quando as paredes já es- tavam levantadas, ele escreveu uma carta ao superior, dando- lhe ciência da nova empreitada:
O meu Rev.do e zeloso vigário Padre Quintino sentindo ver o cemitério desta povoação em campo aberto, ex- posto a profanação, os cães e os porcos cavando-lhe dia- riamente as sepulturas, concordou commigo pedir a V.E licença para cerca-lo de muralhas de tijolo e construir- lhe a respectiva capella. [...] concordou (o Padre Quin-
tino) que eu me encarregasse do trabalho, e como todo o povo se interessasse por elle e me ajudasse com a me- lhor vontade; em poucos dias icou cercado de muralha alta e sólida todo o quadrilátero do Cemitério e a res- pectiva Capella precisando apenas de mais 3 palmos de parede para receber o tecto, cujo madeiramento achava- se prompto ao pé da obra. Já neste ponto acudiu-lhe a relexão de que poderia incorrer no desagrado de V.E., por não ser para mim mesmo a licença concedida para taes servições parei immediatamente com todo trabalho e assentei communicar a VE todo ocorrido, pedindo que se digne conceder-me sua bondosa approvação para que no mesmo accordo com o meu vigário possa con- cluir o pouco que resta fazer, visto o perigo imminente de ruina que lhe ameaça o inverno reinante. Em acção de graça pela mercê, todas as almas dos que foram se- pultados no campo de morte roguem todas as felicidade a V.E. como eu também profundamente agradecido.
Em nenhum momento, Padre Cícero fez referência à pro- messa que impulsionou o início das obras. Certamente, sabia que isso poderia comprometer o andamento dos trabalhos, já que a cidade vivia sob o olhar vigilante da Igreja. O cuidado, entre- tanto, de nada adiantou: com pouco tempo, o vigário do Crato, em nome de Dom Joaquim, interditou a obra. Diante da proi- bição, Padre Cícero interrompeu o andamento dos serviços e re- digiu uma carta ao padre Quintino. Em tom de certa ironia, Padre Cícero airmou que, no inal das contas, o desvio estava no Palácio Episcopal e não em Juazeiro: “Assim não faço e nem entro em tal trabalho, nem mais uma palavra. Fujo de questões. São coisas do tempo, que uns acham, de razão e de direito, venderem e destruírem Egrejas, e outros empatarem que se as faça”. Mas, ao
terminar a missiva, Padre Cícero fez a seguinte ponderação: “Se o senhor Bispo me facultar dando a licença tenho muito gosto de fazer a Cappella do nosso Cemitério em honra da S.S. Virgem; porém na paz e boa vontade de todos”. Tentava dizer que Juazeiro era um espaço como outro qualquer, sem nenhum problema na condução dos rituais católicos.
Desenvolvia-se um diálogo de surdos. O bispo sabia que Juazeiro era uma terra longe da ortodoxia, portanto não levava em consideração as palavras do Padre Cícero. Por outro lado, as proibições eram parcialmente cumpridas, sempre com recla- mações do Padre Cícero, como se ele mesmo não escutasse os argumentos implícitos nas determinações de Dom Joaquim.
Em 1906, quando aconteceu a interdição, tudo indicava que Juazeiro não estava cedendo às pressões do bispado de Fortaleza: era uma cidade em crescimento. As romarias conti- nuavam mostrando sinais de vitalidade e o movimento migra- tório não parava de esticar o tamanho das ruas. De alguma forma, peregrinos e migrantes chegavam a Juazeiro animados por um mesmo intuito: buscar solução para agruras e sofri- mentos do viver. Na capital do estado, tudo isso era visto como a fermentação de outro núcleo de fanatismo no meio serta- nejo, como havia acontecido em Canudos. Sob Juazeiro pai- ravam temores e suspeitas, não só no entendimento da Igreja, mas em vários outros campos do poder institucionalizado.
Em 1908, isto é, dois anos depois da proibição de Dom Joaquim sobre o erguimento da Capela do Cemitério, Padre Cícero voltou a lutar pela retomada do trabalho. Numa conversa com o médico Floro Bartolomeu, Padre Cí- cero lhe revelou que era um grande desgosto ver a capela interditada. Floro conseguiu a permissão para a continui- dade da obra, mas padre Quintino fez uma exigência: Padre
Cícero não poderia ter nenhuma relação com o caminhar dos trabalhos.
No inal de novembro de 1908, dona Hermínia faleceu e, em nome de suas virtudes, Padre Cícero resolveu que o sepul- tamento de seu corpo seria no interior da capela em cons- trução. O vigário do Crato tentou impedir, mas ninguém obe- deceu, e dona Hermínia foi sepultada no lugar que já estava previsto (e lá continua até hoje). Dias depois, padre Quintino comunicou ao Padre Cícero que a continuidade das obras es- tava novamente proibida. Foi aí que a paciência de Floro se esgotou. Procurando ganhar a amizade do Padre Cícero, ele decidiu tomar as rédeas da situação e mandou concluir as obras (BARTHOLOMEU, 1923, p. 62).
A capela, entretanto, icou sem bênção. E, para resolver o problema, uma comissão de comerciantes da cidade foi a Fortaleza para pedir a Dom Joaquim que mandasse benzê-la, a im de colo- cá-la à disposição dos iéis. O bispo explicou que o atendimento ao pedido não seria possível, pois estava seguramente informado de que o Padre Cícero havia sepultado na capela o corpo de uma prostituta. Mesmo com os protestos da comissão, não houve jeito. Dom Joaquim em nada cedeu. A capela continuou fechada.
Padre Cícero, em sua política conciliatória, não con- testou as determinações de Dom Joaquim. Entretanto, para a sua fé, o lugar continuava sagrado. Em janeiro de 1914, Padre Cícero determinou que o sepultamento da beata Maria de Araújo fosse realizado na capela. Naquele mesmo ano, no mês de agosto, escolheu o lado direito do altar para abrigar o corpo de sua mãe. Em 1922, fez o enterro de sua irmã, dona Angelica Romana Baptista, ao lado da sepultura de dona Hermínia. Em 1934, o seu próprio corpo foi enterrado na capela, no lugar por ele escolhido, em frente do altar principal.
No dia 22 de outubro de 1930, logo no início da manhã, Padre Cícero recebeu uma desconcertante notícia. O túmulo de Maria de Araújo estava sendo completamente destruído. Alito e assustado, Padre Cícero pediu o apoio do prefeito José Geraldo da Cruz e mais três amigos. Os quatro senhores dirigiram-se para a Capela do Socorro, que naquela época ainda estava sem a bênção da Igreja. Lá chegando, perceberam que a violação já havia sido consumada. Os encarregados do serviço, que ainda se encontravam no local, esclareceram que estavam trabalhando sob as ordens do vigário da cidade, padre José Alves, e que dentro da sepultura nada havia. Examinando os escombros do túmulo, amontoados fora da capela, os enviados do Padre Cícero conse- guiram encontrar um escapulário das Dores, um cordão de São Francisco, um pedaço de pano e uma parte do crânio com ca- belos. Em seguida, tudo foi guardado em um vaso de vidro.
Tudo indica que o padre José Alves Lima mandou der- rubar o túmulo da beata porque estava preparando a capela para que pudesse receber as bênçãos do bispo. Era preciso evitar que os despojos da beata fossem abençoados. Mais que isso: era ne- cessário expurgar do templo a memória de uma mulher negra e pobre que havia desaiado o poder da hierarquia clerical. Ao que parece, a sepultura não havia se transformado em lugar de ri- tuais dos peregrinos, pois a capela quase sempre icava de portas cerradas. Oicialmente, não podia receber iéis porque ainda não era benta. Mas, era plausível imaginar que, de portas abertas, a capela tornar-se-ia mais um espaço de devoção dos romeiros. Certamente, o túmulo ao alcance dos olhos alimentaria ainda mais a religiosidade em torno dos mistérios de Juazeiro.
Padre Cícero resolveu, mais uma vez, agir dentro de uma política que procurava, a todo custo, ser conciliatória. Para não agredir a Igreja, da qual ainda esperava a permissão para voltar
a celebrar missa, não entrou em conlito direto com o padre José Alves de Lima, do qual haviam partido as ordens para a des- truição. No entanto, não icou calado. Providenciou o registro em cartório de um documento com as assinaturas de quatro tes- temunhas, que descreviam os detalhes do ocorrido. A indig- nação do Padre Cícero e de seus amigos icou registrada em sete páginas manuscritas, intituladas “Copia de um facto histórico do anno de 1930: os despojos da Beata Maria de Araújo violados em data de 22 de outubro de 1930 por ordem do vigário padre José de Lima”. Antes de contar a destruição, o documento escla- receu que o fato teve todas as características de um ato crimi- noso: “a violação do túmulo foi de surpresa, sem preceder auto- rização legal, sem conhecimento siquer do respectivo zelador do Cemitério o Im. Hidelbrando Oliveira”. Entretanto, grande parte do documento não discorreu sobre a violação, e sim sobre a vida da beata Maria de Araújo. Além de compor detalhes sobre a transformação da hóstia e a reação da Igreja, o manuscrito traz várias narrativas de caráter hagiográico:
O nome da Beata Maria de Araújo se prende aos fallados milagres que tanto celebrisaram o antigo Povoado do Juazeiro transformado hoje em flores- cente cidade. Do humilde casal Antonio de Araújo e Anna de Araújo, naturaes deste lugar onde viveram e morreram como bons catholicos, nasceu Maria de Araujo e mais trez imãos, perdendo todos ainda na infancia os seus genitores. Maria de Araújo com desvelo e cuidado tratou da criação dos seus irmãos, em cujo penoso trabalho não enfraqueceu a ten- dencia religiosa manifestada desde os oito annos de idade quando comessou a confessar-se e commungar frequentemente com profunda e sincera devoção.
Humilde por natureza e pobre por condição, o seu nome não tinha o menor relevo, até que por causas que lhe eram extranhas, comessaram a apparecer al- guns phenomenos por occasião em que recebia na mesa da communhão a hostia sacramental das mãos do seu confessor. [...]
Foi tão grande a repercussão destes factos que a Santa Sé mandou instaurar um processo canônico, sendo neces- sário o Padre Cícero Romão Baptista então Capelão do Ju- azeiro ir a Roma para se defender. Terminado o processo com a absorvição do Padre Cícero, mandou a Egreja fazer silencio sobre os acontecimentos da Beata Maria de Araujo que dahi por deante não decahio de suas praticas religiosas mantendo a sinceridade de suas virtudes chistans.
Em seguida, o texto anunciou que, no dia 17 de ja- neiro de 1914, Maria de Araújo morreu, como morre uma santa: “[...] em plena revolução política, a mística Maria de Araujo deu a alma ao Creador a quem dias antes se ofere- cera em sacrifício dando a sua vida para a salvação do Povo do Juazeiro que se achava debaixo do cêrco das forças do Governo Estadual [...]” Para realçar essa tonalidade hagio- gráica, o documento destacou que seu enterro foi acompa- nhado por uma “grande multidão de pessoas”, e que tudo continuou vivo na memória de todos, mas “sem se fallar nos phenomenos nella operados”.
Além de denunciar a violação, o documento procurava deixar viva a memória do sangue derramado, assunto proibido pela Igreja. Na longa referência à vida da beata Maria de Araújo, não em tom biográico, mas no ritmo hagiográico, es- tava um discurso que mostrava a vitalidade de uma das perso- nagens que fundaram a sacralidade de Juazeiro.
Depois dos “Milagres de Juazeiro” a grande referência dos romeiros passou a ser o Padre Cícero. Mas isso não signi- icou um total esquecimento do papel desempenhado pela beata Maria de Araújo. Na ininidade de narrativas dos de- votos, o protagonista sempre foi o Padre Cícero, mas em certas ocasiões a beata ganhou relevância.
O documento há pouco citado constituiu uma rebeldia comportada, bem no estilo da ambiguidade que marcou a vida do Padre Cícero, ou seja, a tentativa de conciliar o incon- ciliável: a Igreja e os “Milagres de Juazeiro”. Por outro lado, alguns devotos izeram registros nos quais Maria de Araújo aparece de modo mais atuante, como foi o caso de uma pro- fecia do livro Voz do Padre Cícero e outras memórias, publi- cado em 1985:
[...] e meu Padrinho Cícero disse a nós lá no orfanato. ‘Vocês têm que ver o Sagrado Coração de Jesus pre- gando aqui dentro do Juazeiro do Norte. A que não morrer vê. O padre vai celebrar a Missa e Jesus Cristo sai de dentro do Sacrário e o padre se assusta, mas Jesus Cristo diz: ‘Celebre a Missa’. E ele cria coragem e celebra a Missa, mas o povo que está na igreja ica todo tremendo de medo, porque ninguém não agüenta ver coisa do outro mundo. Depois que o padre terminar de celebrar a missa, Deus Nosso Senhor Jesus Cristo desce do altar e reza as Ave-marias da missa e vai pregar qua- renta dias e quarenta noites de missão. E o povo, quando souber, vem olhar para o seu Jesus. Vem mi- lhares de padres e gente de toda parte do mundo. E quando chegarem aqui, Deus diz aos padres: ‘Vão con- fessar o povo’. E o povo se confessa e comungando no meio da rua, porque não cabe dentro da igreja, de tanta gente que chega nestes quarenta dias. Os padres vão
confessar é nas pontas das calçadas, do lado de fora. Outros distribuindo a Sagrada Comunhão. E a voz de Deus é como um trovão, se ouve em toda parte do mundo. Ele fala aqui na Matriz e se ouve em todo canto: ‘Então eu ressuscito Maria de Araújo, Joana e todos que assistiram o Sangue precioso e eles vêm provar este sangue’. Os padre que viram têm que provar com a boquinha deles, aqueles que negaram vêm pregar sobre isto. E depois dos quarenta dias de missão e de comunhão com Deus Nosso Senhor Jesus Cristo, passa uma friezinha por debaixo das portas e morrem todos os convertidos e não sofrerão um só cabelo de suas cabeças, e morrem sem sentir dor e todos subirão aos Céus, e todos icarão no reino de deus, seu pai, seu Rei, e seu Deus [...] (CAMPINA, 1985, p. 198).
O livro Voz do Padre Cícero e outras memórias foi escrito por Maria da Conceição Lopes Campina, como forma de pagar uma promessa. Ela conta que, em 1922, foi morar no orfanato do padre e lá ouvia dele histórias e conselhos. Casou-se em 1929, mas continuava a tomar a bênção ao seu ‘‘padrinho’’. Em 1974, ela fez uma pro- messa para curar a filha que havia enloquecido. Se a me- nina melhorasse, ela escreveria ‘‘as profecias dele e tudo que soubesse da vida dele’’: ‘‘Eu prometi escrever toda a vida dele dentro de um ano, e mais cem profecias. Em 1974, escrevi cada dia um pedacinho ate que terminei’’ (CAMPINA, 1985, p. 8).
Voz do Padre Cícero e outras memórias emergiu como parte do incalculável universo de publicações que rituali- zaram a sacralidade de Juazeiro. Juntamente com os folhetos de cordel, as orações e os benditos, os iéis escreveram e pu- blicaram uma grande multiplicidade de textos, que eram
atos de íntima relação com o sagrado e, ao mesmo tempo, maneiras de propagação da fé nos poderes do Padre Cícero.
A gráfica São Francisco, do poeta José Bernardo da Silva, imprimiu, provavelmente nos anos 1940, O chamado de Deus na Terra pela Sagrada Eucaristia, um livro com 120 páginas sem indicação do autor. No início da primeira parte, Deus fala aos homens da Terra em 1897, o devoto mostrou que conhecia detalhes sobre a repressão em torno do Padre Cícero:
No mês de outubro quando o Padre Cícero se achava em Salgueiro, Estado de Pernambuco, por decreto do Santo Ofício que lhe impoz sobre pena de excomu- nhào a retirada de Juazeiro dentro do praso de 10 dias. E caso nào saisse nestes parso icava excomungado re- servado ao Papa. Em face dos documentos apresen- tados ao santo ofício pelo Sr. D. Joaquim, Bispo do Ceará, informando de modo tão grave os fatos da eu- caristia ocorridos no Juazeiro, que isolou o Padre Cí- cero dos direitos de sacerdote, ao que se submeteu com obediência completa. Neste tempo vim eu ao Juazeiro pagar uma promessa que havia feito a Virgem das Dores; cheguei as seis horas da tarde e não conhecendo a ninguém alí pedi agasalho em uma casa da frente aberta a Rua S. Pedro, aonde passei 3 dias. Pouco antes da meia noite despertei pela visão de um sonho alito no qual via o Padre Cícero cruciicado.
O devoto escreveu que despertou como se aquela visão fosse realidade e seguiu para a igreja, pensando que poderia estar vivendo alguma ilusão. Começou a rezar o ofício e ouviu claramente: “Eu sou a voz da luz e da verdade, e contra mim se levantou o poder das trevas e a maldade da calúnia”.
Era a palavra da Divina Providência, que iniciava uma longa explanação sobre a Hóstia Consagrada, destacando que “a transformação da eucaristia em sangue é um fato real e di- vino, é um brado de Deus na terra e o testemunho da palavra do redentor dos homens”.
“Se assim é, como a Santa Sé condenou estes fatos?’’ – perguntou o devoto. “A Santa Sé – respondeu o Salvador – não condenou o testemunho da verdade, condenou sim a maldade da calúnia nascida do ódio e satanaz e da soberba humana contra J. C. na sagrada eucaristia”. A condenação foi nula diante de Deus, porque foi dada a sentença em um “tribunal humano sujeito a enganos, e por essa razão não tem conir- mação divina”. Em fogo cruzado diante da Igreja, o iel con- cluiu que, no caso, houve a presença de “lobos vestidos de cor- deiros”, pois Jesus não poderia condenar a sagrada eucaristia, já que isso seria condenar a si próprio e desmentir a verdade que ele mesmo havia pregado.
No caminhar das revelações, o devoto contou que a Di- vina Providência fez uma longa exposição sobre o poder do Padre Cícero:
A vida e a morte do Padre Cícero é um retrato de J. C. ele não é J. C. mais imita J. C. na vida e na morte. É um enviado da luz que dá testemunho da verdade e da fé. É precursor que prepara os caminhos para o grande e tremendo dia do juízo inal. O Padre Cícero será vi- tima do ódio e da calúnia, um novo Herodes se levanta contra ele, e um segundo Pilatos lhe dá a sentença de morte.
O ódio contra o Padre Cícero vem do inferno e na terra não tem remédio; e depois da sua morte Juazeiro será chamado nova Jerusalém. O que te mostrei pela
visão do sonho é uma realidade da verdade, o ódio e a soberba dos inimigos do Padre Cícero não suportam ouvir falar nisso.
Mas tudo seria resolvido dentro da conciliação: “[...] vi levantar-se no poente uma nuvem em forma de uma igreja, e outra no nascente, e navegando uma e outra se encontraram no meio do céu e formaram uma só”. De acordo com o devoto, isso indicaria o triunfo, a união da “Nova Jerusalém” com a Santa Sé. O rol de publicações dos devotos não teve im. O vo- lume de escritos e narrativas orais alargou-se juntamente com o constante crescimento das ruas de Juazeiro e de suas roma- rias. Durante a década de 1990, estimou-se que a cidade re- cebia quase um milhão de romeiros por ano. Em todo esse movimento de expansão, o sagrado foi se multiplicando em vários suportes, ou melhor, em uma incalculável quantidade de materiais com a imagem do “Padrinho”: estatuetas, qua- dros, chaveiros, camisas e copos — pedaços de memória que atualizaram a sacralidade de Juazeiro. Enquanto isso, os re- tratos de Maria de Araújo desapareceram.
Além de escritos e falas que, de alguma forma, até hoje circulam no espaço público, há ainda um caleidoscópio de documentos com um sentido mais privado, como diários e