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“O novo arquivista anuncia que só vai se ocupar dos enunciados. Ele não vai tratar daquilo que era, de mil maneiras, a preocupação dos arquivistas anteriores: as proposições e as frases”. Gilles Deleuze59.

Ao discorrer sobre os saberes, parto do pressuposto de que o saber é constituído, há uma produção de saber, de saberes. Uma produção na medida em que os elementos que o constituem não se encontram na condição de inatos, existentes a priori e seguindo uma lógica de progressão técnica. Mas se orientam por um regime de positividade histórica, que possibilita sua produção e seu aparecimento, não se confundindo com uma suposta história da cientificidade da verdade.

Foucault não faz história das ideias nem história das ciências, e sim a análise da possibilidade da ordem, da positividade histórica, a partir da qual um saber pode se constituir, a partir do qual teorias e conhecimentos, reflexões e ideias são possíveis. E é nesse espaço de ordem que o saber se constitui [...] uma história que não é da verdade cada vez mais próxima do real, cada vez mais aperfeiçoada pelo progresso técnico e científico, mas a história das condições de possibilidade e de uso de verdade, de saber, que Foucault chama de solo positivo. (ARAÚJO, 2007, p. 4-5, grifos meus).

Machado (2006), em “Foucault, a ciência e o saber”, fala da trajetória da arqueologia, operada por Foucault, referindo ao deslocamento da região do conhecimento para a produção dos saberes. Assim, um dos objetivos deste livro seria o de

[...] estudar esse deslocamento produzido pela arqueologia em relação à epistemologia para dar conta de sua especificidade como história dos saberes [...] enquanto a epistemologia, pretendendo estar à altura das ciências, postula que a ciência ordena a filosofia, como diz Bachelard, a arqueologia, reivindicando sua independência em relação a qualquer ciência, pretende ser uma crítica da própria ideia de racionalidade; enquanto a história epistemológica, situada basicamente no nível dos conceitos científicos, investiga a produção de verdade na ciência, que ela

considera como processo histórico que define e aperfeiçoa a própria racionalidade, a história arqueológica, que estabelece inter -relações conceituais no nível do saber, nem privilegia a questão normativa da verdade, nem estabelece uma ordem temporal de recorrências a partir da racionalidade científica atual. Abandonando a questão da cientificidade — que define o projeto epistemológico —, a arqueologia realiza uma história dos saberes de onde desaparece qualquer traço de uma história do progresso da razão. (MACHADO, 2006, p. 9, grifos meus).

Nessa perspectiva, a produção do saber, em trajetória arqueológica, desloca-se da perspectiva epistemológica, a qual investiga a verdade, vinculando-a, necessariamente, à ciência, aos conhecimentos científicos. A produção do saber não está centrada na “questão normativa da verdade” e na sua cientificidade.

Trata-se de uma produção tecida por um conjunto de relações entre sujeitos e instituições, mediadas por jogos conceituais, estratégias e regramentos diversos, ditando o que falar, o que não falar, o que fazer e não fazer, como e porque fazer, enfim, conformando uma formação discursiva.

Em “Arqueologia do Saber”, Foucault (2008c, p. 50) destaca que uma “formação

discursiva” se

[...] define (pelo menos quanto a seus objetos) se se puder estabelecer um conjunto semelhante; se se puder mostrar como qualquer objeto do discurso em questão aí encontra seu lugar e sua lei de aparecimento; se se puder mostrar que ele pode dar origem, simultânea ou sucessivamente, a objetos que se excluem, sem que ele próprio tenha de se modificar.

Ao adotar tal perspectiva, Foucault (2008c, p. 50) observa que as possibilidades históricas de aparecimento de um objeto de discurso se produz em “[...] condições positivas de um feixe completo de relações” - relações discursivas. Positivas, porque se o objeto não está dado a priori, preexistindo a si mesmo, isso não implica em uma condição negativa, dadas as possíveis dificuldades de descobri-lo, indicando a necessidade de investigação das suas relações discursivas.

Trata-se de um feixe de relações que “não se produz no interior do discurso”, imprimindo-lhe uma constituição racional ao ligar conceitos e palavras. Refere-se, outrossim, às relações que “[...] são estabelecidas entre instituições, processos econômicos e sociais, formas de comportamentos, sistemas de normas, técnicas, tipos de classificação, modos de caracterização [...].” (FOUCAULT, 2008c, p. 50).

As relações discursivas são as que possibilitam o aparecimento do objeto do discurso, o “[...] justapor-se a outros objetos, situar-se em relação a eles, definir sua diferença,

sua irredutibilidade e, eventualmente, sua heterogeneidade; enfim, ser colocado em um campo de exterioridade.” (FOUCAULT, 2008c, p. 50). Nesse sentido, as relações discursivas

[...] determinam o feixe de relações que o discurso deve efetuar para poder falar de tais ou tais objetos, para poder abordá-los, nomeá-los, analisá-los, classificá-los, explicá-los etc. Essas relações caracterizam não a língua que o discurso utiliza, não as circunstâncias em que ele se desenvolve, mas o próprio discurso enquanto prática . (FOUCAULT, 2008c, p. 51, grifos meus).

Ao assumir o discurso como prática, Foucault (2008c) produz um deslocamento conceitual importante, onde o discurso se põe para além de uma estrutura lógica de signos, em uma analítica de significados e de significantes. Ele assinala que a tarefa de “As palavras e as

coisas” foi exatamente essa, a de

[...] não mais tratar os discursos como conjuntos de signos (elementos significantes que remetem a conteúdos ou a representações), mas como práticas que formam sistematicamente os objetos de que falam. Certamente os discursos são feitos de signos; mas o que fazem é mais que utilizar esses signos para designar coisas. É esse mais que os torna irredutíveis à língua e ao ato da fala. É esse "mais" que é preciso fazer aparecer e que é preciso descrever. (FOUCAULT, 2008c, p. 55, grifos meus).

O discurso é apresentando com um mais, que é preciso fazer aparecer, como uma prática discursiva, referida por “[...] um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço, que definiram, em uma dada época e para uma determinada área social, econômica, geográfica ou linguística, as condições de exercício da função enunciativa. ” (FOUCAULT, 2008c, p. 133). As práticas discursivas

[...] não são pura e simplesmente modos de fabricação de discursos. Elas tomam corpo no conjunto das técnicas, das instituições, dos esquemas de comportamento, dos tipos de transmissão e de difusão, nas formas pedagógicas que, por sua vez, as impõem e as mantém. (FOUCAULT, 1994 apud CASTRO 2014, p. 119)

Em “A Ordem do Discurso”, Foucault (2014c, p. 8), ao discorrer sobre o perigo das pessoas falarem, proferirem seus discursos, supõe que “[...] em toda a sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos [...]”. Tratam-se dos procedimentos exercidos em exterioridade ao próprio discurso, aqueles que põem em jogo o desejo e o poder. Assim, o discurso não se reduz somente ao “[...] que traduz as lutas ou os sistemas de comunicação, mas aquilo porque, pelo que se luta, o poder do qual nós queremos apoderar. ” (FOUCAULT, 2014c, p. 10).

Esses procedimentos são denominados por Foucault (2014c) como de exclusão: a interdição, a “palavra proibida” o que pode ser dito ou não dito; a separação e a rejeição, a exemplo da “segregação da loucura”; e a oposição do verdadeiro e do falso. Sobre o último procedimento, há o reconhecimento de que a verdade é historicamente produzida por uma

“vontade de verdade”. (p. 9-13).

Uma vontade de verdade que acaba por orientar uma vontade de saber, o que se deve saber, qual o caminho a ser percorrido para se constituir a verdade, portanto, produzindo uma verdade que seja aceitável, comparável, mensurável, classificável, impondo “[...] ao sujeito cognoscente (e de certa forma antes de qualquer experiência) certa posição, certo olhar, certa função [...]. ” (FOUCAULT, 2014c, p. 16, grifos meus).

Produz-se, então, uma vontade de verdade alicerçada em um aparato institucional, que reverbera e (re)produz o discurso dito verdadeiro, aquele que forja uma verdade em normas, regras e padrões, (im)pondo-a na sociedade, garantindo sua circularidade e ‘suposta’ universalidade, desprovida de interesses e de relações de poder.

Cabe, portanto, à vontade de verdade, como uma “prodigiosa maquinaria” (Foucault, 2014c, p. 19), o papel de fundamentar, justificar os procedimentos de interdição e de separação, neutralizando-os, tornando-os invisíveis e, mais do que isso, produzindo o discurso, os enunciados ditos verdadeiros.

Daí Foucault (2008c) chamar a atenção para o “mais” do discurso em sua prática, sendo fundamental não mais relacionar “[...] o discurso ao solo inicial de uma experiência nem à instância a priori de um conhecimento; mas que nele mesmo o interroguemos sobre as regras de sua formação. ” (FOUCAULT, 2008c, p. 89, grifos meus).

Um conjunto de regras que fazem emergir práticas discursivas, que compõem os enunciados discursivos e que escapam de campos definidos e transbordam em áreas diversas, dada a vontade de verdade estar engendrada e ‘naturalizada’ na sociedade, por potentes subjetivações que produzem uma vontade de saber.

Foucault (2006a, p. 233) aponta a verdade como o “[...] conjunto de procedimentos que permitem a cada instante e a cada um pronunciar enunciados que serão considerados verdadeiros”. Para este autor,

[...] as produções de verdade não podem ser dissociadas do poder e de mecanismos de poder, ao mesmo tempo porque esses mecanismos de poder tornam possíveis, induzem essas produções de verdades, e porque essas produções de verdade têm, elas próprias, efeitos de poder que nos unem, nos atam. São essas relações de verdade/poder, saber/poder que me preocupam. (FOUCAULT, 2006a, p. 229).

Nessa perspectiva, as práticas discursivas produzidas por jogos de poder, encarnando uma vontade de saber, podem se manifestar, por exemplo, em disciplinas específicas, mas também em outras abordagens e conceitos não referidos a elas, em domínios diversos como o jurídico, o administrativo, o literário, o filosófico, “[...] em decisões de ordem política, em propósitos cotidianos, em opiniões. ” (FOUCAULT, 2008c, p. 200). Continuando, afirma que “[...] não há saber sem uma prática discursiva definida e toda prática discursiva pode definir-se pelo saber que ela forma. ” (p. 203).

Desenha-se, assim, uma prática discursiva imbuída de regularidades e consistência, uma formação discursiva e uma positividade histórica que podem ser descritas. Analisar a produção de uma positividade histórica, para Foucault (2008c, p. 203),

[...] é mostrar segundo que regras uma prática discursiva pode formar grupos de objetos, conjuntos de enunciações, jogos de conceitos, séries de escolhas teóricas. Os elementos assim formados não constituem uma ciência, com uma estrutura de idealidade definida; seu sistema de relações é, certamente, menos estrito; mas não são, tampouco, conhecimentos acumulados uns ao lado dos outros, vindos de experiências, de tradições ou de descobertas heterogêneas e ligados somente pela identidade do sujeito que os detém. Eles são a base a partir da qual se constroem proposições coerentes (ou não), se desenvolvem descrições mais ou menos exatas, se efetuam verificações, se desdobram teorias.

Os elementos que constituem as práticas discursivas não necessariamente formam uma ciência, mas também, como assinala Foucault (2008c, p. 204), não se trata de “[...] um pré- conhecimento ou de um estágio arcaico no movimento que vai do conhecimento imediato à apoditicidade [...]”. A esse conjunto de elementos Foucault (2008c, p. 204) chamou de saber:

[...] o domínio constituído pelos diferentes objetos que irão adquirir ou não um status científico; [...] o espaço em que o sujeito pode tomar posição para falar dos objetos de que se ocupa em seu discurso (neste sentido, o saber da medicina clínica é o conjunto das funções de observação, interrogação, decifração, registro, decisão, que podem ser exercidas pelo sujeito do discurso médico); um saber é também o campo de coordenação e de subordinação dos enunciados em que os conceitos aparecem, se definem, se aplicam e se transformam [...] um saber se define por possibilidades de utilização e de apropriação oferecidas pelo discurso (assim, o saber da economia política, na época clássica, não é a Tese das diferentes Teses sustentadas, mas o conjunto de seus pontos de articulação com outros discursos ou outras práticas que não são discursivas).

Assim, Foucault, na Arqueologia do Saber”, ao propor a análise da positividade histórica da constituição e do aparecimento de um determinado domínio de saber, provoca um deslocamento da perspectiva de investigação no campo das ciências humanas. Aponta para a relevância da captura de elementos em torno do discurso que é proferido e das regras que o

constitui e o autoriza a ser dito, portanto, permeado por relações de poder. Para Foucault (2006c, p. 254)

[...] o poder não é o sentido do discurso. O discurso é uma série de elementos que operam no interior do mecanismo geral do poder. Consequentemente, é preciso considerar o discurso como uma série de acontecimentos, como acontecimentos políticos através dos quais o poder é vinculado e orientado. (Grifos meus).

Acontecimento60, no caso, tomado como

[...] a função que se pode atribuir uma vez que essa coisa foi dita naquele momento. Isto é o que eu chamo de acontecimento. Para mim, trata-se de considerar o discurso como uma série de acontecimentos, de estabelecer e descrever as relações que esses acontecimentos – que podemos chamar de acontecimentos discursivos – mantém com outros acontecimentos que pertencem ao sistema econômico, ou ao campo político, ou às instituições. Considerando sob esse ângulo, o discurso não é nada além de um acontecimento como os outros, mesmo se, e claro, os acontecimentos discursivos têm, em relação aos outros acontecimentos, sua função específica. (FOUCAULT, 2006c, p. 255-256, grifos meus).

Então, Foucault propõe com a arqueologia o “[...] tipo de pesquisa que se dedica a extrair acontecimentos discursivos como se eles estivem registrados em um arquivo”. (FOUCAULT, 2006c, p. 257).

Nessa perspectiva, há uma certa oposição às análises que constituem o discurso, considerando elementos do ponto de vista da língua ou do sentido, da estrutura ou do sujeito, substituindo as condições gramaticais ou as de significação, pelo discurso formado por acontecimentos. Trata-se, assim, de considerar na formação discursiva as condições de existência e materialidade própria do enunciado. (CASTRO, 2014).

O interesse de Foucault (2006c) não se refere a fazer o trabalho de um historiador, “[...] mas de descobrir por que e como se estabelecem relações entre os acontecimentos discursivos. Se faço isso, é com o objetivo de saber o que somos hoje”. (FOUCAULT, 2006c, p. 258).

Dessa forma, com base nas formulações de Foucault, tomo como pressuposto o fato de que a descentralização da saúde, em dobras políticas da municipalização e da regionalização, compõe uma formação discursiva do SUS, normatizando e conduzindo os modos de fazer e de pensar, em regime de saber-poder-verdade. Daí a importância de firmar nesta Tese o domínio e a perspectiva da arqueologia, mas em engate com a genealogia do poder.

Benzer Belgeler