Como já mencionado no Capítulo anterior, está em trâmite no Senado Federal o Projeto de Lei n. 03, de 2007, de autoria do Senador Osmar Dias. Conjuntamente caminha o Projeto de Lei n. 153, de 2007, de autoria do Senador Eduardo Suplicy. Ambos objetivam substituir a Lei Geral do Cooperativismo – LGC (5.764/71). Nestas propostas de alteração legislativa, busca-se uma atualização das regras jurídicas que regem o setor, havendo, inclusive, menção à modificação da definição legal de ato cooperativo prevista no artigo 79, da Lei Geral do Cooperativismo.
Entretanto, no parecer subscrito pelos Senadores Benedito de Lira e Waldemir Moka, Presidente e Relator, respectivamente, da Comissão de Agricultura e Reforma Agrária – CRA, datado de 29 de maio de 2014, ficou decidido que a redação do artigo 79, da Lei n. 5.764/71 ficaria mantida por ora, pois o assunto deveria ser resolvido por intermédio do Projeto de Lei Complementar n. 271/2005, o qual pretende regulamentar o adequado tratamento tributário do ato cooperativo.
Saca-se o quanto segue do relatório da Comissão, verbis:
Estamos de acordo com a análise feita pela Senadora GLEISI HOFFMANN, de que o constituinte, como forma de incentivar o cooperativismo, determinou que o ato praticado entre a cooperativa e seus sócios tivesse tratamento tributário diferenciado em relação ao dispensado às empresas capitalistas, mas que por força da própria Constituição, restringe-se ao ato cooperativo.
Para sanar essa questão, mantivemos o atual texto constante do art. 79 da Lei nº 5.764, de 1971, tendo em vista que existe matéria específica que trata do adequado tratamento tributário em tramitação na Câmara dos Deputados, através do PLP 271, de 2005, pautando para ser apreciado com urgência, portanto, a regulamentação do ato cooperativo para fins tributários obedecerá ao preceito do adequado tratamento tributário constitucionalmente referido, por lei complementar, conforme determina o art. 146, inciso III, alínea c, combinado com o §2º do art. 174, ambos da Constituição Federal.156
O Projeto de Lei Complementar n. 271/2005 que busca disciplinar o artigo 146, III, c, da Constituição Federal, assim foi apresentado:
PROJETO DE LEI COMPLEMENTAR N. 271/2005 (Do Sr. Luiz Carlos Hauly)
Dispõe sobre o adequado tratamento tributário ao ato cooperativo
156 BRASIL. Senado Federal. Parecer s/nº, 2014. Disponível em: <www.senado.gov.br/atividade/ materia/getTexto.asp?t=147308>.
O Congresso Nacional decreta:
Art. 1º. Esta lei complementar estabelece normas gerais, no âmbito federal, para o adequado tratamento tributário ao ato cooperativo praticado pelas sociedades cooperativas, conforme previsto na alínea c do inciso III do art. 146 da Constituição Federal.
Art. 2°. O ato cooperativo, como tal definido pela legislação vigente, praticado pelas sociedades cooperativas regularmente constituídas e seus associados, entre estes e aquelas e pelas cooperativas entre si quando associadas, para a consecução dos objetivos sociais, não está sujeito à incidência de tributos e contribuições federais, e em especial relativamente:
I – à disponibilidade econômica ou jurídica de renda dele resultante, referente a trabalho, serviço, operação ou atividade que constitua objeto social da cooperativa;
II – receita bruta, líquida ou faturamento resultante do conjunto de atos cooperativos;
III – a saída de mercadorias ou produtos do:
a) estabelecimento do produtor cooperativado para o estabelecimento da cooperativa a que pertença;
b) estabelecimento de uma cooperativa para outra, dessa mesma ou doutra cooperativa a ela associada.
IV – ao fornecimento de bens ou produtos da cooperativa aos seus associados;
V – ao fornecimento de habitações da cooperativa aos seus associados;
VI - às operações de empréstimo, financiamento e a de repasse de recursos financeiros;
VII – a prestação de serviços da cooperativa aos sócios ou das cooperativas associadas, entre si;
VIII – a devolução aos sócios das sobras resultantes de atos cooperativos.
Art. 3°. Não está sujeito à incidência de impostos e contribuições federais o patrimônio das cooperativas.
Art. 4°. Esta lei complementar entra em vigor na data de sua Publicação.157
O aludido Projeto de Lei, em verdade, não vai alterar muito a realidade vivenciada pelas sociedades cooperativas, pois, a pretexto de regulamentar o artigo 146, III, c, da Constituição Federal, a proposta legislativa apenas repete boa parte de tudo o que já está em vigor, valendo-se de outras palavras.
157 BRASIL. Câmara dos Deputados. Comissão de Finanças e Tributação. Projeto de Lei Complementar
Logo de início, depreende-se da redação do artigo 2º uma evidente atecnia legislativa, quando o texto estatui que não haverá incidência de tributos e contribuições federais sobre os atos cooperativos. E, depois, no artigo 3º, fala em impostos e contribuições federais. Foi-se o tempo em que havia discussão quanto à natureza jurídica das contribuições federais (contribuições sociais), sendo que tanto a doutrina, quanto a jurisprudência, notadamente do Supremo Tribunal Federal, pacificaram o entendimento no sentido de que todas as contribuições sociais possuem natureza tributária.
O Excelso Pretório158, ao adotar a teoria pentapartite, reconheceu a autonomia das contribuições, classificando-as como tributos próprios, devido às suas peculiaridades. Em sentido contrário, Paulo de Barros Carvalho e Roque Antonio Carrazza, defendem a teoria tripartite, mas não com o intuito de desafiar a natureza tributária das contribuições, mas sim, com o propósito de infirmar a teoria pentapartie quanto à autonomia das contribuições, sendo que estas no plano jurídico ora devem ser classificadas como impostos, outrora como taxas, a depender da situação analisada.
Contextualizando este artigo 2º, com os incisos e alíneas, o que se tem é simplesmente um detalhamento maior daquilo que já está consolidado no artigo 79 e parágrafo único, da Lei n. 5.764/71. O caput do artigo 2º, do Projeto de Lei n. 271/2005 repete o que já está disposto no caput, do artigo 79, da Lei n. 5.764/71, quanto à definição de ato cooperativo, enquanto negócio jurídico de natureza bilateral. Portanto, nenhuma novidade.
A não incidência de tributos sobre os atos cooperativos já é uma situação que deve ser respeitada por força do quanto dispõe o § único, do artigo 79, da Lei n.
158 Voto proferido pelo Ministro Moreira Alves no julgamento do RE n. 146.733-9: “De efeito, a par das três modalidades de tributos (os impostos, as taxas e as contribuições de melhoria), a que se refere o art. 145 para declarar que são competentes para instituí-los a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, os arts. 148 e 149 aludem a duas outras modalidades tributárias, para cuja instituição só a União é competente: o empréstimo compulsório e as contribuições sociais, inclusive as de intervenção no domínio econômico No tocante às contribuições sociais - que dessas duas modalidades tributárias é a que interessa para este julgamento -, não só as referidas no art. 149 - que se subordina ao capítulo concernente ao sistema tributário nacional - têm natureza tributária, como resulta igualmente, da observância que devam ao disposto nos artigos 146, III, e 150, I e III, mas também as relativas à seguridade social previstas no artigo 195, em conformidade com o disposto no §6º deste dispositivo, que, aliás, em seu § 4º, ao admitir a instituição de outras fontes destinadas a garantir a manutenção ou expansão da seguridade social, determina se obedeça ao disposto no art. 154, I, norma tributária, o que reforça o entendimento favorável à natureza tributária dessas contribuições sociais” (RE n. 146.733-9 - Pleno, j. 29.6.92).
5.764/71, pois se trata de negócio jurídico que não implica em operação de mercado, nem contrato de compra e venda de produtos e mercadorias. Com efeito, todos os incisos e alíneas do indigitado artigo 2º apenas explicitam de forma mais clara o sentido e alcance do ato cooperativo. Mas, como oportunamente afirmado, o legislador sequer precisava ter se preocupado com isso. O ato cooperativo pela sua própria essência não é uma operação de mercado ou contrato de compra e venda de produtos e mercadorias.
Por fim, a única vantagem que se pode contabilizar a favor das sociedades cooperativas é a previsão do artigo 3º, que impõe a não incidência de impostos e contribuições federais sobre o seu patrimônio. Esta previsão, por mais que trate o caso como sendo de não incidência, a bem da verdade é uma isenção, pois, por intermédio de um comando normativo superior, autorizado pelo constituinte, mutila parcialmente as regras-matrizes de incidência das normas jurídicas tributárias editadas pela União, Estados, Municípios e Distrito Federal, a ponto de desonerá-las da cobrança de impostos e contribuições federais sobre o seu patrimônio.
Este artigo 3º confirma os argumentos lançados alhures, no sentido de que o adequado tratamento tributário poderá ser uma isenção nacional concedida pelo legislador complementar, sobre as situações que entender necessárias para equilibrar o tratamento jurídico tributário das sociedades cooperativas em relação às demais sociedades, especialmente as mercantis.
Portanto, a lei complementar poderá outorgar isenções às cooperativas, sendo que os entes políticos não poderão alegar qualquer violação ao pacto federativo, eis que existe autorização do constituinte para a edição de norma geral tributária, de competência do Congresso Nacional, na qualidade de representante do Estado brasileiro.