Na modernidade, segundo Heidegger, o desencobrimento da técnica moderna, o império da tecnociência, o centrismo do homem no todo do ente, o niilismo, a devastação da terra, não se restringe ao ocidente europeu. Entretanto, a partir do ocidente europeu, enquanto expressão da metafísica da vontade de poder, tal desencobrimento abrange, todo o globo terrestre suprimindo todas as singularidades culturais e ambientais no planeta. Comunidades tradicionais da Amazônia, da Ásia, África ou de qualquer outra parte da Terra, integradas com o meio ambiente natural, são lançadas no jugo da técnica moderna em um processo sempre crescente de ocidentalização ou tecnização em todos os cantos do globo. Tal acontecimento é chamado por Heidegger em alguns textos de planetarização da técnica e em outros de europeização do mundo. Algo que se iniciou na Grécia Antiga com a metafísica, ganhou proporções sem medidas com a técnica moderna e se expande por todo o planeta. Na citação que se segue, Heidegger na primeira das suas respostas que dá em carta às
50 O fim da filosofia é redução da filosofia e da linguagem em análise lingüística. Entretanto, o fim da
indagações de Kojima, o novo amigo japonês, expõe como concebe tal ocidentalização no mundo.
Que significa europeização do mundo?
_A europeização do mundo representa algo que partiu da Europa e irresistivelmente se espalha pela terra inteira. Como o nome “Europa” designamos o Ocidente moderno. A modernização é a derradeira época de sua historia até hoje. Esta Era pode ser caracterizada sob múltiplas perspectivas se a consideramos historicamente. Se, entretanto, quisermos considerar o elemento “europeu”, sob o ponto de vista de seu domínio planetário, devemos perguntar: de onde vem este domínio? De que retira seu estranho poder? Qual elemento que nele se apresenta dominador? Como sua característica mais evidente se apresenta a técnica moderna. Ao menos se atentarmos para a relação do homem com a natureza. Em sua esteira se plasmou a moderna sociedade industrial (HEIDEGGER, 1972, p.13).
A ocidentalização ou europeização do mundo diz respeito ao destino do ocidente europeu, ao destino metafísico comum que vivemos na modernidade, e que se espalha por todo o planeta tomando parte de tudo em todos os modos de ser do real. A ocidentalização do mundo designa a expansão do fenômeno intrínseco à história ocidental, a saber, a metafísica da vontade de poder. A algo que acontece no ocidente e que há muito vem tomando conta de todo o globo terrestre sobre o aspecto da técnica moderna.
Segundo Hans Jonas, refletindo sobre a ambivalência da técnica (seus paradoxos e grandeza), a ocidentalização é um processo inexorável à tecnologia e assim aponta para a: “crescente sede de energia de uma civilização global, que confronta o desaparecimento das fontes convencionais” (JONAS, 1999, p. 415). A ocidentalização diz respeito à extensão, expansão e domínio da tecnologia a todas as pessoas em todas as sociedades na modernidade. Algo completamente novo, e que por isso, requer respostas igualmente novas:
Temos que acrescentar agora que hoje toda utilização de uma capacidade técnica pela sociedade (o indivíduo singular não conta mais aqui) tende a crescer em "em larga escala". A técnica moderna está interiormente instalada para o emprego em larga escala e, nesse processo, torna-se talvez demasiado grande para a extensão do palco sobre o qual ela se passa - a terra - e para o bem-estar dos próprios atores - os homens. Isso, pelo menos, é certo: ela e suas obras se propagam sobre o globo terrestre; seus efeitos cumulativos se estendem possivelmente sobre inúmeras gerações futuras... O ponto relevante aqui é que a ingerência de dimensões remotas, futuras e globais em nossas decisões cotidianas, prático-mundanas é uma novidade ética, de que a técnica nos encarrega; e a categoria ética que é principalmente chamada ao primeiro plano por esse novo fato se chama responsabilidade. (JONAS, 1999, p. 411-12).
A técnica moderna é a principal fórmula à concretização da ocidentalização no mundo entendido como a força do destino do ser na presente época. A técnica moderna é a última e mais supressora e avassaladora forma do domínio que se desdobra hoje em todas as partes do globo (e mira a todas as partes do cosmos). Podemos acompanhar tal processo: 1. Na ciência moderna e na sua calculabilidade sobre a natureza, na matematização que planeja e reduz a natureza, na física moderna. 2. No humanismo, o homem como sujeito ocupando o centro de todos os entes, que objetiva e assenhora-se da realidade, bem como, no auge desse processo, na transformação do homem em matéria prima de sua vontade. 3. No modo de produção tecnológico e na sua exploração do meio ambiente natural. (Aqui pontuo a devastação ambiental, o desmatamento da Amazônia, a poluição dos seus rios, os grandes e fascinantes projetos de desenvolvimento tecnológicos para a Amazônia). 4. A supressão das experiências originárias de comunidades integradas ao meio ambiente natural por parte do fascínio da técnica. 5. No controle produtivo e na sua transformação do todo do ente em fundo de reserva calculável. 6. Na artificialidade e na “maquinação” da realidade. 7. Na supressão das fronteiras nacionais e regionais. 8. Nas guerras mundiais, nas suas causas, nos seus desdobramentos e nas suas conseqüências para a Terra; bem como no uso de novas e nocivas armas com caráter científico e tecnológico.
A ocidentalização do mundo está no descerramento da essência da técnica moderna sobre a totalidade dos entes em todo o planeta. Tal acontecimento é o destinar da essência da técnica moderna no mundo.
A representação corrente da técnica interpreta-a como a aplicação das forças da natureza. Na configuração desta ciência descobre-se o começo da modernidade ocidental, isto é, do elemento “europeu”. A partir de onde se determina a característica própria da moderna ciência da natureza? Esta visa um saber que assegura a calculabilidade prévia dos acontecimentos naturais. Somente o que pode ser previamente calculado vale como sendo. O projeto matemático da natureza que se realiza na física teórica e o questionamento experimental da natureza, que é próprio do projeto, exigem, sob certos pontos de vista, contas dela. A natureza é provocada, isto é, interpelada a mostrar-se como objetividade calculável. /Se pensarmos a técnica a partir da palavra grega “techne” e de seu contexto, técnica significa: ter conhecimentos na produção. “Techne” designa uma modalidade de saber. Produzir quer dizer: conduzir à sua manifestação, tornar acessível e disponível algo que, antes disto, ainda não estava aí como presente. Este produzir, vale dizer o elemento próprio da técnica, realiza-se de maneira singular, em meio o Ocidente europeu, através do desenvolvimento das modernas ciências matemáticas da natureza. Seu traço básico é o elemento técnico, que pela primeira vez apareceu, em sua forma nova e própria, através da física moderna. Pela técnica moderna é descerrada a energia oculta na natureza, o que se descerra é transformado, o que se transforma é reforçado, o que se reforça é armazenado, o que se armazena é distribuído. As maneiras pelas quais a energia da natureza é assegurada são controladas. O controle, por sua vez, também deve ser assegurado./ Como elemento característico deste poder, mostra-se o fato de que constantemente ultrapassa, temporal e espacialmente, qualquer grau de domínio. O progresso dos conhecimentos científicos e das investigações pertence à própria lei da interpelação produtora. De nenhum modo isto é meta primeiramente fixada pelo homem. Como conseqüência do domínio deste poder da interpelação produtora desaparecem (temporariamente ou para sempre?) as culturas nacionais que se desenvolveram através de um povo com sua paisagem típica. E em seu lugar se constitui e cultiva uma civilização planetária. Falar de uma europeização do mundo atinge, sem dúvida, algo certo. Mas permanece uma expressão superficial e de cunho histórico-geográfico, enquanto deixamos de meditar sobre o elemento próprio do poder da interpelação produtora. Isto impõe que perguntemos de nosso pensamento e sua tradição se estão aptos a escutar o apelo deste poder e a dizer adequadamente a interpelação produtora que nele impera (HEIDEGGER, 1972, p.14- 15).
Entretanto, como fugir a este destino? Será que todos são obrigados a se “europeizar”, “tecnificar”? Se a essência da técnica moderna é o que destina o homem na contemporaneidade, então este está impossibilitado de ser livre? Como Heidegger
concebe a liberdade dentro deste destino? O homem está preso definitivamente ao destino da tecnologia?
5. A ESSÊNCIA DA TÉCNICA MODERNA, O SEU DESTINAR E A SUA