Em português a palavra “projeto” é utilizada, basicamente, para dois significados. O primeiro é utilizado para descrever futuras ações, normalmente empreendimentos concretizados por realizações pessoais ou por determinadas organizações que visam algum tipo de retorno com tais cometimentos, devidamente planejados ao longo de certo período de tempo. O segundo é utilizado para definir a reunião de informações técnicas, que traduzem uma ideia inicial em informações, por meio de representações gráficas e textuais, normalmente embasadas em normas técnicas, que permitem a concretização da concepção inicial do empreendimento.
Já na língua inglesa há duas palavras distintas para os dois significados citados anteriormente. Com a palavra “design” entende-se o segundo raciocínio, que compreende os documentos gráficos e textuais e com a palavra “project” resta o primeiro significado, ou seja algo que envolve várias etapas além do “design” e, normalmente, tal palavra caracteriza todo o ciclo de vida de um empreendimento. No presente estudo, será utilizada a palavra projeto no sentido de design.
Assim, torna-se necessária a compreensão do que vem a ser um projeto como
design. Primeiramente, em uma visão bastante singela, baseada no contexto da arquitetura,
McGinty (1984, p. 160), de maneira bastante abstrata e simplificada, sugere que o projeto “... é simplesmente a atividade de criar propostas que transformem alguma coisa já existente
meios pelos quais o produto será construído.
No mesmo raciocínio de Noble (1993), Melhado (1994) considera que a função do projeto de uma edificação deva ir além das informações a respeito das características físicas do produto ou ainda da função do mesmo. O autor sugere que o projeto também contemple o processo pelo qual a edificação será construída. Assim, no contexto de que o projeto deve exceder simples informações visuais ou funcionais, Melhado (1994) avalia, primeiramente, que tal atividade pode ser encarada tanto como informação tecnológica quanto como informação gerencial oferecendo suporte às atividades de execução. Além do caráter puramente informativo ou gerencial sobre o produto, o projeto também pode ser entendido como a criação e a racionalização de uma série de decisões que guiarão um determinado problema a uma solução (GALLE, 1996).
Em sua tese de doutorado, Melhado (1994) analisa minuciosamente questões sobre projeto, avaliando, principalmente, sua qualidade, seus conceitos e funções. O autor faz várias considerações, como mostrado anteriormente, e, considerando o projeto como um todo sem distinção de fases, Melhado (1994, p.195) considera que o projeto é:
atividade ou serviço integrante do processo de construção, responsável pelo desenvolvimento, organização, registro e transmissão das características físicas e tecnológicas especificadas para uma obra, a serem consideradas na fase de execução.
O conceito de projeto proposto pelo autor reflete a questão de que todas as informações contidas na etapa de concepção do empreendimento implicam em consequências na fabricação, conforme afirmação de Souza e Abiko (1997, p.20), onde “as
soluções adotadas na etapa de projeto têm amplas repercussões em todo o processo da construção e na qualidade do produto final a ser entregue ao cliente”. Além disso, pode-se
dizer que as possibilidades de mudança no próprio projeto, diminuem conforme o avanço do desenvolvimento do mesmo, ou seja, quanto mais tempo se passa, mais se conhece sobre o produto e menores são as decisões tomadas, como mostra a Figura 51. Com base nesta Figura, Chang; Silva e Bryant (1999) asseguram que as decisões de projeto devem ser
tomadas nas fases iniciais do processo, quando o produto ainda está sendo concebido e ainda existem muitas dúvidas sobre o que virá a ser o resultado final.
Figura 51: Comportamento do processo de projeto em relação ao desenvolvimento do produto e possíveis mudanças ao longo do tempo (Adaptado de CHANG; SILVA; BRYANT, 1999)
Para Fabrício; Baía e Melhado (1999) o projeto é “um processo colaborativo não
somente entre as várias especialidades, mas também com a participação dos demais envolvidos na produção, manutenção e uso dos edifícios”. Nesta citação, os autores
também avaliam a necessidade de consideração, em projeto, dos meios pelos quais a ideia, melhorada progressivamente pelo refinamento das informações, será materializada de forma racionalizada. Além disso, a afirmação destes autores sugere que o projeto não deve ser uma etapa isolada no empreendimento, mas sim uma ação colaborativa entre os responsáveis por cada fase.
Assim, Novaes (2001) considera que o projeto pode ser abordado a partir de dois enfoques diferentes. O autor sugere que uma abordagem pode ser entendida como sendo estática, na qual o projeto é compreendido como um produto formado por informações gráficas e descritivas elaboradas com linguagem técnica apropriada. A segunda abordagem indicada por Novaes (2001) refere-se ao projeto como atividade dinâmica, que confere ao mesmo um sentido de processo, pelo qual as soluções entre diferentes etapas do empreendimento são elaboradas e devem ser compatibilizadas.
Peña (2003) sugere que devido a alterações de mercado visando à modernização dos processos através da adoção de conceitos como os de construtibilidade, desempenho, produtividade, qualidade entre outros aspectos, novos requisitos foram conferidos ao projeto. Baseado em tais conceitos para tentativas de modernização do setor, o projeto
Flexibilidade Tempo Conhecimento sobre o Produto D ec is ão d e P roj eto
estende para a produção através de informações e subsídios.
Para Galle (2008) o projeto é entendido como a produção de representações de projetistas segundo uma ideia inicial que permite que um fabricante ou construtor produza determinado objeto. Visser (2009) também percebe que o projeto pode ser qualificado como sendo a construção de representações que, de maneira geral, podem ser abordadas como a solução de problemas, sob a ótica de que em cada empreendimento surgem problemas (execução, funcionamento, qualidade etc.) diferentes, e que os projetos, por sua vez, deverão solucionar.
Analisando tais definições e conceitos, nota-se que o projeto é um processo intelectual que visa subsidiar a produção de um objeto por meio de duas maneiras: através das características físicas do produto (projeto do produto) e com informações a respeito dos meios pelos quais a produção deste objeto será atingida (projeto do processo). Ou seja, o projeto é um dos processos que compõem um empreendimento, sendo caracterizado pela reunião de informações gráficas e textuais que fornecem as condições necessárias, tanto para as características físicas do produto quanto para os meios pelos quais o fruto da concepção intelectual será produzido.
No caso de obras em LSF, a pré-fabricação dos elementos sugere que todas as atividades de construção, bem como as características físicas de cada elemento utilizado nos sistemas deverão ser contempladas nos projetos, visto que, obviamente, elementos pré- fabricados não admitem imprevistos no canteiro de obras, uma vez que mudanças na forma física destes elementos e na configuração arquitetônica da edificação (que originam interrupções no processo de produção) apontariam falhas no gerenciamento do empreendimento e resultariam em prejuízos.
Assim, para construções em LSF (e também para a Construção Civil como um todo), o projeto passa a ser um dos processos que formam o ciclo de vida da edificação. No entanto, diferentemente do que é praticado atualmente, os projetos de residências unifamiliares em LSF devem contemplar o processo de produção da edificação, e, mais especificamente, da montagem. Desta forma, é pertinente caracterizar o atual processo de projeto praticado na Construção Civil bem como apontar as práticas ideais que subsidiariam a construção de habitações unifamiliares em LSF.
3.2 CONTEXTUALIZAÇÃO DO PROCESSO DE PROJETO NA CONSTRUÇÃO