O casamento envolve rompimentos e continuidades de modelos familiares. É sempre assunto para as camadas sociais, não sendo diferente para as depoentes, que relatam como os padrões, as crenças e os rituais da família de origem estão presentes nas famílias que constituíram.262
Fátima, sobre seu casamento, comenta: “Eu me casei com 19 anos. Eu conhecia o meu marido há quatro anos. Nos conhecemos num cinema em Tucuruvi, assistindo ‘As aventuras de Omar Kayan’, onde Cornel O’Neil era o ator predileto.” Assim, percebe-se que há tempos as sessões de cinema, exibindo filmes de aventura, romance ou drama, proporcionam flertes entre seus espectadores, os quais, muitas vezes, culminam em casamentos.
O meu marido era do Tucuruvi mesmo, a minha sogra era filha de italianos e o sogro filho de portugueses. Ficamos noivos um ano de aliança, nos casamos com a cara e a coragem porque não tive como economizar um tostão, os meus pais não me ajudaram em nada, porque não tinham como. Eles me ajudaram depois de casada no amor, no carinho e na orientação.
O meu casamento foi maravilhoso e é até hoje, graças a Deus, ganhei na sorte grande.
Viajamos nas núpcias para a praia do Embaré, em Santos, ganhamos uma semana de presente.
Quando me casei, fui morar com a minha sogra, no Tucuruvi, morei dezessete anos e meio. Em 15 de dezembro, fui para a minha casa, onde estou há vinte e cinco anos.263
O marido de Fátima, por coincidência, também tem raízes portuguesas, já que seu pai era filho de portugueses, enquanto sua mãe era filha de italianos. Depois do casamento, o casal foi viver em uma casinha construída nos fundos da casa dos pais do noivo, em Tucuruvi. A família da noiva, com poucos recursos financeiros, não pôde contribuir para que ela adquirisse a sua própria residência,
262
MUNHOZ, Maria Luíza Puglisi. Casamento (Ruptura ou continuidade dos modelos familiares). 2.ªed. São Paulo: Expressão e Arte, 2001.
263
mas, conforme a depoente reforça, seus pais puderam auxiliá-la no que acreditava ser o mais importante, “no amor, no carinho e na orientação”.
Quando nos casamos, o meu marido tinha vinte e dois anos, trabalhava por conta própria, ele tinha um táxi, depois um caminhão, com o qual fazia entregas. Foi por causa dele que eu voltei a trabalhar porque o roubaram e o meu marido teve que “engolir” o meu retorno ao trabalho, porque precisávamos. Cuidar dele e da nossa casa foi o que os meus pais me transmitiram e assim seria um bom casamento. O sexo é um complemento do casamento, em primeiro lugar é o amor, em segundo o sexo. Infelizmente, eu não tenho filhos, mas adotei todos os meus sobrinhos, de coração.264
Com o advento do casamento, Fátima, que passou por todas as dificuldades rotineiras que caracterizam o início da vida a dois, foi morar com os sogros, mas, com o tempo, pôde adquirir a sua própria casa. Depois que o caminhão de seu marido foi roubado, a jovem recém-casada decidiu retornar ao trabalho, no intuito de saldar a dívida do financiamento do veículo. Em seu depoimento, ela acrescenta que o marido “teve que engolir” o seu retorno ao emprego, podendo-se supor que ele também compartilhava da mentalidade patriarcal265 de que a mulher deveria apenas cuidar do lar e da prole.
A entrevistada ressalta também: “O sexo é um complemento do casamento, em primeiro lugar é o amor, em segundo o sexo.” Milan acredita que tal afirmativa é feita “porque de certa forma ama-se através do outro, porém também apesar dele e até a sua revelia”.266 Nesse sentido, pondera-se que, no casamento, homem e mulher são destinatários do desejo em si e no outro, fundindo-se no amor-paixão-desejo entre os amantes, justificando que o amor sem objeto-desejo é o próprio amante sem amor.
264
Fátima, 61 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 23/12/2005.
265
Patriarcal porque provém do pacto original tanto sexual como social; é social no direito político dos homens sobre as mulheres e sexual no sentido do acesso sistemático aos seus corpos (no sentido privado), conforme PATEMAN. In: SAFFIOTI, Heleieth Iara Bongiovani. Gênero, patriarcado, violência. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2004. p.54.
266
Clarinha, por sua vez, sobre seu casamento, declara:
Eu me casei com 22 anos, há quatro anos, conhecia o meu marido. O conheci quando saía da igreja, como filha de Maria. Havia um palco no teatro da Igreja, onde se encenavam as peças. Nesse tempo, o meu pai me deixou um pouco mais solta, íamos eu, a minha irmã e as colegas, podíamos ficar até nove ou dez horas, mas ele sempre estava na avenida esperando por nós. Então, o meu marido estava ensaiando uma peça chamada “Canção para Bernadete”, que contava a história de Santa Bernadete. Ele fazia o papel de padre, ele era o padre Beira Mar. Eu, com as outras meninas, cheguei perto dele e falei: “Ah! Padre Beira Mar, me dá um santinho?” E ele, naquela batina, me deu o santinho, mas eu nem pensava em namorar. Era um domingo, depois da missa, quando voltávamos para casa, os rapazes que eram os Congregados Marianos, um deles chegou para mim e disse: “Tem alguém que te acha muito simpática.” E eu falei: “Que bom né!” E ele: “É verdade sim.” Nisso, calhou do meu marido passar, e ele o chamou, falando: “Toninho, vem aqui a Clarinha e você, você e ela.” Assim, começamos a namorar, depois noivamos durante um ano e casamos.267
A igreja, ao promover os encontros de jovens, denominando as moças de “Filhas de Maria” e os rapazes de “Congregados Marianos”, os aproximava, motivando a formação de laços de amizade e até de relacionamentos mais íntimos, como o namoro, o noivado e o casamento. Tais aproximações se efetivavam durante as dramatizações e os festejos promovidos pela igreja no intuito de elevar o número de famílias que freqüentavam a paroquia.
Ele morava ali no Tucuruvi, só que ele nasceu no interior de São Paulo. Era de família portuguesa também e as posses eram similares às da minha família, tinham uma casa e todos trabalhavam. Eu não pude economizar nada para o casamento, porque o meu pai ficava com todo o meu pagamento, o Antônio não, ele tinha o dinheiro dele, era mais solto, mais livre podia contar com o que ganhava, eu já não.
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Clarinha relata que seu futuro esposo também era de origem portuguesa e observa que os pais dele tinham um número semelhante de “posses” em relação à sua família. Ressalta, ainda, que o seu noivo “tinha o dinheiro dele, era mais solto, mais livre, podia contar com o que ganhava”, ao contrário dela. Por este comentário, pode-se deduzir que a jovem gostaria de também ter podido manipular os seus ganhos, embora se submetesse às ordens do seu pai, uma vez que a ele entregava todo o salário recebido.
Os meus pais fizeram tudo, a festa, o enxoval, a decoração da igreja, mas como eu era Filha de Maria a gente não pagava a igreja e nem o Congregado Mariâno. Casei-me na Igreja Menino Jesus, de Tucuruvi. Entrei na Igreja às seis horas da tarde. As filhas de Maria me conduziram até Nossa Senhora, porque depois eu passaria a ser Filha de Maria Casada, voltamos para o corredor central da igreja e o padrinho junto com as Filhas de Maria me conduziram até o altar. Depois da cerimônia, fomos para o fotógrafo e para casa, onde ocorreria a festa, e todos os parentes e amigos já estavam lá. Foi uma linda festa, tinha leitão, cabrito assado, doce, bolo, chope, vinho, os meus pais fizeram tudo, antigamente era assim o meu pai entrava com os comes e o do meu marido com a bebida. A nossa lua de mel foi em Santos.
Neste fragmento de seu depoimento, Clarinha comenta sobre os festejos do seu matrimônio e, por conseguinte, sobre o empenho dos seus pais para que a cerimônia fosse suntuosa. Descreve, em seguida, os pormenores do cerimonial, que contou com a formalidade na igreja para a sua passagem de “Filha de Maria” solteira para “Filha de Maria” casada, com a benção nupcial realizada pelo padre e com a festa, que, por sua vez, incluiu diversos doces, salgados e bebidas. Depois disso, os noivos, enfim, viajaram em lua de mel.
Depois do casamento, primeiro, fui morar no Alto de Santana, mas no poço deu formigueiro, mudamos para o Tucuruvi, no terreno do meu sogro, onde nasceram os dois mais velhos. Mudamos para Vila Mazzei em frente da Igreja do Menino Jesus. Engravidei da menina, depois fui para o Jardim Peri Peri, onde nasceu a outra menina e ficamos um bom tempo lá, os
meninos foram até para a escola. Depois, fomos para o interior, em Tapiraí, onde nasceu o meu caçula. Nessa época, o meu marido estava desempregado, aí, um colega dele de São Paulo arrumou um emprego para ele, voltamos para cá, compramos este terreno, construímos a nossa casa, onde vivemos. O meu marido trabalhou de bancário, vendedor de óleo da Cestol, promotor de vendas de uma Companhia que utilizava avião para ir ao interior fechar os negócios, no departamento pessoal da União Carbide do Brasil e na Kibon.
Clarinha, ao descrever as dificuldades que vivenciou, as diversas mudanças de moradia, o desemprego do marido e o nascimento dos filhos, revela a permanência do companheirismo, da lealdade e da esperança em sua relação com o marido, como no ciclo vivenciado pelos avós e pais que vieram para o Brasil.
Nesse ínterim, voltou a estudar, formou-se advogado, trabalhou como autônomo e se aposentou. Ele sempre achou um absurdo a mulher trabalhar, até hoje ele pensa assim.
Os meus pais sempre me transmitiram o seguinte: que deveria respeitar e obedecer ao marido, fazer as coisas como manda a lei. Assim, a lei manda a mulher ficar em casa, trabalhar e cuidar dos filhos, então, eu fiz o que ela mandou.268
O respeito às normas ditadas pelos pais e avós permaneceu, mesmo inconscientemente, impregnado em suas atitudes. Nesse sentido, nota-se que Clarinha auxiliou o seu marido a concluir o curso técnico em Contabilidade e o Ensino Superior em Direito, enquanto ela manteve-se à “sombra”, zelando por ele e pelos filhos, sem projetos próprios, apenas acompanhando o cônjuge.
Viga também comentou sobre como conheceu seu marido:
Fui ao cinema com a Guiomar, que era uma velha de vinte e oito anos, porque eu tinha só vinte e dois. Na sala, não havia muitos lugares vazios, então, o lanterninha ajudou a localizar os vagos, mas eu acabei ficando longe da Guiomar, fiquei sentada perto de
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um moço que não parava de conversar comigo e eu não conseguia prestar atenção no filme.269
Revela-se, assim, que o cinema era um propulsor de relacionamentos amorosos. Para a depoente, aquela sessão em especial representou de imediato certo desconforto, uma vez que ela “não conseguia prestar atenção no filme” porque o moço não parava de conversar.
Depois, vagou mais lugares e a Guiomar sentou-se na mesma fileira que eu, aí, o moço louro de olhos azuis falou que queria namorar comigo, falei que o meu pai era um português bravo e que não permitia a gente namorar na rua e a Guiomar confirmou tudo, mas ele foi muito insistente e eu o convidei para a festa de Santo Antônio, porque o meu pai era devoto dele, e fazia aquela festança, aí ele chegou com uma camisa azul clarinha, ele tinha um bigodinho que era a coisa mais linda, eu o apresentei como um amigo aos meus pais. Porém, o meu pai falou: “Você está interessado por bem ou por mal?” E ele respondeu: “Por bem, eu quero namorar a sua filha, estou pensando até em casamento.” Depois de um tempo, começamos a namorar e, em um ano, namorei, noivei e casei, porque o meu pai exigia que namorasse em casa. Me casei no dia 23 de julho de 1956, ele era filho de italiano, trabalhava de tintureiro, a nossa lua de mel foi em Poços de Caldas.
Nem a presença de Guiomar, que, vendo o cinema mais vazio, sentou-se ao lado de Viga, intimidou o rapaz louro. Então, para controlar a situação, a jovem afirmou ao moço que seu “pai era um português bravo” e que não permitia namoros fora de casa. No entanto, diante da insistência do cortejador, Viga o convidou para os festejos em homenagem a Santo Antônio, do qual o pai era devoto.
No dia marcado, o jovem compareceu ao encontro, o que Viga relata demonstrando o encanto que sentiu naquele momento e elencando os atributos físicos do rapaz. Seu pai, entretanto, fez questão de demonstrar sua autoridade sobre a filha e, de certa forma, tentou atemorizar o rapaz. Por conta da rigidez do
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pai de Viga, o casal acabou “namorando, noivando e casando em um ano”. Sobre o cerimonial religioso ou civil a depoente não tece comentários, mas expõe que a sua “lua de mel foi em Poços de Caldas”.
Ele sempre viajou muito, foi para a Europa, sozinho, e uma outra vez levou os meninos, foi para o Amazonas, eu só fui uma vez com ele para o Rio de Janeiro, para o casamento de uma sobrinha. Eu morei um tempo na Vila Carrão, depois morei com o meu pai, depois compramos um ponto de pensionato para rapazes no Aeroporto de Congonhas, logo ele começou a trabalhar como aeroviário na VARIG, e eu passei a administrar a pensão. Depois, ele se aposentou, vendemos o ponto comercial, compramos a nossa casa aqui em Descalvado. Há quatorze anos, fiquei viúva, mas vivo bem em companhia da minha neta que resolveu ficar comigo.270
Viga, nesta parte de seu depoimento, reforça a figura da mulher como esposa, trabalhadeira, astuta nos negócios e zelosa do lar, dos filhos e do companheiro, que se reservava às funções da casa e aos negócios, enquanto que o marido e os filhos realizavam viagens a passeio pela Europa e pelo Amazonas. Depois de ficar viúva, a depoente conta que permaneceu no lar, adquirido pelos esforços dela e do seu esposo, agregando a neta como companheira.
Nota-se, portanto, que as entrevistadas, em sua maioria, seguiram determinados padrões de comportamento até se casarem. Primeiro namoraram, em seguida noivaram e depois realizaram a cerimônia matrimonial. Dessa forma, seguiram a tradição familiar e a cultura lusitana, valorizando certos princípios de linhagem, como a dependência, o recato, a submissão e o companheirismo. Já ao marido cabia o papel de provedor do lar; mesmo que a esposa exercesse uma atividade rendosa, a figura masculina era ressaltada como a principal.
Fátima, ao refletir sobre sua vida desde o momento em que conheceu o marido, faz referência às suas origens, reforçando não intencionalmente o traço
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genuíno do ser português lutador, trabalhador, religioso, persistente e cumpridor de seus deveres. Comenta que seus pais não puderam colaborar financeiramente para a sua cerimônia de casamento, mas relata: “Eles me ajudaram depois de casada no amor, no carinho e na orientação. [...] Cuidar dele e da nossa casa [...] e assim seria um bom casamento. O sexo é um complemento do casamento, em primeiro lugar é o amor, em segundo o sexo.”
Fátima representa a reclusão feminina, já que se dedicou a cuidar do espaço privado (o lar), buscando ser competente como dona-de-casa e, portanto, procurando ser a esposa ideal271. Dessa maneira, reafirmou o que lhe foi transmitido pelos pais e a estes pelos seus pais, mas não poderá propagar os seus valores a descendentes, uma vez que, conforme relata, não tem rebentos: “Infelizmente, eu não tenho filhos.”
Os pais de Clarinha se empenharam na realização do seu matrimônio. No entanto, não ofereceram ajuda financeira ao jovem casal, o que para ela não gerou ressentimentos, já que lembra com felicidade da cerimônia de despedida de Filha de Maria solteira para Filha de Maria casada, do padrinho que a conduziu ao altar, da fotografia tirada, do banquete, dos convidados, do enxoval e da viagem de núpcias. De certa forma, a união das duas famílias de origem portuguesa refletiu a indissolubilidade do matrimônio abençoado pela Igreja. Quanto à festa de casamento, ressalta como era feito o acordo entre as famílias:
“[...] antigamente era assim, o meu pai entrava com os comes e o do meu marido
com a bebida.”
Clarinha comenta, ainda, toda a trajetória profissional do marido, incluindo a continuidade do estudo, a formação universitária e a aposentadoria. Percebe-se, nisso, um investimento para que as conquistas do casal fossem plenas.
271
A esposa, embora estivesse ao seu lado em todas as conquistas e dificuldades, permanecia oculta, o que pode ser compreendido como mais um traço genuíno culturalmente adquirido. A depoente, assim, reforçava a frase:
“Fizeram-se notadas pelo ‘saber vasto e profundo’, sempre se mantendo à
sombra e no silêncio.”272 A ela cabia gerar e educar os filhos, mantendo-os sempre junto de si e zelando pelo futuro da prole.
Conforme depoimento descrito anteriormente, Clarinha comenta: “[...] os meus pais sempre me transmitiram o seguinte: que deveria respeitar e obedecer ao marido e fazer as coisas como manda a lei. Assim, a lei manda a mulher ficar em casa, trabalhar e cuidar dos filhos, então, eu fiz o que ela mandou.” Em tal comentário nota-se a permanência da figura paterna em relação à submissão; primeiro ela deveria obedecer ao pai e depois ao marido. No entanto, a depoente, de alguma forma, transmite também um desejo de mudança para os filhos, ao mesmo tempo em que sabe que a mãe contém a filha em si mesma e cada filha contém a mãe.
Mais adiante se poderá voltar a esta abstração, conforme Clarinha continua o seu depoimento. Nesse momento, encerra-se esta análise com a certeza de que as depoentes podem ser consideradas como aquelas que passavam e ninguém via, mas que, por amor aos pais, ao marido e aos filhos,
mantiveram vivas na lembrança as imagens de suas famílias.273
A espontaneidade que Viga apresentou em sua entrevista sugere que esta filha de imigrante português foi criada em um ambiente sem austeridade paterna. Em suas lembranças, demonstra que seu pai foi tão presente em sua vida que se torna possível elaborar imagens diferenciadas em relação a ele. Contudo, uma se evidencia como severa e determinante quando se lê estes entrechos:
272
BERRINI, Beatriz; SCARANO, Julita. “Imigrante Português / Empresário Paulista.” In: Câmara Portuguesa de Comércio de São Paulo (1912-1992). São Paulo: Gráfica Brasiliana, 1992. p.176.
273
BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade (Lembranças de Velhos). São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p.423-433.
[...] o moço louro de olhos azuis falou que queria namorar comigo, falei que o meu pai era um português bravo e que não permitia a gente namorar na rua e a Guiomar confirmou tudo, [...] Porém, o meu pai falou: “Você está interessado por bem ou por mal?” [...] Em um ano, namorei, noivei e casei porque o meu pai exigia que namorasse em casa.
Embora o pai se mostrasse arrojado ao deixar a família de origem em Portugal, ele próprio, ao constituir a sua família, manteve viva as lembranças de certas normas de conduta referentes ao comportamento de um rapaz para com uma moça, não permitindo que algum aventureiro ficasse de brincadeira com a filha. Pode-se supor que o marido de Viga tinha uma formação menos rígida que a do seu pai, pois descendia de italianos. Assim, possibilitou que a esposa enveredasse para o comércio e, com o seu tino herdado dos avós maternos, conquistasse a sua clientela com habilidade, sendo simpática e gentil, ouvindo pacientemente reclamações de toda ordem e aceitando os gracejos, com trabalho e poupança.274
Com suas economias, Viga auxiliou as viagens do marido e dos filhos para a Europa e o norte brasileiro e comprou, junto com seu cônjuge, sua casa no interior. Ao ficar viúva, continuou a administrar a pensão do esposo e manteve à sua volta os filhos, depois, o genro, as noras e, finalmente, a neta.
Já Glorinha, diferentemente de todas as outras entrevistadas ou, ao menos, mais intensamente que elas, demonstra superação de valores tradicionais e aceitação de novas concepções sociais em seu depoimento:
O Jaime tinha um centro. Eu e a minha mãe o freqüentávamos,