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Ainda que a formação abranja toda vida profissional do professor, nela podem ser reconhecidas diversas etapas ou níveis. Esta distinção é importante, porque cada etapa representa uma problemática diferente quanto aos objetivos, conteúdos e metodologia.
Essas fases detalhadas por Sharoon Feiman apud Garcia (2009) envolvem o aprender e o ensinar do professor e estão classificadas da seguinte forma:
1) fase de pré-treino: são as experiências de ensino que o docente teve antes de ingressar no ensino superior. Essas experiências podem ser adotadas de forma acrítica e exercer influência de forma inconsciente sobre o professor;
2) fase de formação inicial: preparação formal dos alunos no ensino superior;
3) fase de iniciação: são os primeiros anos de trabalho no magistério como professor iniciante;
4) fase de formação permanente: abrange todas as atividades de formação proporcionadas pelas instituições ou por ação do próprio professor para seu aperfeiçoamento profissional.
Destaca-se nesse contexto a fase da formação inicial relacionada aos cursos de ensino superior nas universidades, voltada a preparar o profissional para atuar na educação básica.
É essa formação inicial que, de acordo com Cunha (2010), fornecerá a base fundamental ao docente, no sentido de possibilitar recursos para o seu desenvolvimento profissional. Ainda, segundo Cunha (Ibid.), uma adequada formação inicial torna sólida a trajetória do professor. Durante seu percurso, diferentes reformas e ampliações do conhecimento serão realizadas, mas partindo sempre da aprendizagem de base. A autora aprofunda sua contribuição, afirmando que a categoria de professores está necessitada de uma formação que compreenda o significado da profissionalização como a associação de conhecimentos ao compromisso e à responsabilidade social.
Com o intuito de enfatizar a importância da formação continuada de professores diante do enfrentamento da violência doméstica contra criança, considera-se proveitosa a discussão sobre a formação inicial de professores, compreendendo que a formação adequada nos cursos de licenciatura torna a trajetória do professor mais sólida e possibilita que os futuros professores agreguem conhecimentos das disciplinas ministradas ao compromisso e à responsabilidade social com a temática da violência doméstica contra criança.
Em pesquisa realizada por Azevedo e Guerra (2011), com 403 estudantes do último ano de licenciatura de instituições públicas e privadas do município de São Paulo, por meio de questionário, na versão com imagens e sem imagens de violência doméstica contra criança (VDCA), os dados coletados permitiram chegar à conclusão de que:
[...] a RESISTÊNCIA para tratar o tema em sala de aula provavelmente dita raízes em ATITUDES de sutil desvalorização da VDCA, assim como a consciência do despreparo profissional/pessoal para enfrentá-la. (AZEVEDO; GUERRA, 2011, p.215, grifo do autor).
Na opinião dos estudantes, a maior atribuição de responsabilidade na prevenção da violência doméstica contra criança é dos pais e do governo. Embora a escola seja apontada pelos estudantes pesquisados como uma instituição importante na prevenção desse fenômeno, menos da metade da amostra atribuiu “alta responsabilidade” a essa instituição.
Como a violência doméstica é um fenômeno que aflige crianças e adolescentes e como estes estão inseridos na escola, a responsabilidade em relação à prevenção é de todas as instituições, que a criança ou o adolescente frequentam, sendo a instituição escolar um dos ambientes em que a criança fica mais tempo em relação a outras instituições.
Os estudantes das licenciaturas, apesar de se apresentarem otimistas, segundo Azevedo e Guerra (2011), em relação ao combate à violência doméstica, reconhecendo que é um problema importante e que precisa de medidas preventivas e interventivas, ressaltam que existe receio por parte das pessoas que se envolvem com esse assunto por acreditarem que os agressores não serão punidos.
Nesse contexto, fica evidente o medo que a sociedade e não só o professor têm ao se envolver com esse tema por não ter garantia de que o agressor seja punido. Como esse tema, muitas vezes, não é trabalhado na graduação nem na formação continuada, essa concepção pode perdurar a carreira inteira do docente, levando esse profissional a não se envolver com o problema da violência doméstica, mesmo quando seus alunos são as vitimas.
Esse resultado é corroborado por Faleiros (2006); Vagostello (2003); Granville-Garcia et al. (2009), visto que existe medo de retaliações por parte dos pais das crianças e de se expor às consequências adversas que a notificação possa ocasionar. Essas barreiras são apontadas por esses autores como grandes obstáculos no que diz respeito à denúncia de violência contra crianças por parte dos professores. Dos alunos pesquisados que se recusaram a participar de um programa escolar de prevenção à violência doméstica contra criança, Azevedo e Guerra (2011) destacam que, apesar de reconhecer a validade da causa e do destaque da escola nesse particular, vários obstáculos foram apresentados por eles, como: não se sentem preparados, falta-lhes tempo, causa considerada pouco importante pelo poder público e pela sociedade e que se trata de um problema do governo.
É interessante aqui destacar que o problema da violência doméstica é responsabilidade de todos - poder público, sociedade e escola. Ou seja, é um problema que depende da articulação dessas três instâncias e que não pode ser tratado sem o apoio desse tripé.
Nessa pesquisa, Azevedo e Guerra (2011) apontam a urgência da formação nos cursos de licenciatura sobre o tema da violência doméstica contra criança para que futuros professores saibam lidar adequadamente com a problemática no cotidiano escolar, ao invés de
transferirem essa responsabilidade somente ao poder público ou justificar a não existência de tempo para trabalhar o assunto. Essas justificativas contribuem para a morosidade na agilização do processo de notificação por parte dos profissionais da educação. Por isso, uma discussão aberta e crítica nas universidades a respeito de suspeitas, identificações e denúncias são fatores importantes para que maior número de casos seja notificado e que esses profissionais desenvolvam um compromisso social no enfrentamento da violência doméstica.
Os alunos que manifestaram aceitar participar da elaboração e aplicação de um programa de prevenção da violência doméstica, segundo Azevedo e Guerra (Ibid.), expressaram, com ênfase, a importância da conscientização e da prevenção a esse tipo de violência.
Nas justificativas declaradas de aceitação, foram encontradas quatro categorias:
a) Necessidade de Programas de Apoio (prevenção, conscientização): prevenção é a melhor solução/ a melhor atitude a ser tomada; poderia conscientizar os pais/ escolas/ governo/ comunidade/ aluno; conscientizar as crianças a não aceitarem e denunciar essa situação/ por medo ou desconhecimento deixam a violência perdurar; as pessoas precisam de incentivo para começar a mudar; a prevenção se inicia através da informação/ conhecer mais os problemas/ buscar informações; a escola pode identificar vítimas/ desenvolver papel importante em detectar o problema e encaminhar a órgãos competentes; oportunidade de mudar a vida da criança que pode se tornar um adulto violento/ pode se tornar um agressor;
b) Necessidade de Ações frente ao problema: se não tenho coragem em denunciar, me torno covarde; quem não concorda aceita o que está acontecendo/ se não faço nada, torno-me cúmplice/ não participar é concordar; precisamos lutar/ fazer algo urgente/ todas as medidas para solucionar/ combater/ todos fazerem a sua parte; devemos nos empenhar porque o governo não toma providências/ do governo nada pode esperar/ apesar da gravidade, o governo não se empenha em trabalhar sério; deve haver parceiras com impressas públicas e privadas para divulgação do programa; deve existir maior divulgação na mídia / uma campanha de esclarecimento em nível nacional veiculada na mídia;
c) Gravidade do problema da VDCA: é grave/sério/ requer atenção/ extrema importância trabalhar esse assunto, tamanha a gravidade/ situação crítica/ cruel; estão mais frequentes/ a frequência é grande/ temos visto tantas agressões físicas e psicológicas; as práticas são alarmantes e persistentes; é um problema que atinge grande parte da população/ grande parte das crianças sofrem violências; é um problema que cada vez mais cresce no Brasil/ vem aumentando cada vez mais; atinge a todos em todos os níveis/ não é só da classe baixa;
d) Envolvimento da Escola: é de responsabilidade do professor possibilitar condições de vida digna aos alunos e à sociedade/ fazer com que tenha acesso a seus direitos como cidadão/ responsável na formação do cidadão/ educar e formar pessoas melhores; a escola deve ter papel ativo na prevenção/ é obrigação da escola trabalhar para a prevenção do problema / papel fundamental; muitas vezes, a criança só tem a escola / não tem ninguém que os ajude/ não pode falar com ninguém; a escola pode contribuir
para fazer denúncias/ tem meios para denunciar/ pode interferir e até acionar órgãos responsáveis; a escola tem grande poder de transformação/ a educação pode transformar a sociedade (AZEVEDO; GUERRA, 2011, p. 245-248, grifo do autor).
Tais justificativas mencionadas pelos estudantes de licenciatura são consideradas por Azevedo e Guerra (Ibid.) como resistências que poderão ser otimizadas, ou seja, como resistências-instrumentos de mudança.
Com base nas considerações acima expostas, é fundamental entender que o tema da violência doméstica contra crianças requer a reflexão de alguns pontos pertinentes à formação inicial de professores que podem sensibilizar profissionais a agirem na vanguarda da prevenção no que se refere à violência doméstica. São eles:
1. A universidade precisa desenvolver ações no que diz respeito à discussão crítica dessa temática;
2. O futuro professor precisa conhecer o fenômeno da violência doméstica contra criança; as consequências físicas e psicológicas para as crianças, os dados sobre essa temática, os atuais planos e legislações que apresentam avanços em relação à compreensão de infância e violência doméstica contra crianças. Como exemplos, o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA; a Constituição Brasileira; a Declaração Universal dos Direitos da Criança, dentre outros;
3. A importância do papel docente não está atrelada somente ao encaminhamento do problema e à denúncia, mas também à formação de consciência entre os alunos de graduação, uma vez que, ao optarem por ações protetoras, juntamente com a escola, estarão contribuindo para a redução dos efeitos danosos da violência;
4. O aluno das licenciaturas precisa compreender que o enfrentamento da violência doméstica contra criança é um compromisso social de toda a sociedade, e, dessa forma, inclui o ambiente escolar e todos os profissionais ali inseridos;
5. A escola não tem estrutura para resolver sozinha todos os casos, mas tem a possibilidade, juntamente com seus professores e com os órgãos competentes, de identificar e denunciar os casos de violência doméstica;
6. Às vezes, o aluno só conseguirá relatar uma violência sofrida no contexto familiar para uma pessoa que ele considera próxima e de confiança: seu professor;
7. O aluno da graduação precisa compreender que ele detém um poder de influência e confiança para com seus alunos e que isso pode ser a chave para detectar e solucionar muitos casos, evitando que as sequelas da violência se mantenham na vida de seus alunos por muitos anos.
De acordo com o relato de uma professora, os alunos de graduação não têm contato com o tema da violência doméstica contra criança na graduação. É essencial que todo o curso universitário que prepare seu aluno para trabalhar com crianças ou adolescentes precisa discutir no mínimo o Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA. Então, fica uma questão: se o futuro professor não tem contato com os conhecimentos sobre a violência doméstica contra criança, como poderá desenvolver um compromisso ou responsabilidade social no enfrentamento desse fenômeno?
Esse olhar para a VDC não vem da faculdade. Nós não somos orientadas pelos professores universitários em relação à VDC. Não tive orientação dentro da área acadêmica. Mesmo fazendo Orientação Educacional, não tive uma formação voltada para a violência física e sexual. Realmente falta esse trabalho de formação para ajudar as crianças. Falta fortalecer essa rede para que a criança, ao dar entrada no hospital, a UBS seja acionada e todos os serviços necessários que essa criança precisará. Não basta só o olhar do professor. O olhar do professor vai ser o disparador (GRUPO FOCAL: PROFESSORA 3, ESCOLA 1).
Nesse sentido, a formação inicial ganha destaque como uma fase importante no inicio da profissionalização e no engajamento do futuro professor no enfrentamento da violência doméstica. Assim, o processo de formação não pode ser esgotado nessa primeira fase nos cursos de graduação, mas deve ser considerado como a base estrutural para o desenvolvimento profissional do professor. Sabe-se, como afirma Rui Canário (1998), que na escola os docentes assimilam o processo de profissionalização, mas é na formação inicial que os futuros professores terão a oportunidade inicial de desenvolver a base de sua profissionalização.
O tema da violência doméstica contra criança deve ser trabalhado na graduação com objetivo de o futuro professor obter os conhecimentos necessários sobre esse fenômeno e que essa ação esteja relacionada a um compromisso docente para com seus futuros alunos e a uma visão crítica de sua responsabilidade e de sua importância social no enfrentamento da violência doméstica contra criança.
O curso de graduação não prepara, não dispõe uma formação sobre violência doméstica. Muitas universidades ficam na questão “livresca” sem o envolvimento. Se for trabalhar com pessoas, me envolver com pessoas não posso somente sentar numa mesa e ver o professor discursar sobre teorias de educação. Precisa colocar a mão na massa. As estudantes de pedagogia chegam à escola e percebem uma realidade diferente. Ninguém mostra qual é a realidade da escola e do que um profissional da área da educação precisa. Acredito que existe uma lacuna que precisa ser preenchida (GRUPO FOCAL: ORIENTADORA EDUCACIONAL 3).
O problema é que o tema da violência doméstica contra criança é marginalizado na formação inicial do professor e perdura a omissão na formação continuada. A base da profissionalização no que diz respeito ao compromisso do professor com esse tema simplesmente não é solidificada.
Entende-se, assim, que é a formação inicial que dará o primeiro passo para a evolução de uma profissionalização docente, renovando os saberes trazidos pelos alunos de graduação, antes do ingresso na licenciatura, somados a ações reflexivas e científicas. Estudos demonstram que a formação inicial não prepara o docente para enfrentar todos os desafios no seu contexto profissional, mas esta se constitui essencial para o início da profissionalização.
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A interação, a troca de conhecimentos, ouvir a história do outro, deve vir desde a universidade. O que ajuda você a construir sua trajetória docente é pensar que nossa situação em sala de aula está difícil, mas quando você comparar a vivência de cada um, isso melhora (GRUPO FOCAL: PROFESSORA 3, ESCOLA 1).
No depoimento dessa professora pode-se constatar a importância das ações reflexivas e, posteriormente, a retroalimentação que a docente realiza a partir dessa reflexão com um grupo de pessoas num processo de troca e interação. Compreende-se, assim, que a formação inicial tem como compromisso a preparação de futuros professores para promover processos críticos reflexivos diante da realidade educativa e social.
A importância da formação inicial também ganha destaque em Tardif (2011), quando afirma que os conhecimentos da formação universitária serão julgados pelo professor iniciante, diante das experiências práticas na escola.
Em muitos cursos de graduação, ainda predomina o modelo de racionalidade técnica, o que leva significativa parcela de professores iniciantes a reproduzirem esses modelos em sala de aula, pois, muitas vezes, é o único aporte de que dispõem nessa fase inicial da profissão.
Fica patente que uma formação inicial voltada para o compromisso e a responsabilidade social se efetivará, se houver também por parte da universidade e de cursos formadores compromissos de diálogo com a escola básica. Por sua vez, é fundamental compreender-se a importância da formação inicial para a concretização da profissionalização docente.
Tornam-se, portanto, necessários investimentos na formação inicial para que o futuro professor, ao se deparar com a realidade da violência doméstica contra crianças, no “chão da escola”, esteja munido de ferramentas no que diz respeito à identificação e notificação do
problema da violência, O mais importante é que esse educador, desde a formação inicial, desenvolva um compromisso social e que seja munido de informações de como proceder como um agente de proteção em defesa das vítimas de violência doméstica.