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No sentido de destacar a importância do fenômeno da leitura Freire, que ao longo de sua produção destacou a questão da leitura e da escrita, afirma que:
Uma sociedade que exclui dois terços de sua população e que impõe ainda profundas injustiças à grande parte do terço para o qual funciona, é urgente que a questão da leitura seja vista enfaticamente sob o ângulo da luta política a que a compreensão científica do problema traz sua colaboração (FREIRE, 2003, p. 9)
Portanto, ele vê a leitura sempre conectada numa perspectiva política e pedagógica. Para Freire a leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra. O ato de ler também é percebido como um ato político se constrói dentro da experiência existencial do indivíduo enquanto sujeito histórico, produto e produtor de cultura.
Primeiro, a leitura do pequeno mundo em que se caminha, depois, a leitura da palavra que nem sempre, ao longo da escolarização, foi à leitura da palavra mundo. A leitura do mundo é sempre fundamental para a compreensão da importância do ato de ler, de escrever ou de reescrevê-lo, e transformá-lo através de uma prática humanitária, política e consciente.
Nesse sentido, Freire (2002, p. 31) afirma que
É impossível levar avante meu trabalho de alfabetização, ou compreender a alfabetização, separando completamente a leitura da palavra da leitura do mundo. Ler a palavra e aprender como escrever a palavra, de modo alguém possa lê-la depois, são precedidos do aprender como escrever o mundo, isto é, ter a experiência de mudar o mundo e de estar em contato com o mundo.
E ele reafirma, “a leitura do mundo precede mesmo a leitura da palavra. Os alfabetizandos precisam compreender o mundo, o que implica falar a respeito do mundo” (FREIRE, 2002, p. 32). Para ele “a educação não deve ensinar apenas a “ler, escrever e contar” mais também a “ouvir, falar e gritar” e mais ainda que “é preciso ler o mundo, mas, sobretudo, escrever e reescrever o mundo, o que quer dizer, transformá- lo” (FREIRE, 2000, p. 109-114). Somando a isto a idéia da construção ativa do conhecimento do aluno que, através das leituras dialógicas, pode estar em permanente movimento de reflexão para construção de mudanças.
Esse movimento dinâmico é um dos aspectos centrais do processo de alfabetização que necessita vir do universo vocabular dos alunos, expressando a sua real linguagem, carregadas da significação de sua experiência existencial e não da experiência do educador. Assim as palavras do povo, nas suas experiências,
vinham através da leitura do mundo, depois voltavam a eles, inseridas no que se chamou de codificações, que são representações da realidade. No fundo esse conjunto de representações de situações concretas possibilitava aos grupos populares uma “leitura da leitura” anterior do mundo, antes da leitura da palavra. Assim, o ato de ler implica na percepção crítica, interpretação e “re-escrita” do lido (FREIRE, 2003).
No pensamento freireano, falar de alfabetização é, além de falar do problema da leitura e da escrita, falar da necessidade das bibliotecas populares. A forma com que atua uma biblioteca popular, a constituição do seu acervo, as atividades que podem ser desenvolvidas no seu interior, tudo isso tem que ser construído por uma política cultural. Se antes raramente os grupos populares eram estimulados a escrever seus textos, agora é fundamental fazê-lo, desde o começo da alfabetização para que, na pós- alfabetização, se vá tentando a formação do que poderá vir a ser uma pequena biblioteca popular com a inclusão de páginas escritas pelos próprios educandos. Assim, cabe ressaltar que mesmo sem citá-lo nominalmente, Freire sempre teve uma preocupação com o Letramento, ou seja, uma preocupação com a utilização política e social das capacidades da leitura e da escrita.
Para que estes exercícios de construção de leitura, escrita, releitura ocorram, individualmente e coletivamente, é fundamental uma dinâmica motivacional amparada em um currículo que parta dos interesses e necessidades dos alunos e contemple leituras e aprendizados significativos para seu universo existencial e político-social. Um currículo tradicional, fragmentado e alienado não é aceito pelo alunado, mas imposto pelo sistema educacional, gerando conflitos e dissensões. “O problema da motivação
paira sobre as escolas como pesada nuvem”, afirma Freire (1993, p. 16), ” já que os estudantes são motivados por várias atividades, menos a escolar”.
Para motivar seus alunos, o professor necessita conhecê-los, sobretudo, através do diálogo e numa espécie de pesquisa que, recorrendo a várias estratégias, busque identificar os conhecimentos prévios do alunado. Dessa forma, pode criar uma atmosfera de livre expressão do pensamento. Ora, lembra Freire (1993, p. 18), o ensino tradicional cinde o processo epistêmico dos alunos, separando a produção de novos saberes do conhecimento do saber pré-existente: “o que acontece, geralmente, é que dicotomizamos esses dois momentos, isolamos um do outro. Conseqüentemente, reduzimos o ato de conhecer do conhecimento existente a uma mera transferência do conhecimento existente”. Nisso se perdem suas qualidades: “a ação, a reflexão crítica, a curiosidade, o questionamento exigente, a inquietação, a incerteza todas essas virtudes são indispensáveis ao sujeito cognoscente!” (FREIRE, 1993, p. 16).
A partir disso, ele afirma entender que a transferência de conhecimento constitui- se num considerável problema para a instauração de uma educação libertadora, pois se ela não impõe o conhecimento pelo currículo oficial, o alunado está habituado a tal prática tradicional. Logo, o professor libertador é inicialmente rechaçado, pois a ele é associada uma falta de rigor. Ora, é exatamente o contrário que deve ocorrer, já que a consciência crítica não se desenvolve casualmente, mas com disciplina intelectual. Assim, “como é possível que alguém faça um exercício intelectual se não cria uma disciplina de estudo? Precisamos disso. Precisamos ler com seriedade, mas, acima de tudo, precisamos aprender o que é ler realmente!” (FREIRE, 1993, p. 22).
Assim, é o próprio Freire (1993, p. 22) nos ensina o que é ler realmente:
Eu digo que ler não é só caminhar sobre as palavras, e também não é voar sobre as palavras. Ler é reescrever o que estamos lendo. É descobrir a conexão entre o texto e o contexto do texto, e também como vincular o texto/contexto com o meu contexto, o contexto do leitor. E o que acontece é que muitas vezes lemos autores que morreram cem anos atrás e não sabemos nada sobre a sua época. E freqüentemente sabemos muito pouco sobre nossa própria época.
Esse ensinamento de Freire deixa claro a sua visão sobre a dimensão do que seja a leitura crítica. Nesse sentido, ele destaca a importância da compreensão dos fatores sociais, políticos, históricos, culturais e econômicos como fundamentos de uma abordagem crítica. Em outras palavras, a necessária reinvenção ou recriação exige a compreensão histórica, cultural, política, social e econômica da prática e das propostas a serem reinventadas.
Assim, Freire (2002, p. 81) esclarece:
Por exemplo, como aplicar as idéias de Lênin ao contexto latino- americano, sem empenhar-se em ter uma compreensão crítica, política e histórica do momento em que Lênin escreveu? Não posso simplesmente passar por alto um texto escrito de Lênin relativo a uma determinada Rússia, num dado momento histórico [...] Creio ser impossível ler qualquer texto sem uma compreensão crítica do contexto a que se refere.
Para ele o modelo tradicional de leituras descontextualizadas e sem criticidade corresponde precisamente à concepção de ciência explicativa, observadora, neutra, imparcial, distanciada da realidade, que o ensino dominante e tradicional tenta fazer valer entre o alunado: “esses currículos falsamente neutros formam os estudantes para
observar as coisas sem julgá-las, ou para ver o mundo do ponto de vista do consenso oficial, para executar ordens sem questioná-las, como se a sociedade existente fosse fixa e perfeita”, (FREIRE, 1993, p. 24) reflete com propriedade.
Além da importância da contextualização dos textos, é ressaltada por ele a necessidade do professor conhecer o universo vocabular e existencial dos alunos. Ele insiste que os programas de alfabetização deveriam partir deste universo. Conhecendo o mundo, os sonhos, as dificuldades e os anseios dos seus alunos o professor pode melhor interagir e criar condições pedagógicas favoráveis para o fortalecimento do processo ensino-aprendizagem.
Nesse sentido, é visível sua preocupação em considerar que as palavras constitutivas da linguagem do aluno, bem como, os temas das leituras, “deveriam vir carregadas da significação de sua experiência existencial e não da experiência do educador. A pesquisa do que chamava de universo vocabular nos dava assim as palavras do Povo, grávidas do mundo” (FREIRE, 2003, p. 20).
Prosseguindo em seu pensamento, ele explica que a leitura não pode ser submissa, o leitor não pode ser submisso ao texto, mas pensá-lo, “rasgá-lo”, acrescentá-lo, retirá-lo partes. Outra questão fundamental é não impor aos alunos grande quantidade de textos, “mas exigir que os alunos enfrentem o texto seriamente” (FREIRE, 1999, p.22), ou seja, façam leituras densas, críticas e reflexivas No entanto, ele lembra que há professores que ensinam aos alunos a não penetrarem na intimidade dos livros, no âmago dos textos, evitando discuti-los dialogicamente, “ao contrário, dizem (os professores) aos alunos para apenas descrever o texto” (FREIRE, 1999, p. 23). Assim, fica explícita a sua visão de que mais importante do que a quantidade, é a
qualidade das leitura construídas pelos alunos.
Freire leva-nos a compreensão da prática democrática e crítica da leitura do mundo e da palavra, onde a leitura não deve ser construída mecanicamente, mas ser desafiadora, que nos ajude a pensar e analisar a realidade em que se vive. Para ser desafiadora e instigante a leitura deve partir da realidade, da linguagem, dos interesses e dos conhecimentos do aluno. Daí, ele lembra que “ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa” (FREIRE, 2003, p. 69) e a educação necessita ser construída através de relações dialógicas. É fundamental que saibamos valorizar a cultura em que nosso aluno está inserido, partindo desta cultura, e procurando aprofundar seus conhecimentos, para que construa o processo permanente da sua libertação.
O pensamento freireano defende a compreensão crítica da alfabetização, que envolve necessariamente a compreensão igualmente crítica da leitura e a criação de espaços e oportunidades para que ela seja cultivada. Nesse sentido, ele defende a criação das bibliotecas populares como um espaço vivo e dinâmico, como um importante instrumento de apoio, durante e posterior ao processo de alfabetização. Assim, “a biblioteca popular como centro cultural e não como um depósito silencioso de livros, é vista como um fator fundamental para o aperfeiçoamento e a intensificação de uma forma correta de ler o texto em relação com o contexto” (FREIRE, 2003, p. 38).
Lendo Freire compreendemos a importância e a possibilidade de construir leitores críticos das palavras e do mundo. Isto através de uma educação que estimule a solidariedade, que dê valor à ajuda mútua, que desenvolva o espírito crítico e a criatividade; uma educação que incentive o educando unindo a prática e a teoria, com
uma política educacional condizente com os interesses e necessidades dos explorados e oprimidos da nossa sociedade. Freire deixa um legado nessa direção, seu pensamento pode ser uma inspiração para um caminhar político e pedagógico. Inclusive para um caminhar inspirado nas tecnologias informacionais, isto porque desde a década de 60 Freire já defendia a utilização das tecnologias existentes à época, tais como slides e retro projetor.
Além do mais, com os permanentes avanços tecnológicos que marcam a contemporânea Sociedade da Informação e do Conhecimento, a educação popular necessita pensar criticamente as possibilidades pedagógicas dos instrumentos disponíveis na cibercultura, no sentido de incorporar os seus valores democráticos nas relações do ser humano com as máquinas, valorizando o sujeito histórico e as possibilidades de mudanças sociais. Nesse sentido, a seguir iremos refletir sobre os computadores enquanto ferramentas educacionais e as possibilidades das transformações pedagógicas.
CAPÍTULO III
3 FERRAMENTAS, COMPUTADORES E CIBERCULTURA: O SER HUMANO