Conforme antecipamos acima, nesta seção discorremos brevemente, com base em Gondim (2011), sobre a lexicalização das formas em –mente desde as variedades clássica e vulgar do latim até o português trecentista. Em seguida, trataremos do processo de lexicalização dessas formas no português dos séculos XIV, XVI e XX, períodos analisados na presente pesquisa.
34 Descartamos uma ocorrência do século XVI, que apresentava um advérbio dentro de uma locução prepositiva,
porque, nesse caso, a unidade de comportamento funcional é a locução prepositiva como um todo, que tem valor conectivo de adição: “Elles como certos da vitoria a appellidão ja dantemão, & dezejão se apresse o diapara a alcançarem: pelo que vos pedimos movais tratos de paz com Ismael, para que vos não perc ais a vòs JUNTAMENTE com o Reyno, & a nossas molheres & filhos.” (HPSC)
6.1.1 Processo de lexicalização do latim ao português do século XIV
Em Gondim (2011), investigamos, entre outras questões, os aspectos morfológicos dos advérbios em –mente. Concluímos que tais construções têm origem na variedade clássica do latim, quando o substantivo mente era utilizado no caso ablativo e acompanhado de um adjetivo, que, para concordar com o termo regente, também ficava no caso ablativo e gênero feminino.
Como mencionamos na seção 3.1, é possível perceber, nessa variedade do latim, a coexistência de inúmeras formas adverbiais, que, em grande parte, foram substituídas pelas construções em –mente. Em Gondim (2011), isso nos fez crer que poderíamos identificar, nesse período, o princípio de estratificação de Hopper (1991).
Posteriormente, analisando a construção sob a perspectiva de Lehmann (2002), chegamos à conclusão de que, inicialmente, a construção no ablativo adjetivo + mente passou pelo processo de lexicalização. No latim clássico, essas construções ainda não estavam fossilizadas, como podemos perceber no exemplo (32), e, ao que parece, os dois vocábulos — adjetivo e substantivo mens, -tis — forneciam conteúdo semântico à construção. Todavia, nessa época, a construção já parece ter dado os primeiros passos a caminho da lexicalização, pois, nos exemplos abaixo, conseguimos acessá-la tanto analítica, como holisticamente35. Contudo, percebemos que, entre a abordagem analítica e a holística, há uma ligeira alteração no significado da expressão, como podemos ver nos exemplos abaixo.
(28) LAETA MENTE receptum (OVÍDIO) recebido com mente alegre/alegremente
(29) et patriae RIGIDA MENTE negauit opem (OVÍDIO)
e com mente fria/friamente negou auxílio à pátria (30) Et curam TOTA MENTE decorisagat (OVÍDIO) e leve com toda mente o cuidado com o decoro
(31) non tulit hanc speciem FURIATA MENTE Coroebus (VERGÍLIO)
Corebo, com mente furiosa, não suportou esta imagem
35 Cumpre retomar que, segundo Lehmann (2002), um das diferenças entre o léxico e a gramática é que, enquanto a gramática concerne aos signos que são formados regularmente e que são tratados analiticamente, o léxico concerne aos signos que são formados irregularmente e que são tratados holisticamente.
(32) habes TOTA quod MENTE petisti (VERGÍLIO) tens tudo o que pediste com toda a mente
Quanto ao latim vulgar, encontramos, devido à pequena quantidade de fontes dessa variedade, poucas ocorrências da construção adjetivo + mente. Nesse período, essas construções também não haviam se fossilizado, como podemos ver no exemplo (34). Entretanto, cumpre lembrar que foi nessa variedade latina que o uso dessas perífrases se generalizou, vez que, como é sabido, no latim vulgar, as formas analíticas eram mais utilizadas que as sintéticas. Assim, segundo Cavalcante (1998), nessa variedade, as adverbiais perifrásticas formadas com a palavra mente acompanhada de adjetivo substituíam as formas sintéticas. Podemos entender esse fato como um indício de que, no latim vulgar, essas construções já faziam parte do inventário da língua latina, pois, se estivessem fora do inventário da língua, essas construções não poderiam substituir expressões próprias do léxico latino.
(33) omnes viriet mulieres MENTE DEVOTA obtuleruntdonaria (VULGATA)
todos os homens e as mulheres ofereceram devotamente as oferendas dos templos (34) IVXTA quod MENTE devoverat(VULGATA)
o que tinha consagrado justamente
Quanto às ocorrências do romanço e do português arcaico que analisamos em Gondim (2011), concluímos que, nesse período, os advérbios em –mente não apenas já faziam parte do inventário lexical da língua portuguesa, como também já haviam concluído o processo de cristalização, tendo, assim, avançado no processo de lexicalização.
6.1.2 Processo de lexicalização no português dos séculos XIV, XVI e XX
Nossa hipótese é que o processo de formação dos advérbios em –mente, no século XX, diferentemente dos séculos XIV e XVI, deve apresentar características mais de derivação que de composição ou, ainda, mais de palavra primitiva que derivada.
A fim de testar tal hipótese, avaliamos o grau de composicionalidade dos constituintes mórficos da formação, levando em consideração a contribuição semântica tanto
da base adjetiva como do –mente para o sentido da formação como um todo. Propomos, assim, três graus de composicionalidade: a) alta composicionalidade, quando os dois elementos forem transparentes (exemplo 35); b) média composicionalidade, quando um elemento for transparente e o outro for opaco (exemplo 36); e c) baixa composicionalidade, quando os dois elementos forem opacos (exemplo 37).
(35) As marcas da revolução de 1824 não se apagariam FACILMENTE. (séc XX – HB)
(36) Por último, desejo agradecer a todas as pessoas que me ajudaram na elaboração do livro. Fernando Antônio Novais e Luís Felipe de Alencastro leram, RESPECTIVAMENTE, os capítulos sobre a Colônia e o Império, fazendo várias sugestões, incorporadas em grande medida no texto final.
(37) Uma região ESMAGADORAMENTE rural, onde as cidades haviam regredido e as trocas econômicas diminuído muito, embora sem desaparecerem completamente. (séc XX – HB)
O gráfico 1 mostra a frequência desses três graus de composicionalidade nos três séculos considerados nesta pesquisa.
Gráfico 1 – Grau de composicionalidade vs. Período
Como podemos perceber, no decorrer dos séculos, a frequência de advérbios de alta composicionalidade vem diminuindo progressivamente. Na medida em que os advérbios
Séc. XIV Séc. XVI Séc. XX 65,5% 47,0% 27,8% 34,5% 53,0% 70,0% 0,0% 0,0% 2,1%
em –mente passam a apresentar mais frequentemente um grau de composicionalidade médio ou baixo e menos frequentemente o grau de composicionalidade alto, avançam no processo de lexicalização. Entretanto, a pequena quantidade de ocorrências de advérbio com baixo grau de composicionalidade pode indicar que esses advérbios ainda estão longe de concluírem os processos de lexicalização.
Embora percebamos que tais advérbios ainda têm muito o que avançar no processo de lexicalização, entendemos que o fato de termos encontrado no século XX, ainda que em pequena quantidade, advérbios com baixo grau de composicionalidade pode ser indício de que tais advérbios estão mais próximos das palavras idiomatizadas do que estavam nos séculos mais remotos.