A roda viva das Cirandas traz para o centro a questão da dificuldade de acesso aos serviços de saúde, situação limite que desponta inicialmente no bairro Serrinha, na IV região administrativa da cidade de Fortaleza. A ideia da dificuldade de acesso aos serviços de saúde como situação-limite foi nomeada pelos idosos que se constituíram protagonistas do processo das Cirandas no lugar.
A problematização da situação-limite partiu de um mergulho na memória do vivido pelos participantes nos encontros das Cirandas na região e percorreu uma
reconstituição da história do problema norteada por questões geradoras, expressas e socializadas por meio de rodas do diálogo e das diversas linguagens artísticas, como o teatro, a música, a poesia, entre outras.
Dessa forma, na Ciranda de Aprendizagem e Pesquisa, o cirandeiro9 Elias compartilha sua releitura poética das falas dos atores comunitários. Aqui podemos apreender momentos fundamentais de como a dificuldade de acesso aos serviços de saúde aparece de há muito nos cenários de nosso país e adquire novas configurações no passar do tempo:
Dona Maria foi logo dizendo Na Fortaleza dos anos 50 a 80: adoecer nem pensar
O que não podia era faltar raiz Pra gente fazer o chá
Dor de Cabeça Dor de barriga Ou na partes... Que partes? Vixe Maria!
E quando ocorria trauma na coluna ou na bacia? Era osso!
Vixe Maria!
E se fosse preciso uma intervenção cirúrgica? O que?
Uma cirurgia mulher... Vixe Maria!
Da periferia para o Centro
O transporte era um pau de arara...
E na Praça José de Alencar havia o SANDU... Vixe Maria!
Alguém aqui ainda lembra do SANDU? Vixe Maria!
Atenção básica... Na Periferia?
Eu acho que nem a terminologia havia Vixe Maria
E a média complexidade? Vixe Maria!
Home pare de falar assim que só essas palavras já causam agonia... Vixe Maria!
Dona Maria se lembra de tanta estrepolia... E tome chá
E tome chá
Azia e má digestão? Em toda gestão havia E tome chá
E tome chá
Só que era um chá bem diferente do chá de Dona Maria Dona Maria também lembra de quando o SUS criado A Assembléia Constituinte foi um movimento legal
E ela lembra ainda que também houve uma tal Oitava Conferência Nacional Uma tal de Reforma Sanitária
E muitos outros movimentos que falavam de melhorar a saúde E dona Maria assevera que até hoje o povo fala
Que muita coisa mudou, mas que num tá fácil a vida Vixe Maria!
Fila nunca acabou... Vixe Maria!
De tão real que ela é
Até de nome mudou... novos tempos... Agora tem até um tal de fila virtual que lota o computador... Vixe Maria!
E o povo da saúde fala que a tal fila virtual tem a ver com outra coisa que nem me lembro... É tanta palavra que eles inventam... ah, lembrei: demanda reprimida.
Vixe Maria!
Esta tal fila virtual causa muita morte e dor: Só que muita gente morre e sofre na real.
Sabe disso o doutor, o gestor, o prefeito, o vereador, do presidente ao senador Todos sabem que a vida não é fácil não...
Mas eu sei que o SUS apesar de tudo isso é uma benção... Sem o SUS a vida seria muito pior...
Vixe Maria!
Mas eu já falei demais Fale um pouco seu doutor Olhe Dona Maria: Fila a fila real e virtual O desafio é superar
Atenção básica avançou, impossível não notar, Dona Maria! Mas a média complexidade, essa precisa ainda avançar...
Olhe Dona Maria, eu estou me esforçando para a senhora me entender... Vixe Maria!
Mas o senhor me entendeu, né, doutor? Tudo que eu falei pro senhor?
Olha Dona Maria, sim, sim, entendi, mas isso não basta. Preciso fazer um estudo de caso... Vixe Maria!
Pois doutor, saiba, o senhor que meu estudo é bem pouquinho, mas só que eu gravei tudo que um poeta falou. E ele falou foi bem assim:
Que a saúde não é dada É conquista popular Que ontem
Hoje E sempre
É preciso a gente lutar Interferir
Participar
Ocupar os espaços e ter tomada de atitude Porque só assim
A gente fortalece o SUS
E transforma o contexto da saúde
Num foi bonito doutor? O que o poeta falou? Foi sim, foi sim
Acho que vou tomar do seu chá Coloque aí um pra mim!
A escrita poética trazida pelo cirandeiro permeia todo o desencadear do processo da discussão naquele território. O transporte do pau de arara, feito nos tempos do SANDU; a Assembléia Constituinte; a Oitava Conferência Nacional; a reforma sanitária e, atualmente, a fila virtual, a demanda reprimida e a percepção de que a saúde não é dada, é preciso luta... são referenciais avaliativos que mostram toda uma percepção de movimento e luta em educação popular e saúde.
A população, inclusive, parece dar-se conta de uma espécie de “desespacialização” e deslocalização da administração, em tempos de capital mundializado, ao falar de “demanda reprimida”, associando-a à “fila virtual” e seus problemas. Como diz Santos (2000a), será que não estaríamos fazendo a “colonização da solidariedade” das populações oprimidas, em função das estratégias de regulação ínsitas nas políticas públicas em nosso País – estratégias que, na hibridez das falas e lutas, também atendem as lutas populares?
Segundo ele
Brincando, cantando e se movimentando, as pessoas foram vivenciando as possibilidades de ir conhecendo o outro, rompendo com o preconceito, a atitude fria, distante e técnica que afasta os profissionais da população, não sem construir com o grupo uma reflexão inicial após a vivência. O espetáculo construído pelos cirandeiros para a aula sobre acolhimento no curso de humanização foi referenciado como o momento mais marcante daquele curso. E foi a partir de trechos do espetáculo que a problematização foi construída discutindo o que humaniza e o que desumaniza as relações entre esses atores (SANTOS, 2000a).
E, assim, música e teatro permeiam a problematização sobre a dificuldade de acesso da população aos serviços de saúde relidos poeticamente pelo cirandeiro Elias:
Ó que fila sonolenta Sandália nos pés Muita dor e empurrão Lá vou eu buscando saúde Mas o posto não tem prontidão A garganta já não agüenta Estou rouco de tanto gritar É que a dor do povo aumenta E esta fila não sai do lugar Nesta fila que é bem longa
O direito e a lei já não valem o que é Cá estou mendigando assistência E doutor se mandou, deu no pé O atendente pergunta o motivo Por que vim para me consultar É que a dor do meu corpo aumenta E esta fila que não sai do lugar
Uma fila e outra fila
Segue o povo nesta procissão Na real e na virtual
A dor não passa e a senha na mão O sistema não sabe o motivo O sistema não tem coração É que a dor do povo aumenta Pela falta de humanização Se no médico e na enfermeira Também faltar esse coração Se o gestor não fizer sua parte Pra mudar essa situação Esse povo vai continuar A sentir muita dor e aflição Não vai ter quem segure a revolta Desse povo que tem coração
A fala poética do cirandeiro traduz as contradições do cotidiano e vem permeada de histórias vividas nas unidades de saúde. A ideia de saúde como direito dos cidadãos, conquista da luta política de atores e de organizações populares, se entrelaça com dificuldades na interação dos profissionais e a população, reflexo, entre outras questões, de uma formação excessivamente voltada para a dimensão técnica, resultante do modelo biomédico ainda hegemônico.
As rodas das Cirandas como espaços privilegiados dos diálogos revelam sua potência na reflexão e, mesmo, na resolução de alguns problemas da saúde do lugar, apontados pelos atores populares. Em um caso descrito pelos sujeitos da Ciranda de
Aprendizagem e Pesquisa, fez-se uma discussão poética (descrita há pouco) que trouxe à tona uma situação na qual a necessidade de resolver uma questão contingente, como a realização de um curativo pós-operatório, em um domicílio geograficamente distante da unidade de saúde, pôde ser resolvida mesmo sem a unidade ter o veículo disponibilizado. Como? Com o diálogo gerado entre a coordenadora da unidade, familiares da pessoa a necessitar desse cuidado e outro ator comunitário com capacidade de realizar o procedimento, desde que a unidade disponibilizasse o material. São casos como este que mostram como o diálogo provocado pela intervenção “cenopoética” possibilita a explicitação do conflito e a formação de atos-limite capazes de realizar transformações.
E segue o cirandeiro com sua reflexão:
Os participantes passam a refletir sobre os dois lados da moeda. Não é apenas o profissional que desumaniza as relações. A população também. O que leva cada um a agir dessa forma? O que está por trás de cada atitude, seja dos profissionais ou da população? Vamos continuar acirrando as diferenças? Ou vamos procurar o que nos une?
Este discurso é gerador de outras reflexões e questionamentos impulsionados também pela nossa implicação no processo. Como a população realiza em seu cotidiano a mediação entre o local e o geral, entre as reflexões sobre as lutas históricas pela conquista da saúde como direito universal e as dimensões subjetivas das relações entre trabalhadores e população? Haveria um apagamento da percepção de que a gestão é composta por esse conjunto de atores e uma super valoração e personificação desse problema complexo na pessoa do profissional?
Ao evidenciar essa questão, não estamos a desconsiderar a importância da subjetividade, tampouco negamos a necessidade de problematizar a dinâmica das relações na consolidação do trabalho em saúde. A subjetividade na relação do profissional com a população é, sem dúvida, ponto de grande relevância, que necessita estar articulado à discussão mais geral do projeto de saúde e de sociedade.
Em uma das rodas das Cirandas na SER IV, como atriz implicada10, acompanhamos o momento há pouco descrito, em que a questão das relações entre população e serviço de saúde foi problematizada com a música cênica e o teatro. A música do então cirandeiro Júnio Santos, parte do espetáculo Por Trás das Grades, animou trabalhadores e gestores da saúde e atores comunitários a constituírem colunas, ao modo das quadrilhas nordestinas, onde estes vários segmentos contracenavam. As pessoas, ao cantarem a música,
caminhavam em suas respectivas colunas na direção da outra, ao mesmo tempo em que eram instigadas a perceber a barreira que os separava. A música trazia a seguinte metáfora:
Já faz um tempo que não caio nos seus braços E sem abraços não dá mais pra caminhar Romper as grades acabar com o sofrimento Por um fim nos lamentos
É reclame popular
A arte naquele momento trazia à cena outros elementos além da verbalização. Em arte, o sentido não é redutível ao que se pode verbalizar. Como observa Linhares (2003, p. 83), “por deixar o significado deslizar, a arte, sem apunhalar um sentido único, mas abrindo-se o signo para um feixe de significações, realiza como que a suspeita de que as coisas estão plenas dos possíveis”. Dessa forma, segundo a autora, provoca uma desfamiliarização que permite o desatrelamento da função referencial da palavra em seu sentido estrito, situando-nos diante de novas formas de ver. “Um sentido que não estava ali antes” (LINHARES, 2003, p. 83).
Ostrower (1977), por sua vez, corrobora os possíveis da arte não redutível à verbalização, ao lembrar a importância do conteúdo expressivo das formas cuja articulação se faz com apoio na expressividade das formas e que no caráter não verbal da comunicação artística é que reside a possibilidade da arte poder ser compreendida mesmo por pessoas não eruditas, com base na inteligência e na sensibilidade.
Transfigurar a realidade com a arte vai permitindo a explicitação dos conflitos e a percepção de que as barreiras têm dimensões maiores e diversas do que se percebia a princípio. Os trabalhadores verbalizaram a precarização no trabalho, as condições materiais da unidade, a demanda excessiva da população aos serviços e a dimensão humana das pessoas envolvidas no trabalho em saúde – dimensões que se foi desocultando nas rodas.
Os gestores trouxeram a questão da insegurança, a dificuldade de ter as equipes completas, do carro disponível apenas em alguns turnos por semana e outras problemáticas dessa ordem. Os atores comunitários, por sua vez, lembravam que a dificuldade de acesso aos serviços vem de longa data e que, desde a unidade de saúde, edificada em mutirão, a população já lutava pelo direito à saúde.
Expostos os conflitos vividos no acesso aos serviços, alguém trouxe a reflexão sobre a importância de se formular espaços que possibilitem novas visões do âmbito relacional em questão e, nesse sentido, os atos-limite vão sendo propostos cenicamente, também, à medida que se vai desvelando a complexidade do problema: “Os profissionais e
gestores de um lado e o povo do outro, têm agora o desafio de romper o muro a partir da conquista mútua”.
Esse quefazer da experiência das Cirandas nos remete uma vez mais aos “possíveis da arte”. Parece-nos que expressar o cotidiano em seus conflitos, contradições e potências com arte, nos permite realizar uma espécie de transposição metafórica que se cria em consequência da singularidade da arte como modo de superação do real dado. A transposição que se dá por meio de metáforas, em arte, se caracteriza por uma sintetização (ao modo da arte) que articula conteúdos sublinhados pela população, mas que se recompõem no texto artístico, produzindo um novo dizer.
Segundo Linhares (2003, p. 230), a arte nos permite “dar sentido ao humano no mundo, na imaginação, ao expressá-lo e reorganizá-lo numa obra feita”. Para a autora, a arte no processo de conhecer chama a si a utopia e conhecer ao modo da arte nos permite incorporar dimensões e elementos do ser que ela envolve na produção do sentido; um sentido que, como estamos a ver, não se reduz ao que é aprisionado pelo conceito verbal.
Não podemos esquecer que nessa transposição metafórica, que se dá no contexto das Cirandas, como lugar de produção de sentidos por meio da arte, há que considerar o diálogo como lugar em que ocorre a mediação nesta produção de sentidos.
A transposição metafórica a que nos referimos reflete, ainda, uma espécie de hibridização ao modo como definiu Canclini (2006, p. 19), que a considera um fenômeno intercultural, em que, com amparo na criatividade individual e coletiva, “estruturas ou práticas discretas que existiam de forma separada se combinam para gerar novas estruturas, objetos e práticas”. Dessa forma o que se produziu com a linguagem “cenopoética” como ato-limite (ato de transformação), vivido da interação dos atores institucionais e comunitários, resulta por ser uma espécie de ressemantização das discussões, com respaldo nas especificidades das linguagens da arte, que não abandona por completo os conteúdos de realidade.
A singularidade dos percursos metodológicos escolhidos para realizar as rodas das Cirandas da Vida, ao incorporarem todo esse trabalho por meio da arte, que traz as diversas dimensões sobre as quais refletimos anteriormente, foram determinantes, na ampliação do olhar sobre a situação-limite apontada: a dificuldade de acesso aos serviços de saúde.
Outro aspecto determinante dessa ampliação diz respeito à implantação da Política de Humanização no âmbito da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Fortaleza, na qual o acolhimento foi o dispositivo inicial dessa implantação e contou com o apoio de assessores
técnicos da Política Nacional de Humanização (PNH), o que promoveu a mobilização de vários atores da Secretaria Municipal de Saúde.
Criada em 2003 pelo Ministério da Saúde, e entendida como transversal às diversas ações e instâncias gestoras do SUS, a Política Nacional de Humanização (PNH) se consolida, segundo Benevides e Passos (2005, p. 570), na afirmação da indissociabilidade entre gestão, atenção à saúde e incitação à produção de autonomia. Insiste na ideia de buscar modos de nos produzirmos como sujeitos, capazes de administrar os processos de trabalho, colocando-se ante o desafio de provocar inovações nas práticas gerenciais e nas práticas de produção de saúde e de experimentar novas formas de organizar serviços, produzir e circular saberes e poder.
Consoante Benevides e Passos (2005, p. 389), a PNH, propõe-se buscar “outras respostas à crise da saúde,identificada por muitos, como falência do modelo SUS”. Reafirmar o SUS tem, entre outros, o sentido de afirmar a unidade de um sistema que reativa o comum, permite a comunicação, a comunidade de interesses, compromissos e a comunhão de sentidos (HECKERT; PASSOS; BARROS, 2009), rompendo, dessa forma, com a imprecisão e fragmentação que caracterizaram historicamente outras propostas humanizadoras.
Estas produzem, segundo Fuganti (2008, p. 84), práticas de humanização em saúde marcadamente individualizadas, tutelares e “piedosas, produtoras de um cuidado moral e/ou prescritivo que, bem ao gosto do biopoder, desconsideram as qualidades nômades da vida e promovem o enfraquecimento da potência do trabalho enquanto espaço de produção de autonomia e protagonismo nos processos do viver.”
Nesse sentido, para estes autores com quem estamos a dialogar, a PNH, reivindica, no seu fazer, o acionamento da nossa potência de normatividade, tal como defendida por Canguilhem (1990), como experiência de tomar a vida em seu movimento de produção de normas, e não de assujeitamento a elas. A diversidade normativa, constituinte do vivo, em meio ao qual experimentamos, nos movimentos coletivos, também cria nossa humanidade (NEVES; MASSARO, 2009). Estariam aí a potência e o desafio da PNH como política pública?
Nessa perspectiva, a PNH adota como princípios metodológicos: a transversalidade, entendida como aumento do grau de abertura comunicacional intragrupo e intergrupos; a inseparabilidade de atenção, gestão e protagonismo dos sujeitos e coletivos; as diretrizes: a ampliação da clínica, a cogestão e a participação, os direitos dos cidadãos, a
valorização do trabalho e do trabalhador, o acolhimento, a ambiência e o fomento de redes (HECKERT; PASSOS; BARROS, 2009).
A PNH (BRASIL, 2007, grifo nosso), assim sendo, “almeja: a redução das filas, do tempo de espera e a ampliação do acesso com um atendimento acolhedor e resolutivo baseado em critérios de risco e vulnerabilidade”.
A política no âmbito do Município, segundo o relatório da gestão municipal (FORTALEZA, 2007a), tem a perspectiva de configurar novas relações entre gestores, trabalhadores e usuários, na articulação da rede de cogestão do cuidado à saúde, segundo a ética e responsabilização do indivíduo consigo mesmo, com o outro e com a consolidação do SUS. Esta política direciona-se para materializar-se por meio de algumas diretrizes e dispositivos como: acolhimento com classificação de risco e vulnerabilidade, apoio matricial, clínica ampliada com projetos terapêuticos singulares, cogestão, escuta qualificada para usuários e trabalhadores, formação em saúde e comunidade ampliada de pesquisa, qualidade de vida e saúde para os trabalhadores da saúde e grupos de trabalho de humanização.
A proposta geral da política, ao contextualizar o acesso em uma proposta mais ampla que inclui a dimensão da subjetividade dos vários atores envolvidos e da co-gestão, assim como o convite aos cirandeiros para contribuir com essa implantação, mesmo sem que isso fosse objetivamente discutido, foram promovendo a ressemantização a que nos referimos.
Assim, portanto, a humanização, que inclui a questão do acesso à saúde, passou a ocupar a centralidade das discussões dessa trilha que ultrapassa os limites territoriais da SER IV, onde surge originalmente, e envolve todas as regiões da cidade. A inclusão dos cirandeiros na operação da política e da temática da humanização como uma das trilhas orientadoras da ação das Cirandas da Vida surge, então, na perspectiva de delinear caminhos onde os diversos sujeitos pudessem efetivamente incluir-se e participar da feitura do processo, sempre considerando a singularidade da experiência vivida com arte nas Cirandas como categoria-chave.
Ostrower (1977) traz algumas reflexões sobre a experiência com arte. Para ela uma questão fundamental ao trabalhar com a arte é
[...] a possibilidade de se vivenciar o fazer. Quando as pessoas participam ativamente da feitura de formas, vendo-as nascer sob suas mãos – nem que sejam poucos traços – não só se cria uma situação afetiva imediatamente carregada de associações, como também o exemplo concreto é sempre mais eloqüente do que explicações abstratas.
A humanização nas rodas das Cirandas da Vida, nesse novo contexto, vai portanto em sua sinfonia direcionar o estabelecimento de atos limites (que realizam transformações) em todas as regiões da cidade, com singularidades regionais, desafio importante a ser enfrentado pelo conjunto dos cirandeiros na interface com os gestores e equipes de saúde dos territórios. Estes desafios passam pelo redimensionamento da atenção, feito com amparo na