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O que passo a narrar, tal como no caso de Melcquior, não se apresentou numa seqüência temporal linear. Trata-se de um modo didático de comunicar a reflexão clínica em suas idas e vindas ao longo das sessões tal como um rio que serpenteia uma cidade e pode ser observado nas várias horas do dia nas quatro estações do ano por diferentes pessoas. Um exemplo disso seria o rio Danúbio em suas passagens por cidades e países. É assim também que se dá com a construção do self múltiplo e mutante do qual falam Hermans e Kempen (1993), Hermans e

Konopka (2010) e Hermans (1999, p.72): “uma característica definidora do é a sua combinação de características temporais e espaciais”.

Balthazar veio do interior de um estado brasileiro que não está no sul ou no sudeste do país, passou por várias cidades maiores dentro de seu estado de origem. Teve múltiplas ocupações, desde auxiliar de estúdio fotográfico até carregador de malas em hotéis. Só do ponto de vista de sua origem geográfico-cultural já se abririam inúmeras possibilidades de construção do self. Se, além disso, pretendia inserir-se na cultura da Igreja Católica e, junto a isso, habitar o mix que a pós- modernidade oferece (GEERTZ, 2001), então entendi que deveria realizar um trabalho intensivo para que todas essas realidades fossem metabolizadas por ele. E o cimento ou liga serão suas experiências concretas com ‘outros’64 com quem já dialogou ou ainda vai dialogar.

Tempos e espaços expressam metaforicamente as passagens, os reconhecimentos de áreas de atuação. Exceto casos severos de distúrbios psiquiátricos e/ou doenças neurológicas graves nada interrompe o curso do amadurecimento. Balthazar foi crescendo ‘torto’ em função das interrupções traumáticas em sua vida. Certos temas o incomodavam e diante dos mesmos um sorriso enigmático se esboçava, o que certa vez me levou a chamá-lo de Mona Lisa. Olhou-me com certa alegria. Gostou das palavras, monalisa....repetiu com graça, gostou de minha compreensão desse enigma que ele era. Certas palavras vão surgindo no contexto clínico e são retomadas em outros momentos. Cabe ao terapeuta inseri-las na história mais ampla do sujeito em processo terapêutico. Como seres de linguagem, somos nós - seja como falantes ou como ouvintes –que impomos meta- estruturas imaginativas para colocar ordem no discurso gerado pelo desconhecimento que temos de nós mesmos (BRUNER, 1997, p.155). Discurso ou texto que a psicoterapia acolhe, seja na forma dos sonhos, de memórias ou de

insights no tempo presente da sessão.

O atendimento às pessoas da vida consagrada católica espera e supõe resultados. A instituição formativa não pode assumir uma análise interminável. Talvez esta seja uma das características do que passamos a chamar psicoterapia de

64 Novamente aqui é bom relembrar que o ‘outro’ está dentro e fora do self (Hermans & Konopka, p. 130).

curta duração65. Há algo de bom na formação intelectual que a Igreja fornece a seus postulantes e é o fato de terem condições de acompanhar uma reflexão clínica. Talvez aqueles menos dotados intelectualmente nem cheguem a uma psicoterapia individual. As técnicas de grupo têm crescido nos últimos tempos.

Os relatos de Balthazar que apresento a seguir nasceram de encontros dialogais vivos e motivadores de ambas as partes: psicoterapeuta e cliente. Após muitas semanas de conversas aparentemente tolas: TCC, faculdade, falta de confiança nos padres e colegas e, ao perceber que não o invadiria com perguntas, contou-me sua mais antiga memória:

Estávamos na mesa para jantar. Sempre rezávamos e meu pai agradecia o alimento. Minha irmã mais velha, que hoje vive em outro estado, é quem colocava os pratos na mesa. Minha mãe trazia as panelas e uma fruteira com bananas. Minha irmã caçula não parava quieta, ela é assim até hoje... Tínhamos na cozinha uma Nossa Senhora do Bom Parto... minha mãe quase morreu quando eu nasci... Eu era muito grande,diziam os vizinhos. Neste dia meu pai parou de agradecer e disse que a desgraça tinha se instalado na família. Não entendi muita coisa do que ele disse. Traição. Adultério. Hoje compreendo as palavras. Não concordo com o sentido delas.

Concluiu contando lembrar-se de sangue no rosto da mãe. Após esta explosão de memória fez questão de me dizer que não aceitaria interpretações do tipo: isto tem a ver com esta história. Afirmou que hoje em dia tem problemas bem concretos e um deles é suportar a vida na casa de formação. Entrou na congregação por gostar dos estudos. Não queria ficar no serviço braçal para sempre. O difícil era suportar o ambiente de competição. “Parece que para um ficar outro tem que sair”. Não percebem que faltam vocações. É o desespero em perder ‘a boquinha’.

Balthazar perdeu seu lar nesse momento em que a mãe cometeu traição. O pai ficou com os filhos e saiu de casa. Ele era ainda imberbe. Tinha nove anos e pelo seu tipo físico magro e baixo devia ser mesmo bem menino quando tudo aconteceu. Em seguida, outra lembrança associada:

Eu estava tomando banho e ouvi um vozerio lá fora. Minha mãe tinha vindo nos ver e meu pai não queria que ela entrasse. Tive muito medo que ele batesse nela de novo (o rosto ensangüentado daquele dia horrível, o choro

65 Cf Pinto, 2009. Enio Brito Pinto desenvolveu o tema em sua tese de doutorado, transformada em livro.

da irmã menor tudo voltou), saí correndo e com uma mão segurava a toalha na cintura e com outra tentava segurar meu pai. Hilária a cena.

Disse a ele sem pensar: “Triste a cena”. Faz-se silêncio e ele se deita no sofá de dois lugares, cabeça apoiada no encosto lateral. Ficou menor ainda. Em minha frente estava um menino. Eu era a mãe que, numa posição deslocada para o futuro do passado, o escorava no presente. Seu self pôde mover-se espacialmente no tempo e no espaço de acordo com mudanças no tempo e no espaço (Hermans, 1999, p.72). Resgatava assim a posição de eu menino. Visualizei a contra- posição do seminarista adequado. Haverá algo mais inadequado que um menino segurando uma toalha na cintura com uma das mãos e com a outra mão tentando proteger sua mãe?

Após alguns segundos que pareceram horas, disse-lhe: “Tão adequado agora!”. A lembrança funcionou como um divisor de águas e semeou uma meta- posição de eu que passaria a ler as narrativas de seu self com novo crivo. Nada muito simples para ele. A tentativa válida até agora, de ser adequado, esgotou-se no tempo e no espaço de meu consultório. Ali não seria adequado e sabia que seria acolhido. O sonho a seguir mostra outro importante divisor de águas em seu processo psicoterapêutico:

Era eu e um padre bem bonito, índio, simples. Havia uma mulher que tinha ciúmes dele. Nos dois ‘ficamos’ e tivemos uma relação sexual. A imagem que vejo é mais do alto e não da face dele. Ele usava uma sandália de couro, simples. Não foi um ato sexual, melhor, parecia masturbação. Aparece mais uma mulher. As mulheres que apareciam eram ciumentas e possessivas. Ele (o padre) me diz: como você é irônico! Digo a ele: Pois é, fiquei indignado, deve ser porque me interesso por você. Elas são ciumentas e eu não confio em você.

Nas associações Balthazar diz: “Sabe, nem havia te contado: já tenho um novo formador”. O fato de Balthazar associar temporalmente o relato de um sonho que fala de sexualidade, masturbação, mulheres ciumentas etc à chegada do novo formador me faz pensar que tudo está muito ligado: sexualidade, visão do feminino, suas origens simples (sandália de couro), o ambiente da casa de formação, a pessoa do formador como figura de autoridade etc. Havia uma carga afetiva nisso, talvez medo, talvez curiosidade. Diz que o formador tem cara de índio. Ele também tem esta etnia em suas origens. Sua mãe é mulata e teve avó índia (sua bisavó) que ele não conheceu. Eu já sabia que sua mãe era muito bonita “bonita demais, para

que tanta beleza a de mãe?”. Digo a ele que o padre era bonito e tudo se mesclava no sonho: auto-erotismo (era relação sexual e depois parece masturbação); homo- erotismo (na ação do sonho); ciúmes (coisa de mulher).

Nas associações diz: “Desconfio de uma das “panelinhas” da casa. São afetados e eu não gosto.” Perguntei por que não gostava. Perguntei se ele era homossexual. Respondeu-me: “Isto tem importância?”. Disse a ele que queria entrar em contato com suas histórias e imaginava que sua vida não era circunscrita à faculdade, vida cultural solitária e caminhadas. É freqüente que eu use mesmo um ‘saca-rolhas’ com os seminaristas por saber que o acompanhamento pode ser interrompido ao final do semestre. Então me ocorre uma pergunta mais assertiva como a que referi. Dou-me conta que os tempos da vida religiosa são também estressantes para minha posição de eu terapeuta e demonstrei minha ansiedade em querer resolver rapidamente algo tão profundo quanto sua identidade sexual. A estrutura da formação também me afetava. Tratava-se de um modo peculiar de contra-transferência, para usar um linguajar freudiano. Do ponto de vista da TSD minha posição de eu que dialogava com a instituição formativa ficava ansiosa e temia interrupções abruptas do processo psicoterapêutico. Pude então imaginar e compreender os medos de Balthazar. Como tudo tem sua razão no encontro terapêutico, alguma outra posição do eu de Balthazar responderia à minha pergunta em outro momento. Passamos a outros assuntos e ele percebeu que eu não seria de modo algum invasiva. Por seu modo discreto de ser qualquer exagero na conduta de seus colegas de comunidade (referência às ‘panelinhas’ afetadas) o incomodaria, mesmo que não tivesse inclinação homoerótica.

Benzer Belgeler