“Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio Nem ama duas vezes a mesma mulher Deus e a circulação e o movimento infinito Ainda não estamos habituados com o mundo Nascer é muito comprido.”
Murilo Mendes
A poesia condensa as principais idéias de Heráclito de Éfeso acerca da realidade: Devir e Logos. A partir deste pensador é possível construir a noção de Devir, ou seja, do fluxo e do movimento de todas as coisas: Panta Rhei, tudo flui. De acordo com Holanda (1993), a respeito das idéias de Heráclito, este vir a ser é uma antítese, um conflito que se desenrola num círculo, reconduzido à estabilidade pelo acordo entre as oposições para voltar a se contradizer em seguida. Este acordo provém de Logos, elemento que se refere ao Uno, à unidade, princípio ativo do universo que rege eventos de toda ordem, determinando a única lei imutável da realidade: a contínua transformação.
Esta perspectiva é semelhante às idéias de Rogers (1963 apud HOLANDA, 1993, p. 53), quando teoriza acerca da tendência atualizante como impulsionando o desenvolvimento, assim como Logos proporciona o Devir. Esta visão de mundo é mais útil
para a compreensão da identidade como metamorfose. Outros modelos de interpretação da realidade tendem a compreender identidade como a permanência do idêntico a si mesmo.
A Identidade é uma categoria de análise, ou seja, é um referencial. A partir da construção teórica “Identidade” (CIAMPA, 2001) vai ser possível enxergar e delinear um movimento da subjetividade humana, que é o do processo de produção de si mesmo, da singularidade a partir da diversidade. Esta produção vai ganhar corpo a partir da Atividade e da Consciência Pessoal (GÓIS, 1999; LEONTIEV, 1978), evidenciando a formação dinâmica da construção da humanidade em seus processos objetivos/subjetivos.
De acordo com Ciampa (1984, p.72), não é possível dissociar o estudo da identidade pessoal do estudo da sociedade: “As possibilidades de diferentes configurações de identidade estão relacionadas com as diferentes configurações da ordem social [...]”.
Baptista (2002) complementa e desenvolve a idéia:
Políticas de identidade podem ser responsáveis pela manutenção de determinadas configurações de identidades em certos períodos de tempos. No nível individual sempre que a pessoa reproduz indiscriminadamente esta identidade pressuposta pela política, poderá estar vivendo o que Ciampa (1990) denomina “mesmice”: cristalização de um processo de igualdade, movimento de reposição de uma identidade já dada. (...) A mesmice ou a metamorfose são possibilitadas, estimuladas ou impedidas tanto pelas condições objetivas (estrutura social, grupos de referência, organizações, instituições), quanto pelas subjetivas, representadas principalmente pela capacidade de reflexão de cada uma das pessoas. ( BAPTISTA, 2002, s.p.) Esta é uma perspectiva da identidade em desenvolvimento, e não da identidade estática. O desenvolvimento da Identidade não acontece dentro de etapas pré-estabelecidas nem visa a atingir um estágio final. Também não acontece fora das possibilidades sociais concretas.
É possível perceber a transformação da identidade através do redimensionamento da vida da personagem. Identidade é representação de si. La Taille (2002) equivale a identidade ao conjunto de representações, de imagens de si, que estão carregadas de valores, localizados como centrais ou periféricos de acordo com sua importância. Ciampa (2001) vai além das representações e considera que a Identidade aparece como a história de uma personagem, que é narrada pelo contador da história, pelo autor, que, ao mesmo tempo é, também, personagem. A história de uma personagem é vinculada a várias outras histórias. A partir da representação de si é possível chegar à análise da produção de si.
A representação de si, que aparece na história contada e pode ser percebida também pelos silêncios da história que não se contou, pode também aparecer condensada no cotidiano pelos substantivos utilizados para designarem os seres. O substantivo diz do ser.
Estabelece a igualdade e a diferença. A questão da identidade é uma questão do ser. Como Ciampa (1984) ressalta, lembrando os escritos bíblicos da criação do mundo: no princípio era o verbo. O substantivo existe por conta da ação do verbo. Ser se constrói a partir do fazer: identidade e atividade.
O fazer, pela sua repetição, condensa-se no substantivo, e isso dá o caráter atemporal da identidade. Se uma personagem não necessita do narrador para existir, cristalizou-se, é mito. O papel é esta atividade padronizada, repetitiva, que prescinde da criatividade do emissor, determinando sua interpretação. Deriva, de acordo com Heller (1985), de uma relação limitada entre sujeito e sociedade, baseada numa visão estática da realidade.
É possível dizer, de acordo com o pensamento de Ciampa (1984), que a permanência do idêntico a si mesmo trata da reposição da identidade pressuposta. Para que esta reposição aconteça é preciso que a ação da personagem esteja de acordo com o pressuposto.Uma ação pressuposta é um papel.
Representação de si não é a representação de um papel, nem a somatória dos papéis assumidos. É a objetivação da subjetividade. Em cada momento da existência, há um aspecto da totalidade manifestando-se, um desdobramento das múltiplas possibilidades de ser. Estas possibilidades são determinadas nas relações sociais, que acontecem na atividade. Ser plenamente implica deixar de ser o que sempre foi para poder ser diferente, e ainda assim, o mesmo. É deixar de repor a identidade pressuposta.
Ciampa (2001) aborda a Identidade Pessoal a partir da noção de si. Góis (1995) aborda a mesma questão a partir do sentimento de si, fundamentando-se em Toro, Merleau- Ponty e Dilthey. A percepção de si brota do sentimento de estar vivo, que tem sua fonte na instância biológica, na corporeidade, expressão de uma totalidade possível apenas na imediaticidade do momento presente. Em seus aspectos parciais, aparece como noção de si. Em seu aspecto de totalidade, aparece como sentimento de si.
Quando afirma que “[...] diante do desconhecido, do indescritível, da não- estrutura, a identidade aflora com mais intensidade e cria um campo de presença onde o ser presentifica-se [...]” (GÓIS, 1995, p.56), o autor está de acordo com Heller (1985) quando esta diz que, diante de uma situação inesperada, para a qual o papel social do sujeito não serve de resposta, as características singulares aparecem. O Quadro 1 resume as reflexões apresentadas:
QUADRO 1 - Identidade como Noção e Sentimento de Si
QUADRO 1: Identidade como Noção e Sentimento de Si
Atividade e Consciência vão compor a Identidade, categoria síntese da compreensão da subjetividade pessoal, que não se encerra no indivíduo, mas efetua um desdobramento do singular e do social, compondo o modo como o ser humano vai construindo a realidade.
Identidade não diz respeito apenas à autoconsciência ou à formação de um autoconceito que permita ao sujeito algum tipo de auto-referência ou auto-avaliação. Não diz respeito apenas aos elementos ou traços com os quais o sujeito se identifica. Este pensamento, que não ultrapassa o nível da evidência e trata da estruturação dos papéis, não dá conta do movimento de produção da identidade (CIAMPA, 1984). A citação a seguir explica o modo como a Identidade Pessoal é abordada no presente estudo, e como esse conceito articula diferenças, dentro do que se supunha idêntico a si mesmo.
A noção de consciência individual configurada pela e em relação com os outros, habitada por múltiplas e diferentes “vozes” ou palavras de outros, torna possível para o sujeito uma constituição um tanto singular - “lugar” único de articulação dessas vozes.
O sujeito habitado por múltiplas vozes fala com sua própria voz no “coral”: um concerto polifônico desarmônico caracterizado por movimentos sincrônicos, bem como por vozes distintas, conflitantes, dissonantes.
No entanto, se o sujeito é constituído semioticamente – pelo outro ou pela palavra – e se o signo é fundamentalmente polissêmico, a natureza do processo de constituição deve implicar o que é diferente, não só o que é idêntico. (SMOLKA; GOES; PINO, 1998, p.157).
Reflexão
Narração da própria história
Representação de si
Noção de si
(Ciampa)
Vivência
Momento Presente
Sentimento de estar vivo
Sentimento de Si
(Góis)
Compreende-se com Paulo Freire (1992) que ser humano é ser inacabado. “Nascer é muito comprido”, segundo o poeta. Ser humano é uma questão de estar se tornando, assim como, no entender de Freire (1980), o mundo não é, o mundo está sendo.
A compreensão de Ciampa (2001) a respeito da identidade humana aborda como se dá este processo de fazer-se humano, de construir a si mesmo. Ao transformar o mundo, com os outros, o humano transforma a si, num movimento de negação do que era para poder vir a ser o que ainda não se é.
As concepções clássicas a respeito da Juventude focalizam bastante a questão da Identidade. Tais concepções dizem que a Juventude é o momento de definição da Identidade, ou de crise da Identidade, como vai ser examinado no tópico seguinte. Tais perspectivas são incongruentes com este referencial, que não compreende um momento específico da vida para tais eventos. A definição da Identidade, se puder ser compreendida como manutenção, e a crise, se puder ser entendida como mudança, ocorrem a todo instante, nos momentos em que o sujeito (re)apresenta-se à sociedade e nos momentos em que se sente vivo e em relação a tudo que vive.
A condição do jovem na sociedade atual possui especificidades que o presente estudo pretende abordar a partir da Psicologia Histórico-Cultural da Mente.