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4. BULGULAR VE TARTIŞMA

4.5. Farklı Kanatsız Afit Türlerinde Fosfolipit Alt Sınıfı Fraksiyonlarının Yağ

[...] donde concluo que um dos ofícios do homem é fechar e apertar muito os olhos, e ver se continua pela noite velha o sonho truncado da noite moça.

MACHADO DE ASSIS. Dom Casmurro.

“A ficção inventa outra coisa porque suspeita da coisa que supomos saber; então ela tenta abordar a mesma situação por outro ângulo, por outra perspectiva.”268 No cerne, pois, dessa suspeição – que tem sido ratificada em cada paragem desse estudo – com relação ao “já dado”, aos atos cristalizados pelo hábito ou pelas convenções, lateja o desejo de liberdade que, conectado ao projeto nietzschiano de rebaixamento dos valores, implica, a priori, na desautorização da verdade dos conceitos.

Daí a crítica de Nietzsche à associação das ficções ao estatuto de verdade, o que considera um sintoma de degeneração da vida, enquanto, por outro lado, a ficção que se assume invenção é afirmativa, positiva. Em A gaia ciência, o filósofo discorre sobre a equiparação entre o desenvolvimento da linguagem e o da consciência. Sabendo que foi justamente na linguagem que se deu a constituição dos valores morais, a consciência cumpriria o papel de internalizar esse processo, a serviço – esse é um ponto nodal de sua crítica – da gregariedade; logo, da vulgarização. Diz Nietzsche:

[...] tudo o que se torna consciente por isso mesmo torna-se raso, ralo, relativamente tolo, geral, signo, marca de rebanho, que a todo tornar-se consciente está relacionada uma grande, radical corrupção, falsificação, superficialização e generalização.269

268 BERNARDO. A ficção cética, p. 86. 269 NIETZSCHE. A gaia ciência, aforismo 354.

A exaltada enunciação do pensador no combate à consciência, associada a uma linguagem que se quer verdade – não no que concerne às singularidades, mas à grege –, permite-nos entrever, e a ele nos apegar, o aspecto positivo do signo, qual seja, na assunção da sua impossibilidade, esquivo a critérios de verdade e de identidades fixas.

Um homem casa-se com o próprio irmão, metamorfoseado em uma mulher. Eis a cena que testemunhamos em A céu aberto (1996):

Quando voltei meu irmão estava diante do fogão aguardando a subida do leite que fervia. Ele vestia uma camisola azulada que lhe vinha até os pés descalços. Transparente a camisola, e do outro lado do tecido fino havia o corpo de uma mulher. Precisei romper comesse negócio de pensar nessa figura aí como meu irmão, falei dentro de mim.270

A projeção delirante, do irmão na mulher com quem se casou (ou vice-versa?), torna-se ainda mais confusa. Continua o narrador:

Perguntei cheirando-lhe o pescoço levemente perfumado se ela andava distraída. Ela suspirou e fingiu que voltava a si. Eu já era um homem apaixonado, ainda mais por saber que aquele corpo percorrera um itinerário tão tortuoso para chegar até ali. Dentro daquele corpo de mulher deveria existir a lembrança do que ele fora como homem, e boliná-lo como eu fazia naquele instante deixava em mim a agradável sensação de estar tentando seduzir aminha própria casa, onde eu encontraria o meu irmão quem sabe em outro momento.271

No devaneio – se é que esse vocábulo se aplica com precisão a tal estado – desse personagem, irrompe uma situação de estranhamento que enreda em incertezas o leitor, porquanto se quebra o pacto entre a verossimilhança e o que nela se vê refletido, estabelecendo com ela, por isso mesmo, relações significativas.

270 NOLL. A céu aberto, p. 76. 271 NOLL. A céu aberto, p. 76.

Voltando ao quieto animal, vale retomar um trecho que bem ilustra a emersão da vertigem no relato do narrador: “De repente estonteei forte, me segurei numa árvore, pude avaliar a distância entre mim e o prédio [...] Olhei meu sapato novo que pisava um terreno úmido, me deu vontade de rir. Travei o riso, mas só de ter pensado em rir a vertigem foi cedendo.”272

Se por um lado, essa oscilação entre o sono e a vigília, ou entre o devaneio e o real, descentram o leitor de um eixo narrativo pautado na linearidade e na verossimilhança, por outro, abre-lhe a percepção do quão temerária é a crença no poder da ficção de preencher seus hiatos e lacunas, sendo ela mesma pontuada de vazios. É com a ficcionalização dessas impossibilidades – de se adequar a um ritmo ditado pela praticidade, de se resgatar intacto o passado e, pulsando tectonicamente, de se alcançar um núcleo original, onde se escuda a verdade – que pactuam essas narrativas; projeto em cujo âmago abriga-se o ceticismo que, esclarece Gustavo Bernardo, remonta aos primórdios da filosofia ocidental, tendo, provavelmente, por inaugurador um pensador anterior a Sócrates, Pirro.

Entendendo o ceticismo como constitutivo da literatura – ressaltando o mote descartiano de que pensar é o mesmo que duvidar – o ensaísta reporta-se a um artigo de Frédéric Cossutta, “Pour un renouveau sceptique”, onde defende ser o ceticismo um antídoto contra o niilismo, por oferecer ao homem “uma possibilidade de melhor pensar e de melhor viver.”273 O ceticismo é visto, pois, como estimulador da procura, como o que incita à discussão sobre o mundo, ao passo que suspeita das concepções que o regulam. Assevera ainda Gustavo Bernardo: “O argumento cético forte se organiza a partir de algumas metáforas geradoras que permitem a aproximação do problema pelas bordas.”274 Uma dessas metáforas seria a do “cérebro em suspensão”, guiado por outras “forças”, ou monitorado por máquinas,

272 NOLL. O quieto animal da esquina, p. 23. 273 BERNARDO. A ficção cética, p. 31. 274 BERNARDO. A ficção cética, p. 32.

que seja; de qualquer forma, alçado por sobre as experiências e crenças cotidianas e, por isso mesmo, lançando sobre elas o espectro da suspeição, já que passam a ser vistas e concebidas a partir de uma outra abertura.

A linguagem, urge ratificar, expande-se em possibilidades de leitura, deslocando- se, descentrando-se, fazendo desfilar os signos não como verdades eternas, mas como manifestações das diferenças e singularidades, e do incognoscível que habita em todos os seres. Estamos, destarte, no centro do projeto nietzschiano, ainda que soe como uma heresia utilizar a palavra “centro” para se referir a uma obra que teve por principal política transvalorar todos os valores, mormente os que partem da idéia justamente de centro, núcleo, origem. Projeto que reverbera, como vemos, tanto nas teorias sobre o ceticismo quanto nos estudos que se têm voltado para as produções discursivas que escapam aos eixos dominantes afirmando outras linguagens e temporalidades, outros espaços, ritmos e valores.

Por ora, interessa frisar que os vertiginosos percursos cumpridos nos romances de João Gilberto Noll acenam um desejo de afirmação da vida, e não de negação – ao contrário do que pode inferir um leitor desavisado que, numa primeira leitura, qualifique-os como niilistas. Se a vontade de negação, ou a vontade de nada, é o que determina o niilismo passivo, surge a necessidade de transvaloração para que a vida seja afirmada. Essa afirmação efetiva- se à medida que são negados os “valores superiores”, os modelos racionais – lingüísticos e institucionais, culturais – e os binarismos simplificadores que, postos sob suspeição, dispõem- se como rastros a serem apagados. Daí a determinação nietzschiana em apontar o grande erro de Sócrates, a sua crença na racionalidade, a qualquer preço. Asseverou o filósofo alemão:

Sócrates foi um grande mal-entendido: toda a moral do aperfeiçoamento, também a cristã, foi um mal-entendido... A mais crua luz do dia, a racionalidade a todo custo, a vida clara, fria, cautelosa, consciente, sem instinto, em resistência aos instintos, foi ela mesma apenas uma doença.275

O trânsito vertiginoso, assim como os instintos a que se entregam esses narradores, expressam o desejo de afirmação da vida e – ainda que não se anuncie qualquer télos redentor dessas jornadas – é a linguagem que, iniludivelmente, o potencializa, celebrando a não-passividade dos corpos. Essa é a certeza que nos legam tanto o inominado animal da esquina – em sua jubilosa celebração do esquecimento, em prol de um re-começo que se anuncia – quanto as palavras do narrador de Rastros do verão, sintomáticas desse desejo vital que temos testemunhado:

Não, eu não queria morrer, eu disse distraído para o garoto [...] dizia que eu não queria morrer, queria um espaço imenso por onde eu pudesse andar, onde o tempo corresse pela ação dos meus pés, o meu corpo existindo para percorrer, onde eu parasse também e na manhã radiosa prosseguisse, onde a vida fosse sempre um novo lugar.276

Benzer Belgeler