1. HAVALANDIRMA (MANİKALAR) (VENTILATION)
1.4. Fanlar
José Barroso Filho, em artigo intitulado Propriedade: a quem serves?, mostra a sociedade como uma união pautada na solidariedade, devendo todos os seres humanos se ajudarem mutuamente com o fim de promover o bem-estar não apenas de uma parcela limitada da população, mas de todo o corpo social, deixando de lado a visão predominantemente individualista e auto-suficiente do homem, o qual não subsiste sem a sociedade. Assim, na sua concepção:
[...] a agregação social deve-se, fundamentalmente, à uma solidariedade por complementariedade e não mais pela utópica visão do congraçamento pela igualdade ou semelhança. O Homem precisa da Sociedade, assim como a Sociedade precisa do Homem, o Homem não é pleno em si. 35
O homem vive em sociedade para satisfazer necessidades espirituais e materiais, utilizando-se dos mais variados bens disponíveis, os quais, entretanto, são limitados, tornando impossível satisfazer todos os homens em todas as suas solicitações. Logo, para a preservação do grupo social e do próprio homem é necessária a imposição de limitações ao exercício dos direitos individuais, tendo em vista sempre o bem-estar da coletividade.
A propriedade trata-se de um direito subjetivo, o qual, entretanto, está adstrito a uma função, definida por Magalhães Filho como “situação jurídica previamente determinada em uma norma, finalidade que deve ser obrigatoriamente
atendida por alguém, mas em benefício ou no interesse de outrem”. 36
O direito de propriedade, portanto, não pode ser exercido de forma ilimitada, sem quaisquer restrições. Seu titular deve sujeitar-se a deveres jurídicos perante o corpo social. No caso de um Estado Democrático de Direito, como é o nosso, tais parâmetros são definidos pela lei, que dispõe o que pode e o que não pode fazer o proprietário, estabelecendo as devidas sanções, no caso de eventual descumprimento.
35
BARROSO FILHO, José. Propriedade: A quem serves? Jus Navigandi, Teresina, ano 6, n. 52, nov. 2001. Disponível em: <http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=2453>. Acesso em: 04 de março de 2007.
36
MAGALHÃES FILHO, Glauco Barreira. Hermenêutica e unidade axiológica da Constituição. 2. ed., Belo Horizonte: Mandamentos, 2002, p. 216.
Jivago Petrucci, em artigo já citado, declara ser uma negação da existência do próprio direito a afirmação do direito de propriedade como absoluto, para isso se vale das palavras de Adilson Abreu Dallari "mesmo porque a idéia de poder absoluto não se coaduna com a idéia de direito. Qualquer direito será sempre limitado". 37
Tendo-se o direito como um sistema de promoção da convivência social, a qual, para dar-se de maneira harmônica, necessita da redução da esfera de liberdade dos indivíduos, pode-se concluir que a concepção do direito de propriedade como um direito absoluto é incompatível mesmo com a idéia de direito, já que este é por natureza limitado, devendo sofrer condicionamentos no seu exercício.
O Código Civil Brasileiro de 2002 ainda conserva muitos traços herdados do direito romano, como bem se percebe pela redação do caput do art. 1228 que atribui ao proprietário a faculdade de usar, gozar e dispor da coisa, e o direito de reavê-la do poder de quem quer que injustamente a possua ou detenha. No entanto, esse mesmo dispositivo normativo se coaduna com a moderna concepção do direito de propriedade quando no seu § 1º estabelece que o mesmo deve ser exercido em consonância com as suas finalidades econômicas e sociais, sempre no intuito de evitar sua utilização abusiva. Além disso, aventa a possibilidade de o proprietário ser privado da coisa nos casos de desapropriação por necessidade ou utilidade pública ou interesse social (§ 3º).
A Constituição Federal, entretanto, é o diploma legal que define com maior relevância o direito de propriedade e a necessidade do seu exercício em atendimento à sua função social, já que a eleva ao posto de princípio fundamental (art. 5º, XXIII), e, portanto, engloba-a no rol das cláusulas pétreas, não podendo ser objeto de supressão ou mitigação. Garante também uma série de propriedades especiais constitucionalmente previstas, como a propriedade urbana (art. 182, § 2º), a rural (art. 184), a de recursos minerais (art. 176), a de empresa jornalística e radiodifusão sonora e de sons e imagens (art. 222), além da propriedade autoral, a de inventos e de marcas e patentes e a propriedade-bem de família, elencadas no
37
DALLARI, Adilson Abreu apud PETRUCCI, Jivago. A função social da propriedade como princípio jurídico. Jus Navigandi, Teresina, ano 8, n. 229, 22 fev. 2004. Disponível em: <http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=4868>. Acesso em 04 de março de 2007.
art. 5º. Ao presente estudo releva apenas a análise da propriedade rural, já que, pelos motivos anteriormente escandidos, o meio rural é onde ocorre com maior freqüência a prática de trabalho escravo, objeto da PEC em exame.
O Estado brasileiro adota fundamentalmente o sistema da propriedade privada dos meios de produção, o que se percebe de pronto pela consagração deste instituto como princípio da ordem econômica (art. 170 caput, inciso II / CF). Cabe à Constituição, no entanto, estabelecer instrumentos para mitigar os efeitos de um capitalismo selvagem, perpetuador de desigualdades, promovendo uma maior socialização do sistema, dentro das suas possibilidades.
Neste intuito, consagra-se uma ordem econômica preocupada com a dignidade da pessoa humana e a justiça social, além da disposição da função social da propriedade também como um dos princípios da ordem econômica, condicionando a propriedade privada ao seu cumprimento. A liberdade de iniciativa, portanto, é legitima quando atinge os fundamentos, fins e valores estampados no art. 170 / CF, caso contrário não o será.
José Afonso da Silva, assim, assevera:
É verdade que o art. 170 inscreve a propriedade privada e a sua função
social como princípios da ordem econômica (incs. II e III). Isso tem
importância, porque, então, embora prevista entre os direitos individuais, ela não mais poderá ser considerada puro direito individual, relativizando- se seu conceito e significado, especialmente porque os princípios da ordem econômica são preordenados à vista da realização de seu fim: assegurar a
todos existência digna, conforme os ditames da justiça social. Se é assim,
então a propriedade privada, que, ademais, tem que atender a sua função social, fica vinculada à consecução daquele princípio. 38
A propriedade rural possui ainda alguns dispositivos constitucionais peculiares visto que, como bem essencialmente de produção, tem como objetivo natural a produção de bens necessários à sobrevivência, requerendo normas no sentido de garantir o efetivo aproveitamento da terra, daí o estabelecimento de requisitos particulares para o cumprimento de sua função social (art. 186 / CF): aproveitamento racional e adequado; utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio ambiente; observância das disposições que
38
regulam as relações de trabalho; exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores.
Todas essas disposições têm o fim único de frear os comportamentos particulares anti-sociais, autorizando a intervenção do Estado no domínio econômico em face do descumprimento de deveres por ele impostos através de lei. Busca-se tão-somente orientar e dirigir o comportamento livre dos grupos econômicos privados no modelo capitalista, evitando a ocorrência de condutas abusivas por parte dos proprietários, que devem exercer a livre iniciativa de forma condicionada a uma série de princípios norteadores da ordem econômica, dentre os quais a função social da propriedade, além de todos os outros preceituados em nossa Constituição.
Como já ressaltado, as doutrinas socialistas e o pensamento cristão em muito contribuíram para a formulação do conceito de propriedade privada, dotando-a de uma função social, cabe ao Estado, então, criar meios para assegurar o seu cumprimento. Acerca desta temática Venosa assim estabelece:
A Encíclica Mater et Magistra do Papa João XXIII, de 1961, ensina que a propriedade é um direito natural, mas esse direito deve ser exercido de acordo com uma função social, não só em proveito do titular, mas também em benefício da coletividade. Destarte, o Estado não pode omitir-se no ordenamento sociológico da propriedade. Deve fornecer instrumentos jurídicos eficazes para o proprietário defender o que é seu e que é utilizado em seu proveito, de sua família e de seu grupo social. Deve, por outro lado, criar instrumentos legais eficazes e justos para tornar todo e qualquer bem produtivo e útil. Bem não utilizado ou mal utilizado é constante motivo de inquietação social. A má utilização da terra e do espaço urbano gera violência. O instituto da desapropriação para finalidade social deve auxiliar a preencher o desiderato da justa utilização dos bens. 39
O proprietário, enquanto detentor da propriedade e atendendo aos deveres jurídicos que lhe são impostos em decorrência dela, deve ter seus atos protegidos. Não os cumprindo, torna legítima a intervenção do Poder Público para compeli-lo ao cumprimento de sua função social de proprietário, assegurando a utilização da riqueza conforme o seu destino.
Corroborando da mesma opinião, Carvalho Filho estipula que:
a propriedade não mais se caracteriza como direito absoluto, como ocorria na época medieval. Hoje o direito de propriedade só se justifica diante do pressuposto que a Constituição estabelece para que a torne suscetível de tutela: função social. Se a propriedade não está atendendo a sua função
39
social, deve o Estado intervir para amoldá-la a essa qualificação. E essa função autoriza não só a determinação de obrigações de fazer, como de deixar de fazer, sempre para impedir o uso egoístico e anti-social da propriedade. Por isso, o direito de propriedade é relativo e condicionado. 40
Não há dúvida quanto à necessidade de cumprimento de uma função pela propriedade, todavia, esta não se configura apenas na obrigação de dar um destino socialmente útil ao seu bem, mas transcende esse aspecto, adentrando ao cumprimento de postulados que promovam efetivamente uma justiça social, o que se infere pelos próprios objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil (art. 3º / CF), cite-se, a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, bem como a erradicação da pobreza e da marginalização e a redução das desigualdades sociais e regionais.
Acerca dos objetivos supra-referidos, Eros Roberto Grau declara:
Sociedade livre é sociedade sobre o primado da liberdade, em todas as suas manifestações e não apenas enquanto liberdade formal, mas sobretudo, como liberdade real. Liberdade da qual, neste sentido, consignado no art. 3º, I, é titular – ou, co-titular, ao menos, paralelamente ao indivíduo – a sociedade. Sociedade justa é aquela, na direção do que aponta o texto constitucional, que realiza justiça social [...] Solidária, a sociedade que não inimiza os homens entre si, que realiza no retorno, tanto quanto historicamente viável [...] a energia que vem da densidade populacional fraternizando e não afastando os homens uns dos outros. 41
As palavras de Grau dimensionam com muita propriedade muitos dos mais importantes fins buscados por nosso Estado, sempre tendo em vista o objetivo supremo de atingir o bem comum, proporcionando a todos os indivíduos que estão sob sua égide direito ao trabalho e a condições dignas de vida, o que só pode ser alcançado por meio do:
rompimento do processo de subdesenvolvimento no qual estamos imersos e, em cujo bojo, pobreza, marginalização e desigualdades, sociais e regionais, atuam em regime de causação circular acumulativa - são causas e efeitos em si próprias. 42
Uma interpretação finalística de qualquer disposição constante do texto da Constituição jamais poderá deixar de levar tais objetivos em consideração. Esta visão se coaduna com o entendimento de Grau acerca da interpretação
40
CARVALHO FILHO, José dos Santos. Manual de Direito Administrativo. 13. ed., Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2005, p. 590.
41
GRAU, Eros Roberto. A Ordem Econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). São Paulo: Revista dos Tribunais, 1990, p. 233.
42
constitucional, para quem “a Constituição não é um mero agregado de normas; e
nem se pode interpretar em tiras, aos pedaços”. 43
Reitere-se, neste ponto, o objetivo primordial e inafastável da ordem econômica, que tem como princípios a serem observados a propriedade privada e a função social da propriedade, de assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social (art. 170 / CF), comprometendo todo o exercício da atividade econômica com a promoção da dignidade da pessoa humana, a qual cabe a todos gozar.
Seguindo esse entendimento, José Afonso da Silva assim dispõe:
Os conservadores da constituinte, contudo, insistiram para que a propriedade privada figurasse como um dos princípios da ordem econômica, sem perceber que, com isso, estavam relativizando o conceito de propriedade, porque submetendo-o aos ditames da justiça social, de sorte que se pode dizer que ela só é legítima enquanto cumpra uma função dirigida à justiça social. 44
Neste esteio, tem-se que o princípio da função social da propriedade está intimamente ligado a um objetivo maior: alcançar a justiça social, entendida esta como a necessidade de uma equânime repartição de riquezas, mitigando a concentração de renda e ofertando condições de vida dignas a toda a população e não apenas a uma parcela restrita, de forma a assegurar a realização dos objetivos básicos de nosso Estado.
Caio Mário, por sua vez, ressalta a mudança de atitude do Estado, o qual passou a intervir cada vez mais no domínio econômico de forma a promover o bem- estar da coletividade, assegurando a utilização dos bens individuais, mas sempre tendo em vista a sobreposição do social sobre o particular:
[...] reconhecendo embora o direito de propriedade, a ordem jurídica abandonou a passividade que guardava ante os conflitos de interesses, e passou a intervir, séria e severamente, no propósito de promover o bem comum que é uma das finalidades da lei, e ainda de assegurar a justa distribuição da propriedade com igual oportunidade para todos. 45
Mais a frente, o autor acrescenta ainda:
43
GRAU, Eros Roberto. A Ordem Econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). São Paulo: Revista dos Tribunais, 1990, p. 216.
44
SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 23. ed., São Paulo: Malheiros Editores, 2004, p. 792.
45
PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de Direito Civil: Direitos Reais. v. 4, 18. ed., Rio de Janeiro: Forense, 2004, p. 86.
O direito moderno, com a criação da propriedade empresária, permitiu a concentração do poder econômico de tal forma que promove uma desigualdade social altamente perigosa. No propósito de coibir abusos daí resultantes, a ordem jurídica tem de adotar medidas tendentes a conter a utilização dos bens num plano compatível com a sobrevivência dos interesses da coletividade. 46
Portanto, ante a moderna visão acerca do direito de propriedade e todas as disposições jurídicas do nosso ordenamento, com destaque para as que salientam e regulam sua função social, é inconcebível a sua utilização de modo a privilegiar apenas o lucro e a satisfação pessoal em detrimento do bem comum. Seu exercício deve dar-se de forma a congraçar interesses divergentes, promovendo o bem-estar da coletividade e uma convivência harmônica, pautada na justiça social.
É por isso que Carvalho Filho, traçando os objetivos da função social da propriedade, a considera como instrumento capaz de trazer à propriedade seus contornos naturais, tendo um caráter muito mais amplo, que vai além do mero objeto de direito (a coisa em si), passando a ter influxo na sociedade como um todo, de maneira a assegurar o bem-estar da coletividade:
A função social pretende erradicar algumas deformidades existentes na sociedade, nas quais o interesse egoístico do indivíduo põe em risco os interesses coletivos. Na verdade, a função social visa a recolocar a
propriedade na sua trilha normal. 47
3.3 Choque de normas constitucionais: direito de propriedade x dignidade da