A decisão de pesquisar a produção de notícias em uma Segunda Tela de um telejornal passa, primordialmente, pela percepção que temos de que os processos
produtivos deixam marcas nos telejornais, e, nesse sentido, conhecê-los implica obter pistas para o entendimento dos seus sentidos (VERÓN apud BARRETO, 2006).
O Estudo de Caso e alguns de seus procedimentos foram utilizados para o desenvolvimento da análise desta pesquisa. Trabalhamos com um telejornal de veiculação nacional, o Jornal da Cultura, transmitido pela TV Cultura, ligada a Fundação Padre Anchieta (SP), e que durante seis meses utilizou como recurso auxiliar uma Segunda Tela, sugerindo a ideia de expansão da notícia. Com o experimento, o JC também propôs uma reformulação no cenário das rotinas produtivas e uma possível reorganização dos valores-notícia, sendo estes incorporados ao universo digital e em rede. Além disso, o telejornal se enquadra nos parâmetros já citados no decorrer deste estudo, a reconfiguração da TV, bem como seus gêneros. Utilizamos o pensamento de Goode e Hatt (1979) de parâmetro para a construção desta análise “o Estudo de Caso é um meio metodológico de organizar dados preservando o caráter unitário do objeto estudado”.
Para (Yin apud Duarte 2005, p. 218) quando utilizado em uma pesquisa, o Estudo de Caso pode dar profundidade ao tema porque utiliza fontes relevantes para a construção da análise.
O Estudo de Caso deve ter preferência quando se pretende examinar eventos contemporâneos, em situações onde não se podem manipular comportamentos relevantes e é possível empregar duas fontes de evidências (...) que são a observação direta e a série sistemática de entrevistas (...) o poder diferenciador do estudo de caso reside em sua capacidade de lidar com uma ampla variedade de evidências – documentos, artefatos, entrevistas e observações. (YIN apud DUARTE, 2005, p. 218).
Ao organizarmos um relatório de pesquisa com os dados colhidos nas entrevistas feitas por e-mail e criadas a partir das observações diretas de dez edições do telejornal (primeira semana do mês de março e última do mês de setembro), nos certificamos que o Estudo de Caso foi realizado seguindo os itens: descrição, classificação, desenvolvimento, teste da teoria. O cuidado do pesquisador é necessário para que não sejam feitas inferências pessoais sobre o objeto, mantendo o distanciamento necessário, algo relevante na construção de um texto alçado no contexto do Estudo de Caso. Segue- se durante este trabalho uma ordem de pensamento que ajudou a sistematizar o estudo. Começamos por um caminho teórico, que elencou questionamentos gerados em problemas da vida real: o uso demasiado das redes sociais, a nova forma de
compartilhamento da TV e a necessidade de interação e participação da massa, com o fenômeno já citado e exposto anteriormente da TV Social.
Em seguida, adotamos a observação direta do telejornal como peça-chave para a análise. Criando a partir dela uma série de questionamentos que serviram para a organização de uma entrevista, a qual foi enviada por e-mail ao responsável na TV Cultura. Estes foram identificados em momento inicial da pesquisa, por meio de um contato dos autores com a assessoria de imprensa da emissora, após essa intermediação nos foi reportado o endereço eletrônico de quem poderia nos fornecer dados sobre o funcionamento da Segunda Tela do Jornal da Cultura. A direção da emissora permitiu que as perguntas fossem enviadas via e-mail, vedando a participação direta dos autores.
Nosso objeto foi contemplado na medida em que identificamos se realmente existia na construção da notícia a ideia de ampliação do conteúdo a partir do uso da Segunda Tela do JC. Traçado este objetivo, fomos à procura de entender o processo de narrativa da informação complementar na TV, observando seus modelos de uso e disponibilização de conteúdo, bem como as rotinas produtivas empregadas na apuração, seleção e produção da notícia. Por fim, tentamos compreender se existe uma remodelagem da linguagem do telejornalismo, a partir da reconfiguração da lógica organizacional da televisão.
O relatório de análise desta dissertação foi dividido da seguinte forma: observação direta das dez edições do Jornal da Cultura, catalogação dos dados observados, elaboração de entrevistas, aplicação das entrevistas e por fim análise das respostas e cruzamento com conceitos que fazem parte da teoria do newsmaking, níveis de interatividade e constrangimentos organizacionais.
Acreditamos que a nossa escolha metodológica se faz acertada porque encontramos nela uma maneira de integrar o uso de um conjunto de ferramentas para o levantamento e análise das informações obtidas (DUARTE, 2006). A rigor o Estudo de Caso representa um levantamento detalhado do assunto, tratando das etapas de planejamento, análise e exposição de ideias. Nossa escolha metodológica se classifica também como qualitativa e com objetivo exploratório, por reunir informações numerosas e detalhadas para entender a totalidade de uma situação. Por isso, são usadas algumas técnicas de coleta das informações, nesta dissertação a nossa preferência foi pela coleta via entrevista. Quanto à tipologia deste trabalho, se encaixa no que Bruyne, Herman e Schoutheete apud Duarte (2006, p. 217) descrevem como: essencialmente descritivo e toma a forma de uma dissertação, empenhando-se em relatar toda a
complexidade de um caso concreto, pretendendo obter respostas para um questionamento central.
Duarte (2006, p. 225) também aponta três fases para o desenvolvimento do Estudo de Caso, são elas:
Aberta ou exploratória, isto é, quando se devem especificar as questões ou pontos críticos, estabelecer os contatos iniciais para começar o trabalho de campo, localizar informantes;
A coleta sistemática de dados, com base nas características próprias do objeto estudado;
E a análise e interpretação sistemática dos dados e a elaboração do relatório.
Vale ressaltar que esta pesquisa consiste na utilização de métodos qualitativos para fundamentação das questões norteadoras e aperfeiçoamento dos objetivos. Por ser um método descritivo, a análise qualitativa e exploratória foi construída baseando-se em notícias reportadas do fluxo para Segunda Tela, aquelas que ganhavam conteúdo complementar de forma variada. Observamos desde o tipo de disponibilização até a conjuntura em que ela foi encaixada, levando em consideração fatores da organização profissional e critérios de noticiabilidade. Segundo Santaella (2001, p. 143-144).
As pesquisas qualitativas também obedecem a certos protocolos tais como a delimitação e formulação clara de um problema, sua inserção em um quadro teórico de referência. A coleta escrupulosa de dados, a observação, as entrevistas, quando necessário, a determinação de um método, a análise dos dados, o teste das hipóteses, a necessidade de generalização das conclusões etc. (SANTAELLA, 2001, p. 143 – 144).