3.7. Araştırmanın Bulguları ve İncelenmesi
3.7.2. Faktör Analizi
Cardoso e Parra (2008), realizaram uma consultoria na região do Monte Pascoal cujo intuito foi a elaboração de um etnomapeamento e zoneamento agroextrativista das aldeias ali existentes. Neste trabalho, os autores sustentam que, segundo a ótica do poder público, podia-se considerar que pairava uma relativa invisibilidade da tradição agrícola local nos seus níveis culturais, econômicos e ambientais, fazendo com que este elemento da vida Pataxó fosse tido, ao longo dos anos, por setores ambientalistas e do desenvolvimento agrícola, como “primitivo”, “improdutivo” e ambientalmente “predatório” (CARDOSO, 2010).
Cardoso e Parra (2008) mostram que, embora o “projeto FAO” (citado anteriormente) tenha tido inúmeros resultados interpretados como positivos em relatórios elaborados durante e após seu término, com o registro, inclusive de, entre outras espécies, 28 variedades de mandiocas bravas ou mansas10, as considerações
dos resultados nas aldeias foram, na maioria das vezes, negativas e variam de acordo com a ligação anterior da pessoa entrevistada com líderes do projeto e de acordo com os resultados deste no dia a dia das pessoas.
Além disso, o discurso predominante seria de que “esse recurso da FAO e MMA que rolou na época da retomada do Parque que deram o dinheiro para eles produzirem e não entrarem na mata. Compraram o sossego” (Morador da Aldeia Águas Belas) (CARDOSO; PARRA, 2009, p. 47), ao mesmo tempo, segundo os autores, em que deixou mais dependência e destruição na paisagem.
Os autores afirmam que:
“O resultado de uma longa história de contato dos Pataxó com a sociedade ocidental-capitalista gerou, além dos problemas sociais e econômicos, inegáveis marcas da devastação ecológica e cultural na paisagem. Aldeias confinadas em um território diminuto, estrutura fundiária transformada, solos degradados, vegetação devastada, agricultura empobrecida - com perda de sementes, saberes e práticas - e envolvimento em projetos “externos” que pouco contribui para a autonomia e sustentabilidade”(CARDOSO; PARRA, 2009, p. 49).
10 Não é possível fazer uma comparação entre a diversidade cultivada encontrada por Carvalho (1977) e por Cardoso e Parra (2008) pois o número de aldeias existentes no território referente à TI Barra Velha e possivelmente o número de aldeias amostradas variaram durante esse período. As espécies que foram citadas têm caráter ilustrativo e ambos os trabalhos oferecem uma lista da agrobiodiversidade encontrada, bem como o trabalho de Azenha (2005, p. 144-145).
Em um trabalho posterior Cardoso e Parra (2010) problematizaram a extinção das práticas agrícolas Pataxó relatando que a farinha de mandioca, chamada farinha de puba, e que aparece como o alimento essencial para os Pataxó, se agrega a outros derivados de mandioca, bem como a ouriços e caranguejos, se destacando como itens importantes na alimentação de o que os autores consideram como “uma culinária ímpar, que resiste enquanto elemento identitários Pataxó” (CARDOSO; PARRA, 2010). Os autores também apontam a presença de um processo de valorização cultural e de luta e resistência dos Pataxó em manter suas tradições, diante da chegada do aparato tecnológico e ideológico da revolução verde nos anos 1990 na aldeia, que se refletiu com a chegada de máquinas, sementes, adubos e agrotóxicos pelas mãos do Estado, consolidando-se junto com a entrada de alimentos padronizados de baixa qualidade.
De forma geral, Cardoso e Parra (2008) se basearam numa perspectiva construtivista e culturalista, centrando a pesquisa em descobrir e descrever as categorias classificatórias indígenas sobre a paisagem, entre elas, a roça e as qualidades de mandioca, como categorias passíveis de serem organizados numa estrutura taxonômica universal. A mandioca aparece como fruto de um conhecimento Pataxó que envolve saberes sobre os solos, vegetação e topografia bem com saberes sobre a dinâmica da paisagem e o tempo.
Numa perspectiva também de Ecologia Política, enfocando conhecimentos tradicionais e conservação ambiental, o antropólogo Azenha (2005), em sua tese sobre os Pataxó, abordou a utilização de recursos e sua relação com o Parque Nacional do Monte Pascoal (PNMP), objetivando explorar a relação dos povos "tradicionais" com a conservação e com os discursos e práticas ambientalistas presentes na região. Em um dos capítulos, ele se dedica a uma descrição das atividades agrícolas comparando-as com o trabalho de Carvalho (1977). O autor constatou que os tamanhos das roças permaneceram bastante semelhantes aos que eram praticados há 30 anos, porém poucas famílias escolheram (ou foram capazes de) ter várias roças (AZENHA, 2005, p. 120). Entre as modificações encontradas pelo autor, cabe destacar o registro da realização de roças coletivas
que passaram a ser feitas decorrentes de um projeto realizado por órgãos do governo que estava em implementação na região, e que, por conta disso, teriam começado a aparecer em anos recentes, e o uso de fertilizantes doados pela FUNAI – embora registrado como uma prática em abandono.
Mesmo registrando as mudanças no uso da terra e afirmando que as atividades agrícolas tenham sofrido grandes transformações, Azenha relata que as práticas atuais relacionadas ao cultivo das mandiocas continuaram, de forma que esta atividade permaneceu sendo a mais importante para os Pataxó (AZENHA, 2005, p. 121). Com relação à menor diversidade de mandiocas encontradas, o autor sugere que algumas variedades possam ter sido abandonadas, tornado-se menos comuns, ou ainda que esse resultado tenha ocorrido por não ter se conduzido uma investigação exaustiva (AZENHA, 2005, p. 138).
O autor conclui que a disparidade de poder e renda na comunidade, devido ao aumento da interdependência com o mundo exterior, poderia provocar formas desiguais de capturar os benefícios dessas intervenções fazendo com que tanto a natureza como a “não civilizada” população tradicional fossem integradas e valoradas pela sociedade de mercado (AZENHA, 2005).
Cardoso (2016 p.52) aponta que a abordagem de Azenha (2005) apresenta um forte viés multicultural à medida que concebe a noção de um mundo, ou uma natureza, sendo interpretada por múltiplas culturas ou seja, o autor traz a noção do conhecimento tradicional e as formas de manejo e discursos indígenas sobre os recursos naturais como o invólucro da cultura, de um sistema cultural com uma particular representação da natureza que confronta outro sistema de representação da natureza mais amplos e universal, como os proferidos pelos ambientalistas, critica essa que também caberia a seus trabalhos anteriores. Como consequência, nesta perspectiva encontradas nestes trabalhos, as culturas dão sentido e significados a natureza justificando a reivindicação de uma simetria dos conhecimentos. A vida das mandiocas é deixada para segundo plano.