Na tentativa de criar uma história para justificar a ausência de Rubens Paiva da prisão sem, no entanto, assumir seu assassinato, o Exército produziu a versão de uma suposta fuga do
49 Para saber mais sobre Virgílio Gomes da Silva e a ALN confira o relatório da Comissão da Verdade de São Paulo em http://verdadeaberta.org/mortos-desaparecidos/virgilio-gomes-da-silva.
50 Gaspari (2014) cita as polêmicas versões do Exército para os casos de Chael Schreier (preso e morto após supostamente ter se ferido em combate na versão dos militares) Roberto Cieto (falso suicídio durante a prisão) e Mário Alves (preso sozinho na rua, mas reconhecido dentro do Polícia do Exército do Rio de Janeiro por outros prisioneiros).
deputado durante uma diligência policial. Segundo a versão dada pelas Forças Armadas ao jornal Tribuna da Imprensa, Paiva teria sido resgatado por um grupo guerrilheiro quando era conduzido por três militares durante um reconhecimento no Alto da Boa Vista. Tornou-se possível há três anos afirmar com completa segurança que a versão foi produzida porque o coronel Raymundo Ronaldo Campo52 um dos integrantes da operação, confessou a farsa em depoimento à Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro (CEV-RIO), em 2013.
Para embasar a versão, o Exército produziu, entre janeiro e fevereiro de 1971, uma
apuração sobre o momento no qual ocorreu a “fuga”. O procedimento escolhido pelos militares
foi uma Sindicância. Com base no conjunto documental analisado neste capítulo, serão descritos e analisados os diferentes procedimentos realizados por um grupo de investigadores militares que ajudou a formatar a versão oficial da fuga do deputado.
A localização da documentação foi o primeiro ponto que observei. Uma cópia da Sindicância integra atualmente o acervo do extinto Serviço Nacional de Informações (SNI), principal órgão de inteligência criado na ditadura para assessorar a Presidência da República,53
e pode ser vista no Anexo 1. Depois da implementação de Lei de Acesso à Informação em 2012, o acervoque estava sob a guarda da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) foi repassado ao Arquivo Nacional (AN) em Brasília e aberto a consulta pública.54 É necessário ressalvar que no meio dessa mudança da Abin para o AN, em 2005, o acervo sofreu perdas de documentos, como registram familiares de presos políticos, pesquisadores e jornalistas.55 Mesmo assim, o volume do acervo é muito extenso e às vezes possui mais de uma cópia do mesmo documento. Assim, encontrei o conjunto documental da Sindicância no acervo do SNI, por meio da busca por palavra chave do nome de Rubens Paiva.
Uma cópia da Sindicância foi anexada à informação nº 3746 da Agência Central do SNI
de 5 de outubro de 1979, classificada como “confidencial”. O SNI produziu uma ficha de
distribuição de documentos após uma remessa de dados do Centro de Informações do Exército (CIE)56 na mesma data e com o assunto denominado “Rubens Beyrodt Paiva”. O pedido da Agência Central do SNI foi feito ao CIE por telex em 01/10/1979. Assim, presume-se que o CIE tinha cópia da Sindicância e a enviou ao SNI.
52 Uma cópia do depoimento pode ser acessada no site do Grupo de Justiça de Transição do MPF em http://www.prrj.mpf.mp.br/institucional/crimes-da-ditadura/atuacao-1 .
53 A menção está no artigo no artigo 3º da Lei nº 4.341, de 13 de junho de 1964.
54 Acervo liberado em 2012, após a implementação da Lei de Acesso à Informação, outra iniciativa realizada após a condenação do Brasil no caso Gomes Lund na Corte Interamericana de Direitos Humanos em 2010.
55 MAGALHÃES, Mario. Papéis da ditadura somem dos arquivos. Folha de S. Paulo, São Paulo, 04 de fev. 2007. 56 O CIE era um órgão de inteligência do Exército que funcionava junto ao gabinete do ministro do Exército.
As datas registradas no documento são bastante posteriores à morte do deputado, mas coincidem com o período em que o Conselho dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH) examinava pela segunda vez um pedido de abertura de investigação sobre o desaparecimento de Rubens Paiva – já no governo do general João Figueiredo. Nesse período, também estava em debate a implementação da Lei de Anistia, aprovada em agosto de 1979. Até 2012, quando ocorreu a liberação de consulta da documentação, outros órgãos diziam que o documento havia sido perdido.57
No conjunto localizado agora no Arquivo Nacional, é perceptível ainda que, por alguma razão não identificada nos ofícios, o SNI queria cópia exclusivamente da investigação e, além disso, o CIE mantinha um dossiê de ao menos 122 páginas sobre o parlamentar, embora não seja possível saber o conteúdo restante, porque o anexo apresenta cópia apenas desse trecho.
No campo anexo, foi informado que o CIE enviou as “fotocópias numeradas de 0090 a 0095 e de 0097 a 0122”.58 Ressalte-se que todas as páginas copiadas apresentam carimbos do CIE
seguidos de uma rubrica ilegível.
Os documentos permitem observar que princípios da instituição militar, tais como o zelo pela hierarquia, também são apresentados na formalização da burocracia, o que demonstra uma sofisticada organização interna para a promoção da repressão política. Ao registrar instituições e funcionários, em princípio os documentos cumprirão o que chamarei de papel primário: o de atender simplesmente aos objetivos da instituição. Embora existam limites evidentes nesses registros, uma vez que eles jamais descreveram, por exemplo, a tortura em seus interrogatórios, esses ofícios documentaram a instituição e formalizaram suas ações. Assim, longe do contexto repressivo eles apresentarão caminhos para se pesquisar o episódio e a história da produção da documentação.
Essa mudança de posição da compreensão de arquivos de segurança pública produzidos
em meio a contextos ditatoriais foi descrito por Ana Maria Camargo como “efeito-bumerangue”
(CAMARGO, 2009). Ao descrever o fenômeno, a autora cita o trabalho de Randolph Starn que
define a importância desses arquivos para refletir a realidade em que foram produzidos: “Os
regimes mais manipuladores produzem documentos que podem voltar para assombrá-los. E
este é um dos aspectos do fascínio exercido pelos arquivos.” (STARN, 2002, pp.387-401 apud
CAMARGO, 2009). A compreensão da estrutura de produção dos documentos de governos
57 Tanto quando Eunice Paiva tentou reabrir o caso no CDDPH, em 1979, como no inquérito de 1986/87 não foi localizada cópia da Sindicância. Assim, os investigadores utilizaram a leitura da Sindicância feita pelo deputado Nina Ribeiro, em 1971, na Tribuna da Câmara dos Deputados e esse foi o registro utilizado desde então.
repressivos permite utilizá-los como prova dos abusos cometidos.
É essa lógica que, aplicada ao caso Rubens Paiva, auxilia na reunião de dados ignorados ao longo das investigações desde os anos 1970. A tentativa de documentar uma falsa versão de fuga para justificar a ausência do parlamentar no DOI-CODI ou no Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica (CISA) fez com que uma série de militares e órgãos se envolvessem na produção de arquivos sobre o caso. A posteriori, a iniciativa mostrou-se reveladora de um caminho para a elucidação do caso, com testemunhas e provas documentais.
Sem esses documentos seria mais difícil ou até impossível saber quem, por exemplo, trabalhava no DOI-CODI na noite em que Rubens Paiva entrou nas instalações e as novas investigações mostram que a maioria dos militares ligados à fabricação da história da fuga estão igualmente envolvidos na morte do deputado. Em 1971, a justificativa oficial pretendia produzir silêncios sobre o crime, fabricar uma ideia de legalidade e dar legitimidade à versão dos militares. Com a paulatina recuperação da liberdade de atuação das instituições, a Sindicância se transformou em peça-chave da investigação do MPF, em 2014. É nesse sentido que surge o que chamo de papel secundário do documento e o que Camargo define como a efetividade do
chamado “efeito-bumerangue”.